Histria de uma neurose infantil e outros trabalhos


















VOLUME XVII
(1917-1919)














Dr. Sigmund Freud




HISTRIA DE UMA NEUROSE INFANTIL (1918 [1914])
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS - AUS DER GESCHICHTE EINER INFANTILEN NEUROSE
         
         (a) EDIES ALEMES:
         
         1918 S.K.S.N., 4, 578-717.
         1922 S.K.S.N., 5, 1-140.
         1924 Leipzig, Viena e Zurique: Internationaler Psychoanalytischer Verlag, 132 pgs.
         1924 G.S., 8, 439-567.
         1931 Neurosenlehre und Technik, 37-171
         1947 G.W., 12, 29-157.
         
         (b) TRADUO INGLESA:
         
         'From the History of an Infantile Neurosis'
         1925 C.P., 3, 473-605. (Trad. de A. e J. Strachey).
         Foram introduzidas algumas modificaes na edio alem de 1924, principalmente no tocante a datas; e acrescentou-se uma longa nota de rodap no final. 
A presente traduo inglesa  reviso da publicada em 1925.
         Este  o mais elaborado e sem dvida o mais importante de todos os casos clnicos de Freud. Foi em fevereiro de 1910 que o jovem e rico russo, de quem o 
relato trata, dirigiu-se a Freud para ser analisado. Sua primeira etapa de tratamento, que  abordada neste artigo, durou daquela data at julho de 1914, quando 
Freud considerou o caso encerrado. Comeou a escrever o caso clnico em outubro do mesmo ano e concluiu-o em princpios de novembro. No entanto, retardou sua publicao 
por quatro anos. Na ocasio, nenhuma modificao foi feita, conta-nos ele (ver em [1]), mas dois longos trechos foram inseridos. O desenvolvimento posterior do caso, 
aps concluda a primeira etapa de tratamento, est descrito por Freud na nota de rodap que acrescentou  edio de 1924, no final do artigo (ver em [1] e [2]).
         
         Informaes ainda mais recentes tambm sero encontradas, em parte, fornecidas por material publicado posteriormente pelo prprio Freud, em parte, por dados 
que surgiram depois de sua morte.
         Freud fez uma srie de referncias ao caso do 'Homem dos Lobos' em trabalhos publicados antes e depois do prprio caso clnico, e talvez valha a pena enumer-las. 
A primeira evidncia do interesse de Freud pelo caso foi um pargrafo que apareceu, com a sua assinatura, no incio do outono de 1912 (Zbl. Psychoanal., 2, 680), 
obviamente estimulado pelo sonho do lobo, que  motivo central do caso clnico. Apareceu sob a rubrica 'Offener Sprechsaal' ('Frum Aberto') e consta do seguinte:
         'Ficaria satisfeito se todos os meus colegas que se preparam para ser analistas coligissem e analisassem cuidadosamente quaisquer sonhos de seus pacientes 
cuja interpretao justifique a concluso de que aqueles que os tiveram tenham sido testemunhas de um ato sexual nos primeiros anos de vida. Uma sugesto  sem dvida 
suficiente para tornar evidente que tais sonhos so de um valor muito especial, em mais de um aspecto. Apenas esses sonhos podem,  claro, ser considerados como 
indicativos de que ocorreram na infncia, e so lembrados a partir desse perodo.
         Freud.'
         Um outro pargrafo sobre o assunto apareceu no comeo de 1913 (Int Z. Psychoanal., 1, 79):
         'Sonhos de Crianas com um Significado Especial
         'No Frum Aberto do Zbl. Psychoanal., 2, 680, pedi a meus colegas que publicassem quaisquer sonhos ocorridos na infncia "cuja interpretao justifique 
a concluso de que aqueles que os tiveram tenham sido testemunhas de um ato sexual nos primeiros anos de vida". Devo agradecer agora  Dra. Mira Gineburg (de Breitenau-Schaffhausen
) por uma primeira contribuio que parece adequar-se s condies estabelecidas. Prefiro adiar uma considerao crtica desse sonho at que se tenha coligido mais 
material comparativo.
         Freud.'
         Essa nota era seguida pelo relato do sonho em questo, pela Dra. Gincburg. Um sonho semelhante foi depois relatado por Hitschmann, no mesmo ano (Int. X. 
Psychoanal., 1, 476), mas no houve mais comunicaes sobre o assunto por parte de Freud. Durante esse vero, contudo, ele publicou o seu artigo sobre 'A Ocorrncia, 
em Sonhos, de Material Oriundo de Contos de Fadas' (1913d), que na verdade relatava o sonho do lobo e que foi em parte reproduzido no caso clnico (ver em [1] e 
segs.); e no incio do ano seguinte surgiu o artigo sobre 'Fausse Reconnaissance no Tratamento Psicanaltico' (1914a), descrevendo outro episdio no caso. Tambm 
este foi parcialmente reproduzido aqui (ver em [1]). H, tambm, uma referncia indireta ao 'Homem dos Lobos' em um debate sobre primeiras lembranas da infncia, 
em 'Recordar, Repetir e Elaborar' (1914g), Edio Standard Brasileira, Vol. XII, pg. 195, IMAGO Editora, 1976. O artigo metapsicolgico sobre 'Represso' (1915d), 
que foi publicado antes do presente trabalho, embora escrito depois deste, contm um pargrafo referente  fobia de lobos do paciente. Muitos anos depois da publicao 
do caso clnico, Freud voltou ao caso no decorrer de uma argumentao sobre as fobias de animais das crianas em Inibies, Sintomas e Ansiedade (1926d). Nos captulos 
IV e VII desse trabalho, a fobia de lobos do paciente  comparada com a fobia de cavalos analisada no caso do 'Little Hans' (1909b). Finalmente, em um de seus ltimos 
artigos, 'Anlise Terminvel e Interminvel' (1937c), Freud fez alguns comentrios crticos sobre a inovao tcnica de estabelecer um tempo-limite para o tratamento, 
o qual ele introduziu neste caso, descrevendo-o ver em [1].
         Aos olhos de Freud, o significado primrio deste caso clnico na poca da sua publicao era claramente o apoio que proporcionava para as suas crticas 
a Adler e, mais especificamente, a Jung. Havia ali evidncia conclusiva para refutar qualquer negao da sexualidade infantil. Todavia, muitos mais proveitos de 
alto valor surgiram do tratamento, embora uma parte deles j tivesse sido dada a pblico no intervalo de quatro anos entre a elaborao do caso clnico e sua publicao. 
Havia, por exemplo, a relao entre as 'cenas primrias' e as 'fantasias primitivas', que conduziu diretamente ao obscuro problema da possibilidade de que o contedo 
mental da fantasias primitivas pudesse ser herdado. Isso foi examinado na Conferncia XXIII das Conferncias Introdutrias (1916-17), mas depois foi elaborado nos 
trechos adicionais das pgs. 67 e 103 e segs. Outra vez, o notvel material da Seo VII, que trata do erotismo anal do paciente, foi utilizado por Freud em seu 
artigo 'As Transformaes do Instinto' (1917c), pg. 131, adiante.
         Ainda mais importante foi o esclarecimento dado pela presente anlise sobre a primitiva organizao oral da libido, que em certa medida  discutida adiante, 
em [1] e [4]. A primeira referncia publicada de Freud a essa organizao era a de um pargrafo acrescentado em 1915  terceira edio dos seus Trs Ensaios (1905d), 
Edio Standard Brasileira, Vol. VII, pg. 204, IMAGO Editora, 1972. O prefcio a essa terceira edio traz a data 'Outubro de 1914' - exatamente o ms durante o 
qual escrevia o artigo sobre o 'Homem dos Lobos'. Parece provvel que o material 'canibalstico' revelado nessa anlise tenha desempenhado um papel importante na 
preparao do caminho para algumas das mais significativas das teorias de que Freud se ocupava nesse perodo: as interconexes entre incorporao, identificao, 
a formao de um ideal do ego, o sentimento de culpa e os estados patolgicos de depresso. Algumas dessas teorias j haviam sido expressas no ltimo ensaio de Totem 
e Tabu (a redao deste caso clnico (Jones, 1955, 367).
         Talvez a principal descoberta clnica seja a de revelar a evidncia do papel determinante desempenhado na neurose do paciente pelos seus impulsos femininos 
primrios. Seu marcado grau de bissexualidade era apenas a confirmao de pontos de vista h muito defendidos por Freud, que datavam da poca de sua amizade com 
Fliess. Nos seus escritos subseqentes, porm, Freud deu ainda mais nfase ao fato da ocorrncia universal da bissexualidade e da existncia de um complexo de dipo 
'invertido' ou 'negativo'. Essa tese recebeu sua expresso mais clara no trecho sobre o complexo de dipo 'completo', no captulo III de O Ego e o Id (1923b). Por 
outro lado, resiste com veemncia a uma tentativa de inferncia terica no sentido de que os escrito em meados de 1913) e no artigo sobre narcisismo (concludo em 
princpios de 1914). Outras iriam aparecer em 'Luto e Melancolia'. Este ltimo s foi publicado em 1917. Mas foi-lhe dada forma final no comeo de maio de 1915; 
e muitas das idias que contm haviam sido colocadas diante da Sociedade Psicanaltica de Viena, a 30 de dezembro de 1914, apenas algumas semanas aps motivos relacionados 
com a bissexualidade so os determinantes invariveis da represso (ver em [1] e seg.) - problema a que Freud se referiu extensamente pouco depois, em 'Uma Criana 
 Espancada' (1919e), ver em [1] e segs., adiante.
         Finalmente, talvez seja legtimo chamar a ateno para a extraordinria habilidade literria com que Freud exps o caso. Estava diante da tarefa pioneira 
de fornecer um relato cientfico de eventos psicolgicos de novidade e complexidade jamais sonhadas. O resultado  um trabalho que no apenas evita os perigos de 
confuso e obscuridade, mas tambm prende a fascinada ateno do leitor do princpio ao fim.
         
         
         
         
         
         
        HISTRIA DE UMA NEUROSE INFANTIL
         
         I - OBSERVAES INTRODUTRIAS
         
         O caso que me proponho relatar nas pginas que se seguem (uma vez mais apenas de maneira fragmentria) caracteriza-se por uma srie de peculiaridades que 
outras pessoas quando iniciou o seu tratamento psicanaltico, vrios anos depois. Tivera uma vida mais ou menos normal durante os dez anos que precederam a data 
de sua doena e cumpriu os estudos da escola secundria sem muitos problemas. Seus primeiros anos de vida haviam, contudo, sido dominados por um grave distrbio 
neurtico, que comeou imediatamente antes do seu quarto aniversrio, uma histeria de angstia (na forma de uma fobia animal), que se transformou ento numa neurose 
exigem ser enfatizadas antes que proceda a uma descrio dos prprios fatos. Diz respeito a um jovem cuja sade se abalara aos dezoito anos, depois de uma gonorria 
infecciosa, e que se encontrava inteiramente incapacitado e dependente deobsessiva de contedo religioso e perdurou, com as suas manifestaes, at os dez anos.
         Apenas essa neurose infantil seria o objeto da minha comunicao. Apesar do pedido direto do paciente, abstive-me de escrever um histrico completo da sua 
enfermidade, do tratamento e da recuperao, porque reconheci que tal tarefa era tecnicamente impraticvel e socialmente impermissvel. Ao mesmo tempo, isso afasta 
a possibilidade de demonstrar a relao entre a sua doena na infncia e a sua doena posterior e permanente. No que diz respeito a esta, s posso dizer que, por 
causa dela, o paciente passou um longo perodo em sanatrios alemes, e foi, na poca, classificada pelos mais autorizados especialistas, como um caso de 'insanidade 
manaco-depressiva'. Esse diagnstico era certamente aplicvel ao pai do paciente, cuja vida, de muitas atividades e interesses, foi perturbada por repetidos ataques 
de grave depresso. No filho, porm, jamais consegui, durante uma observao que durou vrios anos, detectar quaisquer mudanas de nimo que fossem desproporcionais 
 situao psicolgica manifesta, tanto na intensidade quanto nas circunstncias do seu aparecimento. Formei a opinio de que este caso, como muitos outros que a 
psiquiatria clnica rotulou com os mais multifrios e variveis diagnsticos, deve ser considerado como uma condio que se segue a uma neurose obsessiva que acabou 
espontaneamente, mas deixou por trs um defeito, aps a recuperao.
         Minha descrio tratar, portanto, de uma neurose infantil que foi analisada no enquanto realmente existia, mas somente quinze anos depois de haver terminado. 
Esse estado de coisas tem suas vantagens, bem como desvantagens, em comparao com a alternativa. Uma anlise conduzida sobre a prpria criana neurtica deve normalmente 
parecer mais digna de confiana, mas no pode ser muito rica em material; demasiadas palavras e pensamentos tm que ser 'emprestados'  criana, e ainda assim os 
estratos mais profundos podem tornar-se impenetrveis para a conscincia. Uma anlise de um distrbio da infncia por meio da recordao de um adulto intelectualmente 
maduro est livre dessas limitaes; mas  preciso que levemos em conta a distoro e a reelaborao s quais o passado de uma pessoa est sujeito, quando visto 
na perspectiva de um perodo posterior. A primeira alternativa d, talvez, resultados mais convincentes; a segunda , com sobras, a mais instrutiva.
         Em qualquer caso, pode-se dizer que a anlise de neuroses infantis possui um interesse terico particularmente alto. Proporciona-nos, por assim dizer, tanta 
ajuda no sentido de uma compreenso adequada das neuroses dos adultos, quanto os sonhos infantis em relao aos sonhos dos adultos. No  que sejam, na verdade, 
mais perspcuos ou mais pobres de elementos; de fato, a dificuldade de perceber o acesso  vida mental de uma criana, torna-a uma tarefa particularmente difcil 
para o mdico. No obstante, por no haver ainda tantos dos depsitos posteriores, a essncia da neurose salta aos olhos com uma nitidez inequvoca. Na fase atual 
da batalha que se desenrola  volta da psicanlise, a resistncia s suas descobertas tomou, como sabemos, uma nova forma. Antigamente as pessoas contentavam-se 
em discutir a realidade dos fatos estabelecidos pela anlise; e, para esse propsito, a melhor tcnica parecia ser a de evitar examin-los. Esse procedimento parece 
estar-se exaurindo lentamente; e as pessoas adotam agora outro plano - reconhecer os fatos, mas eliminar, por meio de interpretaes torcidas, as conseqncias que 
a eles se seguem, de modo que os crticos podem ainda resguardar-se das novidades objetveis to eficientemente como antes. O estudo das neuroses infantis expe 
a completa inadequao dessas tentativas superficiais e arbitrrias de reinterpretao. Mostra o papel predominante que  desempenhado na formao das neuroses por 
aquelas foras libidinais to impulsivamente rejeitadas, e revela a ausncia de quaisquer aspiraes no sentido de objetivos culturais remotos, dos quais a criana 
nada sabe ainda e que no podem, portanto, ter qualquer significado para ela.
         Outra caracterstica que torna a presente anlise digna de nota est ligada  gravidade da doena e  durao do tratamento. As anlises que conduzem a 
uma concluso favorvel em pouco tempo, so de valor para a auto-estima do terapeuta e para substanciar a importncia mdica da psicanlise; mas permanecem em grande 
parte insignificantes no que diz respeito ao progresso do conhecimento cientfico. Nada de novo se aprende com elas. Na verdade, apenas so bem-sucedidas to rapidamente, 
porque tudo o que era necessrio para a sua realizao j era conhecido. A novidade s pode ser obtida de anlises que apresentam especiais dificuldades, e para 
que isso acontea  necessrio que a elas se dedique bastante tempo. Apenas em tais casos conseguimos descer aos estratos mais profundos e mais primitivos do desenvolvimento 
mental, e destes obter solues para os problemas das formaes posteriores. E depois disso, sentimos que, estritamente falando, s uma anlise que penetrou to 
fundo merece esse nome. Naturalmente, um nico caso no nos d toda a informao que gostaramos de ter. Ou, melhor dizendo, poderia ensinar-nos tudo, se estivssemos 
numa posio de tudo compreender e se no fssemos compelidos pela inexperincia da nossa prpria percepo a contentarmo-nos com pouco.
         No que diz respeito a essas frteis dificuldades, o caso que vou expor nada deixa a desejar. Os primeiros anos do tratamento produziram escassas mudanas. 
Devido a uma concatenao afortunada, todas as circunstncias externas conjugaram-se, todavia, para tornar possvel proceder  experincia teraputica. Acredito 
que em circunstncias menos favorveis o tratamento teria sido abandonado depois de pouco tempo. Do ponto de vista mdico, posso apenas declarar que, num caso dessa 
natureza, devemos comportar-nos to 'atemporalmente' quanto o prprio inconsciente, se desejamos aprender ou conseguir alguma coisa. E, ao final, o mdico ser bem-sucedido, 
se tiver fora para renunciar a qualquer ambio teraputica de pouca viso. No se deve esperar que a soma de pacincia, adaptabilidade, compreenso interna (insight) 
e confiana exigida do paciente e de seus parentes se apresente em muitos outros casos. O analista, contudo, tem o direito de achar que os resultados que obteve 
de to extenso trabalho, num caso, ajudem substancialmente a reduzir a durao do tratamento em um caso subseqente, de igual gravidade, e que, ao submeter-se numa 
ocasio nica  atemporalidade do inconsciente, ele estar perto de domin-lo no final.
         O paciente a que me refiro aqui permaneceu muito tempo inexpugnavelmente entrincheirado por trs de uma atitude de amvel apatia. Escutava, compreendia 
e permanecia inabordvel. Sua indiscutvel inteligncia estava, assim, separada das foras instintuais que governam seu comportamento nas poucas relaes vitais 
que lhe restavam. Exigiu uma longa educao induzi-lo a assumir uma parcela independente no trabalho; e quando, como resultado desse esforo, comeou pela primeira 
vez a sentir alvio, desistiu imediatamente de trabalhar, com o objetivo de evitar quaisquer outras mudanas e de permanecer confortavelmente na situao que fora 
assim estabelecida. Sua retrao diante de uma existncia auto-suficiente era to grande que excedia todas as aflies da sua doena. S haveria um meio de superar 
isso. Fui obrigado a esperar at que o seu afeioamento a mim se tornasse forte, o suficiente para contrabalanar essa retrao, e ento jogar um fator contra o 
outro. Determinei - mas no antes que houvesse indcios dignos de confiana que me levassem a julgar que chegara o momento certo - que o tratamento seria concludo 
numa determinada data fixa, no importando o quanto houvesse progredido. Eu estava resolvido a manter a data; e finalmente o paciente chegou  concluso de que eu 
estava falando srio. Sob a presso inexorvel desse limite fixado, sua resistncia e sua fixao na doena cederam e ento, num perodo desproporcionalmente curto, 
a anlise produziu todo o material que tornou possvel esclarecer as suas inibies e eliminar os seus sintomas. E tambm toda a informao que me possibilitou compreender 
a sua neurose infantil nasceu dessa ltima etapa do trabalho, durante a qual a resistncia desapareceu temporariamente e o paciente dava a impresso de uma lucidez 
que habitualmente s  obtida atravs da hipnose.
         Desse modo, o curso deste tratamento ilustra uma mxima cuja verdade era h muito apreciada na tcnica da anlise. A extenso da estrada pela qual a anlise 
deve viajar com o paciente e a quantidade de material que deve ser dominado pelo caminho no tm importncia em comparao com a resistncia encontrada no decorrer 
do trabalho. S tm importncia na medida em que so necessariamente proporcionais  resistncia. A situao  a mesma de um exrcito inimigo que precisa, hoje, 
de semanas e meses para abrir caminho atravs de uma regio que, em tempos de paz, seria atravessada em poucas horas por um expresso e que, pouco tempo antes, fora 
transposta pelo exrcito defensor em alguns dias.
         Uma terceira peculiaridade da anlise, que ser descrita nestas pginas, apenas aumentou a minha dificuldade em decidir fazer dela um relato. No todo, os 
seus resultados coincidiram, da maneira mais satisfatria, com o nosso conhecimento prvio, ou foram facilmente incorporados por ele. Muitos detalhes, no entanto, 
pareceram-me to extraordinrios e incrveis, que senti alguma hesitao em pedir a outras pessoas que acreditassem neles. Solicitei ao paciente que fizesse a mais 
rigorosa crtica das suas recordaes, mas ele nada achou de improvvel em suas afirmaes e confirmou-as inteiramente. Em todo caso, os leitores podem ficar certos 
de que s estou relatando o que surgiu como experincia independente, no influenciada pela minha expectativa. De forma que nada mais me restou seno recordar a 
sbia sentena de que h mais coisas no cu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Qualquer um que pudesse conseguir eliminar ainda mais completamente as suas 
convices preexistentes, descobriria, sem dvida, ainda mais coisas como estas.
         
         
         II - AVALIAO GERAL DO AMBIENTE DO PACIENTE E DO HISTRICO DO CASO
         
         Sou incapaz de fornecer um relato puramente histrico ou puramente temtico da histria do meu paciente; no posso escrever um histrico nem do tratamento 
nem da doena, mas sinto-me obrigado a combinar os dois mtodos de apresentao.  sabido que no se encontraram meios de introduzir, de qualquer modo, na reproduo 
de uma anlise o sentimento de convico que resulta da prpria anlise. Exaustivos relatrios textuais dos procedimentos adotados durante as sesses no teriam 
certamente qualquer valia; e, de qualquer maneira, a tcnica do tratamento torna impossvel elabor-los. Assim, anlises como esta no so publicadas com a finalidade 
de produzir convico nas mentes daqueles cuja atitude tenha sido, at ento, de recusa e ceticismo. A inteno  apenas a de apresentar alguns novos fatos a pesquisadores 
que j estejam convencidos por suas prprias experincias clnicas.
         Comearei, ento, por fornecer um quadro do mundo da criana e por dizer tanto da histria da sua infncia quanto poderia ser sabido sem qualquer esforo; 
na verdade, no foi seno depois de vrios anos que a histria se tornou menos incompleta e obscura.
         Os pais haviam casado jovens e mantinham ainda uma feliz vida em comum, sobre a qual a doena em breve lanaria as primeiras sombras. A me comeou a sofrer 
de distrbios abdominais e o pai teve seus primeiros ataques de depresso, que o levaram a ausentar-se de casa. Naturalmente, o paciente s chegou a perceber a enfermidade 
do pai muito mais tarde, mas tinha conscincia da fraca sade da me desde a mais tenra infncia. Por conseguinte, ela tinha relativamente pouco a ver com as crianas. 
Um dia, certamente antes de completar quatro anos, enquanto a me saa para ver o mdico e ele caminhava ao seu lado, segurando sua mo, ouviu-a lamentar a sua condio. 
As palavras da me causaram nele profunda impresso, e ele mais tarde aplicou-as a si mesmo (cf. pg. 85). No era filho nico; tinha uma irm, aproximadamente dois 
anos mais velha, vivaz, dotada, precocemente maliciosa, que iria desempenhar um importante papel em sua vida.
         Pelo que se podia lembrar, cuidava dele uma bab, uma velha sem instruo, de origem camponesa, com uma incansvel afeio por ele. O menino era uma espcie 
de substituto de seu prprio filho, que morrera jovem. A famlia vivia numa granja e costumava passar o vero em outra. Ambas as propriedades eram mais ou menos 
prximas de uma cidade grande. Houve uma ruptura na sua infncia quando os pais venderam as granjas e mudaram-se para a cidade. Os parentes prximos costumavam visit-los 
com freqncia, numa ou na outra granja - os irmos do pai, as irms da me com seus filhos, os avs maternos. Durante o vero os pais costumavam estar fora por 
algumas semanas. Numa lembrana encobridora ele viu-se a si prprio com a bab olhando a carruagem que se afastava com o pai, a me e a irm, e depois voltando serenamente 
para dentro de casa. Devia ser muito pequeno na ocasio. No vero seguinte, sua irm tambm ficou em casa e foi contratada uma governanta inglesa, que ficou responsvel 
pelas crianas.
         Anos mais tarde ele ouviu muitas histrias sobre a sua infncia. Ele prprio sabia uma poro, mas eram naturalmente desconexas no que respeita a data e 
assunto. Uma delas, que foi repetida muitas e muitas vezes em sua presena, por ocasio da sua posterior enfermidade, apresenta-nos o problema de cuja soluo nos 
ocuparemos. Nos primeiros anos, parece ter sido uma criana de muito boa ndole, tratvel, at mesmo tranqila, de tal modo que costumavam dizer que ele  que devia 
ter sido a menina, e sua irm mais velha, o rapaz. Certa vez, porm, ao regressarem das frias de vero, os pais encontraram-no transformado. Tornara-se inquieto, 
irritvel e violento. Ofendia-se por qualquer coisa e depois tomava-se de raiva e berrava como um selvagem; de modo que, ao persistir esse estado de coisas, os pais 
expressaram as suas apreenses quanto  possibilidade de envi-lo mais tarde para uma escola. Isso aconteceu durante o vero em que a governanta inglesa ficou com 
eles. Ocorria que esta era uma pessoa excntrica e irascvel e, alm do mais, viciada em bebida. A me do menino inclinou-se, portanto, a atribuir a alterao no 
seu carter  influncia dessa inglesa, presumindo que ela o havia irritado profundamente com o tratamento que lhe dispensava. A perspicaz av, que passara o vero 
com as crianas, era de opinio que a irritabilidade do menino fora provocada pelas discusses entre a inglesa e a bab. A inglesa havia chamado a bab de bruxa, 
repetidas vezes, obrigando-a a sair da sala; o menino tomara abertamente o partido da sua amada 'Nanya' e demonstrara  governanta o seu rancor. O que quer que tenha 
acontecido, a inglesa foi mandada embora pouco depois do regresso dos pais, sem que tenha havido qualquer modificao conseqente no insuportvel comportamento do 
menino.
         O paciente preservara a sua lembrana desse perodo de desobedincia. Conforme recordava, fez a primeira das suas cenas num Natal, quando no lhe deram 
uma quantidade dupla de presentes - o que lhe era devido, porque seu aniversrio era no dia de Natal. No poupou nem mesmo a sua querida Nanya das suas malcriaes 
e irritabilidade; atormentou-a, talvez, ainda mais sem remorsos do que a qualquer outro. Mas a fase que trouxe consigo a sua mudana de carter estava inextrincavelmente 
ligada, na sua lembrana, com muitos outros fenmenos estranhos e patolgicos que ele no conseguia dispor em seqncia cronolgica. Ele misturava todos os incidentes 
que vou agora relatar (que no poderiam ter sido contemporneos e que esto cheios de contradies internas), num nico e mesmo perodo de tempo, ao qual deu o nome 
de 'ainda na primeira granja'. Achava que deviam ter sado dessa granja na poca em que tinha cinco anos de idade. Assim, recordava ele que havia sofrido um medo, 
que sua irm explorava com o propsito de atorment-lo. Havia um determinado livro de figuras no qual estava representado um lobo, de p, dando largas passadas. 
Sempre que punha os olhos nessa figura comeava a gritar, como um louco, que tinha medo de que o lobo viesse e o comesse. A irm, no entanto, sempre dava um jeito 
de obrig-lo a ver a imagem, e deleitava-se com o seu terror. Entretanto, ele se amedrontava tambm com outros animais, grandes e pequenos. Certa vez estava correndo 
atrs de uma grande e bonita borboleta, com asas listradas de amarelo e acabando em ponta, na esperana de apanh-la. (Era sem dvida uma 'rabo-de-andorinha'.) De 
repente, foi tomado de um terrvel medo da criatura e, aos gritos, desistiu da caada. Tambm sentia medo e repugnncia dos besouros e das lagartas. Ainda assim, 
conseguia lembrar-se de que, nessa mesma poca, costumava atormentar os besouros e cortar as lagartas em pedaos. Tambm os cavalos despertavam nele um estranho 
sentimento. Se algum batia num cavalo, ele comeava a gritar, e certa vez foi obrigado a sair de um circo por causa disso. Em outras ocasies, ele prprio gostava 
de bater em cavalos. Se esses tipos contraditrios de atitude em relao aos animais operaram, na verdade, simultaneamente ou no, se uma atitude substituiu a outra, 
mas se assim foi, quando e em que ordem - a todas essas perguntas sua memria no oferecia uma resposta decisiva. Tambm no sabia dizer se o seu perodo de rebeldia 
foi substitudo por uma fase de doena ou se persistiu atravs desta. Mas, em todo caso, sua afirmaes que se seguem justificam a suposio de que, durante esses 
anos da sua infncia, passou por um ataque de neurose obsessiva, facilmente reconhecvel. Relatou como, durante um longo perodo, ele foi muito devoto. Antes de 
dormir era obrigado a rezar muito tempo e a fazer, em uma srie interminvel, o sinal-da-cruz. Tambm  tarde costumava fazer uma ronda por todas as imagens sagradas 
penduradas na sala, levando consigo uma cadeira sobre a qual subia para beijar piamente cada uma delas. O que era totalmente destoante desse cerimonial devoto - 
ou, por outro lado, talvez fosse bastante coerente -  que se recordasse de certos pensamentos, determinadas blasfmias que lhe vinha  cabea como uma inspirao 
do diabo. Era obrigado a pensar 'Deus-suno' ou 'Deus-merda'. Certa vez, em viagem para uma estncia de repouso na Alemanha, foi atormentado pela obsesso de ter 
que pensar na Santssima Trindade sempre que via trs montes de esterco de cavalo ou qualquer outro excremento na estrada. Nessa poca costumava executar outra cerimnia 
peculiar quando via pessoas das quais sentia pena, como mendigos, aleijados ou gente muito velha. Respirava soltando o ar ruidosamente, para que no ficasse como 
eles; e, em determinadas circunstncias, tinha que inspirar vigorosamente. Presumi naturalmente que esses sintomas bvios de uma neurose obsessiva pertenciam a um 
perodo e estdio de desenvolvimento algo posterior aos sinais de ansiedade e  fase de maltratar os animais.
         Os anos mais maduros do paciente foram marcados por uma relao bastante insatisfatria com o pai, que, depois de repetidos ataques de depresso, no conseguia 
mais ocultar os aspectos patolgicos do seu carter. Nos primeiros anos da infncia do paciente essa relao havia sido muito afetiva, e a recordao dela conservou-se 
em sua memria. O pai gostava muito do menino, gostava de brincar com ele. Este se sentia orgulhoso do pai, dizia sempre que gostaria de ser um cavalheiro como ele. 
A bab disse-lhe que a irm era a criana da sua me, mas ele era a do pai - e isso agradou-lhe bastante. Nos ltimos anos da infncia, no entanto, houve um estranhamento 
entre ele e o pai. Este mostrava uma inequvoca preferncia pela irm, e por isso sentiu-se muito desprezado. Mais tarde, o medo ao pai tornou-se o fator dominante.
         Todos os fenmenos que o paciente associava com a fase da vida que comeou com a sua desobedincia, desapareceram por volta dos oito anos. No desapareceram 
de uma vez, e ocasionalmente reapareciam; mas finalmente cederam, na opinio do paciente, diante da influncia dos mestres e tutores que tomaram o lugar das mulheres, 
que at ento haviam cuidado dele. Aqui, pois, em seu mais breve esboo, esto os enigmas para os quais a psicanlise teria de achar uma soluo. Qual foi a origem 
da sbita mudana no carter do menino? Qual era o significado da sua fobia e das suas perversidades? Como chegou a uma devoo obsessiva? E como se inter-relacionavam 
todos esse fenmenos? Lembrarei uma vez mais o fato de que o nosso trabalho teraputico dizia respeito a uma doena neurtica subseqente e recente, e s se poderiam 
esclarecer esses problemas anteriores quando o curso da anlise deixasse o presente por algum tempo e nos forasse a fazer um dtour pelo perodo pr-histrico da 
infncia.
         
         III - A SEDUO E SUAS CONSEQNCIAS IMEDIATAS
         
          fcil compreender que a primeira suspeita recaiu sobre a governanta inglesa, pois a mudana no menino surgiu quando ela l estava. Duas lembranas encobridoras 
persistiram, ambas incompreensveis em si e relacionadas com a governanta. Em certa ocasio em que caminhava adiante das crianas, disse: 'Olhem o meu rabinho!' 
Outra vez, em que haviam sado para dar uma volta de carro, o chapu dela voou, para grande satisfao das duas crianas. Isso apontou para o complexo de castrao 
e permitiria uma construo segundo a qual uma ameaa proferida por ela contra o menino fora amplamente responsvel por originar a sua conduta anormal. No h qualquer 
perigo em comunicar construes dessa natureza  pessoa que est sendo analisada; elas no prejudicam a anlise, mesmo se so equivocadas; mas ao mesmo tempo, no 
so colocadas a no ser que haja alguma perspectiva de alcanar uma aproximao da verdade por meio delas. O primeiro efeito dessa suposio foi o aparecimento de 
alguns sonhos, os quais no foi possvel interpretar completamente, mas que pareciam todos concentrar-se ao redor do mesmo material. Pelo que se podia compreender 
deles, diziam respeito a aes agressivas por parte do menino contra a sua irm ou contra a governanta, com enrgicas reprovaes e castigos por causa dessas aes. 
Era como se ... aps o banho dela ... ele tivesse tentado ... despir a sua irm ... arrancar-lhe as roupas ... ou vus - e assim por diante. Mas no foi possvel 
obter um contedo firme da interpretao; e de vez que esses sonhos davam a impresso de operar sempre sobre o mesmo material em diferentes formas, a leitura correta 
dessas reminiscncias ostensivas tornou-se segura: s podia ser uma questo de fantasias que o paciente havia elaborado sobre a sua infncia numa ou noutra poca, 
provavelmente na puberdade, e que agora vinham outra vez  superfcie sobre forma irreconhecvel.
         A explicao veio de uma s vez, quando o paciente se lembrou, de repente, de que, quando era ainda muito pequeno, a irm o induzira a prticas sexuais. 
Primeiro veio a lembrana de que, no banheiro, que as crianas freqentavam muitas vezes juntas, ela fez a seguinte proposta: 'Vamos mostrar os nossos traseiros', 
e passou das palavras  ao. Subseqentemente veio  luz a parte mais essencial da seduo, com todos os detalhes de tempo e lugar. Foi na primavera, numa poca 
em que o pai estava fora de casa; as crianas estavam brincando num quarto do andar trreo, enquanto a me trabalhava numa sala ao lado. A irm havia-lhe pegado 
no pnis e brincava com ele, ao mesmo tempo em que lhe contava histrias incompreensveis sobre a bab,  guisa de explicao. A bab, dizia ela, costumava fazer 
o mesmo com toda a espcie de gente - por exemplo, com o jardineiro: ela mantinha-lhe a cabea em p e ento pegava-lhe nos genitais.
         A, ento, estava a explicao das fantasias cuja existncia j havamos adivinhado. Destinavam-se a apagar a lembrana de um evento que mais tarde pareceu 
ofensivo  auto-estima masculina do paciente, e atingiram o objetivo colocando uma inverso imaginria e desejvel em lugar da verdade histrica. De acordo com essas 
fantasias, no era ele que havia desempenhado um papel passivo em relao  irm, mas, pelo contrrio, fora agressivo, tentara v-la despida, fora rejeitado e punido, 
e iniciara, por essa razo, o comportamento colrico do qual a tradio familiar tanto falava. Era tambm apropriado incluir a governanta nessa composio imaginativa, 
j que a principal responsabilidade pelos seus acessos de ira foi a ela atribuda pela me e pela av. Essas fantasias, portanto, correspondiam exatamente s lendas 
por meio das quais uma nao que se tornou grande e orgulhosa tenta esconder a insignificncia e o fracasso dos seus primrdios.
         A governanta pode, com efeito, ter sido apenas uma participao muito remota na seduo e em suas conseqncias. As cenas com a irm tiveram lugar no incio 
do mesmo ano em que, no auge do vero, a inglesa chegou para tomar o lugar dos pais ausentes. A hostilidade do menino para com a governanta veio  tona, entretanto, 
por outra via. Ao abusar da bab e maldiz-la como bruxa, ela estava seguindo, aos seus olhos, os passos da irm, que lhe contara primeiro histrias to monstruosas 
sobre a bab; e, desse modo, ela deu-lhe oportunidade de expressar abertamente contra ela prpria a averso que, como ouviremos, ele havia desenvolvido contra a 
irm, como resultado da sua seduo.
         Mas essa seduo pela irm no foi certamente uma fantasia. Sua credibilidade aumentou com certa informao que jamais foi esquecida e que datava de um 
perodo posterior da sua vida, quando j estava crescido. Um primo, que tinha pelo menos dez anos mais do que ele, contou-lhe, numa conversa sobre a irm, que se 
lembrava muito bem o quo precoce e sensual a menininha fora: uma vez, quando ela tinha apenas quatro ou cinco anos, sentara-se no colo do primo e abrira-lhe as 
calas para pegar-lhe no pnis.
         Neste ponto eu gostaria de interromper a histria da infncia do meu paciente e dizer algo sobre essa irm, sobre o seu crescimento e os fatos posteriores 
de sua vida, e sobre a influncia que tinha sobre ele. Ela era dois anos mais velha e esteve sempre  sua frente em tudo. Quando criana era intratvel e comportava-se 
como um menino, mas depois ingressou numa brilhante fase intelectual e distinguiu-se por suas agudas e realistas faculdades mentais; nos estudos inclinou-se para 
as cincias naturais, mas produziu tambm textos criativos tidos em alta conta pelo pai. Era mentalmente muito superior aos seus numerosos admiradores prematuros 
e costumava fazer piada s suas custas. Pouco depois dos vinte anos, no entanto, comeou a ficar deprimida, queixando-se de que no era bonita o bastante, e afastou-se 
do convvio social. Realizou uma viagem na companhia de uma conhecida, uma senhora mais velha, e, ao regressar, contou uma srie de histrias bastante improvveis 
de como fora maltratada pela companheira, permanecendo, porm, com uma afeio obviamente fixada em sua suposta atormentadora. Pouco depois, ao fazer uma segunda 
viagem, envenenou-se e morreu bem longe de casa. Seu distrbio deve provavelmente ser considerado como o incio de uma demncia precoce. Ela foi uma das provas da 
hereditariedade visivelmente neuroptica na famlia, mas de forma alguma a nica. Um tio, irmo de seu pai, morreu depois de longos anos de vida excntrica, com 
indcios que apontavam a presena de uma grave neurose obsessiva; alm disso, um bom nmero de parentes colaterais eram, e so, afligidos por distrbios nervosos 
menos srios.
         Independente do problema da seduo, o nosso paciente, quando criana, encontrou na irm um competidor inconveniente no bom conceito dos pais e sentiu-se 
bastante oprimido pela sua impiedosa ostentao de superioridade. Mais tarde, invejava especialmente o respeito que o pai demonstrava pela capacidade mental e realizaes 
intelectuais da irm, ao passo que ele, intelectualmente inibido como estava desde a sua neurose obsessiva, tinha que contentar-se com uma estima em menor grau. 
A partir dos seus quatorze anos, as relaes entre irmo e irm comearam a melhorar; uma disposio mental semelhante e uma oposio comum aos pais aproximaram-nos 
tanto, que se tornaram os melhores amigos. Durante a tempestuosa excitao sexual da sua puberdade, ele se arriscou a uma tentativa de aproximao fsica mais ntima. 
Ela repudiou-o com tanta deciso quanto sagacidade, e ele se voltou imediatamente para uma camponesinha que servia na casa e tinha o mesmo nome da irm. Ao faz-lo, 
estava dando um passo que teve uma influncia determinante na sua escolha de objeto heterossexual, pois todas as garotas pelas quais se apaixonou em seguida - muitas 
vezes com os mais claros indcios de compulso - eram tambm criadas, cuja educao e inteligncia estavam necessariamente muito abaixo da sua. Se todos esses objetos 
de amor eram substitutos para a figura da irm a quem tinha que renunciar, ento no pode ser negado que uma inteno de rebaixar a irm e de pr fim  sua superioridade 
intelectual, que se mostrara para ele to opressiva, havia obtido o controle decisivo sobre a sua escolha de objeto.
         A conduta sexual humana, assim como tudo o mais, foi subordinada por Alfred Adler a foras de motivo dessa natureza, que se originam da vontade de poder, 
do instinto auto-afirmativo do indivduo. Sem negar a importncia desses motivos de poder e prerrogativa, jamais me convenci de que desempenham o papel dominante 
e exclusivo que lhes foi atribudo. Se eu no tivesse seguido a anlise do meu paciente at o fim, teria sido obrigado, por conta da minha observao desse caso, 
a corrigir a minha opinio preconcebida numa direo favorvel a Adler . A concluso da anlise trouxe inesperadamente novo material que, pelo contrrio, demonstrou 
que esses motivos de poder (nesse caso, a inteno de rebaixar) haviam determinado a escolha de objeto apenas no sentido de servir como uma causa contribuinte e 
como uma racionalizao, ao passo que a verdadeira determinao subjacente possibilitou-me manter as minhas antigas convices.
         Quando chegou a notcia da morte da irm, conforme relatou o paciente, ele mal sentiu qualquer sinal de dor. Teve que se esforar para mostrar sinais de 
tristeza, e pde rejubilar-se um tanto friamente por haver-se tornado ento o nico herdeiro da propriedade. Quando isso ocorreu, j sofria h vrios anos da sua 
doena mais recente. Mas devo confessar que esse dado da informao introduziu, durante algum tempo, alguma incerteza ao meu diagnstico do caso. Presumir-se-ia, 
sem dvida, que a sua dor quanto  perda do mais amado membro da sua famlia encontraria uma inibio em sua expresso, como resultado da operao contnua do seu 
cime em relao a ela, somada  presena do seu amor incestuoso, que ento se tornara inconsciente. Eu no podia, contudo, compreender que no tivesse havido algum 
substituto para as manifestaes de pesar que faltaram. O que foi, afinal, encontrado numa outra expresso de sentimento que permanecera inexplicvel para o paciente. 
Alguns meses aps a morte da irm, ele prprio fez uma viagem s imediaes do lugar em que ela havia morrido. Ali procurou o tmulo de um grande poeta, que na poca 
era o seu ideal, e derramou lgrimas amargas sobre a sua tumba. Essa reao pareceu estranha a si mesmo, pois sabia que mais de duas geraes se haviam passado desde 
a morte do poeta que admirava. S entendeu quando se lembrou que o pai tinha o hbito de comparar os trabalhos da irm morta com os do grande poeta. Deu-me outra 
indicao da forma correta de interpretar a homenagem que prestara ostensivamente ao poeta, por um erro na sua histria, que consegui detectar nesse ponto. Antes, 
ele especificara repetidamente que a irm havia-se matado com um tiro; mas foi ento obrigado a fazer uma correo e dizer que ela tomara veneno. O poeta, no entanto, 
fora morto a tiros num duelo.
         Volto agora  histria do irmo, mas deste ponto em diante devo prosseguir um pouco sobre as linhas temticas. A idade do menino na poca em que a sua irm 
iniciou a seduo era de trs anos e trs meses. Aconteceu, como j foi mencionado, na primavera do mesmo ano em cujo vero chegou a governanta inglesa, e em cujo 
outono os pais, ao regressarem, encontraram-no to fundamentalmente alterado.  muito natural, ento, relacionar essa transformao com o despertar da sua atividade 
sexual que havia entrementes ocorrido.
         Como reagiu o menino s tentaes de sua irm mais velha? Por uma recusa,  a resposta, mas por uma recusa que se aplicava  pessoa, e no  coisa em si. 
A irm no lhe agradava como objeto sexual, provavelmente porque seu relacionamento com ela j fora determinado numa direo hostil, devido  rivalidade no amor 
dos pais. Ele manteve-se distante da irm e, alm disso, as solicitaes desta logo cessaram. Contudo, ele tentou ganhar, em vez dela, outra pessoa de quem gostava; 
e a informao que sua prpria irm lhe dera, na qual proclamara a sua Nanya como modelo, dirigiu sua escolha nessa direo. Comeou, portanto, a brincar com o pnis 
na presena da bab, e isso, como muitos outros exemplos nos quais as crianas no escondem a sua masturbao, deve ser considerado como uma tentativa de seduo. 
A bab desiludiu-o; fez uma cara sria e explicou que aquilo no era bom; as crianas que o faziam, acrescentou, ficavam com uma 'ferida' no lugar.
         O efeito dessa informao, que equivalia a uma ameaa, pode ser reconhecido em vrias direes. Em conseqncia dela, diminuiu a sua dependncia da bab. 
Pode muito bem ter-se zangado com ela; e mais tarde, quando se manifestaram os seus acessos de ira, tornou-se claro que realmente estava amargurado com ela. Mas 
era caracterstico dele que cada posio da libido, que era obrigado a abandonar, era, a princpio, obstinadamente defendida por ele contra o novo desenvolvimento. 
Quando a governanta entrou em cena e abusou da sua Nanya, expulsando-a da sala e tentando destruir uma autoridade, ele, pelo contrrio, exagerou o seu amor pela 
vtima desses ataques e assumiu uma atitude brusca e desafiadora em relao  agressiva governanta. No obstante, comeou em segredo a procurar outro objeto sexual. 
Sua seduo dera-lhe o desgnio sexual passivo de ser tocado nos genitais; saberemos agora em relao a quem foi que ele tentou satisfazer esse desgnio e que caminhos 
o levaram a essa escolha.
         Concorda inteiramente com as nossas previses o fato de sabermos que, aps as suas primeiras excitaes genitais, iniciou-se a sua busca sexual, e que logo 
chegou ao problema da castrao. Nessa poca conseguiu observar duas meninas - a irm e uma amiga dela - enquanto urinavam. Sua sagacidade pode muito bem ter-lhe 
permitido deduzir os verdadeiros fatos desse espetculo, mas comportou-se como sabemos que se comportam outras crianas do sexo masculino nessas circunstncias. 
Rejeitou a idia de que via diante dele uma confirmao da ferida com a qual a bab o ameaara e explicou a si mesmo que aquilo era o 'traseiro frontal' das meninas. 
O tema da castrao no se estabeleceu por essa deciso; encontrou novas aluses a ele em tudo o que ouvia. Certa vez em que as crianas ganharam uns confeitos coloridos 
em forma de basto, a governanta, que era propensa a fantasias desordenadas, disse que eram pedaos de cobra cortada. Ele lembrou-se, depois, de que o pai encontrara 
uma vez uma cobra, ao caminhar por uma picada, e a fizera em pedaos com uma vara. Ouviu a histria (tirada de Reynard the Fox), lida em voz alta, de como o lobo 
queria pescar no inverno e usou a cauda como isca, e como, dessa maneira, o rabo do lobo se congelou e partiu. Aprendeu os diferentes nomes pelos quais se distinguem 
os cavalos, conforme estejam ou no intactos os seus rgos sexuais. Assim, ocupava-se com pensamentos sobre a castrao, mas ainda no acreditava nela, nem a temia. 
Outros problemas sexuais surgiram para ele nos contos de fadas com que se havia familiarizado nessa poca. No 'Chapeuzinho Vermelho' e em 'Os Sete Cabritinhos', 
as crianas eram tiradas do corpo do lobo. Seria o lobo uma criatura feminina, ento, ou poderiam os homens ter tambm crianas dentro do corpo? Nessa poca, a questo 
no se colocara ainda. Mais que isso, na poca dessas perguntas ele no tinha ainda medo de lobos.
         Uma das informaes do paciente tornar mais fcil para ns compreender a alterao do seu carter, a qual apareceu durante a ausncia dos pais como uma 
conseqncia um tanto indireta da sua seduo. Ele disse que abandonou a masturbao pouco depois da recusa e ameaa da sua Nanya. Sua vida sexual, portanto, que 
estava comeando a surgir sob a influncia da zona genital, cedeu ante um obstculo externo e foi, por influncia deste, lanada de volta a uma fase anterior de 
organizao pr-genital. Como resultado da supresso da masturbao, a vida sexual do menino assumiu um carter anal-sdico. Tornou-se um menino irritvel, um atormentador, 
e gratificava-se dessa forma s custas de animais e seres humanos. O principal objeto era a sua amada Nanya, e ele sabia como atorment-la at que ela rompesse em 
lgrimas. Desse modo vingava-se nela pela recusa que encontrara e, ao mesmo tempo, gratificava a sua lascvia sexual na forma que correspondia  sua presente fase 
regressiva. Comeou a mostrar-se cruel com os pequenos animais, apanhando moscas e arrancando-lhes as asas, esmagando besouros com os ps; em sua imaginao, gostava 
tambm de bater em animais maiores (cavalos). Todos esses, ento, eram procedimentos ativos e sdicos; discutiremos os seus impulsos anais desse perodo numa ligao 
posterior.
          fato da maior importncia que algumas fantasias contemporneas de natureza bem diferente tenham brotado tambm da memria do paciente. O contedo dessas 
fantasias era o de meninos sendo castigados e surrados e, especialmente, levando pancadas no pnis. E, de outras fantasias, que representavam o herdeiro do trono 
sendo encerrado num quarto estreito e surrado, era fcil adivinhar para quem era que as figuras annimas serviam de bode expiatrio. O herdeiro do trono era evidentemente 
ele prprio; seu sadismo havia-se convertido, portanto, em fantasia contra si mesmo e transformara-se em masoquismo. O detalhe do prprio rgo sexual recebendo 
as pancadas justificava a concluso de que um sentimento de culpa, que se relacionava com a sua masturbao, estava j envolvido nessa transformao.
         A anlise no deixou dvidas de que essas tendncias passivas haviam aparecido ao mesmo tempo em que surgiam as sdico-ativas, ou muito pouco tempo aps 
estas. Isso estava de acordo com a extremamente clara, intensa e constante ambivalncia do paciente, que era mostrada aqui, pela primeira vez, no desenvolvimento 
uniforme de ambos os membros dos pares de instintos componentes contrrios. Tal comportamento era tambm caracterstico da sua vida posterior, como tambm o era 
este outro trao: nenhuma posio da libido que fora antes estabelecida, era, jamais, completamente substituda por uma posterior. Era antes deixada em coexistncia 
com todas as outras e isso permitia-lhe manter uma vacilao incessante, que se mostrou incompatvel com a aquisio de um carter estvel.
         As tendncias masoquistas do menino conduzem a outro problema, que at agora evitei mencionar, porque s pode ser confirmado mediante a anlise da fase 
subseqente do seu desenvolvimento. J mencionei que, aps haver sido rejeitado pela bab, a sua expectativa libidinal afastou-se dela e comeou a contemplar outra 
pessoa como objeto sexual. Essa pessoa era o pai, nessa poca longe de casa. Foi sem dvida levado a essa escolha por uma srie de fatores convergentes, inclusive 
alguns to fortuitos como a recordao da cobra sendo cortada em pedaos; ademais de tudo, porm, permitia-se, desse modo, renovar a sua primeira e mais primitiva 
escolha objetal, que, em conformidade com o narcisismo de uma criana, havia ocorrido ao longo do caminho da identificao. J sabemos que o pai fora o seu modelo 
admirado, e que, quando lhe perguntavam o que queria ser, costumava responder: um cavalheiro como o papai. Esse objeto de identificao da sua corrente ativa tornou-se 
o objeto sexual de uma corrente passiva na sua fase sdico-anal. Era como se a sua seduo pela irm o houvesse forado a um papel passivo, dando-lhe um objetivo 
sexual passivo. Sob a persistente influncia dessa experincia, seguiu um caminho da irm, via bab, para o pai - de uma atitude passiva em relao s mulheres para 
a mesma atitude em relao aos homens -, e encontrou, todavia, por esse meio, uma ligao com uma fase mais prematura e espontnea do seu desenvolvimento. O pai 
era agora uma vez mais o seu objeto; em conformidade com o seu estdio mais alto de desenvolvimento, a identificao foi substituda pela escolha objetal; ao passo 
que a transformao da atitude ativa em passiva era a conseqncia e o registro da seduo que entretanto ocorrera. Naturalmente no teria sido to fcil alcanar, 
na fase sdica, uma atitude ativa em relao ao seu todo-poderoso pai. Quando este voltou para casa no fim do vero ou no outono, os acessos de raiva e as cenas 
de fria do paciente encontraram um novo uso. Haviam servido para fins sdico-ativos em relao  bab; em relao ao pai, o propsito era masoquista. Levando avante 
a sua rebeldia, estava tentando forar castigos e espancamentos por parte do pai, e dessa forma obter dele a satisfao sexual masoquista que desejava. Os seus ataques 
e gritos eram, portanto, simples tentativas de seduo. Ademais, de acordo com os motivos subjacentes ao masoquismo, esse espancamento satisfaria tambm o seu sentimento 
de culpa. Havia preservado a lembrana de como, durante uma dessas cenas de raiva, redobrara os gritos no momento em que o pai foi em sua direo. O pai no lhe 
bateu, no entanto, mas tentou pacific-lo brincando na frente dele com os travesseiros da sua cama.
         No sei com que freqncia os pais e educadores, defrontando-se com mau comportamento inexplicvel por parte de uma criana, possam no ter ocasio de conservar 
na lembrana esse tpico estado de coisas. Uma criana que se comporta de forma indcil est fazendo uma confisso e tentando provocar um castigo. Espera por uma 
surra como um meio de simultaneamente pacificar seu sentimento de culpa e de satisfazer sua tendncia sexual masoquista.
         Devemos a explicao adicional do caso a uma recordao que emergiu distintamente. Os sinais de uma alterao no carter do paciente no foram acompanhados 
por quaisquer sintomas de ansiedade at depois da ocorrncia de um determinado evento. Anteriormente, parece, no havia ansiedade, ao passo que, imediatamente aps 
o evento, a ansiedade expressou-se da forma mais atormentadora. A data dessa transformao pode ser fixada com preciso; foi imediatamente antes do seu quarto aniversrio. 
Tomando o fato como um ponto fixo, podemos dividir o perodo da sua infncia, com o qual estamos lidando, em duas fases: uma primeira fase de mau comportamento e 
perversidade, desde a sua seduo, aos trs anos e trs meses, at o seu quarto aniversrio; e uma fase subseqente, mais longa, na qual predominaram os sinais de 
neurose. O evento que torna possvel essa diviso no foi, contudo, um trauma externo, e sim um sonho, do qual acordou em estado de ansiedade.
         
         IV - O SONHO E A CENA PRIMRIA
         
         J publiquei alhures este sonho, por causa da quantidade de material que nele ocorre derivado de contos de fadas; e comearei repetindo o que escrevi naquela 
ocasio:
         '"Sonhei que era noite e que eu estava deitado na cama. (Meu leito tem o p da cama voltado para a janela: em frente da janela havia uma fileira de velhas 
nogueiras. Sei que era inverno quando tive o sonho, e de noite.) De repente, a janela abriu-se sozinha e fiquei aterrorizado ao ver que alguns lobos brancos estavam 
sentados na grande nogueira em frente da janela. Havia seis ou sete deles. Os lobos eram muito brancos e pareciam-se mais com raposas ou ces pastores, pois tinham 
caudas grandes, como as raposas, e orelhas empinadas, como ces quando prestam ateno a algo. Com grande terror, evidentemente de ser comido pelos lobos, gritei 
e acordei. Minha bab correu at minha cama, para ver o que me havia acontecido. Levou muito tempo at que me convencesse de que fora apenas um sonho; tivera uma 
imagem to clara e vvida da janela a abrir-se e dos lobos sentados na rvore. Por fim acalmei-me, senti-me como se houvesse escapado de algum perigo e voltei a 
dormir.
         '"A nica ao no sonho foi a abertura da janela, pois os lobos estavam sentados muito quietos e sem fazer nenhum movimento sobre os ramos da rvore,  
direta e  esquerda do tronco, e olhavam para mim. Era como se tivessem fixado toda a ateno sobre mim. - Acho que foi meu primeiro sonho de ansiedade. Tinha trs, 
quatro, ou, no mximo, cinco anos de idade na ocasio. Desde ento, at contar onze ou doze anos, sempre tive medo de ver algo terrvel em meus sonhos."'
         'Ele acrescentou um desenho da rvore com os lobos, que confirmava sua descrio (Fig. 1). A anlise do sonho trouxe  luz o seguinte material.
         'Sempre vinculara este sonho  recordao de que, durante esses anos de infncia, tinha um medo tremendo da figura de um lobo num livro de contos de fadas. 
Sua irm mais velha, que lhe era superior, costumava apoquent-lo segurando esta figura especfica na sua frente, sob qualquer pretexto, para que ele ficasse aterrorizado 
e comeasse a gritar. Na figura, o 
         
         lobo achava-se ereto, dando um passo com uma das patas, com as garras estendidas e as orelhas empinadas. Achava que a figura deveria ter sido uma ilustrao 
da histria do "Chapeuzinho Vermelho".
         'Por que os lobos eram brancos? Isto f-lo pensar nas ovelhas, grandes rebanhos das quais eram mantidos nas vizinhanas da propriedade. O pai ocasionalmente 
o levava a visitar esses rebanhos e, todas as vezes que isso acontecia, ele se sentia muito orgulhoso e feliz. Posteriormente - segundo indagaes feitas, pode facilmente 
ter sido pouco antes da poca do sonho - irrompeu uma epidemia entre as ovelhas. O pai mandou buscar um seguidor de Pasteur, que vacinou os animais, mas aps a inoculao 
morreram ainda mais delas que antes.
         'Como os lobos apareceram na rvore? Isto f-lo lembrar-se de uma histria que ouvira o av contar. No podia recordar-se se fora antes ou depois do sonho, 
mas seu assunto constitui argumento decisivo em favor da primeira opinio. A histria dizia assim: um alfaiate estava sentado trabalhando em seu quarto, quando a 
janela se abriu e um lobo pulou para dentro. O alfaiate perseguiu-o com seu basto - no (corrigiu-se), apanhou-o pela cauda e arrancou-a fora, de modo que o lobo 
fugiu correndo, aterrorizado. Algum tempo mais tarde, o alfaiate foi at a floresta e subitamente viu uma alcatia de lobos vindo em sua direo; ento trepou numa 
rvore para fugir-lhes. A princpio, os lobos ficaram perplexos; mas o aleijado, que se achava entre eles e queria vingar-se do alfaiate, props que trepassem uns 
sobre os outros, at que o ltimo pudesse apanh-lo. Ele prprio - tratava-se de um animal velho e vigoroso - ficaria na base da pirmide. Os lobos fizeram como 
ele sugerira, mas o alfaiate reconhecera o visitante a que havia castigado e de repente gritou, como fizera antes: "Apanhem o cinzento pela cauda!" O lobo sem rabo, 
aterrorizado pela recordao, correu, e todos os outros desmoronaram.
         'Nesta histria aparece a rvore sobre a qual os lobos se achavam sentados no sonho; mas ela contm tambm uma aluso inequvoca ao complexo de castrao. 
O lobo velho tivera a cauda arrancada pelo alfaiate. As caudas de raposa dos lobos do sonho eram provavelmente compensaes por esta falta de cauda.
         'Por que havia seis ou sete lobos? No parecia haver resposta para esta pergunta, at eu levantar uma dvida sobre saber se a figura que o assustava estava 
vinculada  histria de "Chapeuzinho Vermelho". Este conto de fadas s oferece oportunidade para duas ilustraes - Chapeuzinho Vermelho encontrando-se com o lobo 
na floresta e a cena em que o lobo se deita na cama, com o barrete de dormir da av. Teria de haver, portanto, algum outro conto de fadas por trs de sua recordao 
da figura. Ele logo descobriu que s podia ser a histria de "O Lobo e os Sete Cabritinhos". Nesta, ocorre o nmero sete, e tambm o nmero seis, pois o lobo s 
comeu seis dos cabritinhos, enquanto que o stimo se escondeu na caixa do relgio. O branco tambm nela aparece, pois o lobo fizera branquear sua pata no padeiro, 
aps os cabritinhos haverem-no reconhecido, em sua primeira visita, pela pata cinzenta. Alm disso, os dois contos de fadas possuem muito em comum. Em ambos existe 
o comer, a abertura da barriga, a retirada das pessoas que haviam sido comidas e sua substituio por pesadas pedras, e, finalmente, em ambas o lobo mau perece. 
Alm disso tudo, na histria dos cabritinhos aparece a rvore. O lobo deitou-se sob uma rvore, aps a refeio, e roncou.
         'Por uma razo especial, terei de tratar deste sonho novamente alhures, interpret-lo e julgar sua significao com maiores pormenores; pois ele  o mais 
antigo sonho de ansiedade que o jovem que sonhou recordou de sua infncia, e seu contedo, tomado juntamente com outros sonhos que o seguiram pouco aps e com certos 
acontecimentos de seus primeiros anos de vida,  de interesse muito especial. Temos de limitar-nos aqui  relao do sonho com os dois contos de fadas que tm tanto 
em comum um com o outro. "Chapeuzinho Vermelho" e "O Lobo e os Sete Cabritinhos". O efeito produzido por estas histrias foi demonstrado no pequeno que as sonhou 
mediante uma fobia animal comum. Esta fobia s se distinguia de outros casos semelhantes pelo fato de o animal causador da ansiedade no ser um objeto facilmente 
acessvel  observao (tal como um cavalo ou um co), mas conhecido dele somente de histrias e livros de figuras.
         'Examinarei em outra ocasio a explicao destas fobias animais e a significao que se lhes atribui. Observarei apenas, por antecipao, que essa explicao 
acha-se em completa harmonia com a caracterstica principal apresentada pela neurose de que o atual sonhador padeceu mais tarde na vida. Seu medo do pai era o motivo 
mais forte para ele cair doente e sua atitude ambivalente em relao a todo representante paterno foi o aspecto dominante de sua vida, assim como de seu comportamento 
durante o tratamento.
         'Se, no caso de meu paciente, o lobo foi simplesmente um primeiro representante paterno, surge a questo de saber se o contedo oculto nos contos de fadas 
do lobo que comeu os cabritinhos e de "Chapeuzinho Vermelho" no pode ser simplesmente um medo infantil do pai. Alm disso, o pai de meu paciente tinha a caracterstica, 
apresentada por tantas pessoas em relao aos filhos, de permitir-se "ameaas afetuosas"; e  possvel que, durante os primeiros anos do paciente, o pai (embora 
se tornasse severo mais tarde) pudesse, mais de uma vez enquanto acariciava o menininho ou com ele brincava, t-lo ameaando por brincadeira "de engoli-lo". Uma 
de minhas pacientes contou-me que seus dois filhos nunca puderam chegar a gostar do av, porque, no decurso de seus ruidosos e afetuosos brinquedos, com eles, costumava 
assust-los dizendo que lhes cortaria as barrigas.'
         Deixando de lado, nessa citao, tudo o que antecipa as implicaes mais remotas do sonho, voltemos  sua interpretao imediata. Poderia dizer que essa 
interpretao foi uma tarefa que se arrastou por vrios anos. O paciente relatou o sonho numa etapa muito prematura da anlise e em breve compartilhava a minha convico 
de que as causas da sua neurose infantil ocultavam-se por trs dele. No decorrer do tratamento voltamos com freqncia ao sonho, mas foi somente durante os ltimos 
meses da anlise que se tornou possvel compreend-lo completamente, e mesmo assim graas a um trabalho espontneo por parte do paciente. Ele enfatizara sempre o 
fato de que dois fatores no sonho haviam-lhe causado a maior impresso: primeiro, a perfeita quietude e imobilidade dos lobos e, segundo, a ateno com que todos 
olhavam para ele. A sensao duradoura de realidade que o sonho deixou aps o despertar, parecia-lhe tambm um fator digno de nota.
         Tomemos essa ltima observao como ponto de partida. Sabemos por nossa experincia na interpretao de sonhos que essa sensao de realidade traz consigo 
um significado particular. Isso certifica-nos que determinada parte do material latente do sonho reivindica, na memria do sonhador, possuir a qualidade de realidade, 
isto , que o sonho relaciona-se com uma ocorrncia que realmente teve lugar e no foi simplesmente imaginada. Pode naturalmente ser apenas uma questo da realidade 
de algo desconhecido; por exemplo, a convico de que o av realmente lhe contou a histria do alfaiate e do lobo, ou de que as histrias do 'Chapeuzinho Vermelho' 
e dos 'Sete Cabritinhos' foram realmente lidas em voz alta para ele, no seria de uma natureza a ser substituda por essa sensao de realidade que sobreviveu ao 
sonho. O sonho parece apontar para uma ocorrncia cuja realidade foi intensamente enfatizada como estando em marcado contraste com a irrealidade dos contos de fadas.
         Se se devia presumir que por trs do contedo do sonho havia alguma cena desconhecida - ou seja, uma cena que j fora esquecida na poca do sonho -, esta 
ento deveria ter ocorrido muito prematuramente. Lembremo-nos de que o paciente disse: 'Tinha trs, quatro, ou, no mximo, cinco anos de idade na ocasio em que 
tive o sonho.' E podemos acrescentar: 'E o sonho fez-me lembrar de algo que deve ter pertencido a um perodo ainda mais remoto.'
         As partes do contedo manifesto do sonho que foram destacadas pelo paciente, os fatores do olhar atento dos lobos e da sua imobilidade, devem conduzir ao 
contedo dessa cena. Devemos naturalmente esperar descobrir que esse material reproduz o material desconhecido da cena de algum modo deformado, talvez mesmo deformado 
para o seu oposto.
         Havia tambm diversas concluses a serem extradas da matria-prima que fora produzida pela primeira anlise do sonho, feita pelo paciente, e estas teriam 
que se ajustar  colocao que estvamos buscando. Por trs da meno  criao de ovelhas, seria de esperar uma evidncia da sua busca sexual, o interesse que ele 
estava apto a gratificar durante as visitas ao rebanho com o pai; mas deve ter havido tambm aluses a um medo da morte, de vez que a maioria das ovelhas morrera 
da epidemia. O fator mais importuno no sonho, os lobos em cima da rvore, levou diretamente  histria do av; e o que era mais fascinante nessa histria e capaz 
de provocar o sonho no podia ter sido outra coisa seno sua relao com o tema da castrao.
         Conclumos tambm, da primeira anlise incompleta do sonho, que o lobo pode ter sido um substituto do pai; de tal modo que, nesse caso, esse primeiro sonho 
de ansiedade teria trazido  tona o temor ao pai, que a partir dessa poca iria dominar a sua vida. Essa concluso, na verdade, no era, em si, ainda consistente. 
Mas se lhe juntamos, como resultado da anlise provisria, o que pode ser deduzido do material produzido pelo sonhador, encontramos ento diante de ns, para reconstruo, 
fragmentos como estes:
         Uma ocorrncia real - datando de um perodo muito prematuro - olhar - imobilidade - problemas sexuais - castrao - o pai - algo terrvel.
         Certo dia o paciente prosseguiu na interpretao do sonho. Achava que a parte do sonho onde 'de repente, a janela abriu-se sozinha' no estava completamente 
explicada pela sua relao com a janela em frente  qual o alfaiate estava sentado e atravs da qual o lobo penetrou na sala. 'Deve significar: "Meus olhos abriram-se 
de repente." Eu estava dormindo, portanto, e subitamente acordei, e no momento em que o fiz, vi algo: a rvore com os lobos.' Nenhuma objeo poderia ser feita a 
isso; mas o problema poderia ser ainda mais desenvolvido. Ele acordara e vira alguma coisa. O olhar atento, que no sonho fora atribudo aos lobos, deveria, antes, 
ser atribudo a ele. Num ponto decisivo, portanto, havia ocorrido uma transposio; e, ademais, isso  indicado por uma outra transposio no contedo manifesto 
do sonho. Pois o fato de que os lobos estavam sentados na rvore era tambm uma transposio, por quanto na histria contada pelo av eles estavam embaixo e no 
conseguiram subir na rvore.
         O que seria, ento, se o outro fator enfatizado pelo paciente era tambm distorcido por meio de uma transposio ou inverso? Nesse caso, em vez de imobilidade 
(os lobos no tinham movimento; olhavam para ele, mas no se mexiam) o significado teria de ser: o mais violento movimento. Ou seja, ele acordou de repente e viu 
 sua frente uma cena de movimento violento, para a qual olhou tensa e atentamente. No primeiro caso a distoro consistiria num intercmbio de sujeito e objeto, 
de atividade e passividade: ser olhado em vez de olhar. No outro caso consistiria em transformao no oposto; imobilidade em lugar de movimento.
         Numa outra ocasio, uma associao que lhe ocorreu subitamente levou-nos um passo adiante em nossa compreenso do sonho: 'A rvore era uma rvore de Natal.' 
Sabia agora que tivera o sonho pouco antes do Natal e na expectativa desse acontecimento. Uma vez que o dia de Natal era tambm o do seu aniversrio, tornou-se ento 
possvel estabelecer com certeza a data do sonho e da mudana nele, que procedia do sonho. Foi imediatamente antes do seu quarto aniversrio. Fora para a cama, ento, 
numa expectativa tensa do dia que lhe deveria trazer uma dupla quantidade de presentes. Sabemos que, em tais circunstncias, uma criana pode facilmente antecipar 
a realizao dos seus desejos. Assim, j era Natal em seu sonho; o contedo do sonho mostrava-lhe o seu presente de Natal, os presentes que seriam seus pendurados 
na rvore. Mas em vez de presentes, estes haviam-se transformado em lobos, e o sonho finalizava com ele sendo dominado pelo medo de ser comido pelo lobo (provavelmente 
seu pai) e fugindo para refugiar-se nos braos da bab. O que sabemos do seu desenvolvimento sexual antes do sonho torna possvel preencher as lacunas no mesmo e 
explicar a transformao da sua satisfao em ansiedade. Dos desejos envolvidos na formao do sonho, o mais poderoso deve ter sido o desejo de satisfao sexual, 
que ele, naquela poca, aspirava obter do pai. A fora desse desejo tornou possvel reviver um vestgio, h muito esquecido na sua memria, de uma cena capaz de 
mostrar-lhe como era a satisfao sexual obtida do pai; e o resultado foi o terror, o horror da realizao do desejo, a represso do impulso que se havia manifestado 
mediante o desejo e, conseqentemente, uma fuga do pai para a bab, menos perigosa.
         A importncia dessa data, do dia do Natal, havia sido preservada em sua suposta recordao de haver tido seu primeiro acesso de raiva por estar descontente 
com os presentes de Natal [ver em [1]]. A lembrana combinava elementos de verdade e de falsidade. No podia ser inteiramente correta, j que, de acordo com repetidas 
declaraes dos seus pais, o mau comportamento do menino havia comeado quando eles voltaram, no outono, e no era verdade que s tivessem chegado no Natal. Ele, 
no entanto, preservara a ligao essencial entre o seu amor insatisfeito, a sua raiva e o Natal.
         Mas, que quadro as aes noturnas do seu desejo sexual podem ter conjurado para amedront-lo to violentamente quanto  realizao a que aspirava? O material 
da anlise mostra haver uma condio que esse quadro deve satisfazer. Deve ter sido calculado para criar uma convico da realidade da existncia da castrao. O 
medo da castrao podia ento tornar-se a fora motivadora para a transformao do afeto.
         Atingi agora o ponto em que devo abandonar o apoio que tive at aqui a partir do curso da anlise. Receio que seja tambm o ponto no qual a credulidade 
do leitor ir me abandonar.
         O que entrou em atividade naquela noite, vindo do caos dos traos de memria inconscientes do sonhador, foi o quadro de uma cpula entre os pais, cpula 
em circunstncias que no eram inteiramente habituais e que favoreciam particularmente a observao. Aos poucos, tornou-se possvel encontrar respostas satisfatrias 
para todas as questes levantadas em relao a essa cena; pois no decorrer do tratamento o primeiro sonho retornou em inmeras variaes e novas edies, em relao 
com as quais a anlise produziu a informao que era exigida. Assim, em primeiro lugar, a idade da criana  data da observao foi estabelecida aproximadamente 
em um ano e meio. Na poca estava sofrendo de malria e tinha um ataque todos os dias a uma determinada hora. A partir dos dez anos de idade esteve sujeito, de vez 
em quando, a crises de depresso, que costumavam sobrevir  tarde e atingiram o seu ponto culminante por volta das cinco horas. Esse sintoma ainda existia na poca 
do tratamento psicanaltico. As freqentes crises de depresso tomaram o lugar dos anteriores ataques de febre ou abatimento; cinco horas ou era a hora da febre 
mais alta, ou da observao do coito, a no ser que as duas horas tivessem coincidido.  provvel que justamente por causa dessa doena ele estivesse no quarto dos 
pais. A doena, cuja ocorrncia  tambm corroborada pela tradio direta, torna razovel referir o evento ao vero e, de vez que o menino nascera no dia de Natal, 
presumir que sua idade fosse n + 1 1/2 anos. Ele estava ento dormindo no seu bero, no quarto dos pais, e acordou, talvez por causa da febre que subia,  tarde, 
possivelmente s cinco horas, a hora que depois seria marcada pela depresso. Isso est de acordo com nossa suposio de que era um dia quente de vero, se presumimos 
que os pais se haviam recolhido, meio despidos, para uma sesta. Quando o menino acordou, presenciou um coito a tergo [por trs], repetido trs vezes, podia ver os 
genitais da me, bem como o rgo do pai; e compreendeu o processo, assim como o seu significado. Por fim interrompeu a relao sexual dos pais de uma maneira que 
ser exposta adiante [ver em [1]].
         No fundo, no h nada extraordinrio, nada que d a impresso de ser o produto de uma imaginao extravagante, no fato de um jovem casal, casado h poucos 
anos, terminar uma sesta de uma tarde quente de vero com uma cena de amor, sem considerar a presena do filhinho de um ano e meio, dormindo no seu bero. Pelo contrrio, 
acho que tal fato seria uma coisa inteiramente comum e banal; e mesmo a posio na qual deduzimos que o coito ocorreu, em nada altera este julgamento - particularmente 
porque no h evidncia de que a relao tenha sido efetuada por trs todas as vezes. Uma nica vez seria suficiente para dar ao espectador oportunidade para fazer 
observaes que teriam sido difceis ou impossveis por meio de qualquer outra atitude dos parceiros. Portanto, o contedo da cena no pode ser, por si, um argumento 
contra a sua credibilidade. As dvidas quanto  sua probabilidade podero girar em torno de trs pontos: se uma criana na tenra idade de um ano e meio poderia estar 
numa posio de absorver a percepo de um processo to complicado e preserv-la to acuradamente em seu inconsciente; em segundo lugar, se  possvel, aos quatro 
anos de idade, que uma reviso transferida das impresses assim recebidas penetre no entendimento; e, finalmente, se qualquer procedimento poderia trazer para a 
conscincia, coerente e convincentemente, os detalhes de uma cena dessa natureza, experimentada e compreendida em tais circunstncias.
         Examinarei, depois, cuidadosamente, essas e outras dvidas; mas posso assegurar ao leitor que, criticamente, no estou menos inclinado do que ele no sentido 
de aceitar essa observao do menino, e pedirei apenas ao leitor que, junto comigo, adote uma convico provisria da realidade da cena. Procederemos, em primeiro 
lugar, a um estudo das relaes entre essa 'cena primria' e o sonho do paciente, seus sintomas e a histria da sua vida; e investigaremos separadamente os efeitos 
que se seguiram, do contedo essencial da cena e de uma das suas impresses visuais.
         Por estas ltimas quero dizer as posturas que ele viu os pais adotarem - o homem ereto e a mulher curvada, como um animal. J sabemos que durante seu perodo 
de ansiedade, a irm costumava aterroriz-lo com uma figura de um livro de contos infantis, na qual o lobo era mostrado em posio vertical, com os ps em posio 
de movimento, as garras a descoberto e as orelhas em p. Durante o tratamento, ele se dedicou com perseverana incansvel  tarefa de vasculhar os sebos at encontrar 
o livro ilustrado da sua infncia, reconhecendo o seu mau esprito numa ilustrao da histria de 'O Lobo e os Sete Cabritinhos'. Achou que a postura do lobo nessa 
gravura poderia ter-lhe recordado a do pai durante a cena primria. Em todo caso, a ilustrao tornou-se o ponto de partida para manifestaes posteriores da ansiedade. 
Certa vez, quando tinha sete ou oito anos, foi informado de que no dia seguinte chegaria um novo tutor para ele. Nessa noite, sonhou com o tutor na forma de um leo 
que vinha em direo  sua cama, rugindo ruidosamente e com a postura do lobo na gravura; e o outra vez acordou em estado de ansiedade. A fobia ao lobo fora superada 
nessa poca, de modo que estava livre para escolher um novo animal que causasse ansiedade e, nesse ltimo sonho, estava reconhecendo o tutor como um substituto do 
pai. Nos ltimos anos de sua infncia, todos os seus tutores e mestres desempenharam o papel do pai, dotados com a influncia do pai tanto para o bem como para o 
mal.
         Quando estava na escola secundria, o destino proporcionou-lhe uma oportunidade notvel de reviver a sua fobia ao lobo e de usar a relao que estava por 
trs dessa fobia como ocasio para graves inibies. O professor que ensinava latim chama-se Wolf. Desde o comeo sentiu-se intimidado pelo professor, e este certa 
vez repreendeu-o severamente por haver cometido um erro estpido num texto traduzido do latim. A partir de ento no conseguiu livrar-se de um medo paralisante em 
relao a esse professor, o que em breve se estendeu a outros mestres. Contudo, a asneira que fez na traduo era tambm significativa. Tinha que traduzir o vocbulo 
latino 'filius' e f-lo com a palavra 'fils', em vez de usar o termo correspondente na sua prpria lngua. O lobo, na verdade, ainda era seu pai.
         O primeiro 'sintoma transitrio' que o paciente produziu durante o tratamento retornou uma vez mais  fobia ao lobo e ao conto de fadas dos 'Sete Cabritinhos'. 
Na sala em que as primeiras sesses foram realizadas havia um grande relgio de p, defronte ao paciente, que ficava no sof sem voltar o rosto para mim. Impressionava-me 
o fato de que, de vez em quando, ele se virava na minha direo, olhava-me de uma maneira bastante amistosa, como que para me aplacar, e ento afastava de mim o 
olhar e fixava-o no relgio. Na ocasio eu achava que, dessa forma, ele procurava mostrar-me que estava ansioso pelo fim da sesso. Muito tempo depois o paciente 
recordou-me essa cena de espetculo mudo e deu-me uma explicao a respeito dela. Lembrava-se de que o mais novo dos sete cabritinhos escondeu-se na caixa do relgio 
de parede, enquanto os seis irmos eram comidos pelo lobo. Assim, o que ele queria dizer era: 'Seja bom para mim! Devo ficar com medo do senhor? O senhor vai devorar-me? 
Terei que me esconder do senhor na caixa do relgio, como o cabritinho mais novo?'
         O lobo do qual tinha medo era, sem dvida, seu pai; mas o medo do lobo era condicionado pelo fato de a criatura estar numa posio ereta. Sua lembrana 
afirmou da forma mais definitiva que no fora aterrorizado por figuras de lobos caminhando sobre as quatro patas ou, como na histria do 'Chapeuzinho Vermelho', 
deitados na cama. A postura que, de acordo com a nossa construo da cena primria, ele vira a mulher assumir, era de no menos significao; embora, nesse caso, 
o significado estivesse limitado  esfera sexual. o fenmeno mais espantoso da sua vida ertica aps a maturidade era a sua tendncia a ataques compulsivos de paixo 
fsica, que surgiam e de novo desapareciam, na mais desconcertante sucesso. Esses ataques liberavam nele uma tremenda energia, mesmo nas vezes em que se encontrava 
por outros modos inibido, estando muito alm do seu controle. Devo, por um motivo particularmente importante, protelar uma considerao mais completa desse amor 
compulsivo [ver em [1] e segs.]; posso, contudo, mencionar, agora, que esse amor era sujeito a uma condio definida, que se ocultava do seu consciente e s foi 
descoberta durante o tratamento. Era necessrio que a mulher assumisse a postura que atribumos  sua me na cena primria. Desde a puberdade, considerava as ndegas 
grandes e proeminentes como a mais poderosa atrao numa mulher; exceto na postura traseira, copular dificilmente lhe dava algum prazer. Neste ponto, pode-se justificadamente 
levantar uma crtica: a objeo seria de que uma preferncia sexual dessa natureza pelas partes posteriores do corpo  uma caracterstica geral de pessoas que se 
inclinam para uma neurose obsessiva, e que a sua presena no justifica referi-la a uma impresso particular da infncia. Faz parte da estrutura da disposio anal-ertica 
e  uma das caractersticas arcaicas que distinguem essa constituio. Na verdade, o coito efetuado por trs - more ferarum [ maneira dos animais] - pode, afinal 
de contas, ser considerado como a forma mais antiga, filogeneticamente. Voltaremos tambm a essa questo posteriormente, quando tivermos apresentado o material suplementar 
que mostrou a base da condio inconsciente da qual dependia o seu apaixonar-se. [Cf. ver em [1] e [2].] 
         Prossigamos agora a nossa exposio das relaes entre o sonho e a cena primria. At que seria de esperar que o sonho apresentasse o menino (que se rejubilava, 
no Natal, na perspectiva da realizao de seus desejos) com esse quadro de satisfao sexual propiciado atravs da ao de seu pai, tal como o vira na cena primria, 
como um modelo da satisfao que ele prprio aspirava obter do pai. Em vez desse quadro, no entanto, surgiu o material da histria que lhe fora contada pelo av 
pouco antes: a rvore, os lobos e a mutilao do rabo (na forma supercompensada das caudas espessas dos supostos lobos). Neste ponto falta alguma conexo, alguma 
ponte associativa que conduza do contedo da cena primria ao da histria do lobo. Essa conexo  proporcionada uma vez mais pelas posturas, e s por elas. Na histria 
do av, o lobo sem rabo pediu aos outros que subissem em cima dele. Foi esse detalhe que evocou a lembrana do quadro da cena primria, e foi dessa forma que se 
tornou possvel que o material da cena primria fosse representado pelo da histria do lobo e, ao mesmo tempo, que os dois pais fossem substitudos, como era desejvel, 
por diversos lobos. O contedo do sonho sofreu uma outra transformao e o material da histria do lobo foi ajustado ao contedo do conto de fadas de 'Os Sete Cabritinhos', 
tomando emprestado a este o nmero sete.
         As etapas na transformao do material; cena primria - histria do lobo - conto dos 'Sete Cabritinhos', refletem o progresso dos pensamentos do sonhador 
durante a construo do sonho: 'desejo de obter do pai satisfao sexual - a compreeenso de que a castrao era uma condio necessria para isso - medo do pai'. 
Somente neste ponto, acho eu, podemos considerar o sonho de ansiedade desse menino de quatro anos como estando exaustivamente explicado.
         Depois do que j foi dito, preciso apenas tratar, em poucas palavras, do efeito patognico da cena primria e da alterao que a sua revivescncia produziu 
no desenvolvimento sexual do paciente. Investigaremos apenas um dos seus efeitos, ao qual o sonho deu expresso. Teremos que esclarecer, depois, que no foi apenas 
uma nica corrente sexual que se iniciou a partir da cena primria, mas toda uma srie delas, e que sua vida sexual foi positivamente fragmentada por ela. Devemos 
tambm ter em mente que a ativao dessa cena (evitei intencionalmente a palavra 'recordao') teve o mesmo efeito que teria uma experincia recente. Os efeitos 
da cena foram protelados, mas esta no perdera, entrementes, nada da sua novidade, no intervalo entre a idade de um ano e meio e a de quatro anos. Descobriremos 
talvez em que se apia a razo para supor que produziu determinados efeitos mesmo na poca da sua percepo, isto , a partir de um ano e meio de idade.
         Quando o paciente penetrou mais fundo na situao da cena primria, trouxe  tona os seguintes fragmentos de auto-observao. Para comear, presumiu, conforme 
disse, que o evento do qual fora testemunha era um ato de violncia. [Neste consenso, ver o artigo de Freud sobre 'The Sexual Theories of Children' (1908c), Standard 
Ed., 9, 220-21.], mas a expresso de prazer que viu no rosto da me no se ajustava a esse dado; foi obrigado a reconhecer que era uma experincia satisfatria. 
O que era essencialmente novo para ele, em sua observao da relao sexual entre os pais, era a convico da realidade da castrao - uma possibilidade com a qual 
seus pensamentos j se haviam ocupado anteriormente. (A viso das duas meninas urinando, a ameaa da sua Nanya, a interpretao que a governanta deu aos confeitos 
em forma de basto, a lembrana do pai despedaando a cobra com uma vara.) Porque agora via com os prprios olhos a ferida da qual a bab havia falado e compreendia 
que a existncia dessa ferida era uma condio necessria para a relao com o pai. No podia mais confundi-la com o traseiro, como fizera quando observara as duas 
meninas.
         O sonho acabou em um estado de ansiedade, do qual no se recuperou at que teve a bab junto a si. Fugiu, portanto, do pai para ela. Sua ansiedade era um 
repdio do desejo de obter do pai satisfao sexual - tendncia  qual se deve a formao do sonho na sua cabea. A forma assumida pela ansiedade, o medo de 'ser 
devorado pelo lobo', era apenas a transposio (como saberemos, regressiva) do desejo de copular com o pai, isto , de obter satisfao sexual do mesmo modo que 
sua me. Seu ltimo objetivo sexual, a atitude passiva em relao ao pai, sucumbiu  represso, e em seu lugar apareceu o medo ao pai, sob a forma de uma fobia ao 
lobo.
         E a fora impulsionadora dessa represso? As circunstncias do caso demonstram que s pode ter sido a sua libido genital narcsica, a qual, sob a forma 
de interesse pelo seu rgo masculino, estava lutando contra uma satisfao que, para ser conseguida, parecia exigir uma renncia quele rgo. E era desse narcisismo 
ameaado que derivava a masculinidade com a qual se defendia contra a atitude passiva em relao ao pai.
         Observamos agora que, neste ponto da narrativa, temos que fazer uma alterao na nossa terminologia. Durante o sonho ele atingira uma nova fase da sua organizao 
sexual. At ento os opostos sexuais, para ele, haviam sido o ativo e o passivo. Desde a seduo, seu objeto sexual havia sido passivo, de ser tocado nos genitais; 
mas transformou-se, ento, por regresso ao estdio mais primitivo da organizao anal-sdica, no propsito masoquista de ser espancado ou castigado. Para ele era 
indiferente a questo de atingir esse objetivo com um homem ou com uma mulher. Sem considerar a diferena de sexos, passara da bab para o pai; desejara que seu 
pnis fosse tocado pela bab, e tentara provocar o pai at que este batesse nele. A, seu rgo genital era deixado de lado, embora a conexo com esse rgo, que 
fora oculta com a regresso, ainda se expressasse na fantasia de levar pancada no pnis. A ativao da cena primria no sonho levou-o, ento, de volta  organizao 
genital. Descobriu a vagina e o significado biolgico de masculino e feminino. Compreendia agora que ativo era o mesmo que masculino, ao passo que passivo era o 
mesmo que feminino. Seu objetivo sexual passivo deve ter sido, ento, transformado em feminino, expressando-se como 'ser copulado pelo pai', em vez de 'ser por ele 
espancado nos genitais ou no traseiro'. Esse objetivo feminino, no entanto, sujeitou-se  represso e foi obrigado a deixar-se substituir pelo medo do lobo.
         Devemos interromper aqui a exposio do seu desenvolvimento sexual at que nova luz seja lanada, dos estdios posteriores da sua histria, sobre estes 
mais primitivos. Para apreciao adequada da fobia aos lobos, acrescentaremos apenas que tanto o pai como a me transformaram-se em lobos. Sua me assumiu o papel 
do lobo castrado, que deixava os outros subirem sobre ele; o pai assumiu o papel do lobo que subia. Entretanto, seu medo, conforme o ouvimos assegurar-nos, relacionava-se 
apenas com o lobo ereto, isto , com seu pai. Ademais, deve-nos surpreender o fato de que o medo com o qual o sonho terminava tivesse um modelo na histria do av. 
Porque nesta, o lobo castrado, que deixara os outros treparem em cima, dele, tomava-se de medo to logo era lembrado do fato da sua falta de cauda. Portanto, parece 
que ele se identificou com a me castrada durante o sonho, e agora lutava contra esse fato. 'Se voc quer ser sexualmente satisfeito pelo Pai', podemos talvez imagin-lo 
dizendo para si mesmo, 'voc deve deixar-se castrar como a Me; mas eu no quero isso.' Resumindo, um claro protesto da parte da sua masculinidade! No entanto, entenda-se 
naturalmente que o desenvolvimento sexual do caso que estamos agora examinando, tem uma grande desvantagem do ponto de vista da busca, porque no deixou de modo 
algum, de ser perturbado. Em primeiro lugar, foi decisivamente influenciado pela seduo e, depois, foi desviado pela cena da observao do coito, a qual, na sua 
ao preterida, operou como uma segunda seduo.
         
         V - ALGUMAS QUESTES
         
         A baleia e o urso polar, j foi dito, no podem travar luta um com o outro porque, confinados ao seu prprio elemento, no podem encontrar-se. Para mim 
 impossvel argumentar com quem trabalha no campo da psicologia ou das neuroses e no reconhece os postulados da psicanlise, considerando os resultados desta como 
artefatos. Nos ltimos anos, porm, cresceu tambm uma outra espcie de oposio entre aqueles que, pelo menos em sua prpria opinio, tomam posio no terreno da 
psicanlise, no discutem a sua tcnica ou resultados, mas simplesmente acham-se justificados ao tirar outras concluses do mesmo material e ao submet-lo a outras 
interpretaes.
         Via de regra, contudo, a controvrsia terica  infrutfera. To logo o analista comea a desviar-se do material com o qual deveria contar, corre o risco 
de intoxicar-se com as prprias afirmaes e, no final, de apoiar opinies que qualquer observao poderia contradizer. Por esse motivo, parece-me ser incomparavelmente 
mais til, para combater interpretaes dissidentes, test-las em casos e problemas particulares.
         J antes observei que ser certamente considerado improvvel, em primeiro lugar, que 'uma criana na tenra idade de um ano e meio pudesse estar numa posio 
de absorver a percepo de um processo to complicado e preserv-la to acuradamente em seu inconsciente; em segundo lugar, se  possvel, aos quatro anos de idade, 
que uma reviso preterida das impresses assim recebidas penetre no entendimento; e, finalmente, se qualquer procedimento poderia trazer para a conscincia, de modo 
coerente e convincente, os detalhes de uma cena dessa natureza, experimentada e compreendida em tais circunstncias'.
         Esta ltima  simplesmente uma questo de fato. Qualquer um que se d ao trabalho de acompanhar uma anlise em tal profundidade, por meio da tcnica prescrita, 
convencer-se- de que  decididamente possvel. Quem quer que omita isso e interrompa a anlise em algum estrato mais elevado, ter renunciado ao seu direito de 
formar um juzo sobre o assunto. Mas a interpretao daquilo a que se chegou numa anlise profunda no se decide por esse dado.
         As outras dvidas baseiam-se numa baixa estimativa da importncia das primitivas impresses infantis e na recusa a atribuir-lhes efeitos to duradouros. 
Os que apiam esse ponto de vista procuram as causas das neuroses quase exclusivamente nos graves conflitos da vida posterior; presumem que a importncia da infncia 
s se mostra diante dos nossos olhos, durante a anlise, por causa da tendncia dos neurticos para expressarem os seus interesses presentes em reminiscncias e 
smbolos do passado remoto. Tal estimativa da importncia do fator infantil implicaria no desaparecimento de muito daquilo que fez parte das caractersticas mais 
ntimas da anlise, embora tambm, sem dvida, de muito daquilo que lhe oferece resistncia e aliena a confiana do intruso.
         A concepo, portanto, que estamos colocando em discusso  a que se segue. Sustenta que cenas da primitiva infncia, tais como as que so construdas por 
uma anlise exaustiva das neuroses (como, por exemplo, no presente caso), no so reprodues de ocorrncias reais, s quais seja possvel atribuir uma influncia 
sobre o curso da vida posterior do paciente e sobre a formao dos seus sintomas. Considera-as, antes, como produtos da imaginao, que encontram estmulo na vida 
dura, que pretendem servir como uma espcie de representao simblica dos verdadeiros desejos e interesses e que devem sua origem a uma tendncia regressiva, a 
uma fuga das incumbncias do presente. Se assim , podemos certamente poupar-nos a necessidade de atribuir uma substncia to surpreendente  vida mental e capacidade 
intelectual de crianas da mais tenra idade.
         Alm do desejo, que todos compartilhamos, de racionalizar e simplificar o nosso difcil problema, h toda uma gama de fatos que falam em favor dessa concepo. 
Tambm  possvel eliminar, de antemo, uma objeo que se lhe pode levantar, principalmente na mente de um analista em atividade. Deve-se admitir que, sendo correta 
essa concepo das cenas da infncia, o processo da anlise no seria, em primeiro lugar, alterado em nenhum aspecto. Se os neurticos so dotados da caracterstica 
prejudicial de desviar o seu interesse do presente e de vincul-lo a esses substitutos regressivos, os produtos da sua imaginao, ento o que h a fazer  seguir 
a sua trilha e trazer para a conscincia esses produtos inconscientes; pois, deixando de lado a sua ausncia de valor, do ponto de vista da realidade, so da mxima 
significao, do nosso ponto de vista, de vez que, no momento, so os portadores e possuidores do interesse que queremos libertar, de modo a conseguir dirigi-lo 
para as tarefas do presente. A anlise teria que seguir precisamente o mesmo curso, como se se tivesse uma f ingnua na verdade das fantasias. A diferena s apareceria 
no final da anlise, depois que as fantasias tivessem sido esvaziadas. Deveramos, ento, dizer ao paciente: 'Muito bem, a sua neurose ocorreu 
         
          voc tivesse recebido essas impresses e as tivesse prolongado detalhadamente na sua infncia. Voc v,  claro, que isso est fora de questo. Elas eram 
produtos da sua imaginao, destinadas a desvi-lo das verdadeiras tarefas que se apresentam diante de voc. Procuremos saber agora que tarefas eram essas e que 
linhas de comunicao existem entre elas e as suas fantasias.' Depois de utilizar as fantasias infantis dessa maneira, seria possvel iniciar uma segunda etapa do 
tratamento, que seria voltada para a vida real do paciente.
         Qualquer abreviamento desse processo, isto , qualquer alterao no tratamento psicanaltico, como tem sido praticado at agora, seria tecnicamente inadmissvel. 
A no ser que essas fantasias se tornem conscientes para o paciente, em seu significado mais pleno, ele no pode conseguir o comando do interesse que est ligado 
a elas. Se a sua ateno  desviada das fantasias, to logo a existncia e os contornos gerais destas so pressentidos, est-se dando simplesmente apoio ao trabalho 
de represso, graas ao qual essas fantasias foram postas alm do alcance do paciente, apesar de todo o seu sofrimento. Se este recebe uma noo prematura da no 
importncia das fantasias, ao ser informado, por exemplo, que tudo ser uma questo de fantasias, as quais certamente no tm significado real, jamais se conseguir 
a sua cooperao no processo de traz-las para a conscincia. Um procedimento correto, portanto, no far alterao na tcnica de anlise, qualquer que seja a estimativa 
que se possa formar a partir dessas cenas da infncia.
         J mencionei que existe uma srie de fatos que podem ser evocados em apoio  opinio de que essas cenas so fantasias regressivas. E, acima de todos, est 
este: at onde vai a minha experincia at este momento, essas cenas da infncia no so reproduzidas durante o tratamento como lembranas, so produtos de construo. 
Muitos acharo, certamente, que s o fato de admitir isso decide toda a disputa.
         Espero no ser mal compreendido. Todo analista sabe - e deparou com a experincia em inmeras ocasies - que no decorrer de um tratamento bem-sucedido o 
paciente traz  tona um grande nmero de recordaes espontneas da sua infncia, por cujo aparecimento (um primeiro aparecimento, talvez) o terapeuta se sente inteiramente 
no responsvel, j que no fez qualquer tentativa no sentido de uma construo que poderia haver colocado qualquer material desse tipo na cabea do paciente. O 
que no quer dizer, necessariamente, que essas lembranas anteriormente inconscientes so sempre verdadeiras. Elas podem ser verdadeiras; muitas vezes, porm, so 
distores da verdade, intercaladas de elementos imaginrios, tal como as assim chamadas lembranas encobridoras, que so preservadas espontaneamente. Tudo o que 
quero dizer  o seguinte: cenas, como as do meu paciente no presente caso, que datam de um perodo to prematuro e exibem um contedo semelhante, e que apresentam 
depois um significado to extraordinrio para o histrico do caso, no so, via de regra, reproduzidas como lembranas, mas tm que ser pressentidas - construdas 
- gradativa e laboriosamente a partir de um conjunto de indicaes. Ademais, seria suficiente para os propsitos da argumentao se o fato de eu admitir que cenas 
dessa natureza no se tornam conscientes sob a forma de lembranas, se aplicasse apenas aos casos de neurose obsessiva, ou at mesmo se limitasse minha afirmao 
ao caso que estamos estudando aqui.
         No entanto, no sou de opinio que essas cenas devam necessariamente ser fantasias, porque no reaparecem na forma de recordaes. Parece-me absolutamente 
equivalente a uma recordao, se as lembranas so substitudas (como no presente caso) por sonhos, cuja anlise conduz invariavelmente de volta  mesma cena, e 
que reproduzem cada parte do seu contedo numa inesgotvel variedade de novas formas, Na verdade, sonhar  outra maneira de lembrar, embora sujeita s condies 
que governam  noite e s leis da formao de sonhos.  essa recorrncia nos sonhos que considero como a explicao do fato de que os prprios pacientes adquirem 
gradativamente uma convico profunda da realidade dessas cenas primrias, uma convico que no , em nenhum aspecto, inferior  que se fundamenta na recordao.
         Para aqueles que assumem o ponto de vista oposto, no h naturalmente necessidade de abandonar sem esperana a sua luta contra tais argumentos.  por demais 
conhecido o fato de que os sonhos podem ser orientados. E o sentimento de convico experimentado pela pessoa analisada pode ser o resultado de sugesto,  qual 
se atribuem sempre novos papis no jogo de foras envolvidas no tratamento analtico. O psicoterapeuta antiquado, poder-se-ia dizer, costumava sugerir ao seu paciente 
que ele estava curado, que havia superado as suas inibies, e assim por diante; ao passo que o psicanalista, sob esse ponto de vista, sugere-lhe que, quando era 
criana, tivera essa ou aquela experincia, que deve agora ser lembrada com o objetivo de curar-se. Seria essa a diferena entre os dois.
         Entenda-se claramente que essa ltima tentativa de explicao, por parte daqueles que assumem uma concepo oposta  minha, resulta em serem as cenas da 
infncia utilizadas muito mais fundamentalmente do que o que se anunciou. Aquilo que se argumentou inicialmente foi no serem elas realidades, mas sim fantasias. 
Contudo, o que se argumenta agora , evidentemente, serem fantasias, no do paciente, mas sim do prprio analista, que a fora sobre a pessoa que analisa em virtude 
de determinados complexos seus. Na verdade, um analista que escuta essa reprimenda confortar-se- a si mesmo recordando o quo gradativamente veio  tona a construo 
dessa fantasia, que se supe ter ele prprio originado, e, quando tudo estava dito e feito, o modo como ocorreram independentemente do incentivo do terapeuta muitos 
pontos do seu desenvolvimento; como, aps determinada fase do tratamento, tudo parecia convergir para essa fantasia, e como mais tarde, na sntese, os mais variados 
e notveis resultados irradiaram-se dela; o modo como no apenas os grandes problemas, mas tambm as menores peculiaridades no histrico do caso, foram esclarecidos 
mediante essa nica hiptese. E ele negar a posse da quantidade de ingenuidade necessria para tramar uma ocorrncia que possa preencher todos esses requisitos. 
Mas mesmo esse argumento no ter efeito sobre um adversrio que no experimentou por si prprio a anlise. Por um lado, haver uma carga de autodesiluso sutil 
e, por outro, de obtusidade de julgamento; ser impossvel chegar a uma deciso.
         Voltemo-nos para outro fator que apia essa concepo oposta das cenas construdas da infncia.  o seguinte: no pode haver dvidas quanto  existncia 
real de todos os processos que foram expostos com a finalidade de explicar essas estruturas duvidosas como fantasias, e sua importncia deve ser reconhecida. O desvio 
de interesse, das incumbncias da vida real, a existncia de fantasias na qualidade de substitutos de aes no realizadas, a tendncia regressiva que se expressa 
nesses produtos - regressiva em mais de um sentido, na medida em que esto envolvidos simultaneamente um recuo diante da vida e um retorno ao passado -, todas essas 
coisas se confirmam, so regularmente confirmadas pela anlise. Poder-se-ia pensar que seriam tambm suficientes para explicar as supostas reminiscncias da primitiva 
infncia que esto em discusso; e, de acordo com o princpio de economia na cincia, tal explicao levaria vantagem sobre outra que  inadequada sem o apoio de 
novas e surpreendentes hipteses.
         Arriscar-me-ia aqui a assinalar que as concepes antagnicas que se encontram na literatura psicanaltica atual so geralmente elaboradas segundo o princpio 
do pars pro toto. De uma combinao altamente composta, uma parte dos fatores operativos  destacada e proclamada como a verdade; e, em seu fator, contradiz-se ento 
a outra parte, junto com toda a combinao. Se observamos um pouco mais de perto, para verificar a que grupo de fatores foi dada preferncia, descobriremos ser aquele 
que contm material j conhecido de outras fontes ou aquele que pode mais facilmente ser relacionado com esse material. Desse modo, Jung seleciona atualidade e regresso, 
e Adler, motivos egostas. O que  deixado de lado, no entanto, e rejeitado como falso,  precisamente o que  novo em psicanlise e peculiar a esta. Este  o mtodo 
mais fcil de repelir os progressos revolucionrios e inconvenientes da psicanlise.
         Vale a pena observar que nenhum dos fatores citados pela opinio contrria com a finalidade de explicar essas cenas da infncia, teve que aguardar reconhecimento 
at que Jung os exps como novidade. A noo de um conflito corrente, de uma fuga da realidade, de uma satisfao substitutiva obtida na fantasia, de uma regresso 
ao material do passado - tudo isso (empregado, ademais, no mesmo contexto, embora talvez com uma terminologia ligeiramente diferente) h anos fazia parte integral 
da minha prpria teoria. Contudo, no a formava inteiramente. Era apenas uma parte das causas que levam  formao de neuroses - aquela parte que, partindo da realidade, 
opera numa direo regressiva. Paralelamente a isso, deixei espao para outra influncia que, a partir das impresses da infncia, opera numa direo futura, que 
aponta um caminho para a libido que se retrai diante da vida e que torna possvel compreender a de outro modo inexplicvel regresso  infncia. Assim, na minha 
concepo, os dois fatores cooperam na formao de sintomas. H, porm, uma cooperao anterior que me parece ser de igual importncia. Sou de opinio que a influncia 
da infncia j se faz sentir na situao com que se inicia a formao de uma neurose, de vez que desempenha um papel decisivo na ao de determinar se, e em que 
ponto, o indivduo deixa de dominar os verdadeiros problemas da vida.
         O que est em discusso, portanto,  a significao do fator infantil. O problema  encontrar um caso que possa estabelecer essa significao para alm 
de qualquer dvida. No entanto,  esse o caso que est sendo exposto de modo to exaustivo nestas pginas e que se distingue pela caracterstica de que a neurose 
da vida adulta foi precedida por uma neurose nos primeiros anos da infncia. Foi exatamente por essa razo, na verdade, que o escolhi para ser relatado. Se algum 
se sentir inclinado a recus-lo porque a fobia animal no lhe parece suficientemente sria para ser reconhecida como uma neurose independente, devo dizer que a fobia 
foi sucedida, sem qualquer intervalo, por um cerimonial obsessivo, por atos e idias obsessivos, que sero discutidos nas partes seguintes deste artigo.
         A ocorrncia de um distrbio neurtico no quarto e no quinto ano da infncia prova, antes de mais nada, que as experincias infantis so por si prprias 
capazes de produzir uma neurose, sem que haja necessidade de acrescentar-se a fuga de alguma tarefa a ser enfrentada na vida real. Pode-se objetar que mesmo uma 
criana confronta-se constantemente com obrigaes s quais gostaria, talvez, de evadir-se. E assim ; mas a vida de uma criana em idade pr-escolar  facilmente 
observvel e podemos examin-la para verificar se nela existem quaisquer 'obrigaes' capazes de determinar a causao de uma neurose. S descobrimos, porm, impulsos 
instintuais que a criana no consegue satisfazer, no tendo idade suficiente para domin-los, e as fontes das quais se originam esses impulsos.
         Como seria de esperar, a enorme reduo do intervalo entre o afloramento da neurose e a data das experincias infantis que estamos expondo restringe aos 
limites mais estreitos a parte regressiva da causao, ao passo que faz surgir plenamente a parte que opera em direo avanada, a influncia das impresses anteriores. 
O presente caso clnico dar, espero, um quadro claro dessa situao. Existem, todavia, outros motivos pelos quais as neuroses da infncia do uma resposta decisiva 
 questo da natureza das cenas primrias - as primeiras experincias da infncia que so trazidas  luz pela anlise.
         Suponhamos, como premissa incontestada, que uma cena primria dessa natureza tenha sido corretamente eduzida do ponto vista tcnico, que seja indispensvel 
para uma soluo inclusiva de todos os enigmas colocados pelos sintomas do distrbio infantil, que todas as conseqncias irradiem dela, assim como todas as linhas 
da anlise conduziram a ela. Ento, em face de seu contedo,  impossvel que possa ser outra coisa alm da reproduo de uma realidade experimentada pela criana. 
Pois a criana, como o adulto, s pode produzir fantasias a partir do material que foi adquirido, de uma fonte ou de outra; e para as crianas, alguns dos meios 
de adquiri-lo (lendo, por exemplo) so excludos, ao passo que o espao de tempo disponvel para a aquisio  curto e pode facilmente ser explorado com vistas  
descoberta de quaisquer dessas fontes.
         No caso presente, o contedo da cena primria  um quadro de relaes sexuais entre os pais do menino, numa postura particularmente favorvel a determinadas 
observaes. Agora, no seria evidncia do que quer que fosse da realidade de tal cena, se a encontrssemos em um paciente cujos sintomas (isto , os efeitos da 
cena) tivessem aparecido num ou noutro perodo da sua vida posterior. Uma pessoa como esta poderia ter adquirido as impresses, as idias e o conhecimento em muitas 
ocasies diferentes no decorrer do longo intervalo; poderia, depois, hav-los transformado num quadro imaginrio, projetado na infncia, relacionando-os com seus 
pais. Se, no entanto, os efeitos de uma cena desse tipo aparecem numa criana de quatro ou cinco anos, ento esta deve ter testemunhado a cena ainda mais precocemente. 
Mas, nesse caso, ainda nos defrontamos com todas as conseqncias desconcertantes que surgiram da anlise dessa neurose infantil. A nica sada seria presumir que 
o paciente no apenas imaginou inconscientemente a cena primria, mas tambm forjou a alterao no seu carter, o medo ao lobo e a obsesso religiosa; tal expediente, 
porm, seria desmentido pela sua natureza em outros aspectos sbria e pela tradio direta em sua famlia. S pode haver, portanto, uma concluso (no vejo outra 
possibilidade): ou a anlise baseada na neurose de sua infncia  toda ela uma seqncia de absurdo, do princpio ao fim, ou tudo aconteceu exatamente como descrevi 
acima.
         Numa etapa anterior da exposio que fazemos [ver em [1]], deparamo-nos com uma ambigidade em relao  predileo do paciente por ndegas femininas e 
pelo ato sexual na postura em que estas ficam particularmente proeminentes. Parecia necessrio atribuir essa predileo  relao sexual que observara entre os pais, 
ao passo que, ao mesmo tempo, uma preferncia desse tipo  uma caracterstica geral de constituies arcaicas predispostas a uma neurose obsessiva. Mas a contradio 
 facilmente resolvida se a consideramos um caso de superdeterminao. A pessoa a quem observou nessa postura durante o ato sexual era, afinal de contas, o seu pai, 
e pode tambm ter sido dele que herdou essa predileo constitucional. Nem a posterior enfermidade do pai nem a histria da famlia contradizem isso; como j foi 
mencionado, um irmo do seu pai morreu numa condio que deve ser considerada como resultado de um grave distrbio obsessivo.
         Em relao a isso podemos lembrar que, na poca da sua seduo, quando tinha trs anos e um quarto, a irm proferira uma grande calnia contra a sua boa 
e velha bab, dizendo que tivera contato com toda espcie de homens, mantendo-lhes a cabea em posio vertical e pegando-lhes nos rgos genitais (ver em [1]). 
No podia deixar de nos ocorrer a idia de que talvez a irm, em idade mais ou menos como a sua, tambm tenha testemunhado a mesma cena observada depois pelo irmo 
e isso lhe tenha sugerido a noo de 'manter em p a cabea das pessoas' durante o ato sexual. Essa hiptese forneceria tambm uma sugesto do motivo da sua prpria 
precocidade sexual.
         [Originalmente eu no tinha inteno de desenvolver ainda mais, nesta passagem, a exposio da realidade das 'cenas primrias'. Contudo, de vez que, entrementes, 
tive ocasio, em minhas Conferncias Introdutrias sobre Psicanlise [1916-17, Conferncia XXIII], de tratar do assunto em linhas mais gerais e sem objeto de controvrsia, 
seria enganoso se me omitisse de aplicar as consideraes que determinaram essa outra exposio da matria ao caso que ora se apresenta diante de ns. Continuo, 
portanto, como se segue,  guisa de complemento e retificao: resta ainda a possibilidade de tomar outra perspectiva da cena primria subjacente ao sonho - uma 
perspectiva que torna evidente em grande medida a concluso a que chegamos antes e alivia-nos de muitas das nossas dificuldades. Mas a teoria que procura reduzir 
as cenas da infncia ao nvel de smbolos regressivos, em nada ganhar, mesmo com essa modificao; e, com efeito, tal teoria parece-me ser, afinal, livremente utilizada 
por esta (como seria por qualquer outra) anlise de uma neurose infantil.
         Essa outra perspectiva que tenho em mente  a de que a situao pode ser explicada da seguinte maneira. Certamente no podemos dispensar a hiptese de que 
o menino observou uma cpula, cuja viso lhe deu a convico de que a castrao podia ser algo mais do que uma ameaa vazia. Ademais disso, o significado que ele 
posteriormente veio a relacionar com as posturas de homem e mulher, em conexo com o desenvolvimento da ansiedade, por um lado, e como condio da qual dependia 
o seu apaixonar-se, por outro, no nos d outra alternativa seno concluir que deve ter sido um coitus a tergo, more ferarum. H, porm, outro fator que no  insubstituvel 
e pode ser relegado. Talvez o que o menino observou no tenha sido uma cpula entre os pais, mas entre animais, que depois transferiu para os primeiros, como se 
tivesse deduzido que seus pais faziam as coisas do mesmo modo.
         Acima de tudo, o que d cor a essa viso  o fato de que os lobos do sonho eram, na realidade, ces pastores e, alm disso, aparecem como tais no desenho. 
Pouco antes do sonho, o menino foi levado repetidas vezes a visitar os rebanhos de ovelhas [ver em [1]] e l pode ter visto justamente esses grandes cachorros brancos, 
e provavelmente tambm os viu copular. Gostaria de introduzir tambm nesta conexo o nmero trs, a que o paciente se referiu sem qualquer outro motivo [ver em [1]], 
e eu sugeriria que ele guardou na memria o fato de haver feito trs observaes dessa espcie, com os ces. O que sobreveio durante a excitao da expectativa, 
na noite do sonho, foi a transferncia para os pais, da sua imagem de memria recentemente adquirida, com todos os detalhes, e s assim se tornaram possveis os 
poderosos efeitos emocionais que se seguiram. Chegou ento a uma compreenso preterida das impresses que pode ter recebido algumas semanas ou meses antes - um processo 
pelo qual todos ns talvez tenhamos passado, em nossas prprias experincias. A transferncia para os pais dos ces copulando no foi cumprida por meio de uma inferncia 
acompanhada de palavras, mas por ter procurado em sua memria uma cena real, na qual os pais estivessem juntos e que pudesse coadunar-se com a situao da cpula. 
Todos os detalhes da cena que foram estabelecidos na anlise do sonho puderam ser exatamente reproduzidos. Foi realmente numa tarde de vero, quando o menino estava 
sofrendo de malria, os pais estavam ambos presentes, vestidos de branco, que a criana despertou do seu sono, mas - a cena era inocente. O resto fora acrescentado 
pelo subseqente desejo do menino curioso, baseado na sua experincia com os ces, para testemunhar tambm os pais fazendo amor; e a cena assim imaginada produziu 
ento todos os efeitos que arrolamos, tal como se tivesse sido inteiramente real e no o resultado da fuso de dois componentes, um anterior e indiferente, o outro 
posterior e profundamente impressivo.
         De imediato, torna-se bvio a quanto se reduzem as exigncias  nossa credulidade. No precisamos mais supor que os pais mantiveram relaes na presena 
do filho (ainda muito pequeno,  verdade) - o que era uma idia desagradvel para muitos de ns. O perodo de tempo durante o qual os efeitos foram preteridos fica 
bastante diminudo; agora cobre apenas alguns meses do quarto ano da criana e no recua para dentro dos obscuros primeiros anos da infncia. Pouco resta de estranho 
na conduta do menino ao fazer a transferncia dos ces para os pais, e ao sentir medo do lobo, em vez de sentir medo do pai. Estava naquela fase do desenvolvimento 
de sua atitude em relao ao mundo, que descrevi em Totem e Tabu [1912-13, Ensaio IV] como o retorno do totemsmo. A teoria que procura explicar as cenas primrias 
encontradas nas neuroses como fantasias retrospectivas de data posterior parece obter um poderoso apoio da presente observao, apesar de o nosso paciente ter apenas 
quatro anos. Novo como era, ainda assim conseguiu substituir uma impresso, recebida aos quatro anos, por um trauma imaginrio, com a idade de um ano e meio. Essa 
regresso, no entanto, no parece misteriosa nem tendenciosa. A cena que seria inventada tinha que preencher determinadas condies que, em conseqncia das circunstncias 
de vida do sonhador, s poderiam ser encontradas precisamente nesse perodo primitivo; tal era, por exemplo, a condio de que deveria estar na cama, no quarto dos 
pais.
         Algo que posso aduzir das descobertas analticas em outros casos parecer, contudo,  maioria dos leitores, ser o fator decisivo a favor da correo do 
ponto de vista aqui proposto. Os incidentes de observao de relaes sexuais entre os pais em idade muito precoce (quer sejam verdadeiras lembranas, ou fantasias) 
no so, de fato, nenhuma raridade em anlises de neurticos. Possivelmente no so menos freqentes entre aqueles que no so neurticos. Possivelmente fazem parte 
do depsito regular - consciente ou inconsciente - de suas lembranas. Mas sempre que consegui desentranhar, por meio da anlise, uma cena dessa natureza, ela mostrou 
a mesma peculiaridade, que nos surpreendeu, tambm, com o paciente em questo: relacionava-se com um coitus a tergo, o qual, por si, oferece ao espectador a possibilidade 
de examinar os genitais. Certamente no h mais necessidade de duvidar que estamos lidando apenas com uma fantasia, que nasceu talvez da observao de relaes sexuais 
de animais. E mais ainda: sugeri que minha descrio da 'cena primria' ficou incompleta, porque reservei para um momento posterior o relato do modo pelo qual o 
menino interrompeu a relao entre os pais. Devo acrescentar agora que essa forma de interrupo  sempre a mesma, em todos os casos.
         Inclino-me a acreditar que me expus a graves acusaes, da parte dos leitores deste caso clnico. Se esses argumentos em favor de tal viso da cena primria 
estavam  minha disposio, como pude assumir, no comeo, uma perspectiva que parecia to absurda? Ou fiz essas novas observaes, que me obrigaram a alterar a minha 
opinio original, no intervalo entre o primeiro esboo do caso clnico e este acrscimo, e hesito, por essa ou aquela razo, em admitir o fato? Em vez disso, admitirei 
algo mais: pretendo, nesta oportunidade, encerrar a discusso da realidade da cena primria com um non liquet. Este caso clnico ainda no chegou ao fim; no curso 
do seu desenvolvimento surgir um fator que ir abalar a certeza de que parecemos desfrutar no momento. Nada restar ento, julgo eu, a no ser referir aos meus 
leitores os trechos das Conferncias Introdutrias nos quais tratei do problema das fantasias primitivas ou das cenas primrias.]
         
         VI - A NEUROSE OBSESSIVA
         
         Agora, pela terceira vez, o paciente sofreu uma nova influncia, que deu um rumo decisivo ao seu desenvolvimento. Quando estava com quatro anos e meio de 
idade, e seu estado de irritabilidade e preocupao no havia ainda melhorado, a me determinou-se a familiariz-lo com a histria da Bblia, na esperana de distra-lo 
e anim-lo. Nesse sentido, foi bem-sucedida; a iniciao religiosa do menino deu fim  fase anterior, mas, ao mesmo tempo, fez com que os sintomas da ansiedade fossem 
substitudos por sintomas obsessivos. At ento no conseguia conciliar o sono facilmente porque tinha medo de ter maus sonhos, como o que tivera naquela noite antes 
do Natal; agora era obrigado, antes de ir para a cama, a beijar todas as imagens sagradas que havia no quarto, a dizer oraes e a fazer incontveis vezes o sinal-da-cruz, 
em si mesmo e sobre a sua cama.
         A sua infncia ajusta-se agora, claramente, nos seguintes perodos: primeiro, o perodo que se estende at a seduo, aos trs anos e um quarto, durante 
o qual teve lugar a cena primria; segundo, o perodo da alterao em seu carter, at o sonho de ansiedade (quatro anos de idade); terceiro, o perodo da fobia 
animal, at a iniciao religiosa (quatro anos e meio); e da em diante, o perodo da neurose obsessiva, at uma poca posterior aos seus dez anos. Que tenha havido 
um deslocamento instantneo e definido de uma fase para a seguinte,  algo que no se ajusta  natureza das coisas ou ao nosso paciente; pelo contrrio, a preservao 
de tudo o que se fora antes e a coexistncia dos mais diferentes tipos de correntes eram caractersticas dele. Sua impertinncia no desapareceu quando a ansiedade 
se instalou, e persistiu, com fora lentamente decrescente, durante o perodo de piedade religiosa. Contudo, j no havia qualquer trao da fobia de lobos durante 
essa ltima fase. A neurose seguiu seu curso descontinuadamente; o primeiro ataque foi o mais longo e o mais intenso, e outros sobrevieram quando estava com oito 
e com dez anos, seguindo-se, cada vez, a causas de excitao em relacionamento claro com o contedo da neurose.
         A prpria me contou-lhe a histria sagrada e tambm fez com que sua Nanya lesse em voz alta para o menino trechos de um livro adornado com ilustraes. 
Naturalmente, a nfase narrativa era posta sobre a histria da Paixo. A bab, que era muito pia e supersticiosa, acrescentava  histria os seus prprios comentrios, 
mas era tambm obrigada a ouvir todas as objees e dvidas do pequeno crtico. Se as batalhas que ento comearam a convulsionar-lhe a mente acabaram afinal numa 
vitria da f, a influncia da Nanya no deixou de ter sua participao nesse resultado.
         O que ele me relatou como recordao das suas reaes a essa iniciao foi recebido por mim, de incio, com completa descrena. Era impossvel, achei eu, 
que fossem estes os pensamentos de uma criana de quatro anos e meio ou cinco; provavelmente, remetera a esse passado remoto as idias nascidas da reflexo de um 
adulto de trinta anos. O paciente, contudo, no ouviria essa correo; no consegui convenc-lo, como aconteceu em tantas outras diferenas de opinio entre ns; 
e, afinal, a correspondncia entre os pensamentos que recordara e os sintomas dos quais me deu detalhes, bem como o modo pelo qual as idias se ajustavam ao seu 
desenvolvimento sexual, compeliram-me, pelo contrrio, a acreditar nele. E, refleti, ento, achando que essa mesma crtica s doutrinas religiosas, que eu relutava 
em atribuir a uma criana, s era atingida por uma minoria infinitesimal de adultos.
         Vou expor agora o material das suas recordaes, e s depois tentarei encontrar um caminho que possa levar  explicao das mesmas.
         Para comear, a impresso que ele recebeu da histria sagrada no era, de modo algum, agradvel, conforme relatou. Em primeiro lugar, ops-se tenazmente 
ao aspecto de sofrer na figura de Cristo e, depois, contra a Sua histria como um todo. Voltou seu descontentamento crtico contra Deus Pai. Se era todo-poderoso, 
ento era culpa Dele se os homens eram maus e atormentavam os outros e eram mandados para o Inferno por causa disso. Ele devia t-los feito bons; Ele prprio era 
responsvel por toda a maldade e todos os tormentos. Tambm fez objees ao fato de que devemos voltar a outra face, se nos batem no lado direito, e ao fato de que 
Cristo desejara, na Cruz, que o clice Lhe pudesse ser tirado, bem como ao fato de que no ocorrera nenhum milagre para provar que era Filho de Deus. Assim, sua 
perspiccia estava alerta, e era capaz de descobrir, com severidade e sem remorso, os pontos fracos da narrativa sagrada.
         A essa crtica racionalista, porm, em breve juntaram-se ruminaes e dvidas, o que nos revela que nele tambm operavam impulsos ocultos. Uma das primeiras 
perguntas que fez  sua Nanya foi se Cristo tambm havia tido um traseiro. A bab respondeu-lhe que ele fora um deus e tambm um homem. Como homem, tivera e fizera 
as mesmas coisas que os outros homens. Isso no satisfez de modo algum o menino, mas ele conseguiu encontrar o seu prprio consolo, dizendo a si mesmo que o traseiro, 
na verdade,  apenas uma continuao das pernas. Mal conseguira pacificar seu medo de ter humilhado a figura sagrada, quando o temor novamente se acendeu ao surgir 
a questo de saber se Cristo tambm costumava defecar. No se arriscou a fazer essa pergunta  piedosa bab, mas encontrou por si uma sada, e ela no poderia t-la 
achado melhor. De vez que Cristo fizera vinho de nada, tambm podia transformar a comida em nada e, dessa forma, no precisava defecar.
         Ficaremos em melhor posio para compreender essas ruminaes se voltarmos a uma fase do seu desenvolvimento sexual que j mencionamos. Sabemos que, depois 
da recusa da sua Nanya [ver em [1] e seg.] e a conseqente supresso do incio da atividade genital, a vida sexual do menino desenvolveu-se na direo do sadismo 
e do masoquismo. Maltratava e atormentava pequenos animais, imaginava-se batendo em cavalos e, por outro lado, imaginava o herdeiro ao trono sendo espancado. No 
seu sadismo, mantinha a antiga identificao com o pai; mas, no masoquismo, escolhia-o como objeto sexual. Aprofundava-se numa fase da organizao pr-genital que 
considero como predisposio  neurose obsessiva. A operao do sonho, que o colocou sob a influncia da cena primria, podia t-lo levado a fazer o avano no sentido 
da organizao genital e a transformar o masoquismo em relao ao pai numa atitude feminina, ou seja, em homossexualismo. O sonho, contudo, no provocou esse avano; 
terminou em estado de ansiedade. Poder-se-ia esperar que sua relao com o pai prosseguisse, do objetivo sexual de ser espancado para o objetivo seguinte, ou seja, 
o de ser possudo por ele, como uma mulher; mas, na verdade, devido  oposio da sua masculinidade narcsica, essa relao foi lanada de volta para uma etapa ainda 
mais primitiva. Foi deslocada para um substituto paterno e, ao mesmo tempo, dissociada na forma de um medo de ser comido pelo lobo. No entanto, isso de forma alguma 
a resolveu. Pelo contrrio, s podemos fazer justia  aparente complexidade da situao tendo em mente a coexistncia de trs tendncias sexuais do menino em relao 
ao pai. A partir da poca do sonho, em seu inconsciente ele era homossexual e, em sua neurose, estava no nvel do canibalismo; ao passo que a atitude anterior, masoquista, 
continuou a ser a dominante. Todas as trs correntes tinham propsitos sexuais passivos; era o mesmo objeto e o mesmo impulso sexual, mas esse impulso tornara-se 
dividido ao longo dos trs diferentes nveis.
         O conhecimento que tinha ento da histria sagrada no lhe dava oportunidade de sublimar a sua atitude masoquista predominante em relao ao pai. O menino 
transformou-se em Cristo - o que se tornou particularmente fcil para ele em virtude da coincidncia dos aniversrios. Assim, transformou-se em algo grande e tambm 
(fato ao qual no foi dado o devido destaque) num homem. Surpreendemos um lampejo da sua atitude homossexual reprimida na dvida em relao ao fato de Cristo ter 
um traseiro, pois essas ruminaes no podem ter outro significado seno a questo de poder ele prprio ser usado pelo pai como uma mulher - como a me na cena primria. 
Quando chegamos  soluo das outras idias obsessivas, encontramos essa interveno confirmada. Sua idia de que era insultuoso relacionar a figura sagrada com 
tais insinuaes, correspondia  represso do seu homossexualismo passivo. Perceba-se que ele estava empenhando-se em conservar sua nova sublimao livre da mistura 
que esta derivava de fontes na matria reprimida. Mas no teve xito.
         No compreendemos at agora por que se rebelou tambm contra o carter passivo de Cristo e contra o tratamento recebido de seu Pai e, desse modo, comeou 
tambm a renunciar ao seu ideal masoquista anterior, mesmo em sua sublimao. Podemos supor que esse segundo conflito era particularmente favorvel ao afloramento 
de pensamentos obsessivos humilhantes do primeiro conflito (entre a corrente masoquista, dominante, e a homossexual, reprimida), pois  natural que, num conflito 
mental, todas as correntes, de um lado ou de outro, se combinem uma com a outra, mesmo que tenham as mais diferentes origens. Algumas informaes recentes do-nos 
o motivo dessa revolta e, ao mesmo tempo, das crticas que dirigia  religio.
         Tambm as suas pesquisas sexuais ganharam algo com o que ele aprendeu sobre a histria sagrada. At ento no havia tido motivos para supor que as crianas 
s provinham de mulheres. Pelo contrrio, a Nanya fizera-lhe crer que ele era filho do pai, enquanto a irm era de me [ver em [1]]; essa ligao mais estreita com 
o pai fora muito preciosa para ele. Agora sabia que Maria era chamada a Me de Deus. Assim, todas as crianas vinham de mulheres e o que a bab lhe dissera tornou-se 
insustentvel. De mais a mais, como resultado do que lhe contaram, ficou confuso acerca de quem verdadeiramente era o pai de Cristo. Inclinava-se a pensar que era 
Jos, pois soube que ele e Maria sempre viveram juntos, mas a bab disse que Jos era apenas 'como' um pai, e que o verdadeiro pai era Deus. Nada conseguia concluir 
da. Compreendia apenas isto: se era uma questo absolutamente discutvel, ento a relao entre pai e filho no poderia ser to ntima como sempre imaginara que 
fosse.
         O menino tinha uma certa suspeita dos sentimentos ambivalentes em relao ao pai, que so um fator subjacente a todas as religies, e atacava a religio 
por causa do afrouxamento implcito nessa relao entre pai e filho. Naturalmente, em breve a sua oposio deixou de assumir a forma de dvidas quanto  verdade 
da doutrina e, em vez disso, voltou-se diretamente contra a figura de Deus. Deus tratara o Filho spera e cruelmente, mas no era melhor em relao aos homens; sacrificara 
o prprio Filho e ordenara a Abrao que fizesse o mesmo. Comeou a temer Deus.
         Se ele era Cristo, ento o seu pai era Deus. Mas o Deus que a religio lhe impunha no era um verdadeiro substituto para o pai que amara e que no desejava 
lhe fosse roubado. O amor por esse pai deu-lhe agudeza crtica. Resistia a Deus com a finalidade de conseguir agarrar-se ao pai; e, ao agir assim, estava na verdade 
defendendo o velho pai contra o novo. Estava diante da parte penosa do processo de desligar-se do pai.
         O antigo amor pelo pai, que se tornara manifesto no primeiro perodo, era, portanto, a fonte da sua energia na luta contra Deus e da sua agudeza ao criticar 
a religio. Por outro lado, porm, essa hostilidade para com o novo Deus no era tampouco uma reao original; tivera o prottipo num impulso hostil contra o pai, 
que passara a existir sob a influncia do sonho de ansiedade, e era, no fundo, apenas uma revivescncia desse impulso. As duas correntes opostas de sentimento, que 
iriam governar a totalidade da sua vida posterior, encontraram-se aqui na luta ambivalente quanto  questo religiosa. Seguiu-se, alm do mais, que o que essa luta 
produziu em forma de sintomas (as idias blasfemadoras, a compulso que o dominava de pensar 'Deus - merda', 'Deus - porco') foram genunos produtos de conciliao, 
como veremos na anlise dessas idias em conexo com seu erotismo anal.
         Alguns outros sintomas obsessivos, de natureza menos tpica, apontavam com igual certeza para o pai, mostrando ao mesmo tempo a ligao entre a neurose 
obsessiva e as ocorrncias anteriores.
         Uma parte do ritual piedoso, por meio do qual expiava eventualmente as suas blasfmias, era respirar de maneira cerimoniosa em determinadas condies. Cada 
vez que fazia o sinal-da-cruz, obrigava-se a inspirar profundamente ou a expirar energicamente. Na lngua do seu pas, 'respirao' e 'esprito' so a mesma palavra, 
de modo que foi a que entrou o Esprito Santo. Era obrigado a inspirar o Esprito Santo, ou a expirar os maus espritos sobre os quais ouvira ou lera. Atribua 
tambm a esses espritos os pensamentos blasfemos pelos quais tinha que infligir a si mesmo to pesadas penitncias. Era tambm, contudo, obrigado a expirar quando 
via mendigos, ou aleijados, ou pessoas feias, velhas ou de aparncia miservel; mas no conseguia pensar numa forma de ligar essa obsesso com os espritos. O nico 
motivo que podia dar a si mesmo era o de que agia assim para no ficar como essas pessoas.
         Finalmente, em conexo com um sonho, a anlise trouxe  tona a informao de que o ato de expirar diante da viso de pessoas aparentemente dignas de d 
s comeara aps os seis anos e relacionava-se com o pai. No via seu pai h muitos meses quando, um dia, sua me disse que ia levar as crianas  cidade e mostrar-lhes 
algo que muito lhes agradaria. Levou-os ento a um sanatrio e eles viram o pai outra vez; parecia doente e o menino sentiu muita pena dele. O pai era, assim, o 
prottipo de todos os aleijados, mendigos e gente miservel em cuja presena era obrigado a expirar; tal como o pai  o prottipo dos demnios que as pessoas vem 
quando em estado de ansiedade, e das caricaturas desenhadas para escarnecer de algum. Saberemos adiante (ver em [1] e [2]) que essa atitude de compaixo era derivada 
de um determinado detalhe da cena primria, detalhe que s se tornou operativo na neurose obsessiva nesse momento tardio.
         Desse modo, sua determinao de no ficar como os aleijados (motivo pelo qual expirava na presena destes) era a antiga identificao com o pai transformada 
em negativo. Mas, ao faz-lo, estava tambm imitando o pai no sentido positivo, pois a respirao pesada era uma imitao do rudo que ouvira, vindo do pai, durante 
a relao sexual. Derivava o Esprito Santo dessa manifestao da excitao sensual masculina. A represso havia convertido essa respirao num mau esprito, o qual 
tinha tambm uma outra genealogia: ou seja, a malria [ver em [1]] de que estava sofrendo por ocasio da cena primria.
         A rejeio desses maus espritos correspondia a um inequvoco esforo de ascetismo, que tambm encontrou expresso em outras reaes. Quando soube que Cristo, 
certa vez, havia lanado alguns espritos maus numa manada de porcos, que depois se arremessaram de um precipcio, pensou como sua irm, numa poca recuada da infncia, 
rolara para a praia de um penhasco acima do ancoradouro. Ela tambm era um esprito mau, uma porca. Da para 'Deus - porco' o caminho foi curto. O prprio pai demonstrara 
que no era mais que um escravo da sensualidade. Quando lhe contaram a histria do primeiro homem, impressionou-se com a semelhana do seu destino com o de Ado. 
Em conversa com sua Nanya, manifestou uma hipcrita surpresa diante do fato de Ado ter permitido ser arrastado  desgraa por uma mulher, e prometeu-lhe jamais 
casar-se. A hostilidade em relao s mulheres, devida  seduo pela irm, encontrou intensa expresso nesse perodo. E estava destinada a perturb-lo muitas vezes 
na sua vida ertica posterior. A irm veio a ser, para ele, a encarnao permanente da tentao e do pecado. Depois que se confessava, sentia-se puro e livre do 
pecado. Mas, depois, parecia-lhe que era como se a irm estivesse esperando para arrast-lo novamente ao pecado e, em questo de momentos, provocava uma briga com 
ela, o que o tornava outra vez pecaminoso. Assim, era obrigado a continuar reproduzindo, muitas e muitas vezes, o evento da sua seduo. Ademais, nunca declarou 
em suas confisses os pensamentos blasfemos, embora pesassem tanto em sua mente.
         Fomos levados, sem querer,  considerao dos sintomas dos anos posteriores da neurose obsessiva; portanto, passaremos por cima do perodo intermedirio 
e procederemos  descrio do seu trmino. J sabemos que, alm da sua fora permanente, essa neurose passava por intensificaes ocasionais: uma vez - embora o 
episdio, no momento, permanea obscuro para ns -, por ocasio da morte de um menino que morava na mesma rua, com o qual conseguia identificar-se. Quando estava 
com dez anos, teve um tutor alemo, que em tempo obteve grande influncia sobre ele.  muito instrutivo observar que toda a sua piedade estrita desapareceu, para 
no mais renascer, depois que percebeu e soube, atravs de conversas esclarecedoras com seu tutor, que este substituto paterno no dava qualquer importncia s atividades 
pias, nem atribua qualquer valor  verdade religiosa. Sua piedade sumiu junto com a dependncia do pai, que foi ento substitudo por outro, mais socivel. Isso 
no aconteceu, no entanto, sem uma ltima centelha da neurose obsessiva; lembrava-se particularmente da obsesso de ter que pensar na Santssima Trindade sempre 
que via trs montinhos de excrementos juntos, na estrada. Na verdade, jamais cedia a idias novas sem fazer uma ltima tentativa de se apegar quilo que perdera 
valor para ele. Quando o tutor o desencorajou de fazer crueldades com os animaizinhos, ele, de fato, ps um fim s suas malvadezas, mas no antes de ter mais uma 
vez cortado lagartas, para grande satisfao sua. Ainda se comportava da mesma maneira durante o tratamento psicanaltico, pois mostrava o hbito de produzir 'reaes 
negativas' transitrias; toda vez que algo havia sido esclarecido de forma conclusiva, tentava contradizer o efeito por algum tempo, agravando o sintoma que havia 
sido elucidado. Via de regra, como sabemos, as crianas lidam com as proibies do mesmo modo. Quando so repreendidas por algo (por exemplo, por estarem fazendo 
um barulho insuportvel), repetem-no uma vez mais depois da proibio, antes de parar. Dessa maneira, conseguem, ao mesmo tempo, parar aparentemente por vontade 
prpria e desobedecer a proibio.
         Sob a influncia do tutor alemo, surgiu uma nova e melhor sublimao do sadismo do paciente, o qual, com a aproximao da puberdade, dominara o seu masoquismo. 
Entusiasmou-se por assuntos militares, por uniformes, armas e cavalos, usando-os para alimentar contnuos devaneios. Assim, sob a influncia de um homem, libertara-se 
das suas atitudes passivas, encontrando-se, na poca, em vias razoavelmente normais. Foi por efeito tardio da sua afeio pelo tutor, que o deixou pouco depois, 
que passou a preferir, em perodos posteriores de sua vida, as coisas alems (como, por exemplo, os mdicos, os sanatrios, as mulheres) em vez daquelas que existiam 
na sua terra (representando o pai) - um fato que foi, incidentalmente, de grande vantagem para a transferncia durante o tratamento.
         Houve um outro sonho, que pertence ao perodo anterior  sua emancipao do tutor, e que menciono porque foi esquecido at surgir durante o tratamento. 
Viu-se a si prprio montando um cavalo e perseguido por uma gigantesca lagarta. Reconheceu nesse sonho uma aluso a outro, anterior, do perodo que precedeu o tutor, 
o qual havamos interpretado muito tempo antes. Nesse sonho anterior ele viu o Diabo, vestido de preto e na postura vertical com a qual o lobo e o leo, por sua 
vez, o haviam aterrorizado tanto. Ele estava apontando, com o dedo estendido, para uma lesma colossal. O paciente adivinhara prontamente que esse Diabo era o Demnio 
de um conhecido poema, e que o prprio sonho era uma verso de uma gravura muito popular, que representava o Demnio numa cena de amor com uma jovem. A lesma estava 
no lugar da mulher, sendo um perfeito smbolo sexual feminino. Guiados pelo gesto de apontar do Diabo, em breve conseguimos dar ao sonho o significado que o paciente 
esperava que algum lhe desse, os ltimos detalhes de informao que ainda estavam faltando ao enigma da relao sexual, tal como o pai lhe dera os primeiros na 
cena primria, muito tempo atrs.
         Em relao ao sonho posterior, no qual o smbolo feminino foi substitudo pelo masculino, ele se lembrou de um evento particular, ocorrido pouco tempo antes 
do sonho. Certo dia, cavalgando pela granja, passou por um campons que estava deitado, dormindo, com o filhinho ao lado. Este ltimo acordou o pai e disse-lhe qualquer 
coisa, ao que o pai comeou a injuriar o paciente e a persegui-lo, at que este se afastou s pressas. Houve ainda uma segunda lembrana, de acordo com a qual, na 
mesma granja, havia trs rvores que eram muito brancas, todas cobertas de lagartas. Podemos ver que ele fugiu da compreenso da fantasia do filho deitado com o 
pai, e que fez aflorar as rvores brancas com a finalidade de fazer uma aluso ao sonho de ansiedade, dos lobos brancos sobre a nogueira. Era, assim, uma ecloso 
direta do pavor da atitude feminina em relao aos homens, contra a qual se protegera, de incio, pela sublimao religiosa e iria em breve proteger-se, ainda mais 
eficazmente, pela sublimao militar [ver em [1]].
         Seria, contudo, um grande equvoco supor que aps a remoo dos sintomas obsessivos no ficaria qualquer efeito permanente da neurose obsessiva. O processo 
conduzira a uma vitria da f piedosa sobre a rebeldia da pesquisa crtica, e tivera, como condio necessria, a represso da atitude homossexual. Desvantagens 
duradouras resultaram de ambos os fatores. A sua atividade intelectual ficou seriamente prejudicada depois dessa primeira grande derrota. No desenvolveu um amor 
pelo estudo, no mais mostrou a agudeza com a qual, com apenas cinco anos de idade, criticara e dissecara as doutrinas religiosas. A represso do seu superpoderoso 
homossexualismo, consumada durante o sonho de ansiedade, reservou esse importante impulso para o inconsciente, manteve-o dirigido para o objetivo original e retirou-o 
de todas as sublimaes s quais  suscetvel, em outras circunstncias. Por esse motivo o paciente era destitudo de todos os interesses sociais que do  vida 
um contedo. Somente quando, durante o tratamento analtico, se tornou possvel liberar seu homossexualismo agrilhoado,  que esse estado de coisas mostrou alguma 
melhora; e foi uma experincia das mais notveis verificar como (sem qualquer conselho direto do mdico) cada fragmento da libido homossexual que era libertado procurava 
alguma aplicao na vida, alguma ligao com os grandes interesses da humanidade. 
         
         VII - EROTISMO ANAL E O COMPLEXO DE CASTRAO
         
         Devo pedir ao leitor que tenha em mente o fato de que obtive este histrico de uma neurose infantil como um subproduto, por assim dizer, durante a anlise 
de uma doena na idade madura. Fui, portanto, obrigado a reunir dados ainda mais fragmentrios do que aqueles que habitualmente se encontram  nossa disposio para 
fins de sntese. Essa tarefa, que no  difcil em outros aspectos, depara com uma limitao natural quando se trata de uma questo de forar uma estrutura que tem, 
por si, vrias dimenses, sobre o plano descritivo bidimensional. Devo, portanto, contentar-me em expor partes fragmentrias, que o leitor pode reunir numa totalidade 
viva. A neurose obsessiva que foi descrita desenvolve-se, como se enfatizou repetidas vezes, com base numa constituio anal-sdica. At agora, porm, discutimos 
apenas um dos dois principais fatores - o sadismo do paciente e as suas transformaes. Tudo o que diz respeito ao seu erotismo anal foi intencionalmente deixado 
de lado, de modo que pudesse ser exposto e discutido nessa etapa posterior.
         H muito que os analistas concordam que os impulsos instintuais multifrios compreendidos sob a denominao de erotismo anal desempenham um papel de extraordinria 
importncia, que seria um tanto impossvel superestimar, na elaborao da vida sexual e da atividade mental em geral.  ponto pacfico tambm o fato de que uma das 
mais importantes manifestaes do erotismo transformado que deriva dessa fonte, pode ser encontrado no tratamento que se d ao dinheiro, pois, no decorrer da vida, 
esse material precioso atrai para si o interesse psquico que era originalmente prprio das fezes, o produto da zona anal. Estamos acostumados a relacionar o interesse 
pelo dinheiro, na medida em que  de carter libidinal, e no racional, com o prazer excretrio, e esperamos que as pessoas normais mantenham as suas relaes com 
o dinheiro inteiramente livres de influncias libidinais e as regulem de acordo com as exigncias da realidade.
         Em nosso paciente, na poca da sua enfermidade de adulto, essas relaes estavam perturbadas em grau particularmente grave e o fato no era um elemento 
a ser desconsiderado, em relao  sua falta de independncia e  sua incapacidade de lidar com a vida. Ficara muito rico, graas a heranas do pai e do tio; era 
bvio que dava grande importncia a que o tomassem por rico e era suscetvel nesse ponto, sentindo-se magoado se o subestimavam nesse aspecto. Mas no tinha idia 
de quanto possua, de qual era a sua despesa, e assim por diante. Era difcil dizer se devia ser chamado sovina ou perdulrio. Comportava-se ora de uma forma, ora 
de outra, porm jamais de uma maneira que mostrasse qualquer inteno coerente. Determinadas caractersticas surpreendentes, que passarei a expor mais adiante, podiam 
levar a pessoa a consider-lo um plutocrata insensvel, que considerava a riqueza como a sua maior vantagem pessoal e que no permitia por um s momento que os interesses 
emocionais valessem mais que os pecunirios. Ainda assim, no avaliava as outras pessoas pelo dinheiro e, pelo contrrio, mostrava-se em diversas ocasies modesto, 
prestimoso e generoso. O dinheiro, na verdade, sara do seu controle consciente e tinha, para ele, um significado bastante diferente.
         J mencionei antes (ver em [1]) que eu via com suspeitas o modo pelo qual ele se consolou pela perda da irm, a qual se tornara a sua companheira mais chegada 
nos ltimos anos de vida, com o pensamento de que no teria, ento, que repartir com ela a herana dos pais. Contudo, o que era talvez ainda mais impressionante 
foi a calma com que conseguiu relatar isso, como se no compreendesse a aspereza de sentimentos que estava, dessa forma, confessando.  verdade que a anlise reabilitou-o 
ao mostrar que a dor que sentira pela irm submetera-se simplesmente a um deslocamento; mas, depois, tornou-se bastante inexplicvel a razo pela qual tentara encontrar 
um substituto para sua irm num aumento da fortuna.
         Ele prprio mostrou-se desconcertado pelo seu comportamento em outro aspecto. Aps a morte do pai, as posses deixadas foram divididas entre ele e sua me. 
A me administrava a propriedade e, como ele prprio admitiu, atendia as reivindicaes pecunirias do filho de modo irrepreensvel e liberal. Mesmo assim, toda 
e qualquer conversa sobre assuntos de dinheiro entre os dois costumava acabar com as mais violentas reprimendas de sua parte, alegando que ela no o amava, que estava 
querendo economizar s suas custas e que provavelmente preferiria v-lo morto a ter que deix-lo assumir todo o controle sobre o dinheiro. A me costumava protestar, 
manifestando com lgrimas o seu desinteresse, e ele ento ficava envergonhado de si mesmo e declarava que no pensava de fato nada disso a respeito dela. Entretanto, 
era certo que repetiria a mesma cena na primeira oportunidade.
         Diversos incidentes, dos quais vou relatar dois, mostram que, durante muito tempo, antes da anlise, as fezes haviam tido para ele o significado de dinheiro. 
Numa poca em que os intestinos no se incluam ainda na sua enfermidade, foi certa vez visitar um primo pobre numa cidade grande. Ao deix-lo censurou-se a si mesmo 
por no dar apoio financeiro a esse parente e, imediatamente depois, sentiu o que foi 'talvez a mais urgente necessidade de aliviar os intestinos que j experimentara 
na sua vida'. Dois anos mais tarde, fixou de fato uma anuidade a ser paga ao primo. Eis o outro caso: aos dezoito anos, quando se preparava para os exames finais 
no colgio, visitou um amigo e combinou com ele um plano, que parecia aconselhvel por causa do pavor que ambos sentiam de fracassar nos exames. Decidira-se dar 
determinada quantia a um empregado do colgio e, dessa soma, a parte maior seria naturalmente a do paciente. No caminho para casa, pensava consigo que daria de bom 
grado ainda mais, s para ter certeza de que passaria, para estar seguro de que nada lhe aconteceria no exame - mas, antes que tivesse atingido a porta da sua prpria 
casa, aconteceu-lhe realmente um acidente de outra natureza.
         Durante a sua enfermidade de adulto, sofria de obstinadas perturbaes da sua funo intestinal, embora as diversas circunstncias determinassem certa flutuao 
de intensidade. Quando iniciou o tratamento comigo, acostumara-se aos enemas, que lhe eram administrados por um enfermeiro; numa determinada poca as evacuaes 
espontneas no ocorriam durante meses, a no ser que interviesse uma excitao sbita por algum motivo particular, em razo da qual a atividade normal dos intestinos 
era restabelecida por alguns dias. O tema principal das suas queixas era que, para ele, o mundo estava oculto por um vu, ou que ele estava separado do mundo por 
um vu. Esse vu s era rompido numa nica ocasio - quando, depois de um enema, o contedo dos intestinos deixava o canal intestinal; ento, sentia-se bem e normal 
outra vez.
         O colega que recomendei ao paciente para um diagnstico sobre a sua condio intestinal foi perspicaz o bastante para explic-la como funcional, ou mesmo 
psiquicamente determinada, e abster-se de qualquer tratamento mdico ativo. Ademais, nem um tratamento desses, nem uma dieta, teria qualquer utilidade. Durante os 
anos de tratamento analtico no houve evacuao intestinal espontnea - alm das influncias repentinas que mencionei. O paciente deixou-se convencer de que, se 
o rgo intratvel recebesse tratamento mais intensivo, as coisas s ficariam piores, e contentava-se em provocar uma evacuao, uma ou duas vezes por semana, por 
meio de um enema ou de um purgativo.
         Ao expor essas perturbaes intestinais, dei mais espao  enfermidade posterior do paciente do que havia planejado para este trabalho, o qual diz respeito 
 sua neurose infantil. Fi-lo assim por dois motivos; primeiro, porque os sintomas intestinais foram, com efeito, trazidos da neurose infantil com poucas alteraes 
e, segundo, porque desempenharam um papel decisivo na concluso do tratamento.
         Sabemos como  importante a dvida para o terapeuta que est analisando uma neurose obsessiva.  a arma mais poderosa do paciente, o expediente favorito 
da sua resistncia. Essa mesma dvida permitiu ao nosso paciente entrincheirar-se por trs de uma indiferena respeitosa, deixando que os esforos do tratamento 
passassem fora do seu alcance durante anos. Nada mudava e no havia maneira de convenc-lo. Por fim, reconheci a importncia, para o que eu pretendia, da perturbao 
intestinal; representava o pequeno trao caracterstico da histeria que se encontra regularmente na raiz de uma neurose obsessiva. Prometi ao paciente uma recuperao 
completa da sua atividade intestinal e, por meio dessa promessa, tornei manifesta a sua incredulidade. Tive ento a satisfao de ver a sua dvida murchar  medida 
em que, no decorrer do trabalho, seus intestinos comearam, como rgos histericamente afetados, a 'entrar na conversa', e, em poucas semanas, recuperaram o seu 
funcionamento normal, aps to longo perodo de perturbaes.
         Volto agora  infncia do paciente - a uma poca na qual era impossvel que as fezes pudessem ter tido para ele o significado do dinheiro.
         Os distrbios intestinais do paciente comearam muito cedo, na forma que  a mais freqente e, para as crianas, a mais normal - ou seja, a incontinncia. 
Estaremos certamente com a razo, no entanto, ao rejeitar uma explicao patolgica dessas ocorrncias prematuras e ao consider-las apenas como uma evidncia da 
inteno do paciente de no se deixar perturbar ou reprimir no prazer ligado  funo da evacuao. Encontrava uma grande satisfao (o que estaria de acordo com 
a grosseria natural de muitas classes sociais, embora no se coadunasse com a sua) em gracejos e exibies anais, e esse prazer foi preservado por ele at depois 
do incio da sua enfermidade posterior.
         Durante o perodo da governanta inglesa, aconteceu muitas vezes que ele e sua Nanya tiveram que compartilhar o quarto com essa detestvel senhora. A bab 
percebeu o fato de que, precisamente nessas noites, ele sujava a cama, embora em circunstncias normais isso j tivesse deixado de acontecer h muito tempo. Ele 
no se mostrava de forma alguma envergonhado; era uma expresso de desafio contra a governanta.
         Um ano depois (quando estava com quatro anos e meio), durante o perodo de ansiedade, aconteceu ter sujado as calas durante o dia. Ficou terrivelmente 
envergonhado e, enquanto o limpavam, queixou-se de que no poderia continuar a viver daquele jeito. De modo que, nesse intervalo de tempo, algo havia mudado; e, 
seguindo o seu lamento, chegamos aos vestgios desse algo. Ao dizer 'no posso continuar a viver desse jeito', estava repetindo as palavras de outra pessoa. Certa 
vez a me levara-o consigo enquanto se dirigia para a estao, com o mdico que viera visit-la. Durante a caminhada, ela lamentara as dores e as hemorragias, e 
proferira as mesmas palavras, 'no posso continuar a viver deste jeito', sem imaginar que a criana cuja mo estava segurando as guardaria na sua memria. Assim, 
o lamento (o qual, alm do mais, ele iria repetir em inmeras ocasies durante a doena posterior) tinha o significado de uma identificao com a me.
         Em breve apareceu em sua recordao o que, evidentemente, tanto no aspecto de data, quanto no de contedo, era o elemento intermedirio de ligao que estava 
faltando entre os dois eventos. Certa vez, no incio do perodo de ansiedade, aconteceu que a me, apreensiva, deu ordens para que se tomassem precaues para proteger 
as crianas de uma disenteria que aparecera nas imediaes da granja. Ele fez perguntas sobre o que isso poderia ser; e, depois de saber que quando se tem disenteria 
aparece sangue nas fezes, ficou muito nervoso e declarou que havia sangue nas suas prprias fezes; estava com medo de morrer de disenteria, mas deixou-se convencer, 
por um exame, que se tinha enganado e que no havia necessidade de assustar-se. Podemos ver que, nesse pavor, ele estava tentando colocar em efeito uma identificao 
com a me, de cujas hemorragias ouvira falar durante a conversa com o mdico. Na sua ltima tentativa de identificao (quando estava com quatro anos e meio), desistira 
de qualquer meno ao sangue; no mais compreendia a si mesmo, pois imaginava que estava com vergonha e no tinha conscincia de que estava sendo sacudido por um 
pavor da morte, embora fosse inequivocamente revelado pelo seu lamento.
         Por essa poca sua me, sofrendo como estava de uma molstia abdominal, mostrava-se em geral nervosa, consigo mesma e com as crianas;  muito provvel 
que seu prprio nervosismo, alm dos outros motivos, se fundamentasse numa identificao com a me.
         Qual pode ter sido o significado dessa identificao com sua me?
         Entre o uso impudente que fez da sua incontinncia, quanto tinha trs anos e meio, e o horror com que a considerou, aos quatro anos e meio, est o sonho 
com o qual se iniciou o seu perodo de ansiedade - o sonho que lhe deu uma compreenso preterida da cena que testemunhara, com um ano e meio (ver em [1]), e uma 
explicao do papel desempenhado pela mulher no ato sexual.  apenas outro passo para ligar a mudana da sua atitude em relao  defecao com essa mesma grande 
revulso. Disenteria era, evidentemente, o nome que ele dava  doena da qual ouvira a me lamentar-se, e com a qual era impossvel continuar a viver; no considerava 
a enfermidade da me como sendo abdominal, mas sim intestinal. Sob a influncia da cena primria, chegou  concluso de que a me ficara doente por causa daquilo 
que o pai lhe fizera; e seu medo de ter sangue nas fezes, de estar doente como a me, era a sua recusa a identificar-se com ela nesta cena sexual - a mesma recusa 
com a qual despertou do sonho. Mas o medo era tambm uma prova de que, na sua elaborao posterior da cena primria, colocara-se no lugar da me e invejara-lhe essa 
relao com o pai. O rgo pelo qual sua identificao com as mulheres, sua atitude homossexual passiva para com os homens, estava apta a expressar-se, era a zona 
anal. Os distrbios na funo dessa zona haviam adquirido o significado de impulsos femininos de ternura, preservados tambm no curso da sua enfermidade posterior.
         Neste ponto devemos considerar uma objeo, cuja discusso pode contribuir em muito para o esclarecimento da aparente confuso de circunstncias. Fomos 
levados a presumir que, durante o processo do sonho, o menino compreendeu que as mulheres so castradas, que em vez do rgo masculino elas tm uma ferida que serve 
para as relaes sexuais e que essa castrao  a condio necessria da feminilidade; fomos levados a supor que a ameaa dessa perda induziu-o a reprimir a sua 
atitude feminina em relao aos homens e que ele despertou do seu entusiasmo homossexual em estado de ansiedade. Agora: como pode essa compreenso das relaes sexuais, 
esse reconhecimento da vagina, harmonizar-se com a escolha do intestino com o objetivo de identificao com as mulheres? No so os sintomas intestinais baseados 
no que  provavelmente uma noo mais antiga e que, de qualquer forma, contradiz inteiramente o medo da castrao - ou seja, a noo de que a relao sexual  feita 
pelo nus?
         Na verdade, essa contradio est presente; e os dois pontos de vista so completamente incoerentes entre si. A nica questo  saber se precisam ser coerentes. 
Nosso espanto surge apenas porque somos sempre inclinados a tratar os processos mentais inconscientes como os conscientes e a esquecer as profundas diferenas existentes 
entre os dois sistemas psquicos.
         Quando o sonho do Natal, com a sua excitao e expectativa, evocou diante dele o quadro da relao sexual dos pais, como fora antes observado (ou construdo) 
por ele, no pode haver dvida de que a primeira viso da cena a aflorar foi a antiga, de acordo com a qual a parte do corpo feminino que recebeu o rgo masculino 
era o nus. E, com efeito, que mais poderia ele ter suposto quando, com um ano e meio, foi espectador da cena? Mas, deu-se ento o novo evento, que ocorreu quando 
tinha quatro anos de idade. O que havia aprendido, entretanto, as aluses, que ouvira,  castrao, despertaram e lanaram uma dvida sobre a 'teoria cloacal'; fizeram-no 
perceber a diferena entre os sexos e o papel sexual desempenhado pela mulher. Nessa contingncia, ele comportou-se como em geral as crianas se comportam quando 
lhes  fornecido um detalhe de informao no desejado - quer seja sexual ou de qualquer outra espcie. Rejeitou o que era novo (no nosso caso, de motivos ligados 
com o seu medo da castrao) e agarrou-se rapidamente ao que era velho. Decidiu-se a favor do intestino e contra a vagina, tal como, por motivos semelhantes, tomou 
depois o partido do pai contra Deus. Repudiou a nova informao e apegou-se  velha teoria. Esta ltima deve ter-lhe proporcionado o material para a sua identificao 
com as mulheres, que surgiu depois, como um pavor da morte em relao com os intestinos, bem como para os seus primeiros escrpulos religiosos, quanto  questo 
de saber se Cristo havia tido um traseiro, e assim por diante. No  que sua nova compreenso ficasse sem efeito; muito pelo contrrio. Desenvolveu um efeito extraordinariamente 
poderoso, pois tornou-se um motivo para manter todo o processo do sonho sob represso e para exclu-lo de uma elaborao posterior na conscincia. Mas, com isso, 
seu efeito exauriu-se; no teve influncia sobre a deciso do problema sexual. Pode ter havido a possibilidade de que, a partir dessa poca, o medo da castrao 
tenha existido lado a lado com uma identificao com as mulheres, por meio do intestino, embora se deva admitir que isso envolve uma contradio. Era, contudo, apenas 
uma contradio lgica - o que no quer dizer muito. Pelo contrrio, todo esse processo  caracterstico do modo pelo qual o inconsciente opera. Uma represso  
algo muito diferente de uma rejeio.
         Quando estudvamos a gnese da fobia aos lobos, seguimos o efeito dessa nova compreenso interna (insight) do ato sexual; mas, agora que estamos investigando 
as perturbaes da funo intestinal, encontramo-nos trabalhando com base na velha teoria cloacal. Os dois pontos de vista permanecem separados um do outro por um 
estdio de represso. Sua atitude feminina em relao aos homens, que fora repudiada pelo ato de represso, retraiu-se para os sintomas intestinais e expressou-se 
nos episdios de diarria, priso de ventre e dores intestinais, que eram to freqentes durante a infncia do paciente. Suas fantasias sexuais posteriores, que 
se baseavam num conhecimento sexual correto, conseguiram, assim, expressar-se regressivamente como distrbios intestinais. Mas no podemos compreend-las at termos 
explicado as modificaes que ocorreram no significado das fezes a partir dos primeiros anos da infncia.
         J sugeri, num ponto anterior da minha histria [ver em [1]], que uma parte do contedo da cena primria foi oculta. Estou agora em posio de fornecer 
essa parte que falta. A criana interrompeu finalmente a relao sexual dos pais fazendo coc, o que lhe deu uma desculpa para gritar. Todas as consideraes que 
antes levantei, ao expor o resto do contedo da mesma cena, aplicam-se igualmente s crticas a esse detalhe adicional. O paciente aceitou esse ato conclusivo quando 
acabei de constru-lo e pareceu confirm-lo ao exibir 'sintomas transitrios'. Um outro detalhe adicional que eu propusera, no sentido de que o pai se aborrecera 
com a interrupo e desabafara o seu mau humor zangando-se com ele, teve que ser abandonado. O material da anlise no reagiu a esse complemento.
         O detalhe adicional que expus agora no pode certamente ser colocado no mesmo nvel do restante do contedo da cena. No se trata de um problema de uma 
impresso exterior, que se deve esperar que reemerja numa srie de indicaes posteriores, mas de uma reao por parte da prpria criana. No faria diferena para 
a histria, como um todo, se essa demonstrao no houvesse ocorrido, ou se houvesse sido tomada a um perodo posterior e inserida no decurso da cena. Mas no pode 
haver dvidas quanto  maneira pela qual a consideramos.  indcio de um estado de excitao da zona anal (no sentido mais amplo). Em outros casos semelhantes, uma 
observao como esta de relaes sexuais acabou com uma descarga de urina; um homem adulto, nas mesmas circunstncias, teria uma ereo. O fato de que o nosso menino 
evacuou, como sinal da sua excitao sexual, deve ser considerado como uma caracterstica da sua constituio sexual congnita. Assumiu imediatamente uma atitude 
passiva e demonstrou mais inclinao no sentido de uma subseqente identificao com as mulheres do que com os homens.
         Ao mesmo tempo, como qualquer outra criana, fez uso do contedo dos intestinos, em um dos seus significados mais antigos e mais primitivos. As fezes so 
a primeira ddiva da criana, o primeiro sacrifcio em nome da sua afeio, uma parte do seu prprio corpo que est pronta a partilhar, mas apenas com algum a quem 
ama. Usar as fezes como uma expresso de desafio, como o nosso paciente fez contra a governanta, aos trs anos e meio,  simplesmente inverter esse significado anterior, 
de ddiva, ao seu negativo. O 'grumus merdae' [monte de fezes] deixado pelos criminosos na cena do delito parece possuir ambos os significados: o de ofensa, e uma 
expresso regressiva de correo. Sempre  possvel, quando foi atingido um estdio mais alto, fazer uso ainda do mais baixo, no seu sentido aviltado e negativo. 
A contrariedade  uma manifestao de represso.
         Num estdio posterior do desenvolvimento sexual, as fezes adquirem o significado de um beb. Pois os bebs, como as fezes, nascem atravs do nus. O significado 
de 'ddiva' das fezes admite prontamente essa transformao.  comum falar-se de um beb como de uma 'ddiva'. A expresso mais freqente  a de que a mulher 'deu' 
ao homem um beb; mas, no uso do inconsciente,  dada igual ateno justamente ao outro aspecto da relao, qual seja, ao fato de a mulher ter 'recebido' o beb 
como uma ddiva do homem.
         O significado de fezes como dinheiro sai, em outra direo, do significado de 'ddiva'.
         A significao mais profunda da primeira lembrana encobridora do nosso paciente, no sentido de que tivera o primeiro acesso de raiva por no lhe terem 
sido dados suficientes presentes de Natal, revela-se-nos agora. Aquilo de que estava sentindo falta era satisfao sexual, que ele tomara como sendo anal. Suas pesquisas 
sexuais chegaram  compreenso, durante o curso do sonho, daquilo para que haviam sido preparadas para descobrir antes do sonho, ou seja, que o ato sexual resolvia 
o problema da origem dos bebs. Mesmo antes do sonho, ele j no gostava de bebs. Uma vez, ao encontrar um passarinho ainda sem penas que havia cado do ninho, 
confundiu-o com um beb humano e ficou horrorizado. A anlise demonstrou que todos os pequenos animais, tais como as lagartas e os insetos, aos quais tanto maltratara, 
haviam tido, para ele, o significado de bebs. Sua posio em relao  irm mais velha dera-lhe todas as oportunidades para refletir sobre a relao entre crianas 
mais novas e crianas mais velhas. A Nanya disse-lhe uma vez que a me gostava muito dele porque era o mais novo, e isso deu-lhe uma base para desejar que nenhuma 
outra criana, mais nova, viesse depois dele. Seu pavor a essa criana mais nova foi revivido sob a influncia do sonho, que colocou diante dele a relao sexual 
dos pais.
         s correntes sexuais que j so por ns conhecidas, devemos, portanto, acrescentar uma outra, a qual, como as demais, partiu da cena primria reproduzida 
no sonho. Na sua identificao com as mulheres (isto , com sua me) estava pronto a dar ao pai um beb, e sentia cimes da me, que j o havia feito e talvez o 
fizesse outra vez.
         Por via indireta, uma vez que tanto 'dinheiro' como 'beb' tm o sentido de 'ddiva', o dinheiro pode assumir o significado de beb e pode tornar-se, dessa 
maneira, o meio de expressar satisfao feminina (homossexual). Foi isso que ocorreu com o nosso paciente, quando - ele e a irm estavam, na poca, num sanatrio 
alemo - viu o pai dar  irm duas notas grandes. Em sua imaginao, sempre houvera suspeitas quanto s relaes do pai com a irm, e, ao ver a cena, seu cime despertou. 
Correu para a irm to logo ficaram a ss e exigiu uma parte do dinheiro com tanta veemncia e com tais acusaes, que a irm, aos prantos, atirou-lhe na cara todo 
o dinheiro. O que o havia excitado no era simplesmente o dinheiro em si, mas, antes, o 'beb' - satisfao sexual anal obtida do pai. E ele conseguiu consolar-se 
com isso quando, com o pai ainda vivo, a irm morreu. A idia revoltante que lhe ocorreu quando soube a notcia da sua morte [ver em [1]] na verdade no significava 
mais do que isto: 'Agora sou o nico filho. Agora o Pai ter que amar a mais, somente.' Embora essa reflexo fosse, em si, perfeitamente capaz de tornar-se consciente, 
seu fundo homossexual ainda assim era to intolervel, que foi possvel faz-lo aflorar, dissimulado na forma da mais srdida avareza, como um grande alvio.
         Tambm, de maneira semelhante, quando aps a morte do pai ele censurava a me, injustificadamente, por querer engan-lo com o dinheiro e por gostar mais 
do dinheiro do que dele [ver em [1] e seg.]. Os antigos cimes que sentia de sua me, por ter amado outra criana alm dele, pela possibilidade de ter desejado outro 
filho depois dele, levaram-no a fazer acusaes que ele prprio sabia serem injustificadas.
         Essa anlise do significado das fezes torna claro que os pensamentos obsessivos que o obrigaram a relacionar Deus com o excremento tinham um outro significado, 
para alm da comparao injuriosa que ele prprio via nessas idias. Eram, na verdade, autnticos produtos conciliativos, nos quais no deixava de desempenhar seu 
papel uma corrente afetiva de devoo, bem como uma corrente hostil de abuso. 'Deus - merda' era provavelmente a abreviao de uma oferenda que se ouve eventualmente 
mencionada de forma no abreviada. 'Cagar em Deus' ('auf Gott scheissen') ou 'cagar algo para Deus' ('Gott etwas scheissen') tambm significa dar-lhe um beb ou 
conseguir que ele d um beb a algum. O velho significado de 'ddiva', na sua forma negativa e aviltada, e o significado de 'beb', que se desenvolveu depois, a 
partir daquele, combinam-se um com o outro na frase obsessiva.
         No segundo desses significados, uma certa ternura feminina encontra expresso: uma disponibilidade para renunciar  prpria masculinidade, se, em troca 
disso, se possa ser amado como uma mulher. Temos aqui, ento, precisamente o mesmo impulso para Deus, expressado, em palavras no ambguas, no sistema delirante 
do paranico Senatsprsident Schreber (Freud, 1911c, final da Seo I].
         Quando, mais tarde, chego a descrever o esclarecimento final dos sintomas do meu paciente, o modo pelo qual a perturbao intestinal se colocara a servio 
da corrente homossexual e dera expresso  sua atitude feminina em relao a seu pai, torna-se uma vez mais evidente. Entretanto, mencionaremos um outro significado 
de fezes, que nos levar a uma exposio do complexo de castrao. 
         Uma vez que a coluna de fezes estimula a membrana mucosa ergena do intestino, desempenha o papel de um rgo ativo em relao a essa membrana; comporta-se 
exatamente como o pnis o faz na membrana mucosa vaginal e atua como se fosse o seu precursor durante a poca cloacal. O ato de ceder as fezes em favor (pelo amor) 
de algum, torna-se um prottipo de castrao,  a primeira ocasio na qual um indivduo partilha um pedao do seu prprio corpo com a finalidade de ganhar os favores 
de qualquer outra pessoa a quem ame. De modo que o amor de uma pessoa pelo prprio pnis, que  em outros aspectos narcsico, no deixa de ter um elemento de erotismo 
anal. 'Fezes', 'beb' e 'pnis' formam, assim, uma unidade, um conceito inconsciente (sit venia verbo) - a saber, o conceito de um 'pequeno' que se separa do corpo 
de algum. Ao longo dessas trilhas de associao, a catexia libidinal pode tornar-se deslocada ou intensificada, por vias que so patologicamente importantes e que 
so reveladas pela anlise.
         J tomamos conhecimento da atitude que o nosso paciente adotou, de incio, em relao ao problema da castrao. Rejeitava a castrao e apegava-se  sua 
teoria de relao sexual pelo nus. Quando digo que ele a havia rejeitado, o primeiro significado da frase  o de que ele no teria nada a ver com a castrao, no 
sentido de hav-la reprimido. Isso no implicava, na verdade, em julgamento sobre a questo da sua existncia, pois era com se no existisse. Tal atitude, no entanto, 
pode no ter sido a sua atitude final, mesmo na poca da sua neurose infantil. Encontramos uma subseqente evidncia ntida de que tenha reconhecido a castrao 
como um fato. Em relao a isso, uma vez mais, ele comportou-se da maneira que era to caracterstica dele, mas que torna difcil dar uma imagem clara dos seus processos 
mentais ou perceber o acesso a eles. Primeiro, resistiu e, depois, capitulou; mas a segunda reao no anulou a primeira. Afinal, seriam encontradas nele, lado a 
lado, duas correntes contrrias, das quais uma abominava a idia de castrao, ao passo que a outra estava preparada para aceit-la e consolar-se com a feminilidade, 
como uma compensao. Para alm de qualquer dvida, porm, uma terceira corrente, a mais antiga e profunda, que nem sequer levantara ainda a questo da realidade 
da castrao, era ainda capaz de entrar em atividade. Em outro trabalho relatei uma alucinao que este mesmo paciente teve aos cinco anos de idade e  qual preciso 
apenas acrescentar aqui um breve comentrio.
         '"Quando eu tinha cinco anos, estava brincando no jardim perto da bab, fazendo cortes com meu canivete na casca de uma das nogueiras que aparecem em meu 
sonho tambm. De repente, para meu inexprimvel terror, notei ter cortado fora o dedo mnimo da mo (direita ou esquerda?), de modo que ele se achava dependurado, 
preso apenas pela pele. No senti dor, mas um grande medo. No me atrevi a dizer nada  bab, que se encontrava a apenas alguns passos de distncia, mas deixei-me 
cair sobre o assento mais prximo e l fiquei sentado, incapaz de dirigir outro olhar ao meu dedo. Por fim, me acalmei, olhei para ele e vi que estava inteiramente 
ileso."'
         Depois de ter sido instrudo com a histria bblica aos quatro anos, ele comeou, como sabemos, a fazer o intenso esforo de pensamento que culminou com 
a sua piedade obsessiva. Podemos presumir, portanto, que essa alucinao pertence ao perodo no qual foi levado a reconhecer a realidade da castrao e deve, talvez, 
ser considerada como o acontecimento que marca verdadeiramente esse passo. Mesmo a pequena correo [ver em [1]] feita pelo paciente no deixa de ter interesse. 
Se ele teve uma alucinao com a mesma experincia de horror que Tasso na Gerusalemme Liberata, conta do seu heri Tancredo, estaremos talvez justificados ao chegar 
 interpretao de que a rvore tambm significa uma mulher para o meu pequeno paciente. Estaria, ento, desempenhando o papel do pai e relacionava as hemorragias 
da me, que lhe eram familiares, com a castrao das mulheres, que ele agora reconhecia, - com a 'ferida'.
         Essa alucinao do dedo ferido foi instigada, conforme relatou mais tarde, pela histria de uma conhecida sua, que havia nascido com seis dedos nos ps 
e tivera esse sexto dedo decepado, em cada p, por um machado, imediatamente aps o nascimento. As mulheres, ento, no tinham pnis porque este lhes era cortado 
ao nascer. Dessa maneira, chegou, no perodo da neurose obsessiva, a aceitar o que j havia aprendido durante o sonho, mas ao mesmo tempo havia rejeitado, por meio 
de represso. Deve tambm ter tomado conhecimento, durante as leituras e conversas sobre a histria sagrada, da circunciso ritual de Cristo e dos judeus em geral.
         No existe qualquer dvida de que, por essa poca, seu pai estava se convertendo na figura aterrorizadora que o ameaava com a castrao. O Deus cruel com 
o qual estava ento lutando - que criava homens pecadores, apenas para puni-los depois, que sacrificava o prprio filho e os filhos dos homens -, esse Deus remeteu 
seu carter de volta ao pai do paciente, embora, por outro lado, o menino estivesse ao mesmo tempo tentando defender seu pai contra o Deus. Nesse ponto o menino 
havia que ajustar-se a um padro filogentico, e assim o fez, embora suas experincias pessoais possam no concordar com isso. Conquanto as ameaas ou sugestes 
de castrao com que deparou tenham emanado de mulheres, esse fato no poderia retardar em muito o resultado final. Apesar de tudo, foi de seu pai que ele veio a 
temer, afinal, a castrao. Nesse aspecto, a herana triunfou sobre a experincia acidental; na pr-histria do homem, era indubitavelmente o pai que praticava a 
castrao como um castigo, e que o suavizou, depois, na circunciso. Quanto mais o paciente avanava na represso  sensualidade durante o desenvolvimento da neurose 
obsessiva, tanto mais natural se deve ter tornado para ele atribuir essas ms intenes a seu pai, que era o verdadeiro representante da atividade sensual.
         A identificao que fez, de seu pai com o castrador, tornou-se importante como sendo a fonte de uma intensa hostilidade inconsciente contra ele (atingindo 
o nvel de um desejo de morte) e de um sentimento de culpa que reagia contra essa hostilidade. At este ponto, no entanto, ele estava se comportando normalmente 
- isto , como todo neurtico que est possudo de um complexo de dipo positivo. O mais surpreendente, contudo,  que mesmo contra isso havia uma contracorrente 
operando nele, a qual, pelo contrrio, considerava o pai como aquele que havia sido castrado e que apelava, portanto, para a sua simpatia.
         Quando analisei o seu cerimonial de respirar para fora sempre que via aleijados, mendigos e gente miservel, consegui mostrar que esse sintoma podia tambm 
remeter-se ao pai, a quem achou triste quando o visitou no sanatrio [ver em [1]]. A anlise tornou possvel seguir essa trilha ainda mais remotamente. Num perodo 
muito precoce, provavelmente antes da sua seduo (com a idade de trs anos e um quarto), estivera na granja um velho trabalhador diarista, cuja funo era agora 
a de carregar gua para a casa. No podia falar, porque sua lngua fora, ao que parece, cortada fora. (Era provavelmente um surdo-mudo.) O menino gostava muito desse 
velho e sentia uma profunda pena dele. Quando o velho morreu o menino procurou por ele no cu. Eis a, ento, o primeiro aleijado do qual se apiedou e, como foi 
mostrado pelo contexto e pelo ponto em que o episdio aflorou na anlise, um indubitvel substituto paterno.
         Na anlise esse homem foi associado com a recordao de outros servos de quem o paciente gostara e sobre os quais destacava o fato de que eram ou doentes 
ou judeus (o que implicava em circunciso). Tambm o criado que o havia ajudado a limpar-se depois do seu acidente, aos quatro anos e meio [ver em [1]], era judeu 
e tuberculoso, e fora igualmente objeto de sua compaixo. Todas essas figuras pertencem ao perodo anterior  visita que fez ao pai no sanatrio, isto , antes da 
formao do sintoma; este deve, portanto, ter tido antes o sentido de repelir (por meio da expirao) qualquer identificao com o objeto da piedade do paciente. 
Ento, de repente, em conexo com um sonho, a anlise imergiu outra vez no perodo pr-histrico e induziu-o a afirmar que durante a cpula, na cena primria, ele 
observara o pnis desaparecer, que sentira pena do pai por causa disso e que se alegrara com o reaparecimento daquilo que achara que estava perdido. Ali estava, 
portanto, um impulso emocional recente, partindo uma vez mais da cena primria. Ademais, a origem narcsica da compaixo (que  confirmada pela prpria palavra) 
revela-se aqui de forma inequvoca.
         
         VIII - MATERIAL NOVO ORIUNDO DO PERODO PRIMITIVO - SOLUO
         
         Acontece muitas vezes, na anlise, que,  medida em que nos aproximamos do final, emergem novas recordaes que at ento se mantinham cuidadosamente ocultas. 
s vezes, em determinada ocasio,  feita uma observao despretensiosa num tom de voz indiferente, como se se tratasse de algo suprfluo; ento, em outra oportunidade, 
algo mais  acrescentado, o que comea a fazer com que o terapeuta fique de orelha em p; e, por fim, este chega a reconhecer esse fragmento desprezado de uma lembrana 
como a chave para os mais importantes segredos que a neurose do paciente escondia.
         No comeo da anlise, meu paciente havia-me contado uma lembrana do perodo no qual sua impertinncia costumava transformar-se subitamente em ansiedade. 
Ele estava tentando apanhar uma grande e bonita borboleta, com listras amarelas e enormes asas que acabavam em ponta - na verdade, uma 'rabo de andorinha' [ver em 
[1]]. De repente, quando a borboleta havia pousado sobre uma flor, ele foi presa de um pavoroso medo da criatura e fugiu aos gritos.
         Essa lembrana ocorria periodicamente durante a anlise e pedia uma explicao, que, por muito tempo, no foi, porm, encontrada. No obstante, era de supor, 
como fato lgico e natural, que um detalhe como este no se tivesse conservado em sua memria s por si, sendo, contudo, uma lembrana encobridora, representando 
algo de mais importncia, a que estava, de alguma forma, ligada. Um dia, disse-me que, na sua lngua, uma borboleta era chamada 'babushka', 'vov'. Acrescentou que, 
de um modo geral, as borboletas pareciam-lhe ser como mulheres e meninas, e os besouros e lagartas como meninos. Desse modo, poucas dvidas poderia haver quanto 
ao fato de que, nessa cena de ansiedade, tivesse despertado uma recordao de algum do sexo feminino. No vou esconder o fato de que, por essa poca, apresentei 
a possibilidade de que as listras amarelas da borboleta o tivessem feito lembrar de listras semelhantes numa pea de roupa usada por alguma mulher. S menciono isto 
como uma ilustrao, para mostrar como habitualmente so inadequados os esforos construtivos do terapeuta para elucidar as questes que surgem, e quo injusto  
atribuir os resultados da anlise  imaginao e sugestes do mdico.
         Muitos meses depois, em relao a algo inteiramente diverso, o paciente observou que o abrir e fechar das asas da borboleta, enquanto estava pousada na 
flor, dera-lhe uma estranha sensao. Parecera-lhe, conforme contou, como uma mulher abrindo as pernas, e as pernas tomavam ento a forma de um V romano, que, como 
sabemos, era a hora  qual, na infncia e mesmo at a poca do tratamento, costumava cair num estado mental depressivo [ver em [1]].
         Era uma associao  qual eu jamais chegaria por mim mesmo, e que ganhavam importncia a partir da considerao da natureza completamente infantil da seqncia 
de associaes que revelava. A ateno das crianas, como notei com freqncia,  atrada muito mais prontamente por movimentos do que por formas em repouso; e as 
crianas fundamentam muitas vezes as associaes numa similaridade de movimento que  desprezada ou negligenciada pelos adultos.
         Depois disso, o pequeno problema foi uma vez mais deixado intacto por muito tempo; mas posso citar a simples suspeita de que as pontas ou projees semelhantes 
a um basto nas asas da borboleta podem ter tido o significado de smbolos genitais.
         Certo dia emergiu, tmida e indistintamente, uma espcie de recordao de que, numa idade muito precoce, mesmo antes da poca da bab, ele devia ter tido 
uma ama que gostava muito dele. O nome dela era o mesmo da sua me. Ele retribua, sem dvida, a sua afeio. Era, na verdade, um primeiro amor que se apagara no 
esquecimento. Concordamos, porm, que deve ter ocorrido algo que mais tarde se tornou importante.
         Ento, numa outra oportunidade, ele corrigiu essa recordao. Ela no poderia ter tido o mesmo nome de sua me; isso fora um equvoco de sua parte e mostrava, 
certamente, que em sua memria ela se fundira com a me. Seu verdadeiro nome, prosseguiu ele, ocorrera-lhe de maneira indireta. Pensara subitamente numa despensa, 
na primeira granja, na qual eram guardadas as frutas depois de colhidas, e em determinada espcie de pra particularmente deliciosa - uma grande pra com listras 
amarelas na casca. A palavra que designa 'pra', na sua lngua,  'grusha' e era este tambm o nome da ama.
         Torna-se assim claro que, por trs da lembrana encobridora da caa  borboleta, estava oculta a lembrana da ama. As listras amarelas no eram, contudo, 
da sua roupa e sim da pera, cujo nome era igual ao dela. No entanto, qual era a origem da ansiedade que despertara quando a lembrana dela fora ativada? A resposta 
bvia a essa pergunta pode ser a hiptese crua de que fora essa mulher que, quando era beb, ele havia visto fazer os movimentos com as pernas, fixados em sua mente 
com o V romano - movimentos que permitiam acesso aos genitais. Poupamo-nos a uma teorizao como essa e aguardamos mais material.
         Pouco depois sobreveio a recordao de uma cena, incompleta, mas, na medida em que foi preservada, definida. Grusha estava ajoelhada no cho e, ao lado 
dela, estava uma vassoura curta, feita com um feixe de galhos finos; ele tambm l estava e ela fazia-lhe uma reprimenda ou zangava-se com ele.
         Os elementos que faltavam podia ser facilmente supridos por outras fontes. Durante os primeiros meses do tratamento, contara-me como se apaixonara de repente, 
de maneira compulsiva, por uma camponesa, da qual, aos dezoito anos, contrara a causa que precipitou a sua enfermidade de adulto. Ao contar-me isso, demonstrara 
uma m vontade fora do comum de dizer-me o nome da jovem. Foi um exemplo inteiramente isolado de resistncia, j que, excluindo esse episdio, obedecia sem reservas 
 regra fundamental da anlise. Declarou, no entanto, que a razo de se mostrar to envergonhado de mencion-lo era por se tratar de um nome caracteristicamente 
campons e que nenhuma jovem bem nascida poderia jamais chamar-se assim. Quando finalmente o nome surgiu, aconteceu ser Matrona, nome que tem sobre si uma aurola 
maternal. A vergonha era, evidentemente, deslocada. No se envergonhava do fato de esses casos de amor serem invariavelmente com mulheres da mais humilde origem; 
envergonhava-se apenas do nome. Se acontecesse ter o caso com Matrona algo em comum com a cena de Grusha, ento a vergonha teria que ser transferida de volta para 
esse episdio prematuro.
         Ele dissera-me, de outra vez, que, quando tinha ouvido a histria de John Huss, impressionara-se bastante e que a sua ateno fixara-se nos feixes de lenha 
que foram amontoados quando ele foi queimado na fogueira. Agora, sua simpatia por Huss criava uma suspeita perfeitamente definida em minha mente, pois surpreendi 
muitas vezes essas simpatia em pacientes jovens e sempre consegui explic-la da mesma forma. Um desses pacientes chegou at a fazer uma verso dramatizada da carreira 
de Huss; comeou a escrever a sua pea no dia em que perdeu o objeto pelo qual se apaixonara secretamente. Huss pereceu pelo fogo e (como outros que possuem a mesma 
qualificao) torna-se o heri de pessoas que j sofreram alguma vez de enurese. Meu paciente relacionava os feixes de lenha usados na execuo de Huss com a vassoura 
ou feixe de galhos da ama.
         Esse material ajustava-se espontaneamente e servia para preencher as lacunas na lembrana que o paciente tinha da cena com Grusha. Quando viu a moa varrendo 
o cho, urinou na sala e ela replicou, sem dvida por brincadeira, com uma ameaa de castrao.
         No sei se os meus leitores j adivinharam a razo por que dei um relato to detalhado desse episdio da primitiva infncia do paciente. O episdio fornece 
uma importante ligao entre a cena primria e o posterior amor compulsivo [ver em [1]] que veio a ser de significado to decisivo na sua trajetria subseqente, 
e ainda nos mostra uma condio da qual o seu apaixonar-se dependia e que elucida essa compulso.
         Quando viu a moa empenhada em esfregar o cho, ajoelhada, com as ndegas projetando-se e as costas em posio horizontal, deparava outra vez com a postura 
que a me havia assumido na cena da cpula. Para ele, a moa transformou-se em sua me, foi presa de excitao sexual devido  ativao dessa imagem; e, como o pai 
(cuja ao ele s pode ter considerado, na ocasio, como a de urinar), comportou-se de modo masculino em relao a ela. Seu ato de urinar no cho foi, na realidade, 
uma tentativa de seduo, e a moa respondeu a esse ato com uma ameaa de castrao, exatamente como se tivesse compreendido o que ele queria dizer.
         A compulso que procedia da cena primria foi transferida para essa cena com Grusha e levada adiante por ela. A condio da qual dependia o seu apaixonar-se, 
contudo, passou por uma mudana que demonstrava a influncia da segunda cena: foi transferida, da postura da mulher, para a ocupao na qual ela estava empenhada 
quando naquela postura. Isto era claro, por exemplo, no episdio de Matrona. Ele estava passando pela aldeia que fazia parte do que viria a ser a granja da famlia 
(a segunda) [ver em [1]], quando viu uma camponesa ajoelhada  beira do aude, lavando roupa. Apaixonou-se pela moa instantaneamente e com irresistvel violncia, 
embora no tivesse podido ainda nem sequer dar um olhar rpido ao seu rosto. Pela sua postura e ocupao, ela havia tomado, para ele, o lugar de Grusha. Podemos 
ver agora como foi que a vergonha, que se relacionava adequadamente ao contedo da cena com Grusha, pde ligar-se ao nome de Matrona.
         Um outro acesso de paixo, que data de poucos anos antes, mostra ainda mais claramente a influncia compulsiva da cena de Grusha. Havia muito tempo sentia-se 
atrado por uma jovem camponesa, que era criada da casa, mas conseguia manter-se afastado dela. Um dia, quando a encontrou sozinha numa das dependncias da casa, 
deixou-se subjugar pelo amor. Achou-a ajoelhada no cho, a esfreg-lo, com um balde e uma escova a seu lado - na verdade, exatamente como tinha visto a moa na sua 
infncia.
         Mesmo a sua escolha final de objeto, que desempenhou um papel to importante em sua vida, mostra, pelos seus detalhes (embora no possam ser apresentados 
aqui), ter sido dependente da mesma condio, bem como ter sido uma ramificao da compulso que, partindo da cena primria e prosseguindo na cena com Grusha, dominara 
sua escolha de amor. J observei, em uma pgina anterior, que reconheo no paciente um empenho em aviltar o objeto do seu amor. Isso seria explicado como uma reao 
contra a presso da irm, que lhe era to superior. Mas prometi ao mesmo tempo (ver em [1]) mostrar que esse motivo auto-afirmativo no era o nico determinante, 
mas que ocultava um outro, mais profundo, baseado em motivos puramente erticos. Foram estes trazidos  tona pela lembrana do paciente, da moa esfregando o assoalho 
- tambm fisicamente rebaixada, diga-se de passagem. Todos os seus objetos de amor posteriores foram substitutos dessa pessoa, a qual, acidentalmente, pela sua atitude, 
tornara-se o seu primeiro substituto materno. A primeira associao do paciente em relao ao problema do seu medo da borboleta pode ser, agora, com facilidade explicado 
retrospectivamente como uma aluso distante  cena primria (cinco horas). Ele confirmava a conexo entre a cena de Grusha e a ameaa de castrao por um sonho particularmente 
engenhoso, que ele prprio conseguiu decifrar.
         'Tive um sonho', disse ele, 'em que um homem arrancava as asas de uma Espe.' 'Espe?', perguntei, 'o que quer voc dizer com isto?' 'O senhor sabe; aquele 
inseto com listras amarelas no corpo, que d uma picada. Isto deve ser uma aluso a Grusha, a pera de listras amarelas.' Agora eu podia corrigi-lo: 'Voc quer dizer 
uma Wespe [vespa].' 'Chama-se Wespe? Na verdade eu achava que o nome era Espe.' (Como tantas outras pessoas, ele usava as suas dificuldades com a lngua estrangeira 
como uma forma de encobrir os atos sintomticos.) 'Mas Espe, ento, sou eu mesmo: S.P.' (eram as suas iniciais). A Espe era,  claro, uma Wespe mutilada. O sonho 
dizia claramente que ele estava se vingando de Grusha, por causa da sua ameaa de castrao.
         A ao do menino de dois anos e meio na cena com Grusha era o primeiro efeito da cena primria que chegava ao nosso conhecimento. Representa-o imitando 
o pai e mostra-nos uma tendncia a um desenvolvimento numa direo que mereceria depois a denominao de masculina. A seduo levou-o  passividade - para a qual, 
em todo caso, o caminho estava preparado pelo seu comportamento ao testemunhar a relao sexual dos pais.
         Neste ponto devo voltar momentaneamente ao histrico do tratamento. De vez que a cena de Grusha fora assimilada - a primeira experincia da qual podia realmente 
lembrar-se, e da qual se lembrara sem quaisquer conjecturas ou interveno de minha parte -, o problema do tratamento tinha toda a aparncia de estar resolvido. 
A partir daquele momento no houve mais resistncia; tudo o que restava fazer era coletar e coordenar. A velha teoria do trauma das neuroses, que foi, afinal de 
contas, construda sobre impresses obtidas da prtica psicanaltica, de repente viera outra vez para o primeiro plano. Por interesse crtico, fiz mais uma tentativa 
para impor ao paciente uma outra viso da sua histria, que poderia adequar-se mais a um sbrio senso comum. Era verdade que no podia haver dvidas quanto  cena 
com Grusha, mas, sugeri, em si aquela cena nada significava; ela havia sido enfatizada ex post facto por uma regresso das circunstncias da sua escolha objetal, 
que, como resultado da sua inteno de rebaixar, fora desviada da irm para as criadas. Por outro lado, a observao que fizera do coito, argumentei, era uma fantasia 
dos anos posteriores; seu ncleo histrico pode ter sido talvez a observao, pelo paciente, da administrao de um inocente enema. Alguns dos meus leitores inclinar-se-o, 
possivelmente, a pensar que, com hipteses como estas, eu estava comeando, pela primeira vez, a aproximar-me da compreenso do caso; mas o paciente olhou para mim 
sem nada entender e com um certo desdm quando coloquei diante dele essa opinio, e jamais reagiu novamente a ela. J afirmei meus prprios argumentos contra qualquer 
racionalizao assim, no ponto apropriado da exposio. [Seo V, acima.]
         [ Assim, a cena de Grusha, ao explicar as condies que governavam a escolha objetal do paciente - condies que tiveram importncia decisiva em sua vida 
-, impede que superestimemos o significado da sua inteno de rebaixar as mulheres. Contudo, faz mais do que isso. Propicia-me uma justificativa por haver recusado, 
numa passagem anterior (ver em [1] e [1]), adotar sem hesitao, como nica explicao sustentvel, a opinio de que a cena primria derivada de uma observao de 
animais, feita pouco antes do sonho. A cena de Grusha emergiu espontaneamente na memria do paciente, e no por meio de um esforo meu. Seu medo da borboleta listrada 
de amarelo, que se remetia de volta quela cena, provava que a cena tivera um contedo significativo, ou que ele havia conseguido, posteriormente, ligar essa significao 
ao seu contedo. Por meio das associaes que a acompanharam e das inferncias que se lhe seguiram, tornou-se possvel suprir com segurana esse elemento significativo 
que estava faltando na lembrana do paciente. Pareceu, ento, que seu medo da borboleta era, em todos os aspectos, anlogo ao medo do lobo; em ambos os casos era 
um medo da castrao, que se referia, para comear,  pessoa que primeiro proferira a ameaa de castrao, mas foi depois transposta para outra pessoa, a quem se 
destinava a ligar-se, de acordo com o precedente filogentico. A cena com Grusha ocorre quando o paciente tinha dois anos e meio, mas o episdio de ansiedade com 
a borboleta amarela foi certamente posterior ao sonho de ansiedade. Era fcil entender como a tardia compreenso, por parte do paciente, da possibilidade de castrao 
fizera aflorar retrospectivamente a ansiedade na cena com Grusha. Mas aquela cena, em si, nada continha de objetvel ou improvvel; pelo contrrio, consistia inteiramente 
de detalhes corriqueiros, que no davam margem a ceticismo. Nela no havia nada que pudesse levar a atribuir-lhe a origem  imaginao da criana; tal suposio, 
na verdade, dificilmente parecia possvel.
         A questo que se coloca agora  saber se temos justificativa para considerar o fato de que o menino urinou enquanto olhava para a moa, de joelhos. esfregando 
o cho, como prova de excitao sexual de sua parte. Se assim foi, a excitao seria uma evidncia da influncia de uma impresso anterior, que poderia igualmente 
ter sido a ocorrncia real da cena primria ou uma observao de animais, feita antes dos dois anos e meio. Ou iremos ns concluir que a situao, no que diz respeito 
a Grusha, era inteiramente inocente, que o fato de o menino esvaziar a bexiga foi puramente acidental e que no foi seno depois que toda a cena se tornou sexualizada 
em sua lembrana, aps haver ele reconhecido a importncia de situaes semelhantes?
         Acerca desses problemas no posso arriscar uma deciso. Devo confessar, contudo, que considero o caso de tal forma importante para o crdito da psicanlise, 
que bastaria o fato de haver levantado questes como esta. No obstante, no posso negar que a cena com Grusha, o papel que representou na anlise e os efeitos que 
se lhe seguiram na vida do paciente podem ser mais completa e naturalmente explicados se consideramos que a cena primria, que pode em outros casos ser uma fantasia, 
era uma realidade no caso presente. Afinal de contas, nada h de impossvel nela; e a hiptese da sua realidade  inteiramente compatvel com a ao incitante das 
observaes de animais, que so indicadas pelos ces pastores na imagem do sonho.
         Dessa concluso insatisfatria, voltar-me-ei agora para uma considerao do problema, ensaiada em minhas Conferncias Introdutrias sobre Psicanlise [Conferncia 
XXIII]. Devia ficar satisfeito em saber se a cena primria, no presente caso, foi uma fantasia ou uma experincia real; mas, levando em conta outros casos semelhantes, 
devo admitir que a resposta a essa pergunta no , na verdade, uma questo de muita importncia. Essas cenas de observao das relaes sexuais entre os pais, de 
ser seduzido na infncia e de ser ameaado com a castrao so inquestionavelmente, um dote herdado, uma herana filogentica, mas podem tambm facilmente ser adquiridas 
pela experincia pessoal. Com meu paciente, a seduo pela irm mais velha foi uma realidade indiscutvel; por que no deveria tambm ser verdadeira a sua observao 
da cpula dos pais?
         Tudo o que encontramos na pr-histria das neuroses  que a criana lana mo dessa experincia filogentica quando sua prpria experincia lhe falha. Ela 
preenche as lacunas da verdade individual com a verdade pr-histrica; substitui as ocorrncias da sua prpria vida por ocorrncias na vida dos seus ancestrais. 
Concordo plenamente com Jung ao reconhecer a existncia dessa herana filogentica; mas considero um erro metodolgico agarrar-se a uma explicao filogentica antes 
de esgotar as possibilidades ontogenticas. No vejo razo para discutir obstinadamente a importncia da pr-histria infantil, ao mesmo tempo reconhecendo livremente 
a importncia da pr-histria ancestral. Nem posso omitir o fato de que os motivos filogenticos e os prprios produtos permanecem necessitando de elucidao, e 
que, em um bom nmero de exemplos, esse esclarecimento  proporcionado por fatores da infncia do indivduo. E, finalmente, no me surpreendo se aquilo que foi originalmente 
produzido por determinadas circunstncias, em tempos pr-histricos, e foi depois transmitido na forma de uma predisposio  sua reaquisio, reemergisse uma vez 
mais, desde que persistissem as mesmas circunstncias, como um evento concreto na experincia do indivduo.]
         Tambm se deve encontrar espao, no intervalo entre a cena primria e a seduo (da idade de um ano e meio  de trs e um quarto), para o mudo, o carregador 
de gua [[1]]. Ele serviu ao paciente como substituto do pai, tal como Grusha lhe serviu de substituto da me. No acho que haja justificativa para considerar isso 
como exemplo da inteno de rebaixar, muito embora seja verdade que os pais chegaram ambos a ser representados por criados. Uma criana no leva em considerao 
as distines sociais, que para ela tm ainda pouco significado; e nivela as pessoas de classe inferior com os pais, se essas pessoas a amam como aqueles o fazem. 
Como tambm a inteno de rebaixar no  responsvel pela substituio de animais pelos pais do menino, pois as crianas esto longe de assumir uma viso depreciativa 
dos animais. Tios e tias so usados como substitutos dos pais sem qualquer considerao da questo de rebaixamento, e isto foi, na verdade, realizado pelo nosso 
paciente, como o demonstraram muitas das suas recordaes.
         Tambm pertence a esse perodo uma fase, obscuramente recordada, na qual nada conseguia comer, a no ser coisas doces, at que as conseqncias se fizeram 
sentir em seu estado de sade. Contaram-lhe sobre um dos seus tios, que do mesmo modo se havia recusado a comer e definhara at a morte, quando era ainda jovem. 
Foi tambm informado de que ele prprio, aos trs meses de idade, estivera seriamente doente (com pneumonia?), que a mortalha j estava pronta para ele. Dessa maneira 
conseguiram alarm-lo, de modo que comeou outra vez a comer; e nos anos posteriores da sua infncia chegou mesmo a exagerar no cumprimento desse dever, como que 
para resguardar-se contra a ameaa da morte. O medo da morte, que nessa ocasio foi evocado para sua prpria proteo, reapareceu mais tarde, quando a me o advertiu 
do perigo da disenteria [[1]]. Mais tarde ainda, esse medo provocou um ataque da sua neurose obsessiva ([1]). Tentaremos, adiante [[1]], penetrar em suas origens 
e significados.
         Estou inclinado  opinio de que essa perturbao do apetite deva ser considerada como a primeira das doenas neurticas do paciente. Se assim foi, o distrbio 
no apetite, a fobia aos lobos e a devoo obsessiva constituiriam a srie completa de perturbaes infantis que estabeleceu a predisposio para o seu colapso neurtico, 
aps haver passado a puberdade. Objetar-se- que poucas crianas escapam a tais perturbaes como uma perda temporria de apetite ou uma fobia animal. Contudo,  
exatamente esse argumento que eu desejaria. Estou pronto a afirmar que toda neurose em um adulto  construda sobre uma neurose que ocorreu em sua infncia, mas 
que no foi grave o bastante para chamar a ateno e ser reconhecida como tal. Essa objeo serve apenas para enfatizar a importncia terica do papel que as neuroses 
infantis desempenhariam, no nosso ponto de vista, nos distrbios posteriores que tratamos como neuroses e procuramos atribuir inteiramente aos efeitos da vida adulta. 
Se o nosso paciente no houvesse sofrido de uma obsessiva devoo piedosa, que se juntou  perturbao no apetite e  fobia animal, sua histria no teria sido perceptivelmente 
diferente da de outras crianas, e estaramos empobrecidos pela perda de precioso material, que pode nos prevenir contra certos erros plausveis.
         A anlise seria insatisfatria se deixasse de explicar a frase usada pelo paciente para resumir os problemas dos quais se queixava. O mundo, disse ele, 
estava oculto dele por um vu [[1]] ; e nossa preparao psicanaltica probe-nos presumir que essas palavras possam no ter significado ou terem sido escolhidas 
ao acaso.  estranho dizer que o vu s foi rasgado numa situao: no momento em que, como resultado de um enema, uma evacuao intestinal passou pelo seu nus. 
Sentiu-se, ento, bem outra vez e, por um perodo muito curto, viu o mundo claramente. A interpretao desse 'vu' progrediu com tanta dificuldade quanto a que encontramos 
no esclarecimento do medo que teve da borboleta. Nem ele se manteve apegado ao vu. Este tornou-se ainda mais alusivo, como um sentimento de crespsculo, de 'tnbres' 
e de outras coisas impalpveis.
         No foi seno pouco antes de concluir o tratamento que se lembrou de que lhe haviam dito que nascera com um mnio. Por esse motivo, sempre se considerara 
uma criana especial, com sorte, a quem nenhuma desgraa podia sobrevir. No perdeu essa convico at que foi forado a compreender que a sua infeco gonorrica 
constitua um srio dano para o seu corpo. O golpe foi demais para o seu narcisismo e ele desmoronou. Pode-se dizer que, ao faz-lo, estava repetindo um mecanismo 
que j antes colocara em ao. Porque sua fobia de lobos irrompera quando se achou diante do fato de que a castrao era algo possvel; e ele classificou claramente 
a gonorria como castrao.
         Assim, o mnio era o vu que o escondia do mundo e que escondia o mundo dele. A queixa que fez era, na realidade, uma fantasia plena de desejos, realizada: 
mostrava-o outra vez de volta no tero e era, na verdade, uma fantasia plena de desejos de fugir do mundo. Pode traduzir-se assim: 'A vida torna-me to infeliz! 
Tenho que voltar para dentro do tero!'
         Qual, porm, pode ter sido o significado do fato de que esse vu, que agora era simblico mas que j fora real, foi rasgado no momento em que aliviou os 
intestinos aps um enema, e que, nessas condies, a enfermidade abandonou-o? O contexto possibilita-nos responder. Se esse vu de nascena foi rompido, ele ento 
viu o mundo e renasceu. O excremento era a criana, como que nascida uma segunda vez, para uma vida mais feliz. Temos aqui, portanto, a fantasia do renascimento, 
para a qual Jung chamou recentemente a ateno e  qual atribuiu uma posio dominante na vida imaginativa dos neurticos.
         Tudo isso estaria muito bem, se fosse a histria completa. Mas determinados detalhes da situao, bem como a considerao devida pela relao entre ela 
e a histria da vida deste paciente em particular, compelem-nos a levar adiante a interpretao. A condio necessria do seu renascimento era a de que um homem 
lhe administrasse um enema. (S mais tarde foi levado pela necessidade a substituir ele prprio esse homem.) Isso s pode ter significado que ele se havia identificado 
com a me, que o homem estava agindo como o pai e que o enema estava repetindo o ato da cpula, como fruto da qual o beb-excremento (que era uma vez mais ele prprio) 
nasceria. A fantasia do renascimento era, portanto, estreitamente ligada  condio necessria de obter de um homem satisfao sexual. De tal modo que a traduo 
agora  a que se segue: apenas na condio de tomar o lugar da mulher, substituindo ele prprio sua me e, assim, deixar-se satisfazer sexualmente pelo pai e dar-lhe 
um filho - s nessas condies a doena o deixaria. Aqui, portanto, a fantasia do renascimento era simplesmente uma verso mutilada e censurada da fantasia homossexual 
plena de desejos.
         Se observarmos a questo mais de perto, no podemos deixar de assinalar que, nas condies que estabelecera para a sua recuperao, o paciente estava simplesmente 
repetindo a situao  poca da cena primria. Naquele momento, quisera substituir a me; e, como h muito presumimos, foi ele prprio que, na cena em questo, produziu 
o beb-excremento. Permanecia ainda fixado, como por um feitio,  cena que teve um efeito to decisivo na sua vida sexual, e cujo retorno, na noite do sonho, trouxe 
o incio da sua doena. O rompimento do vu era anlogo  abertura dos seus olhos e  abertura da janela. A cena primria transformara-se na condio necessria 
para a sua recuperao.
          fcil fazer uma afirmao unificada daquilo que era expressado, por um lado, pela queixa que fez e, por outro lado, pela condio nica e excepcional 
sob a qual a queixa no mais se confirmava e, assim, tornar claro todo o significado que subjazia aos dois fatores: desejava poder estar de volta ao tero, no simplesmente 
para que ento pudesse renascer, mas tambm com a finalidade de, ali, poder copular com o pai, obter dele satisfao sexual e dar-lhe uma criana.
         O desejo de nascer do pai (como ele acreditara, no incio, que fosse o caso), o desejo de ser sexualmente satisfeito pelo pai, o desejo de presente-lo 
com uma criana - e tudo isso ao preo da sua prpria masculinidade, expresso na linguagem do erotismo anal -, esses desejos completam o crculo da sua fixao no 
pai. Neles o homossexualismo encontrou a sua mais nova e ntima expresso.
         Este exemplo, creio,  esclarecedor do significado e da origem da fantasia de estar no tero, bem como da do renascimento. A primeira, a fantasia do tero, 
origina-se com freqncia (como no presente caso) de uma ligao com o pai. H um desejo de estar dentro do tero da me para substitu-la durante as relaes sexuais 
- para tomar o lugar dela em relao ao pai. A fantasia do renascimento, por outro lado, e quase sempre, com toda a probabilidade, um substituto abrandado (um eufemismo, 
poder-se-ia dizer) para a fantasia da relao incestuosa com a me; para utilizar uma expresso de Silberer,  uma expresso anaggica dessa fantasia. H um desejo 
de voltar a uma situao na qual a pessoa estava nos genitais de sua me; e, em relao a isso, o homem identifica-se com seu prprio pnis e usa-o para representar-se. 
Dessa forma, as duas fantasias revelam-se como contrapartida uma da outra: do expresso, conforme a atitude do sujeito seja feminina ou masculina, ao desejo de 
relacionamento sexual com o pai ou com a me. No podemos afastar a possibilidade de que, na queixa feita pelo nosso paciente e na condio necessria estabelecida 
para a sua recuperao, as duas fantasias, ou seja, os dois desejos incestuosos, estejam unidas.
         Farei uma tentativa final de reinterpretar as ltimas descobertas desta anlise de acordo com o esquema dos meus oponentes. O paciente lamentava sua fuga 
do mundo numa tpica fantasia de estar no tero e via sua recuperao como um renascimento tipicamente concebido. De acordo com o lado predominante da sua disposio, 
expressava este ltimo em sintomas anais. Em seguida forjava, sobre o modelo da sua fantasia anal de renascimento, uma cena da infncia que repetia os seus desejos 
numa forma simblico-arcaica de expresso. Seus sintomas eram, ento, amarrados, como se houvessem sido originados por uma cena primria dessa natureza. Era forado 
a embarcar nesse longo percurso regressivo, ou porque se tivesse levantado contra alguma incumbncia na vida, a qual era preguioso demais para cumprir, ou porque 
tivesse todos os motivos para estar cnscio da sua prpria inferioridade e pensasse que podia melhor proteger-se contra o fato de ser desprezado elaborando dispositivos 
como estes.
         Tudo isso seria timo, se ao menos o coitado no tivesse tido um sonho quando no tinha mais de quatro anos de idade, sonho que assinalou o princpio da 
sua neurose, que foi instigado pela histria, que o av lhe contou, do alfaiate e do lobo, cuja interpretao necessita da hiptese dessa cena primria. Todo o alvio 
que as teorias de Jung e Adler procuram proporcionar, fracassam diante de fatos desprezveis mas indiscutveis como estes. Como as coisas se apresentam, parece-me 
mais provvel que a fantasia do renascimento seja um derivativo da cena primria, do que, ao contrrio, a cena primria seja um reflexo da fantasia do renascimento. 
E podem talvez supor, tambm, que o paciente, apenas quatro anos aps o seu nascimento, seria possivelmente jovem demais para j estar desejando nascer outra vez. 
Mas no, devo retirar esse ltimo argumento, pois minhas prprias observaes demonstram que temos subestimado os poderes das crianas e que no existe conhecimento 
que no se lhes possa creditar.
         
         IX - RECAPITULAO E PROBLEMAS
         
         No sei se o leitor deste relato de uma anlise ter conseguido formar um quadro claro da origem e do desenvolvimento da doena do paciente. Ao contrrio, 
receio que isto no tenha acontecido. Mas, embora em outras ocasies tenha dito muito pouco em favor da minha capacidade na arte de expor, na presente oportunidade 
gostaria de alegar circunstncias atenuantes. A descrio de fases to primitivas e de estratos to profundos da vida mental era uma tarefa nunca antes empreendida; 
e  melhor desempenhar mal essa incumbncia do que fugir diante dela - procedimento este que, alm do mais (ou assim nos dizem), envolveria o covarde em riscos de 
certa natureza. Prefiro, portanto, arriscar-me com audcia e mostrar que no me permiti ser detido por um sentimento da minha prpria inferioridade.
         O prprio caso no era particularmente favorvel. A vantagem de haver uma quantidade de informaes acerca da infncia do paciente (vantagem que se tornou 
possvel pelo fato de que a criana podia ser estudada por intermdio do adulto) teve que ser conquistada s custas de uma terrvel desarticulao da anlise e de 
a exposio desta mostrar as correspondentes lacunas. As peculiaridades pessoais do paciente e um carter nacional que nos era estranho, tornaram laboriosa a tarefa 
de perceber o acesso  sua mente. O contraste entre a personalidade agradvel e afvel do paciente, sua aguda inteligncia e suas boas intenes, por um lado, e 
sua vida instintual completamente desenfreada, por outro, necessitava de um processo excessivamente longo de educao preparatria, e isso tornou a perspectiva geral 
mais difcil. Mas o prprio paciente no tem culpa desse aspecto do caso, que colocava os mais graves obstculos no caminho de qualquer descrio. Na psicologia 
de adultos, atingimos felizmente o ponto de conseguir dividir os processos mentais em conscientes e inconscientes e de estarmos aptos a dar uma descrio clara de 
ambos. Com as crianas, essa distino deixa-nos quase totalmente desamparados. Muitas vezes  embaraoso decidir o que se escolheria denominar consciente e o que 
chamar de inconsciente. Os processos que se tornaram dominantes e que devem, a partir do comportamento subseqente, equivaler aos processos conscientes, no foram, 
no entanto, conscientes na criana.  fcil compreender por qu. Nas crianas, o consciente no adquiriu ainda todas as suas caractersticas; est ainda em processo 
de desenvolvimento e ainda no possui plenamente a capacidade de transpor-se para imagens verbais. Somos constantemente culpados de fazer confuso entre o fenmeno 
de emergncia como uma percepo na conscincia e o fato de pertencer a um hipottico sistema psquico ao qual devemos atribuir algum nome convencional, mas que, 
de fato, chamamos tambm 'conscincia' (o sistema Cs.) Essa confuso no prejudica quando lidamos com a descrio psicolgica de um adulto, mas torna-se enganosa 
quando se trata da descrio de uma criana. Nem seria de muita ajuda introduzir aqui o 'pr-consciente', pois o pr-consciente de uma criana pode, exatamente da 
mesma maneira, deixar de coincidir com o de um adulto. Devemo-nos dar por satisfeitos, portanto, em haver reconhecido claramente a obscuridade.
          bvio que um caso como o que est descrito nestas pginas pode transformar-se num pretexto para pr em discusso todas as descobertas e problemas da psicanlise. 
Isso, contudo, seria um trabalho infindvel. Deve-se reconhecer que nem tudo se pode aprender a partir de um nico caso e que nem tudo pode ser resolvido atravs 
dele; devemo-nos contentar em explorar tudo aquilo que porventura se mostre de forma mais clara. Existem, em qualquer caso, limites estreitos para aquilo que a psicanlise 
foi chamada a explicar. Pois, ao passo que  da sua alada explicar os sintomas revelando a sua origem, no o  explicar, mas simplesmente descrever, os mecanismos 
psquicos e os processos instintuais aos quais a pessoa  desse modo conduzida. Para derivar novas generalizaes do que foi, assim, estabelecido em relao aos 
mecanismos e aos instintos, seria essencial ter  disposio numerosos casos to profunda e inteiramente analisados como este. Mas isso  algo que no se pode conseguir 
com facilidade, e cada um deles requer anos de trabalho. Assim, qualquer progresso nessas esferas do conhecimento deve necessariamente ser lento. No h dvida de 
que constitui uma grande tentao contentar-se em 'arranhar' a superfcie mental de uma srie de pessoas e substituir o que no foi feito pela especulao, feita 
sob o patrocnio de uma ou outra escola filosfica. Pode-se aduzir tambm requisitos prticos em favor desse procedimento; mas nenhum substituto pode satisfazer 
os requisitos da cincia.
         Tentarei agora esboar uma viso sinttica do desenvolvimento sexual do meu paciente, a comear das primeiras indicaes. A primeira que sabemos  a do 
distrbio no apetite [ver em [1]], pois, levando em conta outras observaes, estou inclinado, embora com as devidas reservas, a consider-lo como resultado de algum 
processo na esfera da sexualidade. Tenho sido levado a considerar como a primeira organizao sexual reconhecvel a assim chamada fase 'oral' ou 'canibalesca', durante 
a qual predomina ainda a ligao original entre a excitao sexual e o instinto nutritivo. No  de se esperar que devam ser descobertas manifestaes diretas dessa 
fase, mas apenas indcios dela, onde quer que se tenha estabelecido perturbaes. A diminuio do instinto nutritivo (embora possa certamente ter outras causas) 
chama ateno para uma deficincia, por parte do organismo, no domnio da excitao sexual. Nessa fase o objetivo sexual s pode ser o canibalismo, o propsito de 
devorar; no caso do nosso paciente, surge atravs da regresso de um estdio mais elevado, na forma de um medo de 'ser comido pelo lobo'. Na verdade, fomos obrigados 
a traduzi-lo para um medo de ser copulado pelo pai.  sabido que existe uma neurose nas meninas que ocorre numa idade muito posterior, na poca da puberdade ou pouco 
depois, e que exprime a averso  sexualidade por meio da anorexia. Essa neurose ter que ser examinada em conexo com a fase oral da vida sexual. O propsito ertico 
da organizao oral aparece tambm no auge do paroxismo de um amante (em tais frases como 'eu poderia devor-la com amor') e em relaes afetivas com crianas, quando 
a pessoa adulta finge ser ela prpria uma criana. Em outra passagem exprimi minha suspeita de que o pai do nosso paciente costumava ceder ao 'abuso afetivo', e 
pode ter brincado de lobo ou de co com o menino, ameaando, por brincadeira, engoli-lo (ver em [1]). O paciente confirmava essa suspeita pelo curioso comportamento 
que mostrava na transferncia. Sempre que, assustado pelas dificuldades do tratamento, recuava para a transferncia, costumava ameaar-me dizendo que ia devorar-me 
e, depois com toda espcie de maus tratos - os quais eram todos uma expresso de afeio.
         Essa fase oral da sexualidade deixa marcas permanentes nos usos da linguagem.  comum as pessoas falarem, por exemplo, num objeto de amor 'apetitoso', bem 
como descrever outras pessoas de que gostam como 'doces'. Lembrar-nos-emos, tambm, de que o nosso pacientezinho s comia coisas doces. Nos sonhos, os doces e guloseimas 
significam geralmente carcias ou gratificaas sexuais.
         Parece, ademais, haver uma ansiedade que pertence a essa fase (somente,  claro, quando surge algum distrbio), manifestando-se como um medo da morte, e 
que pode ser relacionada com qualquer coisa que se aponte  criana como sendo adequada a esse propsito. Com nosso paciente, foi empregada para induzi-lo a superar 
a sua perda de apetite e, na verdade, para supercompens-la. Encontrar-se- uma possvel origem dessa perturbao do apetite se tivermos em mente (baseando-nos na 
hiptese que tantas vezes expusemos) que a observao que fez da cpula, com um ano e meio, a qual produziu tantos efeitos preteridos, ocorreu certamente antes do 
perodo de dificuldades na funo alimentar. Assim, podemos talvez supor que acelerou os processos de amadurecimento sexual e, por conseguinte, produziu tambm, 
de fato, efeitos imediatos, ainda que fossem aparentemente insignificantes.
         Certamente estou cnscio de que  possvel explicar os sintomas desse perodo (a ansiedade relacionada com o lobo e o distrbio no apetite) de outra maneira 
mais simples, sem qualquer referncia  sexualidade ou a um estdio pr-genital da sua organizao. Aqueles que gostam de negligenciar as indicaes de neurose e 
as interconexes entre os eventos preferiro essa outra explicao e eu no conseguirei impedir que o faam.  difcil descobrir qualquer evidncia concludente em 
relao a esses primrdios da vida sexual, exceto por caminhos indiretos, conforme indiquei.
         Na cena com Grusha (aos dois anos e meio de idade), vemos o menino no incio de um desenvolvimento que, exceto talvez pela sua precocidade, merece ser considerado 
normal; nele encontramos, desse modo, identificao com seu pai e erotismo uretral representando masculinidade. Estava tambm totalmente sob a influncia da cena 
primria. Consideramos, at agora, a sua identificao com o pai como sendo narcsica; mas, se levarmos em conta o contedo da cena primria, no podemos negar que 
j atingira o estdio da organizao genital. Seu rgo genital masculino comeara a representar o seu papel e continuava a faz-lo sob a influncia da seduo pela 
irm.
         A sua seduo, entretanto, d a impresso de no haver simplesmente encorajado o desenvolvimento sexual, mas sim, em medida ainda maior, de hav-lo perturbado 
e desviado. Ofereceu-lhe um objetivo sexual passivo, que era, em ltima anlise, incompatvel com a ao do rgo genital masculino. Ao primeiro obstculo externo, 
a ameaa de castrao da sua Nanya, sua organizao genital, indiferente como ainda o era, sucumbiu (com a idade de trs anos e meio) e regrediu ao estdio que a 
precedera, qual seja, o da organizao sdico-anal, que de outro modo poderia talvez ter transposto com sintomas to superficiais como os de qualquer outra criana.
         A organizao sdico-anal pode ser facilmente considerada como uma continuao e um desenvolvimento da oral. A atividade muscular violenta dirigida sobre 
o objeto, pela qual se caracteriza, pode ser explicada como uma ao preparatria para comer. O comer deixa, ento, de ser um objetivo sexual e a ao preparatria 
torna-se, em si, um objetivo suficiente. A novidade essencial, em comparao com o estdio anterior,  que a funo passiva receptiva desprende-se da zona oral e 
liga-se  zona anal. Em relao a isso, dificilmente podemos deixar de pensar em paralelos biolgicos ou na teoria segundo a qual as organizaes pr-genitais no 
homem devem ser consideradas como vestgios de condies que tm sido permanentemente conservadas em diversas espcies animais. A construo do instinto de procura, 
a partir dos seus vrios componentes,  outro aspecto caracterstico desse estdio de desenvolvimento.
         O erotismo anal do menino no era particularmente perceptvel. Sob a influncia do seu sadismo, a significao afetiva das fezes deu lugar a uma significao 
agressiva. Na transformao do sadismo em masoquismo, teve seu papel um sentimento de culpa, cuja presena assinala processos de desenvolvimento em outras esferas 
que no a sexual.
         A seduo continuou a fazer sentir sua influncia, ao manter a passividade do seu objetivo sexual. Transformava, em grande medida, seu sadismo em masoquismo, 
que era a sua contrapartida passiva. Contudo,  duvidoso que a seduo possa ter sido inteiramente responsvel por essa caracterstica de passividade, pois a reao 
do menino  sua observao da cpula, com um ano e meio, j era preponderantemente passiva. Sua excitao sexual simptica expressou-se pela ao de defecar, embora 
seja verdade que, nesse comportamento, deve-se distinguir tambm um elemento ativo. Lado a lado com o masoquismo que dominava os seus impulsos sexuais e que se expressava 
tambm em fantasias, persistia igualmente o sadismo, que era dirigido contra os pequenos animais. Suas pesquisas sexuais haviam comeado a partir da seduo e diziam 
respeito, essencialmente, a dois problemas: a origem das crianas e a possibilidade de perder os genitais. Essas buscas entrelaaram-se com as manifestaes dos 
seus impulsos instintuais e dirigiram a sua propenso sdica para os animaizinhos, que como que representavam os bebs.
         Fixamos, ento, o nosso relato mais ou menos na poca do quarto aniversrio do menino, e foi nesse ponto que o sonho fez operar, preteridamente, a sua observao 
da relao sexual, com a idade de um ano e meio. No nos  possvel entender completamente ou descrever adequadamente o que ento sucedeu. A ativao do quadro, 
que, graas ao progresso no seu desenvolvimento intelectual, j conseguia ento compreender, operou no apenas como um evento recente, mas como um novo trauma, como 
uma interferncia do exterior, anloga  seduo. A organizao genital que fora interrompida restabeleceu-se de uma s vez; mas o progresso que fora alcanado no 
sonho no podia ser mantido. Pelo contrrio, por meio de um processo que s pode equivaler a uma represso, veio  tona uma rejeio do novo elemento e a sua substituio 
por uma fobia.
         Dessa forma, a organizao sdico-anal continuava a existir durante a fase da fobia animal que ento se estabelecia, apenas sofrendo uma mistura de fenmenos 
de ansiedade. O menino persistia nas atividades sdicas, bem como nas masoquistas, mas reagia com ansiedade a uma parte delas; provavelmente a converso do sadismo 
em seu oposto fez mais progressos.
         A anlise do sonho de ansiedade mostra-nos que a represso estava ligada ao reconhecimento da existncia da castrao. O novo elemento foi rejeitado porque 
sua aceitao ter-lhe-ia custado o pnis. Uma considerao mais atenta leva-nos a uma concluso como a que se segue. O que foi reprimido foi a atitude homossexual 
compreendida no sentido genital, atitude que se havia formado sob a influncia desse reconhecimento da castrao. Mas tal atitude foi mantida no que diz respeito 
ao inconsciente e instituda como um estrato dissociado e mais profundo. A fora motivadora da represso parece ter sido a masculinidade narcsica ligada aos genitais 
do menino, que entrara num conflito h muito preparado com a passividade do seu propsito homossexual. A represso era, desse modo, um resultado da sua masculinidade.
         Pode-se ser tentado, neste ponto, a introduzir uma ligeira alterao na teoria psicanaltica. Pareceria palpavelmente bvio que a represso e a formao 
da neurose haviam-se originado do conflito entre as tendncias masculina e feminina, ou seja, da bissexualidade. Essa viso da situao, no entanto,  incompleta. 
Dos dois impulsos sexuais conflitantes, um era egossintnico, ao passo que o outro feria o interesse narcsico do menino; foi por causa disso que o ltimo sofreu 
represso. De modo que, tambm nesse caso, foi o ego que ps em ao a represso, em benefcio de uma das tendncias sexuais. Em outros casos no existe tal conflito 
entre masculinidade e feminilidade; h apenas, uma nica tendncia sexual presente, que procura aceitao, mas que atua contra determinadas foras do ego e, por 
conseguinte,  repelida. Na verdade, os conflitos entre a sexualidade e as tendncias morais do ego so muito mais comuns do que aqueles que se situam dentro da 
esfera da sexualidade; mas, no presente caso, falta um conflito moral dessa natureza. Insistir que a bissexualidade  a fora motivadora que leva  represso  assumir 
uma viso por demais estreita; ao passo que se afirmamos o mesmo do conflito entre o ego e as tendncias sexuais (isto , a libido) estaremos cobrindo todos os casos 
possveis.
         A teoria do 'protesto masculino', conforme tem sido desenvolvida por Adler, defronta-se com a dificuldade de que de modo algum a represso toma sempre o 
partido da masculinidade contra a feminilidade; h categorias bastante vastas de casos nos quais  a masculinidade que tem de se submeter  represso feita pelo 
ego. [Cf. Adler (1910).]
         Ademais, uma apreciao mais justa do processo de represso no nosso presente caso leva-nos a negar que a masculinidade narcsica seja a nica fora motivadora. 
A atitude homossexual que passou a existir durante o sonho era de uma intensidade to opressora, que o ego do menino viu-se incapaz de lutar e, dessa maneira, defendeu-se 
contra ela pelo processo de represso. A masculinidade narcsica que se ligava aos seus genitais, sendo contrria  atitude homossexual, foi convocada para ajudar 
o ego a desempenhar a sua tarefa. Simplesmente para evitar mal-entendidos, acrescentarei que todos os impulsos narcsicos operam a partir do ego e tm sede permanente 
no ego, e que as represses so dirigidas contra as catexias de objeto libidinais.
         Deixemos agora o processo de represso, ainda que talvez no tenhamos conseguido trat-lo exaustivamente, e voltemos ao estado do menino ao acordar do sonho. 
Se tivesse sido realmente a sua masculinidade que triunfara sobre o homossexualismo (ou feminilidade) durante o processo onrico, chegaramos ento, necessariamente, 
 concluso de que a tendncia dominante era uma tendncia sexual ativa de um carter j explicitamente masculino. No h dvida, porm, de que no foi isto que 
aconteceu. O essencial da organizao sexual no se modificara; a fase anal-sdica persistia e continuava a ser dominante. O triunfo da masculinidade era demonstrado 
apenas nisto: que desde ento reagia com ansiedade aos objetivos sexuais passivos da organizao dominante - objetivos que eram masoquistas mas no femininos. No 
nos defrontamos com uma triunfante tendncia sexual masculina, mas apenas com uma tendncia feminina e um esforo contra esta.
         Posso bem imaginar as dificuldades que o leitor deve encontrar na distino ntida (pouco conhecida, mas essencial) que esbocei entre 'ativo' e 'masculino' 
e entre 'passivo' e 'feminino'. No hesitarei, portanto, em repetir-me. A situao aps o sonho, ento, pode ser descrita como se segue. As tendncias sexuais haviam 
sido divididas: no inconsciente, atingira-se o estdio de organizao genital e estabelecera-se um homossexualismo muito intenso; em cima disso (virtualmente no 
consciente), persistia a antes sdica, e agora predominantemente masoquista, corrente sexual; o ego modificara totalmente a atitude em relao  sexualidade, de 
vez que agora a repudiava e rejeitava os objetivos masoquistas dominantes com ansiedade, tal como reagira aos objetivos homossexuais mais profundos com a formao 
de uma fobia. Assim, o resultado do sonho no era tanto o triunfo de uma corrente masculina como uma reao contra uma corrente feminina e passiva. Seria muito forado 
atribuir a qualidade de masculinidade a essa reao. A verdade  que o ego no tem correntes sexuais, mas apenas um interesse em sua prpria autoproteo e na preservao 
do seu narcisismo.
         Consideremos agora a fobia. A sua existncia comeou no nvel da organizao genital e mostra-nos o mecanismo relativamente simples de uma histeria de angstia. 
O ego, ao desenvolver a ansiedade, estava se protegendo contra aquilo que considerava como um perigo esmagador, ou seja, a satisfao homossexual. O processo de 
represso, contudo, deixou para trs um vestgio que no pode ser desprezado. O objeto ao qual o perigoso objetivo sexual havia sido ligado, teve que ser substitudo, 
na conscincia, por um outro. O que se tornou consciente foi o medo, no do pai, mas do lobo. Nem o processo se deteve na formao de uma fobia com um nico contedo. 
Aps um tempo considervel, o lobo foi substitudo pelo leo [ver em [1] e [2]]. Simultaneamente aos impulsos sdicos contra os pequenos animais, existia uma fobia 
dirigida para estes, na qualidade de representantes dos rivais do menino, os possveis bebs. A origem da fobia da borboleta  de particular interesse. Era como 
uma repetio do mecanismo que produziu a fobia do lobo no sonho. Devido a um estmulo casual, uma antiga experincia, a cena com Grusha, foi ativada; sua ameaa 
de castrao produziu, assim, efeitos preteridos, embora na ocasio em que foi proferida no tenha causado impresso.
         De fato, pode-se dizer que a ansiedade que estava envolvida na formao dessas fobias era um medo da castrao. Essa afirmao no implica em contradio 
do ponto de vista de que a ansiedade se originou da represso da libido homossexual. Ambos os modos de expresso referem-se ao mesmo processo, ou seja: a retirada 
da libido, pelo ego, do impulso ansioso homossexual, tendo a libido, ento, se convertido em ansiedade livre e, subseqentemente, ligada a fobias. O primeiro mtodo 
de afirmao simplesmente acrescenta o motivo pelo qual o ego foi ativado.
         Se examinarmos a questo mais de perto, veremos que a primeira doena do nosso paciente (deixando de lado o distrbio no apetite) no se esgotou quando 
dela extramos a fobia. Deve ser considerada como uma verdadeira fobia, que no mostra simplesmente sintomas de ansiedade, mas tambm fenmenos de converso. Uma 
parte do impulso homossexual foi mantida pelo rgo a que esse impulso dizia respeito; a partir dessa poca e igualmente durante a vida adulta, seu intestino comportou-se 
como um rgo histericamente afetado. O homossexualismo reprimido e inconsciente refugiou-se nos intestinos. Foi precisamente essa caracterstica de histeria que 
foi de to grande valia como auxlio ao esclarecimento da sua doena posterior. Devemos agora criar coragem para abordar a estrutura ainda mais complicada da neurose 
obsessiva. Mentalizemos uma vez mais a situao: uma corrente sexual masoquista dominante e outra, homossexual, reprimida, e um ego profundamente empenhado numa 
rejeio histrica de ambas. Que processos transformaram essa condio numa neurose obsessiva?
         A transformao no ocorreu espontaneamente, por meio de um desenvolvimento interno, mas sim atravs de uma influncia exterior. Seu efeito visvel foi 
que o relacionamento do paciente com seu pai, que estava em primeiro plano e, at ento, se expressara na fobia de lobos, manifestava-se agora numa piedade obsessiva. 
No posso deixar de assinalar que o curso dos acontecimentos nessa parte da histria do paciente proporciona uma confirmao inequvoca de uma afirmao que fiz 
em Totem e Tabu sobre a relao do animal-totem com a divindade. Decidi-me, ali, a favor do ponto de vista de que a idia de Deus no era um desenvolvimento do totem, 
mas o substitua depois de brotar independentemente de uma raiz comum s duas idias. O totem, conforme afirmei, era o primeiro substituto do pai e o deus era um 
substituto posterior, no qual o pai recuperara a sua forma humana. E, em nosso paciente, encontramos a mesma coisa. Em sua fobia do lobo, passara pelo estdio do 
substituto totmico do pai; mas, depois, esse estdio se interrompera e, como resultado das novas relaes entre ele e o pai, fora substitudo por uma fase de devoo 
religiosa.
         A influncia que provocou essa transformao foi o conhecimento que obteve, por instncia de sua me, das doutrinas da religio e da histria bblica. Essa 
medida educativa teve o efeito desejado. A organizao sexual sadomasoquista aos poucos chegou ao fim, a fobia do lobo desapareceu rapidamente e, em lugar de a sexualidade 
ser repudiada com ansiedade, surgiu um mtodo mais elevado de suprimi-la. A devoo tornou-se a fora dominante na vida do menino. Essas vitrias, no entanto, no 
foram conquistadas sem esforos, dos quais seus pensamentos blasfemos eram um indcio, e dos quais o estabelecimento de um exagero obsessivo no cerimonial religioso 
foi o resultado.
          parte esses fenmenos patolgicos, pode-se dizer que, no presente caso, a religio atingiu todos os objetivos pelos quais  includa na educao do indivduo. 
Restringiu as impulses sexuais do menino, propiciando-lhes uma sublimao e um ancoradouro seguro; diminuiu a importncia das suas elaes familiares e, desse modo, 
protegeu-o da ameaa do isolamento, dando-lhe acesso  grande comunidade humana. A criana indomada e cheia de medos tornou-se socivel, bem comportada e sensvel 
 educao.
         A principal fora motivadora da influncia que a religio exerceu sobre ele era a sua identificao com a figura de Cristo, que se estabeleceu com facilidade 
devido  coincidncia da data de seu nascimento. Ao longo desse caminho, o extravagante amor que tinha pelo pai, que tornara necessria a represso, encontrou, finalmente, 
sua forma de sublimao ideal. Como Cristo, podia amar seu pai, que agora se chamava Deus, com um fervor do qual procurara em vo libertar-se enquanto seu pai fora 
um mortal. O meio pelo qual podia testemunhar esse amor era estabelecido pela religio, sem ser perseguido por aquela sensao de culpa da qual seus sentimentos 
individuais de amor no conseguiam libertar-se. Assim, era-lhe ainda possvel esgotar a sua corrente sexual mais profunda, que j se precipitara na forma de homossexualismo 
inconsciente; e, ao mesmo tempo, sua impulso masoquista, mais superficial, encontrou uma sublimao incomparvel, sem muita renncia, na histria da Paixo de Cristo, 
que, por ordem do seu divino Pai e em sua honra, deixara-se maltratar e sacrificar. Foi assim que a religio funcionou nessa criana atormentada - pela combinao, 
que proporcionava ao crente, de satisfao, de sublimao, de desvio dos processos sensuais para os puramente espirituais e de acesso ao relacionamento social.
         A oposio que manifestou, de incio, contra a religio teve trs diferentes pontos de origem. Para comear, havia, de um modo geral, sua caracterstica 
(que j vimos exemplificada) de rechaar todas as novidades. Qualquer posio da libido que j tivesse sido assumida era obstinadamente defendida por ele, por medo 
do que perderia, abandonando-a, e por desconfiana da probabilidade de ser propiciado um substituto completo mediante a nova posio que estava  vista. Esta  uma 
peculiaridade psicolgica importante e fundamental, que descrevi em meus Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1950d) como uma suscetibilidade  'fixao'. 
Sob o nome de 'inrcia' psquica, Jung tentou institu-la como a principal causa de todos os fracassos dos neurticos. Penso que ele est errado nesse aspecto, de 
vez que esse fator tem uma aplicao muito mais geral e desempenha importante papel tambm na vida dos no-neurticos. A grande mobilidade ou morosidade das catexias 
libidinais (bem como de outros tipos de catexias enrgicas) so caractersticas particulares que se vinculam a muitas pessoas normais e de modo algum a todos os 
neurticos, e que, at agora, no foram relacionadas com outras qualidades. So, por assim dizer, como nmeros primos, no divisveis. Sabemos apenas uma coisa: 
que a mobilidade das catexias mentais mostra uma diminuio surpreendente  medida em que a idade avana. Isso nos propiciou uma das indicaes dos limites dentro 
dos quais o tratamento psicanaltico  efetivo. H pessoas, no entanto, que conservam essa plasticidade mental muito alm do limite de idade habitual, e outras que 
a perdem prematuramente. Se estas ltimas so os neurticos, estamos diante da desagradvel descoberta de que  impossvel anular nelas as manifestaes que, em 
circunstncias aparentemente semelhantes, so facilmente tratveis em outras pessoas. De modo que, ao considerar a conversao da energia psquica, no menos do 
que a de energia fsica, devemos fazer uso do conceito de entropia, que se ope  anulao do que j ocorrera.
         Um segundo ponto de ataque foi proporcionado pela circunstncia de que a prpria doutrina religiosa se fundamenta numa relao ambgua com Deus Pai e, de 
fato, traz a marca da atitude ambivalente que presidiu sua origem. A prpria ambivalncia do paciente, de vez que este a possua em alto grau de desenvolvimento, 
ajudou-o a detectar o mesmo aspecto na religio, e ele foi levado a dirigir contra esse aspecto aquelas crticas agudas, cuja presena no deixa de assombrar-nos 
numa criana de apenas quatro anos e meio.
         Havia, contudo, um terceiro fator em ao, que era certamente o mais importante de todos e ao qual devemos atribuir os produtos patolgicos da sua luta 
contra a religio. A verdade  que a corrente mental que o impeliu a transformar os homens em objeto sexual e que devia ter sido sublimada pela religio, no era 
mais livre; uma parte dela foi excluda pela represso e, dessa forma, afastada da possibilidade de sublimao e vinculada ao seu objetivo sexual de origem. Em decorrncia 
desse estado de coisas, a parte reprimida continuou a esforar-se para avanar gradualmente at a parte sublimada ou para arrastar esta ltima para si. As primeiras 
ruminaes que teceu em torno da figura de Cristo j envolviam a questo de saber se esse filho sublime tambm podia cumprir o relacionamento sexual com o Pai, relao 
que o paciente conservara no inconsciente. O nico resultado de seu repdio desses esforos foi o de haver gerado pensamentos obsessivos, aparentemente blasfemos, 
nos quais sua afeio fsica por Deus afirmava-se na forma de um aviltamento. Um violento esforo defensivo levou-o ento, inevitavelmente, a uma exacerbao obsessiva 
de todas as atividades preceituadas para dar expresso  piedade e ao puro amor por Deus. Afinal, a religio venceu, mas seus fundamentos instintuais mostraram ser 
incomparavelmente mais fortes do que a durabilidade dos produtos da sua sublimao. To logo o curso dos eventos lhe ofereceu um novo substituto paterno, que pesou 
na balana contra a religio, esta foi posta de lado e substituda. Ademais disso, devemos ter em mente, como uma interessante complicao, que sua devoo se deveu 
 influncia de mulheres (sua me e a bab), ao passo que foi uma influncia masculina que o libertou dela.
         A origem dessa neurose obsessiva, com base na organizao sdico-anal, confirma totalmente aquilo que afirmei em outro lugar, sobre a predisposio  neurose 
obsessiva (1913i). A existncia prvia de uma grave histeria no presente caso, contudo, torna-a mais obscura nesse aspecto.
         Concluirei meu sumrio do desenvolvimento sexual do paciente, fornecendo algumas informaes breves sobre as suas vicissitudes posteriores. Durante o perodo 
de puberdade, surgiu no paciente uma corrente masculina, marcadamente sensual, com um propsito sexual prprio da organizao genital; deve ser considerada normal 
e sua histria ocupou todo o perodo que se estende at a doena posterior. Relacionava-se diretamente com a cena de Grusha, da qual tomou seu aspecto caracterstico 
- uma paixo compulsiva que surgia e desaparecia, em acessos repentinos. Essa corrente teve de lutar contra as inibies que se originaram da sua neurose infantil. 
Houvera uma violenta mudana na direo das mulheres, e ele conquistara, dessa forma, uma masculinidade completa. A partir desse perodo, conservou as mulheres como 
seu objeto sexual; mas no desfrutava dessa posse, porquanto uma poderosa, e agora totalmente inconsciente, inclinao para os homens, na qual se uniam todas as 
foras das fases anteriores do seu desenvolvimento, afastava-o constantemente dos seus objetos femininos e compelia-o, nos intervalos, a exagerar sua dependncia 
das mulheres. Durante o tratamento, continuou a queixar-se de que no suportava ter que ocupar-se das mulheres, e todos os nossos esforos foram dirigidos no sentido 
de revelar-lhe a sua relao inconsciente com os homens. Toda a situao poderia resumir-se  maneira de uma frmula. Sua infncia fora marcada por uma oscilao 
entre atividade e passividade, a puberdade por um esforo de masculinidade, e o perodo que se seguiu  sua doena, por uma luta pelo objeto dos seus desejos masculinos. 
A causa que precipitou a neurose no se enquadrava em nenhum dos tipos que consegui descrever como casos especiais de 'frustrao', e, desse modo, chama ateno 
para uma lacuna naquela classificao. Ele sucumbiu depois que uma afeco orgnica dos genitais havia reavivado o medo da castrao, destrudo seu narcisismo, e 
o compelira a abandonar a esperana de ser pessoalmente favorecido pelo destino. Adoeceu, portanto, em conseqncia de uma 'frustrao' narcsica. Essa fora excessiva 
do seu narcisismo harmonizava-se inteiramente com as outras indicaes de um desenvolvimento sexual inibido: com o fato de que to poucas das suas tendncias psquicas 
se concentravam em sua escolha de objeto heterossexual, apesar de toda a energia, e que sua atitude homossexual, estando to prxima do narcisismo, persistia nele 
como uma fora inconsciente de enorme tenacidade. Naturalmente, quando se apresentam perturbaes como estas, o tratamento psicanaltico no pode trazer uma revoluo 
instantnea ou colocar as coisas num nvel de desenvolvimento normal: pode to-somente livrar-se dos obstculos e clarear o caminho, de modo que as influncias da 
vida possam conseguir desenvolver-se em linhas melhores.
         Irei, agora, expor algumas das peculiaridades da mentalidade do paciente, reveladas pelo tratamento psicanaltico, no tendo, contudo, sido depois elucidadas 
e, por conseguinte, no eram suscetveis de influncia direta. Tais eram sua tenacidade de fixao, que j foi discutida, sua extraordinria propenso  ambivalncia, 
e (como terceiro trao numa constituio que merece a denominao de arcaica) seu poder de manter simultaneamente as mais variadas e contraditrias catexias libidinais, 
todas elas capazes de funcionar lado a lado. Sua oscilao constante entre essas catexias (caracterstica que por muito tempo parecia bloquear o caminho para a recuperao 
e o progresso no tratamento) dominou o quadro clnico durante a sua enfermidade de adulto, que mal consegui tangenciar nestas pginas. Era essa uma caracterstica 
que pertencia indubitavelmente ao carter geral do inconsciente, que, no seu caso, persistira nos processos que se haviam tornado conscientes. Mostrava-se, porm, 
apenas nos produtos de impulsos afetivos; na rea da lgica pura, ele traa, ao contrrio, uma habilidade peculiar para revelar contradies e incoerncias. De tal 
modo que a sua vida mental impressionava do mesmo modo que a religio do Antigo Egito, que  ininteligvel para ns porque preserva os estdios anteriores do seu 
desenvolvimento lado a lado com os produtos acabados, mantm os mais modernos e, assim, expande sobre uma superfcie bidimensional aquilo que outros exemplos de 
evoluo nos mostram em trs dimenses.
         Acabo de chegar ao final daquilo que tinha para dizer acerca deste caso. Restam dois problemas, dentre os muitos que o caso levanta, os quais me parecem 
merecer um destaque especial. O primeiro relaciona-se com os esquemas filogeneticamente herdados, que, como as categorias da filosofia, dizem respeito ao trabalho 
de 'situar' as impresses originadas da experincia real. Inclino-me a assumir o ponto de vista de que so resduos da histria da civilizao humana. O complexo 
de dipo, que compreende a relao da criana com os pais  um deles - , na verdade, o mais conhecido membro da classe. Sempre que as experincias deixam de ajustar-se 
ao esquema hereditrio, elas se remodelam na imaginao - um processo que poderia, com muito proveito, ser seguido detalhadamente. So precisamente tais casos que 
se destinam a convencer-nos da existncia independente do esquema. Muitas vezes conseguimos ver o esquema triunfar sobre a experincia do indivduo; como quando, 
no presente caso, o pai do menino tornou-se o castrador e a ameaa  sua sexualidade infantil, apesar daquilo que era, em outros aspectos, um complexo de dipo invertido. 
Processo semelhante entra em ao quando uma bab desempenha o papel da me ou quando as duas se fundem. As contradies entre a experincia e o esquema parecem 
suprir os conflitos da infncia com material abundante.
         O segundo problema no est muito afastado do primeiro, porm  incomparavelmente mais importante. Se se considera o comportamento do menino de quatro anos 
em relao  cena primria reativada, ou mesmo se se pensa nas reaes muito mais simples da criana de um ano e meio, quando a cena foi realmente vivida,  difcil 
descartar a opinio de que algum tipo de conhecimento, dificilmente definvel, algo, fosse o que fosse, preparatrio para uma compreenso, estivesse agindo na criana, 
na poca. No podemos formar um conceito sobre aquilo em que poderia ter consistido esse conhecimento; nada temos  nossa disposio, a no ser uma nica analogia 
- e ela  excelente -, a do extenso conhecimento instintivo dos animais.
         Se os seres humanos possussem tambm um dom instintivo como este, no seria surpresa se fosse muito particularmente ligado aos processos da vida sexual, 
mesmo que no pudesse ser de forma alguma confinado a eles. Esse fator instintivo seria ento o ncleo do inconsciente, um tipo primitivo de atividade mental, que 
seria depois destronado e encoberto pela razo humana, quando essa faculdade viesse a ser adquirida; mas que, em algumas pessoas, talvez em todas, mantivesse o poder 
de atrair para si os processos mentais mais elevados. A represso seria o retorno a esse estdio instintivo, e o homem estaria, assim, pagando pela nova aquisio 
com a sua sujeio  neurose, e estaria testemunhando, pela possibilidade das neuroses, a existncia desses estdios preliminares, de tipo instintivo. A significao 
dos traumas da primitiva infncia estaria no material que transmitiriam ao inconsciente, que no permitiria que fosse exaurido pelo curso subseqente do desenvolvimento.
         Estou ciente de que, em muitos lugares, deu-se expresso a pensamentos como estes, que enfatizam o hereditrio, o fator filogeneticamente adquirido na vida 
mental. Na verdade, minha opinio  que as pessoas tm-se prontificado excessivamente a abrir espao para esses fatores e a atribuir-lhes importncia, dentro da 
psicanlise. No entanto, considero que so apenas admissveis na medida em que a psicanlise observa estritamente a ordem correta de precedncia, e, depois de abrir 
caminho atravs dos estratos daquilo que foi adquirido pelo indivduo, chega afinal aos vestgios do que foi herdado. 
         
         APNDICE - LISTA DOS CASOS CLNICOS MAIS LONGOS DE FREUD
         
         A data diante de cada entrada  aproximadamente a do ano durante o qual o trabalho em questo foi escrito. A data no final  a da publicao; e, sob essa 
data, detalhes mais completos do trabalho encontram-se na bibliografia, no fim deste volume.
         
         1894         Frau Emmy von N.
                 Miss Lucy R.
                 Katharina
                 Frulein Elisabeth von R.em Estudos sobre a Histeria (1895d) 
         
         1901 'Fragmento da Anlise de um Caso de Histeria' ('Dora') (1905e) 
         
         1909 'Anlise de uma Fobia em um Menino de Cinco Anos' ('Pequeno         Hans') (1909b e 1922c)
                 'Notas sobre um Caso de Neurose Obsessiva' (O 'Homem dos         Ratos') (1909d e 1955a)
         
         1910 'Notas Psicanalticas sobre um Relato Autobiogrfico de um Caso         de Parania' (Schreber) (1911c e 1912a)
         
         1914 'Histria de uma Neurose Infantil'. (O 'Homem dos Lobos')         (1918b)
         
         1915 'Um Caso de Parania que Contraria a Teoria Psicanaltica da         Doena' (1915f)
         
         1919 'A Psicognese de um Caso de Homossexualismo numa Mulher'         (1920a)
         
         
         
         









AS TRANSFORMAES DO INSTINTO EXEMPLIFICADAS 
NO EROTISMO ANAL (1917)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         BER TRIEBUMSETZUNGEN, INSBESONDEREDER ANALEROTIK
         
         (a) EDIES ALEMS:
         1917 Int. Z. Psychoanal., 4 (3), 125-30.
         1918 S.K.S.N., 4, 139-48 (1922, 2 ed.).
         1924 G.S., 5, 268-76.
         1926 Psychoanalyse der Neurosen, 40-9.
         1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 116-24.
         1946 G.W., 10, 402-10.
         (b)TRADUO INGLESA: 
         'On the Transformation of Instincts withSpecial Reference to Anal Erotism'
         1924 C.P., 2, 164-71. (Trad. de E. Glover)
         A presente traduo inglesa, com ttulo modificado, baseia-se na publicada em 1924.
         Embora este artigo s fosse publicado em 1917, provavelmente foi escrito antes - talvez mesmo em 1915. Grandes atrasos na publicao eram inevitveis nesse 
perodo, devido s dificuldades das condies de guerra. A parte essencial do artigo j aparecera num pargrafo acrescentado  edio de 1915 dos Trs Ensaios (1905d), 
de Freud, Edio Standard Brasileira, Vol. VII, pg. 191, IMAGO Editora, 1972. Alm disso, vrias das concluses a que Freud chega neste escrito parecem originar-se 
da anlise do 'Homem dos Lobos' (1918b), cujo caso clnico foi escrito, em sua maior parte, durante o outono de 1914. A ltima parte da Seo VII (pg. 102 e segs.) 
daquele caso clnico exemplifica, com alguns detalhes, a tese do presente artigo.
         
         AS TRANSFORMAES DO INSTINTO EXEMPLIFICADAS NO EROTISMO ANAL
         
         H alguns anos atrs, observaes feitas durante a psicanlise levaram-me a suspeitar de que a constante coexistncia de qualquer um dos trs traos de 
carter, ordem, parcimnia e obstinao, indicava uma intensificao dos componentes anal-erticos na constituio sexual, e que esses modos de reao, que eram 
favorecidos pelo ego, haviam sido estabelecidos durante o curso do seu desenvolvimento, atravs da assimilao do seu erotismo anal.
         Naquele trabalho, meu principal objetivo era tornar conhecido o fato dessa relao estabelecida; pouco me preocupava o seu significado terico. Desde ento 
tem havido um consenso geral de opinio de que cada uma das trs qualidades, avareza, formalismo e obstinao, provm de fontes anal-erticas ou - para express-lo 
mais cautelosa e completamente - retira poderosas contribuies dessas fontes. Os casos em que esses defeitos de carter se combinavam e que, por conseguinte, mereceram 
um rtulo especial (o 'carter anal'), eram simplesmente exemplos extremos, que se juntavam para trair a particular conexo que nos interessa aqui, mesmo a olhos 
poucos observadores.
         Como resultado de inmeras impresses e, em particular, de uma observao analtica especialmente convincente, cheguei  concluso, alguns anos depois, 
de que o desenvolvimento da libido no homem - a fase da primazia genital - deve ser precedida por uma 'organizao pr-genital', na qual o sadismo e o erotismo anal 
desempenhem os principais papis.
         A partir daquele momento tivemos que enfrentar o problema da histria posterior dos impulsos instintuais anal-erticos. O que acontece com eles quando, 
devido ao estabelecimento de uma organizao genital definitiva, perdem a sua importncia na vida sexual? Preservam a sua natureza original, porm em estado de represso? 
So sublimados, ou assimilados, pela transformao em traos de carter? Ou encontram um lugar dentro da nova organizao da sexualidade, caracterizada pela primazia 
genital? Ou, j que nenhuma dessas vicissitudes do erotismo anal  provavelmente a nica, em que medida e de que modo cada uma delas participa da deciso do seu 
destino? Pois as fontes orgnicas do erotismo anal no podem, certamente, ser enterradas como resultado da emergncia da organizao genital.
         Poder-se-ia pensar que no haveria falta de material do qual retirar uma resposta, de vez que os processos de desenvolvimento e transformao em questo 
devem ter ocorrido em todos aqueles que se submetem  anlise. Ainda assim o material  to obscuro, a abundncia das impresses que ocorrem sempre  to confusa, 
que mesmo hoje sou incapaz de resolver plenamente o problema, e no posso fazer mais do que apresentar algumas contribuies para a sua soluo. Ao faz-lo, no 
necessito abster-me de mencionar, quando o contexto o permite, outras transformaes instintuais alm das anal-erticas. Finalmente, nem  preciso enfatizar que 
os eventos do desenvolvimento descritos aqui - tal como os outros encontrados na psicanlise - foram inferidos das regresses s quais foram forados por processos 
neurticos.
         Como ponto de partida para esta exposio, podemos tomar o fato de que parece que nos produtos do inconsciente - idias espontneas, fantasias e sintomas 
- os conceitos de fezes (dinheiro, ddiva), beb e pnis mal se distinguem um do outro e so facilmente intercambiveis. Compreendemos, certamente, que expressar-se 
desse modo  aplicar incorretamente  esfera do inconsciente termos que pertencem propriamente a outras regies da vida mental, e que fomos levados a nos desviar 
pelas vantagens oferecidas por uma analogia. Para colocar o assunto de uma forma menos sujeita a objees, esses elementos do inconsciente so tratados muitas vezes 
como se fossem equivalentes e pudessem livremente substituir um ao outro.
         Isto se verifica com mais facilidade na relao entre 'beb' e 'pnis'. No pode deixar de ter significado o fato de que na linguagem simblica dos sonhos, 
bem com na da vida cotidiana, ambos podem ser representados pelo mesmo smbolo; tanto beb como pnis so chamados 'o pequeno', ['das Kleine'].  fato sabido que 
o discurso simblico ignora com freqncia a diferena de sexo. O 'pequeno', que originalmente significava o rgo sexual masculino, pode, assim, ter adquirido uma 
aplicao secundria aos genitais femininos.
         Se penetramos profundamente na neurose de uma mulher, no poucas vezes deparamos com o desejo reprimido de possuir um pnis, como um homem. Chamamos a esse 
desejo 'inveja do pnis' e inclumo-lo no complexo de castrao. Infortnios casuais na vida de tal mulher, infortnios que so freqentemente o resultado de uma 
disposio bastante masculina, reativaram esse desejo infantil e, atravs do fluxo retrospectivo da libido, tornaram-no o principal veculo dos seus sintomas neurticos. 
Em outras mulheres no encontramos esse desejo de um pnis;  substitudo pelo desejo de um beb, cuja frustrao, na vida real, pode levar  ecloso de uma neurose. 
 como se tais mulheres houvessem compreendido (embora isso no possa ter atuado como motivo) que a natureza d bebs s mulheres como substitutos para o pnis que 
lhes negou. Com outras, ainda, aprendemos que ambos os desejos estavam presentes na sua infncia e que um substituiu o outro. De incio, haviam desejado um pnis, 
como os homens; depois, num estdio posterior, embora ainda infantil, surgiu em lugar deste, o desejo de um beb. A impresso que se nos impe  a de que essa variedade 
em nossas descobertas  causada por fatores acidentais durante a infncia (por exemplo, a presena ou ausncia de irmos, ou o nascimento de um novo beb numa poca 
favorvel da vida), de tal modo que o desejo de um pnis e o desejo de um beb seriam fundamentalmente idnticos.
         Podemos dizer qual  a conseqncia bsica do desejo infantil de um pnis em mulheres nas quais as determinantes de uma neurose na vida posterior esto 
ausentes: transforma-se em desejo por um homem, o que torna, assim, o homem um suplemento do pnis. Essa transformao, portanto, converte um impulso que  hostil 
 funo sexual feminina, em outro que  favorvel a ela. Tais mulheres tornam-se, dessa forma, capazes de uma vida ertica baseada no tipo masculino de amor objetal, 
que pode existir paralelamente ao tipo feminino, derivado do narcisismo. J sabemos que em outros casos apenas um beb torna possvel a transio do auto-amor narcsico 
para o amor objetal. De modo que, tambm nesse aspecto, um beb pode ser representado por um pnis.
         Tenho tido oportunidades ocasionais de ouvir sonhos de mulheres ocorridos aps a primeira experincia de relacionamento sexual. Revelam, na mulher, um inequvoco 
desejo de guardar para si o pnis que fora sentido. Ento,  parte essa ordem libidinal, esses sonhos indicam uma regresso temporria do homem para o pnis, como 
objeto do desejo da mulher. Podemos certamente nos sentir inclinados a atribuir o desejo por um homem, de modo puramente racional, ao desejo por um beb, j que 
a mulher com certeza compreender, mais cedo ou mais tarde, que no pode haver beb sem a cooperao do homem. Contudo,  mais provvel que o desejo por um homem 
nasa independente do desejo por um beb, e que quando esse desejo desperta - por motivos compreensveis, que pertencem inteiramente  psicologia do ego - o desejo 
original de um pnis liga-se a ele, como um reforo libidinal inconsciente. A importncia do processo descrito jaz no fato de que uma parte da masculinidade narcsica 
da jovem mulher transmuta-se, assim, em feminilidade, e desse modo no pode mais operar de maneira prejudicial  funo sexual feminina. 
         
         Ao longo de outra via, uma parte do erotismo da fase pr-genital torna-se tambm disponvel para uso na fase da primazia genital. O beb  considerado com 
'lumf' (cf. a anlise do 'Little Hans'), como algo que se separa do corpo passando atravs dos intestinos. Uma certa quantidade de catexia libidinal, que originalmente 
se ligava ao contedo dos intestinos, pode assim estender-se ao beb nascido atravs deles. A evidncia lingstica dessa identidade de beb e fezes est contida 
na expresso 'dar um beb a algum'. Pois as fezes so a primeira ddiva da criana, uma parte do seu corpo que ela somente dar a algum que ama, a quem, na verdade, 
far uma oferta espontnea como sinal de afeio, de vez que, via de regra, as crianas no sujam os estranhos. (H reaes similares, embora menos intensas, com 
a urina.) A defecao proporciona a primeira oportunidade em que a criana deve decidir entre uma atitude narcsica e uma atitude de amor objetal. Ou reparte obedientemente 
as suas fezes, 'sacrifica-as' ao seu amor, ou as retm com a finalidade de satisfao auto-ertica e, depois, como meio de afirmar sua prpria vontade. Se faz essa 
ltima escolha, estamos na presena de um desafio (obstinao) que, por conseguinte, nasce de um apego narcsico ao erotismo anal.
          provvel que o primeiro significado que o interesse de uma criana pelas fezes desenvolve, seja o de 'ddiva', e no de 'ouro' ou 'dinheiro'. A criana 
no conhece dinheiro, a no ser o que lhe  dado - no h dinheiro adquirido por si, nem herdado. Uma vez que as fezes so a sua primeira ddiva, a criana transfere 
facilmente seu interesse dessa substncia para uma nova, com que se depara, como a mais valiosa ddiva da vida. Aqueles que questionam essa derivao das ddivas 
deveriam considerar sua experincia de tratamento psicanaltico, estudar as ddivas que, como mdicos, recebem dos pacientes e observar os tumultos de transferncia 
que uma ddiva deles pode provocar nos pacientes.
         Assim, o interesse pelas fezes continua, em parte como interesse pelo dinheiro, em parte como desejo por um beb, sendo que neste ltimo convergem um impulso 
anal-ertico e um impulso genital ('inveja do pnis'). O pnis tem, contudo, um outro significado anal-ertico, alm da sua relao com o interesse por um beb. 
O relacionamento entre o pnis e a passagem revestida de membrana mucosa que preenche e excita, j tem o seu prottipo na fase pr-genital, anal-sdica. A massa 
fecal ou, como um paciente a chamou, o 'basto' fecal, representa como que o primeiro pnis, e a membrana mucosa do reto, estimulada, representa a da vagina. H 
pessoas cujo erotismo anal permanece vigoroso e inalterado at a idade que precede a puberdade (dez a doze anos); por essas pessoas ficamos sabendo que durante a 
fase pr-genital j haviam desenvolvido, numa fantasia e num jogo perverso, uma organizao anloga  genital, em que o pnis e a vagina eram representados pelo 
'basto' fecal e pelo reto. Em outras pessoas - os neurticos obsessivos - podemos observar o resultado de um aviltamento regressivo da organizao genital. Isso 
se expressa pelo fato de que toda fantasia originalmente concebida em nvel genital  transposta para o nvel anal - sendo o pnis substitudo pela massa fecal, 
e a vagina, pelo reto.
         Se retrocede o interesse pelas fezes, de forma normal, a analogia orgnica que descrevemos tem o efeito de transferir o interesse para o pnis. Se, mais 
tarde, no decorrer de suas pesquisas sobre o sexo, a criana aprendesse que os bebs nascem do intestino, estes se tornam herdeiros da maior parte do seu erotismo 
anal; foram, no entanto, procedidos pelo pnis, neste como em outro sentido.
         Estou certo de que, a essa altura, as mltiplas inter-relaes da srie - fezes, pnis, beb - tornaram-se totalmente ininteligveis; desse modo, tentarei 
corrigir o defeito apresentando-as de forma diagramtica, e, ao considerar o diagrama [Fig. 2], podemos rever o mesmo material numa ordem diferente. Infelizmente, 
esse artifcio tcnico no  suficientemente flexvel para o nosso propsito, ou, possivelmente, no aprendemos ainda a us-lo com eficcia. Em todo caso, espero 
que o leitor no exija demasiado desse recurso.
         O erotismo anal encontra uma aplicao narcsica na realizao do desafio, que constitui uma importante reao por parte do ego contra as exigncias feitas 
por outras pessoas. O interesse pelas fezes  transportado, de incio para um interesse pela ddiva e, depois, para o interesse pelo dinheiro. Nas meninas, a descoberta 
do pnis d origem a uma inveja desse rgo, que depois se transforma em desejo por um homem, como possuidor do pnis. Ainda antes disso, o desejo de um pnis foi 
convertido num desejo de um beb, ou este ltimo tomou o lugar do primeiro. Uma analogia orgnica entre pnis e beb (linha tracejada)  expressa pela existncia 
de um smbolo ('o pequeno') comum a ambos. Um desejo racional (linha dupla) conduz, ento, do desejo por um beb ao desejo por um homem: j avaliamos a importncia 
dessa transformao instintual.
         Uma outra parte do vnculo de relaes pode ser observada muito mais claramente no macho. Origina-se quando as pesquisas sexuais do menino o levam  descoberta 
da ausncia de pnis nas mulheres. Ele conclui que o pnis deve ser uma parte destacvel do corpo, algo anlogo s fezes, a primeira parte de substncia corporal 
que a criana tem que partilhar. Assim, o velho desafio anal entra na composio do complexo de castrao. A analogia orgnica, que torna possvel ao contedo intestinal 
ser o precursor do pnis durante a fase pr-genital, no pode ser levada em conta como motivo; mas as buscas sexuais do menino levam-no a um substituto psquico 
para ele. Quando surge em cena um beb, ele o considera 'lumf', de acordo com aquelas pesquisas, e o catexiza com um poderoso interesse anal-ertico. Quando as experincias 
sociais ensinam que um beb deve ser considerado como uma prova de amor, uma ddiva, o desejo por um beb recebe uma segunda contribuio da mesma fonte. Fezes, 
pnis e beb so trs corpos slidos; todos trs, forando penetrao ou expulso, estimulam uma passagem membranosa, isto , o reto e a vagina, sendo que a ltima 
 como se fosse 'arrendada' ao reto, como sagazmente observa Lou Andreas-Salom. As pesquisas sexuais infantis s podem levar  concluso de que o beb segue a mesma 
trilha da massa fecal. A funo do pnis, habitualmente, no  descoberta por essas pesquisas. Mas  interessante notar que aps tantos rodeios, uma correspondncia 
orgnica reaparece na esfera psquica como uma identidade inconsciente.
         
         
         
         





UMA DIFICULDADE NO CAMINHO DA PSICANLISE (1917)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         EINE SCHWIERIGKEIT DER PSYCHOANALYSE
         
         (a)EDIES ALEMS:
         
         1917 Nyugat (Budapest), 10 (1), 47-52. Em traduo para o hngaro.)
         1917 Imago, 5 (1), 1-7.1918 S.K.S.N., 4, 553-63 (1922, 2 ed.).
         1924 G.S., 10, 347-56.1947 G.W., 12, 3-12.
         
         (b)TRADUO INGLESA:
                 'One of the Difficulties of Psycho-Analysis'
         
         1920 Int. J. Psycho-Anal., 1, 17-23. (Trad. de Joan Riviere.)
         1925 C.P., 4, 347-56. (O mesmo tradutor.)
         
         A presente traduo inglesa, com um novo ttulo, 'A Difficulty in the Path of Psycho-Analysis', baseia-se na publicada em 1925.
         
         Um destacado homem de letras hngaro da poca, H. Ignotus, convidou Freud para colaborar com um artigo para o peridico Nyugat, do qual era editor, e este 
artigo, evidentemente destinado a um pblico culto mas leigo, foi o resultado. O artigo foi escrito no final de 1916 e publicado pela primeira vez em traduo hngara 
(sob o ttulo 'A pszihoanalyzis egy nehzsgrl') nos primeiros dias de 1917. O original alemo surgiu em Imago, dois ou trs meses depois. Uma exposio mais geral 
das resistncias s teorias da psicanlise encontra-se num artigo de Freud escrito alguns anos mais tarde (1925e). A primeira parte do presente trabalho , certamente, 
um breve sumrio do artigo sobre narcisismo (1914c). Os trs 'golpes ao narcisismo humano' so tambm descritos no fim da Conferncia XVIII das Conferncias Introdutrias 
(1916-17), de Freud, obra completada mais ou menos na poca em que o presente artigo foi escrito.
         
         
         
         
         UMA DIFICULDADE NO CAMINHO DA PSICANLISE
         
         Para comear, direi que no se trata de uma dificuldade intelectual, de algo que torne a psicanlise difcil de ser entendida pelo ouvinte ou pelo leitor, 
mas de uma dificuldade afetiva - alguma coisa que aliena os sentimentos daqueles que entram em contato com a psicanlise, de tal forma que os deixa menos inclinados 
a acreditar nela ou a interessar-se por ela. Conforme se poder observar, os dois tipos de dificuldade, afinal, equivalem-se. Onde falta simpatia, a compreenso 
no vir facilmente.
         Os que agora me lem, presumo, nada tm a ver com o assunto at o momento, e serei obrigado, portanto, a retroceder um pouco. A partir de um grande nmero 
de observaes e impresses individuais, algo com a natureza de uma teoria tomou forma, afinal, na psicanlise, algo que  conhecido pelo nome de 'teoria da libido'. 
Como  sabido, a psicanlise preocupa-se com o esclarecimento e a eliminao dos denominados distrbios nervosos. Como houvesse que encontrar um ponto de partida, 
do qual se pudesse abordar esse problema, decidiu-se procur-lo na vida instintual da mente. As hipteses acerca dos instintos do homem vieram, portanto, a formar 
a base da nossa concepo de doena nervosa.
         A psicologia, conforme  ensinada academicamente, d-nos apenas respostas muito inadequadas a questes que dizem respeito  nossa vida mental, mas em nenhum 
outro sentido a sua informao  to escassa quanto no que concerne aos instintos.
         Abriu-se-nos a possibilidade de fazer nossas sondagens como nos agrada. O consenso popular distingue entre a fome e o amor como sendo os representantes 
de instintos que visam, respectivamente,  preservao do indivduo e  reproduo da espcie. Aceitamos essa distino bastante evidente, de tal modo que tambm 
na psicanlise fazemos uma distino entre os instintos autopreservativos ou instintos do ego, por um lado, e os instintos sexuais, por outro lado.  fora pela 
qual o instinto sexual est representado na mente chamamos 'libido' - desejo sexual - e consideramo-la como algo anlogo  fome,  vontade de poder e assim por diante, 
na medida em que diz respeito aos instintos do ego.
         Com esse dado como ponto de partida, prosseguimos para efetuar a nossa primeira descoberta importante. Aprendemos que, quando tentamos compreender os distrbios 
neurticos, sem dvida o maior significado liga-se aos instintos sexuais; que, na verdade, as neuroses so os distrbios especficos, por assim dizer, na funo 
sexual; que, de um modo geral, o fato de a pessoa desenvolver ou no uma neurose, depende da quantidade de sua libido e da
         possibilidade de saci-la e de descarreg-la atravs da satisfao; que a forma assumida pela doena  determinada pela forma com que o indivduo atravessa 
o curso de desenvolvimento da sua funo sexual, ou, conforme o formulamos, pelas fixaes a que sua libido se submeteu no decorrer do seu desenvolvimento; e, ademais, 
que, por sua tcnica especial e no muito simples de influenciar a mente, conseguimos esclarecer a natureza de determinados tipos de neuroses e, ao mesmo tempo, 
elimin-las. Nossos esforos teraputicos obtm seu maior xito com uma determinada classe de neuroses que provm de um conflito entre os instintos do ego e os instintos 
sexuais. Porque, nos seres humanos, pode acontecer que as exigncias dos instintos sexuais, cujo alcance se estende muito alm do indivduo, paream, ao ego, constituir 
um perigo que ameaa a sua autopreservao ou a sua auto-estima. O ego assume ento a defensiva, nega aos instintos sexuais a satisfao que almejam e fora-os pelos 
caminhos estreitos da satisfao substitutiva, que se tornam manifestos como sintomas nervosos.
         O mtodo psicanaltico de tratamento , ento, capaz de submeter  reviso esse processo de represso e conseguir uma soluo melhor para o conflito - uma 
soluo que seja compatvel com a sade. Opositores pouco inteligentes acusam-nos de parcialidade na avaliao dos instintos sexuais. 'Os seres humanos tm outros 
interesses, alm dos sexuais', dizem eles. Nem por um momento esquecemos ou negamos esse dado. Nossa parcialidade  como a do qumico, que atribui a todos os componentes 
a fora da atrao qumica. Nem por isso est negando a fora da gravidade; deixa que o fsico lide com ela.
         Durante o processo de tratamento temos que considerar a distribuio da libido do paciente; procuramos representaes objetais s quais esteja ligada e 
libertamo-la delas, de modo a coloc-la  disposio do ego. No decorrer desse processo, chegamos a formar uma imagem muito curiosa do original, a distribuio primeva 
da libido dos seres humanos. Fomos levados a presumir que, no incio do desenvolvimento do indivduo, toda a sua libido (todas as tendncias erticas, toda a sua 
capacidade de amar) est vinculada a si mesma - ou, como dizemos, catexiza o seu prprio ego.  somente mais tarde que, ligando-se  satisfao das principais necessidades 
vitais, a libido flui do ego para os objetos externos. At ento, no conseguimos reconhecer os instintos libidinais como tais e distingui-los dos instintos do ego. 
Para a libido,  possvel desvincular-se desses objetos e regressar outra vez ao ego.
         A condio em que o ego retm a libido  por ns denominada 'narcisismo', em referncia  lenda grega do jovem Narciso, que se apaixonou pelo seu prprio 
reflexo.
         Assim, na nossa concepo, o indivduo progride do narcisismo para o amor objetal. No cremos, porm, que toda a sua libido passe do ego para os objetos. 
Determinada quantidade de libido  sempre retida pelo ego; mesmo quando o amor objetal  altamente desenvolvido, persiste determinada quantidade de narcisismo. O 
ego  um grande reservatrio, do qual flui a libido destinada aos objetos e para o qual regressa, vinda dos objetos. A libido objetal era inicialmente libido do 
ego e pode ser outra vez convertida em tal. Para a completa sanidade,  essencial que a libido no perca essa mobilidade plena. Como ilustrao dessa situao, podemos 
pensar em uma ameba, cuja substncia viscosa desprende pseudpodes, prolongamentos pelos quais se estende a substncia do corpo, os quais, contudo, podem retrair-se 
a qualquer momento, de modo que a forma da massa protoplsmica seja restaurada.
         O que estou tentando descrever neste esboo  a teoria da libido das neuroses, sobre a qual se fundamentam todas as nossas concepes acerca da natureza 
desses estados mrbidos, paralelamente s medidas teraputicas para alivi-los. Naturalmente, consideramos as premissas da teoria da libido vlidas tambm para o 
comportamento normal. Falamos do narcisismo das crianas, e  ao excessivo narcisismo do homem primitivo que atribumos sua crena na onipotncia das suas idias 
e as conseqentes tentativas de influenciar o curso dos acontecimentos do mundo exterior pela tcnica da magia.
         Aps essa introduo, proponho-me a descrever como o narcisismo universal dos homens, o seu amor-prprio, sofreu at o presente trs severos golpes por 
parte das pesquisas cientficas.
         (a) Nas primeiras de suas pesquisas, o homem acreditou, de incio, que o seu domiclio, a Terra, era o centro estacionrio do universo, com o sol, a lua 
e os planetas girando ao seu redor. Seguia, assim, ingenuamente, os ditames das percepes dos seus sentidos, pois no sentia movimento na Terra, e, todas as vezes 
que conseguia uma viso sem obstculos, encontrava-se no centro de um crculo que abarcava o mundo exterior. A posio central da Terra, de mais a mais, era para 
ele um sinal do papel dominante desempenhado por ela no universo e parecia-lhe ajustar-se muito bem  sua propenso a considerar-se o senhor do mundo.
         A destruio dessa iluso narcisista associa-se, em nossas mentes, com o nome e a obra de Coprnico, no sculo XVI. Muito antes dessa poca, porm, j os 
pitagricos haviam lanado dvidas sobre a posio privilegiada da Terra, e, no sculo III a.C., Aristarco de Samos havia declarado que a Terra era muito menor que 
o sol e movia-se ao redor deste corpo celeste. Mesmo a grande descoberta de Coprnico, portanto, j fora feita antes dele. Quando essa descoberta atingiu um reconhecimento 
geral, o amor-prprio da humanidade sofreu o seu primeiro golpe, o golpe cosmolgico.
         (b) No curso do desenvolvimento da civilizao, o homem adquiriu uma posio dominante sobre as outras criaturas do reino animal. No satisfeito com essa 
supremacia, contudo, comeou a colocar um abismo entre a sua natureza e a dos animais. Negava-lhes a posse de uma razo e atribuiu a si prprio uma alma imortal, 
alegando uma ascendncia divina que lhe permitia romper o lao de comunidade entre ele e o reino animal. Curiosamente, esse aspecto de arrogncia  ainda estranho 
s crianas, tal como o  para o homem primitivo.  conseqncia de uma etapa posterior, mas pretensiosa, de desenvolvimento. No nvel do totemismo primitivo, o 
homem no tinha repugnncia de atribuir sua ascendncia a um ancestral animal. Nos mitos, que contm resduos dessa antiga atitude mental, os deuses assumem formas 
de animais, e na arte de pocas primevas so representados com cabeas de animais. Uma criana no v diferena entre a sua prpria natureza e a dos animais. No 
se espanta com animais que pensam e que falam nos contos de fadas; transfere uma emoo de medo, que sente do seu pai humano, para um co ou um cavalo, sem pretender 
com isso qualquer depreciao do pai. S quando se torna adulta  que os animais se tornam to estranhos a ela, que usa os seus nomes para aviltar seres humanos.
         Todos sabemos que, h pouco mais de meio sculo, as pesquisas de Charles Darwin e seus colaboradores e precursores puseram fim a essa presuno por parte 
do homem. O homem no  um ser diferente dos animais, ou superior a eles; ele prprio tem ascendncia animal, relacionando-se mais estreitamente com algumas espcies, 
e mais distanciadamente com outras. As conquistas que realizou posteriormente no conseguiram apagar as evidncias, tanto na sua estrutura fsica quanto nas suas 
aptides mentais, da analogia do homem com os animais. Foi este o segundo, o golpe biolgico no narcisismo do homem.
         (c) O terceiro golpe, que  de natureza psicolgica, talvez seja o que mais fere.
         Embora assim humilhado nas suas relaes externas, o homem sente-se superior dentro da prpria mente. Em algum lugar do ncleo do seu ego, desenvolveu um 
rgo de observao a fim de manter-se atento aos seus impulsos e aes e verificar se se harmonizam com as exigncias do ego. Se no se harmonizam, esses impulsos 
e aes so impiedosamente inibidos e afastados. Sua percepo interna, a conscincia, d ao ego notcias de todas as ocorrncias importantes na operaes mentais, 
e a vontade, dirigida por essas informaes, executa o que o ego ordena e modifica tudo aquilo que procura realizar-se espontaneamente. Isso porque a mente no  
uma coisa simples; ao contrrio,  uma hierarquia de instncias superiores e subordinadas, um labirinto de impulsos que se esforam, independentemente um do outro, 
no sentido da ao, correspondentes  multiplicidade de instintos e de relaes com o mundo externo, muitos dos quais antagnicos e incompatveis. Para um funcionamento 
adequado,  necessrio que a mais elevada dessas instncias tenha conhecimento de tudo o que est acontecendo, e que sua vontade penetre em tudo, de modo que possa 
exercer sua influncia. E, com efeito, o ego sente-se seguro quanto  integridade e fidedignidade das informaes que recebe, bem como quanto  abertura dos canais 
atravs dos quais impe suas ordens.
         Em determinadas doenas - incluindo as prprias neuroses que estudam em particular -, as coisas so diferentes. O ego sente-se apreensivo; rebela-se contra 
os limites de poder em sua prpria casa, a mente. Os pensamentos emergem de sbito, sem que se saiba de onde vm, nem se possa fazer algo para afast-los. Esses 
estranhos hspedes parecem at ser mais poderosos do que os pensamentos que esto sob o comando do ego. Resistem a todas as medidas de coao utilizadas pela vontade, 
no se deixam mover pela refutao lgica e no so afetados pelas afirmaes contraditrias da realidade. Ou ento os impulsos surgem, parecendo como que os de 
um estranho, de modo que o ego os rejeita; mas, ainda assim, os teme e toma precaues contra eles. O ego diz para consigo: 'Isto  uma doena, uma invaso estrangeira.' 
Aumenta sua vigilncia, mas no pode compreender por que se sente to estranhamente paralisado.
          bem verdade que a psiquiatria nega que tais coisas signifiquem a intruso, na mente, de maus espritos vindos de fora; para alm disso, no entanto, s 
consegue dizer com indiferena: 'Degenerescncia, inclinao hereditria, inferioridade constitucional!' A psicanlise procura explicar esses distrbios misteriosos; 
empenha-se em cuidadosas e laboriosas investigaes, delineia hipteses e construes cientficas, at que, finalmente, possa falar assim ao ego:
         'Nada vindo de fora penetrou em voc; uma parte da atividade da sua prpria mente foi tirada do seu conhecimento e do comando da sua vontade. Isso, tambm, 
 porque voc est to enfraquecido em sua defesa; voc est utilizando uma parte da sua fora para combater a outra parte e  impossvel concentrar a totalidade 
da sua fora como voc o faria contra um inimigo externo. E nem mesmo  a parte pior ou menos importante das suas foras mentais que se tornou, desse modo, antagnica 
e independente de voc. A culpa, sou forado a dizer, est em voc mesmo. Voc superestimou sua fora quando achou que podia tratar seus instintos sexuais da maneira 
que quisesse e ignorar absolutamente as intenes desses instintos. O resultado  que se rebelaram e assumiram suas prprias vias obscuras para escapar a essa supresso; 
estabeleceram seus direitos de uma forma que voc no pode aprovar. O modo pelo qual conseguiram isso e os caminhos que tomaram no chegaram ao seu conhecimento. 
Tudo o que voc sabe  a conseqncia do trabalho deles - o sintoma que voc experimenta como sofrimento. Assim, voc no o reconhece como um derivativo dos seus 
prprios instintos rejeitados e no sabe que  uma satisfao substitutiva para eles.
         'Todo o processo, no entanto, s se torna possvel pela circunstncia nica de que voc est equivocado tambm em um outro ponto importante. Sente-se seguro 
de que est informado de tudo o que se passa em sua mente, se tem qualquer importncia, porque nesse caso, cr voc, sua conscincia d-lhe notcia disso. E se voc 
no tem informao de algo que ocorre em sua mente, presume, confiante, que tal coisa no existe. Na verdade, voc chega a considerar o que  "mental" como idntico 
ao que  "consciente" - isto , aquilo que  conhecido por voc -, apesar da mais bvia evidncia de que muito mais coisas devem acontecer em sua mente, do que aquelas 
que chegam  sua conscincia. Vamos, deixe que lhe ensinem algo sobre esse problema! O que est em sua mente no coincide com aquilo de que voc est consciente; 
o que acontece realmente e aquilo que voc sabe, so duas coisas distintas. Normalmente, admito, a inteligncia que alcana a sua conscincia  suficiente para as 
suas necessidades; e voc pode nutrir a iluso de que fica sabendo de todas as coisas importantes. Em alguns casos, porm, como no de um conflito instintual como 
o que descrevi, a funo da sua inteligncia falha e sua vontade, ento, no se estende para mais alm do seu conhecimento. Em todo caso, contudo, a informao que 
alcana sua conscincia  incompleta e muitas vezes no  de minha confiana. Com freqncia, tambm, acontece que voc s obtm informao dos eventos quando eles 
acabaram e quando voc nada mais pode fazer para modific-los. Mesmo se voc no est doente, quem poder dizer tudo o que est agitando sua mente, coisas que voc 
no sabe ou das quais tem falsas informaes? Voc se comporta como um governante absoluto, que se contenta com as informaes fornecidas pelos seus altos funcionrios 
e jamais se mistura com o povo para ouvir a sua voz. Volte seus olhos para dentro, contemple suas prprias profundezas, aprenda primeiro a conhecer-se! Ento, compreender 
por que est destinado a ficar doente e, talvez, evite adoecer no futuro.'
          assim que a psicanlise tem procurado educar o ego. Essas duas descobertas - a de que a vida dos nossos instintos sexuais no pode ser inteiramente domada, 
e a de que os processos mentais so, em si, inconscientes, e s atingem o ego e se submetem ao seu controle por meio de percepes incompletas e de pouca confiana 
-, essas duas descobertas equivalem, contudo,  afirmao de que o ego no  o senhor da sua prpria casa. Juntas, representam o terceiro golpe no amor prprio do 
homem, o que posso chamar de golpe psicolgico. No  de espantar, ento, que o ego no veja com bons olhos a psicanlise e se recuse obstinadamente a acreditar 
nela.
         Provavelmente muito poucas pessoas podem ter compreendido o significado, para a cincia e para a vida, do reconhecimento dos processos mentais inconscientes. 
No foi, no entanto, a psicanlise, apressemo-nos a acrescentar, que deu esse primeiro passo. H filsofos famosos que podem ser citado como precursores - acima 
de todos, o grande pensador Schopenhauer, cuja 'Vontade' inconsciente equivale aos instintos mentais da psicanlise. Foi esse mesmo pensador, ademais, que em palavras 
de inesquecvel impacto, advertiu a humanidade quanto  importncia, ainda to subestimada pela espcie humana, da sua nsia sexual. A psicanlise tem apenas a vantagem 
de no haver afirmado essas duas propostas to penosas para o narcisismo - a importncia psquica da sexualidade e a inconscincia da vida mental - sobre uma base 
abstrato, mas demonstrou-as em questes que tocam pessoalmente cada indivduo e o foram a assumir alguma atitude em relao a esses problemas.  somente por esse 
motivo, no entanto, que atrai sobre si a averso e as resistncias que ainda se detm, com pavor, diante do nome do grande filsofo.
         
         
         
         








UMA RECORDAO DE INFNCIA DE DICHTUNGUND WAHRHEIT (1917)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         EINE KINDHEITSERINNERUNG AUS DICHTUNGUND WAHRHEIT
         
         (a)EDIES ALEMS:
         1917 Imago, 5 (2), 49-57.
         1918 S.K.S.N., 4, 564-77 (1922, 2 ed.).
         1924 G.S., 10, 357-68.
         1924 Dichtung und Kunst, 87-98.
         1947 G.W., 12, 15-26.
         
         (b)TRADUO INGLESA:
                 'A Childhood Recollection from Dichtung und Wahrheit'
         1925 C.P., 4, 357-67. (Trad. de C. J. M. Hubback.)
         
         A presente traduo inglesa  verso consideravelmente modificada daquela publicada em 1925.
         
         Freud apresentou a primeira parte deste artigo diante da Sociedade Psicanaltica de Viena, a 13 de dezembro de 1916, e a segunda parte, diante da mesma 
sociedade, a 18 de abril de 1917. O artigo no foi realmente escrito por ele seno em setembro de 1917, no trem em que viajava de volta para casa, aps as frias 
de vero das montanhas Tatra, na Hungria. A data da publicao  incerta, uma vez que a Imago saa com muita irregularidade nessa poca, devido s circunstncias 
da guerra. Um sumrio das suas concluses encontra-se em uma longa nota de rodap, acrescentada por ele em 1919 ao Captulo II do seu estudo sobre uma lembrana 
da infncia de Leonardo da Vinci (1910c).
         
         UMA RECORDAO DE INFNCIA DE DICHTUNGUND WAHRHEIT
         
         'Se tentamos recordar-nos do que nos aconteceu nos primeiros anos da infncia, muitas vezes confundimos aquilo que ouvimos de outros, com o que realmente 
nos pertence e que provm daquilo que ns prprios testemunhamos.' Essa observao encontra-se numa das primeiras pginas do relato feito por Goethe da sua vida 
[Dichtung und Wahrheit], que comeou a escrever aos sessenta anos de idade. Precede-a apenas uma informao acerca do seu nascimento, que 'teve lugar a 28 de agosto 
de 1749, ao meio-dia, ao bater as doze horas'. Os astros estavam numa conjuno favorvel, o que pode bem ter sido a causa da sua sobrevivncia, pois ao ingressar 
no mundo estava 'como morto', e somente com grandes esforos  que foi trazido  vida. Segue-se uma breve descrio da casa e do lugar onde as crianas - ele e a 
irm mais nova - mais gostavam de brincar. Depois disso, no entanto, Goethe, na verdade, relata apenas um nico evento que pode ser atribudo aos 'primeiros anos 
da infncia' (antes dos quatro anos?) e do qual parece haver preservado a sua prpria recordao.
         O relato transcorre como se segue: 'E trs irmos (de nome von Ochsenstein) que moravam por perto tornaram-se muito meus amigos; eram os rfos de um magistrado 
e interessaram-se por mim, e costumavam brincar comigo de todos os modos.
         'A minha gente gostava sempre de contar toda a espcie de brincadeiras a que esses rapazes, geralmente de temperamento srio e retrado, costumavam encorajar-me. 
Citarei apenas uma dessas proezas. A feira de louas acabara de realizar-se e no apenas a cozinha fora aparelhada com peas que seriam de utilidade por algum tempo, 
como tambm haviam sido compradas miniaturas de utenslios da mesma espcie, para que ns, as crianas, brincssemos. Uma bela tarde, quando tudo estava tranqilo 
na casa, eu brincava com meus pratos e panelinhas no vestbulo' (local que j havia sido descrito e que se abria para a rua) 'e, j que isso no parecia levar a 
nada, arremessei um prato  rua e rejubilei-me por v-lo despedaar-se to alegremente. Os von Ochsenstein, vendo o quanto me deleitava e quo jocosamente batia 
palmas, gritaram: "Faz outra vez!" No hesitei em lanar um pote para a calamento de pedra e, depois, como continuassem a gritar "Outro!" , um aps o outro todos 
os meus pratinhos, caarolas e panelas. Os meus vizinhos continuaram a manifestar sua aprovao e eu estava encantado por poder diverti-los. Mas todo o meu estoque 
fora utilizado e eles ainda gritavam "Outro!" De modo que corri direto para a cozinha e apanhei os pratos de barro, que fizeram um espetculo ainda melhor aos partirem-se 
em pedaos. E assim fiquei indo e vindo, trazendo um prato aps o outro, na medida em que conseguia alcan-los no guarda-loua; e, como ainda no se contentassem 
com isso, arremessei  mesma destruio toda pea de loua em que consegui pr a mo. S mais tarde chegou algum que interferiu e ps fim  brincadeira. O mal estava 
feito, e juntar tanta loua quebrada foi pelo menos uma histria divertida, com que os marotos que haviam instigado o jogo se deleitaram at o fim da vida.'
         Antes de haver psicanlise, era possvel ler isso sem encontrar oportunidade para uma pausa ou sem se surpreender; mas, depois, a conscincia analtica 
tornou-se ativa. Formamos opinies e expectativas definidas acerca das lembranas da mais remota infncia, e gostaramos de reivindicar validade universal para elas. 
No deveria ser uma questo indiferente ou totalmente sem sentido todo detalhe da vida de uma criana que houvesse escapado ao esquecimento geral. Poder-se-ia, ao 
contrrio, conjecturar que aquilo que fora preservado pela memria, era o elemento mais significativo em todo esse perodo da vida, quer houvesse tido tal importncia 
na poca, quer tivesse adquirido importncia subseqente por influncia de eventos posteriores.
         O elevado valor de tais recordaes infantis, na verdade, era bvio apenas em alguns casos. De modo geral, pareciam indiferentes, at mesmo sem valor, e, 
de incio, era incompreensvel o motivo pelo qual tais lembranas haviam resistido  amnsia; nem mesmo a pessoa que as havia conservado por tantos anos em seu prprio 
arsenal de memrias poderia ser nelas mais do que qualquer estranho a quem por ventura as relatasse. Antes que o seu significado pudesse ser apreciado, era necessrio 
um certo trabalho de interpretao. Essa interpretao mostrava que seu contedo exigia ser substitudo por qualquer outro contedo, ou revelava que essas lembranas 
relacionavam-se com outras experincias inequivocamente importantes e que haviam surgido em seu lugar como aquilo que conhecemos por 'lembranas encobridoras'.
         Em toda investigao psicanaltica da histria de uma vida,  sempre possvel explicar o significado das lembranas da primeira infncia ao longo dessas 
linhas. De fato acontece habitualmente que a prpria recordao  qual o paciente d precedncia, aquela que relata em primeiro lugar, com a qual introduz a histria 
da sua vida, vem a ser a mais importante, a nica que contm a chave das pginas secretas da sua mente. O pequeno episdio pueril relatado em Dichtung und Wahrheit, 
contudo, no chega  altura das nossas expectativas. Os modos e os meios que, com os nossos pacientes, conduzem  interpretao, certamente no se mostram aqui disponveis; 
o episdio em si no parece admitir relaes provveis com impresses importantes de data posterior. Uma travessura com efeitos prejudiciais  economia domstica, 
levada a efeito por instigao externa, no se enquadra certamente com tudo o que Goethe tem para nos contar acerca da sua vida to rica de eventos. Uma impresso 
de inocncia e irrelevncia total liga-se a essa lembrana infantil, e pode ser interpretada como uma advertncia para no esticar o domnio da psicanlise em demasia, 
nem aplic-la a situaes inadequadas.
         O pequeno problema, portanto, sara havia muito tempo da minha mente quando, certo dia, o acaso trouxe-me um paciente no qual surgiu uma lembrana da infncia 
semelhante, numa conexo mais clara. Era um homem de vinte e sete anos, bem dotado e de elevada educao, cuja vida, na ocasio, estava inteiramente tomada por um 
conflito com sua me que afetava todos os seus interesses, e de cujos efeitos a sua capacidade de amar e de levar uma existncia independente sofria bastante. Esse 
conflito remontava  sua infncia, mais precisamente aos seus quatro anos de idade. Antes disso havia sido uma criana extremamente dbil, sempre adoentada, e, ainda 
assim, em sua memria, esse perodo de doena era glorificado como um paraso, de vez que havia tido, ento, posse exclusiva e ininterrupta da afeio de sua me. 
Quando ainda no tinha quatro anos, nasceu um irmo, hoje ainda vivo, e, em sua reao a esse evento perturbador, transformara-se num menino obstinado, intratvel, 
que provocara continuamente a severidade da me. Alm disso, jamais recuperara o caminho certo.
         Quando me procurou para o tratamento - de modo algum o motivo menos provvel da sua atitude era o fato de que a me, uma fantica religiosa, tinha horror 
de psicanlise - , os cimes do irmo (que, de fato, se haviam manifestado, certa vez, num ataque homicida  criana no bero) estavam h muito esquecidos. Agora 
tratava o irmo com grande considerao; contudo, determinadas aes, curiosas e fortuitas, da sua parte (tais como sbitas e graves agresses contra os animais 
favoritos, como o cachorro ou os pssaros que criava cuidadosamente) provavelmente deveriam ser compreendidas como ecos desses impulsos hostis contra o irmo menor.
         O paciente relatou ento que, mais ou menos na poca do ataque contra o beb que tanto odiava, arremessara para a rua, pela janela da casa de campo, toda 
a loua que estava ao alcance da sua mo - exatamente a mesma coisa que Goethe narra da sua infncia em Dichtung und Wahrheit! Posso adiantar que o paciente era 
estrangeiro e no estava familiarizado com a literatura alem; jamais lera a autobiografia de Goethe.
         Naturalmente, essa comunicao sugeriu-me que se poderia fazer uma tentativa para explicar a lembrana da infncia, de Goethe, sobre as linhas que nos foram 
colocadas pela histria de meu paciente. Mas poderiam mostrar-se, na infncia do poeta, as condies necessrias para uma explicao? O prprio Goethe, com efeito, 
tornou a instigao dos irmos von Ochsenstein responsvel pela sua travessura pueril. Contudo, da sua prpria narrativa pode-se deduzir que esses vizinhos mais 
crescidos simplesmente o encorajaram a continuar o que j estava fazendo. O comeo da ao foi de sua prpria iniciativa, e o motivo que ele fornece para esse comeo 
- 'j que isso (o jogo) no parecia levar a nada' -  certamente, sem forar o seu significado, uma confisso de que,  poca que escreveu a obra e provavelmente 
por muitos anos antes disso, no tinha conhecimento de qualquer motivo adequado para o seu comportamento.
          sabido que Johann Wolfgang e sua irm Cornelia eram os sobreviventes mais velhos de uma famlia de crianas muito frgeis. O Dr. Hanns Sachs teve a gentileza 
de fornecer-me os seguintes detalhes concernentes a esses irmos e irms de Goethe que morreram na infncia:
         (a)Hermann Jakob, batizado numa segunda-feira, 26 de novembro de 1752; atingiu a idade de seis anos e seis semanas; foi enterrado a 13 de janeiro de 1759.
         (b)Katharina Elisabetha, batizada numa segunda-feira, 9 de setembro de 1754; enterrada numa quinta-feira, 22 de dezembro de 1755. (Um ano e quatro meses 
de idade.)
         (c)Johanna Maria, batizada na tera-feira, 29 de maro de 1757 e enterrada no sbado, 11 de agosto de 1759. (Dois anos e quatro meses de idade.) (Essa foi, 
sem dvida, a bonita e atraente menina celebrada pelo irmo.)
         (d)Georg Adolph, batizado no domingo, 15 de junho de 1760, enterrado, aos oito meses de idade, numa quarta-feira, 18 de fevereiro de 1761.
         A irm de Goethe imediatamente posterior a ele, Cornelia Friederica Christiana, nasceu a 7 de dezembro de 1750, quando ele tinha quinze meses. Essa pequena 
diferena de idade exclui praticamente a possibilidade de que ela tenha sido objeto de cimes.  sabido que, quando as paixes despertam, as crianas jamais desenvolvem 
reaes violentas contra os irmos ou irms que j existem, mas dirigem a hostilidade contra os que nascem depois. A cena que estamos procurando interpretar tambm 
no se concilia com a pouca idade de Goethe  poca em que Cornelia nasceu.
         Por ocasio do nascimento do seu primeiro irmo, Hermann Jakob, Johann Wolfgang tinha trs anos e trs meses. Aproximadamente dois anos depois, quando tinha 
cerca de cinco anos, nasceu a segunda irm. Ambas as idades entram em considerao para datar o episdio do arremesso de louas  rua. A primeira  talvez prefervel; 
e concordaria melhor com o caso de meu paciente, que tinha mais ou menos trs anos e trs meses quando do nascimento de seu irmo.
         Ademais, o irmo de Goethe, Hermann Jakob, a quem nos leva, assim, a nossa tentativa de interpretao, no viveu to pouco quanto as demais crianas da 
famlia, nascidas depois. Pode constituir uma surpresa o fato de que a autobiografia no contenha uma s palavra de lembrana dele. Ao morrer, tinha mais de seis 
anos, e Johann Wolfgang, quase dez. O Dr. Hitschmann, que teve a gentileza de colocar  minha disposio as suas notas sobre esse assunto, diz:
         'Tambm Goethe, quando menino, viu um irmo mais jovem morrer, sem lastimar-se. Pelo menos, de acordo com Bettina Brentano, a me dele relatou o seguinte: 
"Espantou-a, como fato muito extraordinrio, que ele no tenha derramado lgrimas quando da morte do irmo mais novo, Jakob, que era seu companheiro de folguedos; 
pelo contrrio, pareceu sentir-se aborrecido com a dor dos pais e das irms. Quando, mais tarde, sua me perguntou ao jovem rebelde se ele no havia gostado do irmo, 
correu para o quarto e retirou debaixo da cama uma pilha de papis, sobre os quais estavam escritas lies e pequenas histrias, dizendo que fizera tudo aquilo para 
ensinar o irmo." Assim, parece que o irmo mais velho gostava de fingir-se de pai para o irmo mais novo e mostrar-lhe sua superioridade.'
         Dessa maneira, pode-se formar a opinio de que o lanamento de louas pela janela foi um ato simblico, ou, para diz-lo mais corretamente, uma ao mgica, 
pela qual a criana (Goethe, bem como o meu paciente) deu expresso violenta ao seu desejo de livrar-se de um intruso que o perturbava. No h necessidade de discutir 
o prazer de uma criana ao quebrar coisas; se uma ao  agradvel em si, isso no  um estorvo, mas, antes, uma instigao para repeti-la em obedincia tambm a 
outros propsitos.  improvvel, contudo, que possa ter sido o prazer da destruio que garantiu  travessura infantil um lugar perdurvel na memria do adulto. 
Nem h qualquer objeo a complicar o motivo da ao acrescentando-lhe um fator adicional. Uma criana que quebra loua sabe muito bem que est fazendo algo errado, 
pelo qual os adultos se zangaro com ele; e se no se sente restringido por saber disso, provavelmente tem um rancor contra os pais, que deseja satisfazer; quer 
demonstrar impertinncia.
         O prazer em quebrar e nas coisas quebradas seria igualmente satisfeito se o menino simplesmente arremessasse o objeto quebrvel ao cho. Lan-los  rua, 
pela janela,  algo que ainda assim permaneceria inexplicvel. Esse 'para fora!' parece ser parte essencial da ao mgica, como parece advir diretamente do seu 
significado oculto. O novo beb deve ser jogado fora - atravs da janela, talvez porque tenha vindo atravs da janela. Toda a ao seria, assim, equivalente  resposta 
verbal, que j nos  familiar, dada por uma criana a quem se diz que a cegonha lhe trouxe um irmozinho. 'Ento a cegonha pode lev-lo embora outra vez!', era seu 
veredicto.
         No obstante, no estamos cegos a objees -  parte quaisquer incertezas internas - contra fundamentar a interpretao de um ato da infncia num nico 
paralelo. Por esse motivo, durante anos guardei s para mim a teoria acerca da pequena cena em Dichtung und Wahrheit. At que um dia, tive um paciente que iniciou 
sua anlise com as seguintes observaes, que anotei, palavra por palavra: 'Sou o mais velho de uma famlia de oito ou nove filhos. Uma das mais remotas recordaes 
que tenho  de meu pai sentado na cama, de camisola, dizendo-me, a rir, que eu tinha um novo irmo. Eu estava ento com trs anos e nove meses;  esta a diferena 
de idade que tenho para o meu irmo seguinte. Sei, tambm, que pouco tempo depois (ou foi um ano antes?) joguei uma poro de coisas  rua, escovas - ou foi apenas 
uma escova? - , sapatos e outros objetos, pela janela. Tenho uma recordao ainda anterior. Quando tinha dois anos, passei uma noite com meus pais num quarto de 
hotel em Linz, a caminho de Salzkammergut. Fiquei to inquieto durante a noite e fiz tanto barulho, que meu pai foi obrigado a bater-me.'
         Depois de ouvir essa afirmao, joguei para o alto todas as dvidas. Quando, na anlise, duas coisas so trazidas uma imediatamente aps a outra, como de 
um s flego, temos que interpretar essa proximidade como uma conexo de pensamento. Era, portanto, como se o paciente houvesse dito: 'Porque descobri que ganhara 
um novo irmo, pouco depois arremessei aquelas coisas  rua.' O ato de lanar as escovas, sapatos etc., pela janela, deve ser reconhecido como uma reao ao nascimento 
do irmo. Tambm no  motivo para desapontamento o fato de que, nesse exemplo, os objetos jogados fora no fossem louas, mas outras coisas, provavelmente o que 
quer que a criana pudesse alcanar no momento. - O jogar fora (atravs da janela para a rua) mostra-se, assim, como a coisa essencial no ato, ao passo que o prazer 
de quebrar e o barulho, bem como o tipo de objeto que ' executado', so pontos variveis e no essenciais.
         Naturalmente, o princpio de haver a uma conexo de pensamento deve tambm ser aplicado  terceira recordao infantil do paciente, que  a mais remota, 
embora fosse colocada por ltimo na srie. Isso pode ser facilmente feito. Evidentemente o menino de dois anos estava inquieto por no poder suportar os pais juntos 
na cama. Na viagem, foi sem dvida impossvel evitar que a criana testemunhasse esse fato. Os sentimentos que despertaram, naquela ocasio, no menino ciumento, 
deixaram-lhe uma amargura contra as mulheres, que persistiu e interferiu permanentemente no desenvolvimento da sua capacidade de amar.
         Aps fazer essas duas observaes, expressei a opinio, durante uma reunio da Sociedade Psicanaltica de Viena, de que ocorrncias da mesma natureza podem 
no ser raras entre as crianas; em resposta, a Dra. von Hug-Hellmuth colocou  minha disposio duas outras observaes, que acrescento aqui como apndice.
         
                                                 I
         
         'Com mais ou menos trs anos e meio de idade, o pequeno Erich adquiriu repentinamente o hbito de lanar tudo aquilo de que no gostava, pela janela. Tambm 
o fazia, contudo, com coisas que no estavam no seu caminho e no lhe diziam respeito. No dia do aniversrio do pai - tinha ele trs anos e quatro meses e meio - 
, apanhou na cozinha um pesado rolo para massas, arrastou-o para a sala e lanou-o  rua, pela janela do apartamento do terceiro andar. Alguns dias mais tarde, jogou 
o pilo do almofariz e, depois, um par de pesadas botas para montanhismo que pertenciam ao pai, as quais teve primeiro de tirar do armrio.'Por essa poca, a me 
do menino teve um aborto, no stimo ou oitavo ms de gravidez, e depois disso o pequeno Erich ficou "dcil e tranqilo, to bom, que parecia bastante mudado" . No 
quinto ou sexto ms, costumava dizer repetidas vezes  me: "Mame, vou pular em cima da sua barriga" - ou "Vou dar um empurro na sua barriga." E pouco antes do 
aborto, em outubro, dizia: "Se tenho que ter um irmo, pelo menos no o quero seno depois do Natal." '
         
                                                 II
         
         'Uma jovem de dezenove anos contou-me espontaneamente que sua mais remota recordao era a seguinte: "Vejo a mim mesma, terrivelmente travessa, sentada 
debaixo da mesa da sala de jantar, pronta para rastejar. Minha xcara de caf com leite est em cima da mesa - ainda posso ver muito bem o desenho da loua - e a 
vov entra na sala justamente no momento em que me preparo para arremessar a xcara pela janela.'" O fato  que ningum estava se preocupando comigo e, entretanto, 
formara-se uma pelcula de nata sobre o caf com leite, o que sempre me causava repulsa, e ainda causa.'" Naquele dia nasceu o meu irmo, que  dois anos e meio 
mais novo que eu, de modo que ningum havia tido tempo para mim.'" Sempre me dizem que eu estava insuportvel naquele dia: durante o jantar joguei ao cho o copo 
favorito do meu pai, sujei minha roupa diversas vezes e manifestei o pior dos humores, de manh at  noite. Na minha fria, fiz em pedaos a boneca com que brincava 
no banho." 'Esses dois casos mal necessitam de comentrio. Estabelecem, sem qualquer outro esforo analtico, que a amargura que as crianas sentem quanto  expectativa 
ou aparecimento real de um rival, encontra expresso no ato de arremessar objetos pela janela e em outras aes de impertinncia e destrutividade. No primeiro caso, 
os 'objetos pesados' provavelmente simbolizavam a prpria me, contra quem a raiva da criana era dirigida, uma vez que o novo beb ainda no havia surgido. O menino 
de trs anos e meio sabia da gravidez da me, e no tinha dvidas de que ela tinha o beb no corpo. O 'Little Hans' e seu particular temor de carros com muita carga 
podem aqui ser lembrados. No segundo caso,  digna de nota a muito pouca idade da criana, dois anos e meio.
         Se voltarmos agora  lembrana da infncia de Goethe e colocarmos, no lugar que ela ocupa em Dichtung und Wahrheit, o que cremos haver obtido por meio da 
observao de outras crianas, emerge uma seqncia de pensamento perfeitamente vlida, que, de outra forma, no teramos descoberto. Seria assim: 'Eu era uma criana 
de sorte: o destino preservou a minha vida, embora tenha vindo ao mundo como morto. Alm disso, o destino eliminou meu irmo, de modo que no tive que compartilhar 
com ele o amor de minha me.' A seqncia de pensamento [em Dichtung und Wahrheit] prossegue ento para algum que morreu naqueles dias remotos - a av, que vivia, 
como um esprito tranqilo e amigvel, em outra parte da casa.J observei, no entanto, em outro trabalho, que, se um homem foi o indiscutvel predileto de sua me, 
ele conserva durante toda a vida o sentimento triunfante, a confiana no xito, que no raro traz consigo o verdadeiro xito. E Goethe poderia muito bem ter colocado, 
em sua autobiografia, um cabealho mais ou menos como este: 'A minha fora tem suas razes na relao que tive com minha me.' 
         
         
         
         

















LINHAS DE PROGRESSO NA TERAPIA PSICANALTICA (1919 [1918])
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         WEGE DER PSYCHOANALYTISCHEN THERAPIE
         
         (a)EDIES ALEMS:
         
         1919 Int. Z. Psychoanal., 5 (2), 61-8.1922 S.K.S.N., 5, 146-58.
         1924 Technik und Metapsychol., 136-47.1925 G.S., 6, 136-47.
         1931 Neurosenlehre und Technik, 411-22.1947 G.W., 12, 183-94.
         
         (b)TRADUO INGLESA:
                 'Turnings in the Ways of Psycho-Analytic Therapy'
         1924 C.P., 2, 392-402. (Trad. de Joan Riviere.)
         
         A presente traduo inglesa, com ttulo modificado, baseia-se na publicada em 1924.Este pronunciamento foi lido por Freud perante o Quinto Congresso Psicanaltico 
Internacional, realizado em Budapest em 28 e 29 de setembro de 1918, pouco antes do fim da Primeira Guerra Mundial. Foi escrito durante o vero que precedeu o Congresso, 
que Freud passou com Anton von Freund (ver em [1]), na sua casa em Steinbruch, subrbio de Budapest. O artigo, no qual a maior nfase  dada aos mtodos 'ativos', 
depois principalmente associados ao nome de Ferenczi, foi o ltimo dos trabalhos puramente tcnicos de Freud antes dos dois que publicou quase vinte anos mais tarde 
(1937c e 1937d), j no fim da vida. Ele j prenunciara esses mtodos 'ativos' em seu pronunciamento no Congresso de Nuremberg (1910d).
         
         LINHAS DE PROGRESSO NA TERAPIA PSICANALTICA
         
         SENHORES:
         
         Como sabem, nunca nos vangloriamos da inteireza e do acabamento definitivo de nosso conhecimento e de nossa capacidade. Estamos to prontos agora, como 
o estvamos antes, a admitir as imperfeies da nossa compreenso, a aprender novas coisas e a alterar os nossos mtodos de qualquer forma que os possa melhorar.
         Agora que nos reunimos uma vez mais, aps os longos e difceis anos que atravessamos, sinto-me impelido a rever a posio do nosso procedimento teraputico 
- ao qual na verdade, devemos o nosso lugar na sociedade humana - e a assumir uma viso geral das novas direes em que se pode desenvolver.
         Assim formulamos a nossa incumbncia como mdicos: dar ao paciente conhecimento do inconsciente, dos impulsos reprimidos que nele existem, e, para essa 
finalidade, revelar as resistncias que se opem a essa extenso do seu conhecimento sobre si mesmo A revelao dessas resistncias garante que sero tambm superadas? 
Certamente nem sempre; mas a nossa esperana  atingir isso explorando a transferncia do paciente para a pessoa do mdico, de modo a induzi-lo a adotar a nossa 
convico quanto  inconvenincia do processo repressivo estabelecido na infncia e quanto  impossibilidade de conduzir a vida sobre o princpio de prazer. Estabeleci, 
em outro trabalho, as condies dinmicas prevalecentes no novo conflito atravs do qual conduzimos o paciente e que substitui, nele, o seu conflito anterior - o 
da sua doena. Nesse aspecto, nada tenho a modificar no momento.
         Chamamos de psicanlise o processo pelo qual trazemos o material mental reprimido para a conscincia do paciente. Por que 'anlise' - que significa dividir 
ou separar, e sugere uma analogia com o trabalho, levado a efeito pelos qumicos, com substncias que encontram na natureza e trazem para os seus laboratrios? Porque, 
em um importante aspecto, existe realmente uma analogia entre os dois trabalhos. Os sintomas e as manifestaes patolgicas do paciente, como todas as suas atividades 
mentais, so de natureza altamente complexa; os elementos desse composto so, no fundo,motivos, impulsos instintuais. O paciente, contudo, nada sabe a respeito desses 
motivos elementares, ou no os conhece com intimidade suficiente. Ensinamo-lo a compreender a maneira pela qual essas formaes mentais altamente complicadas so 
compostas; remetemos os sintomas aos impulsos instintuais que os motivaram; assinalamos ao paciente esses motivos instintuais, que esto presentes em seus sintomas, 
e dos quais at ento no tinha conscincia - como o qumico que isola a substncia fundamental, o 'elemento' qumico, do sal em que ele se combinara com outros 
elementos e no qual era irreconhecvel. Da mesma forma, no que diz respeito quelas manifestaes mentais do paciente que no so consideradas patolgicas, mostramos-lhe 
que apenas em certa medida ele estava consciente da sua motivao - que outros impulsos instintuais, dos quais permanecera em ignorncia, haviam cooperado na causao 
dessas manifestaes.
         Mais uma vez, esclarecemos os impulsos sexuais no homem ao dividi-los em seus elementos componentes; e, quando interpretamos um sonho, ignoramos o sonho 
como um todo e derivamos associaes dos seus elementos em separado.
         Essa bem fundamentada comparao da atividade mdica psicanaltica com um procedimento qumico poderia sugerir  nossa terapia uma nova direo. Analisamos 
o paciente - isto , dividimos os processos mentais em seus componentes elementares e demonstramos esses elementos instintuais nele, isoladamente; o que seria mais 
natural do que esperar que tambm o ajudemos a fazer uma nova e melhor combinao deles? Os senhores sabem que essa exigncia tem sido realmente proposta. Disseram-nos 
que, aps a anlise de uma mente enferma, deve-se seguir uma sntese. E, relacionada com isso, tem-se expressado a preocupao de que o paciente recebe anlise demais 
e muito pouca sntese; e segue-se ento um movimento para colocar todo o peso nessa sntese, como o principal fator no efeito psicoteraputico, para, nela, ver-se 
uma espcie de restaurao de algo que foi destrudo - destrudo, por assim dizer, pela vivisseco.
         Senhores, contudo no posso achar que essa psicossntese nos estabelece qualquer nova tarefa. Se me permitisse ser franco e rude, diria que se trata apenas 
de uma frase vazia. Limitar-me-ei a observar que se trata simplesmente de forar tanto uma comparao, que ela deixa de ter qualquer sentido; ou, se preferirem, 
que  uma explorao injustificvel de um nome. Um nome, no entanto,  apenas um rtulo aplicado para distinguir uma coisa de outras coisas semelhantes, no um slabo, 
uma descrio de seu contedo ou uma definio. E os dois objetos comparados precisam apenas coincidir num nico ponto, podendo ser inteiramente diferentes um do 
outro em tudo o mais.
         Aquilo que  psquico,  to nico e singular, que nenhuma comparao pode refletir a sua natureza. O trabalho da psicanlise sugere analogia com a anlise 
qumica, mas o sugere tambm, na mesma medida, com a interveno de um cirurgio, ou com as manipulaes de um ortopedista, ou com a influncia de um educador. A 
comparao com a anlise qumica tem a sua limitao: porque, na vida mental, temos de lidar com tendncias que esto sob uma compulso para a unificao e a combinao. 
Sempre que conseguimos analisar um sintoma em seus elementos, liberar um impulso instintual de um vnculo, esse impulso no permanece em isolamento, mas entra imediatamente 
numa nova ligao.
         Para dizer a verdade, o paciente neurtico, com efeito, apresenta-se-nos com a mente dilacerada, dividida por resistncias.  medida que a analisamos e 
eliminamos as resistncias, ela se unifica; a grande unidade a que chamamos ego, ajusta-se a todos os impulsos instintuais que haviam sido expelidos (split off) 
e separados dele. A psicossntese , desse modo, atingida durante o tratamento analtico sem a nossa interveno, automtica e inevitavelmente. Criamos as condies 
para que isso acontea, fragmentando os sintomas em seus elementos e removendo as resistncias. No  verdade que algo no paciente tenha sido dividido em seus componentes 
e aguarde, ento, tranqilamente, que de alguma forma o unifiquemos outra vez.
         Os progressos na nossa terapia, portanto, sem dvida prosseguiro ao longo de outras linhas; antes de mais nada, ao longo daquela que Ferenczi, em seu artigo 
'Technical Difficulties in an Analysis of Hysteria' (1919), denominou recentemente 'atividade' por parte do analista.
         Que se chegue imediatamente a um acordo sobre aquilo que queremos dizer com essa atividade. J definimos a nossa tarefa teraputica como algo que consiste 
em duas coisas: tornar consciente o material reprimido e descobrir as resistncias. Nisso, somos ativos o bastante, no h dvida. Mas devemos deixar que o paciente 
lide sozinho com as resistncias que lhe assinalamos? No podemos dar-lhe outro auxlio, alm do estmulo que ele obtm da transferncia? No parece natural que 
o devamos ajudar tambm de outra maneira, colocando-o na situao mental mais favorvel  soluo do conflito que temos em vista? Afinal de contas, o que ele pode 
conseguir, depende, tambm, de uma combinao de circunstncias externas. Devemos hesitar em alterar essa combinao, intervindo de maneira adequada? Acho que uma 
atividade dessa natureza, por parte do mdico que analisa,  irrepreensvel e inteiramente justificada.
         Observem que isso abre um novo campo de tcnica analtica, cujo desenvolvimento exigir cuidadosa aplicao, e que levar a regras de procedimento bem definidas. 
No tentarei apresentar-lhes hoje essa nova tcnica, que ainda est em curso de evoluo, mas contentar-me-ei em enunciar um princpio fundamental que provavelmente 
ir dominar o nosso trabalho nesse campo.  o que se segue: o tratamento analtico deve ser efetuado, na medida do possvel, sob privao - num estado de abstinncia.
         Na medida do possvel, a demonstrao de que estou certo nesse ponto deve ser deixada para uma exposio mais detalhada. Por abstinncia, no entanto, no 
se deve entender que seja agir sem qualquer satisfao - o que seria certamente impraticvel; nem queremos dizer o que o termo popularmente conota, isto , abster-se 
da relao sexual; significa algo diferente, que tem muito mais conexo com a dinmica da doena e da recuperao.
         Lembrar-se-o os senhores de que foi uma frustrao que tornou o paciente doente, e que seus sintomas servem-lhe de satisfaes substitutivas.  possvel 
observar, durante o tratamento, que cada melhora em sua condio reduz o grau em que se recupera e diminui a fora instintual que o impele para a recuperao. Mas 
essa fora instintual  indispensvel; a reduo dela coloca em perigo a nossa finalidade - a restaurao da sade do paciente. Qual, ento,  a concluso que se 
nos impe inevitavelmente? Cruel como possa parecer, devemos cuidar para que o sofrimento do paciente, em um grau de um modo ou de outro efetivo, no acabe prematuramente. 
Se, devido ao fato de que os sintomas foram afastados e perderam o seu valor, seu sofrimento se atenua, devemos restabelec-lo alhures, sob a forma de alguma privao 
aprecivel; de outro modo, corremos o perigo de jamais conseguir seno melhoras insignificantes e transitrias.
         At onde eu possa verificar, o perigo ameaa a partir de duas direes, principalmente. Por um lado, quando a doena foi dominada pela anlise, o paciente 
faz os mais assduos esforos para criar para si, em lugar dos seus sintomas, novas satisfaes substitutivas, que ento carecem do aspecto de sofrimento. Faz uso 
da enorme capacidade de deslocamento possuda pela libido, ento parcialmente liberada, com a finalidade de catexizar com a libido e promover  posio de satisfaes 
substitutivas as mais diversas espcies de atividades, preferncias e hbitos, sem excluir aqueles que j haviam sido seus. Encontra continuamente novas distraes 
dessa natureza, para as quais escapa a energia necessria para prosseguir o tratamento, e ele sabe como mant-las secretas por algum tempo.  tarefa do analista 
detectar esses caminhos divergentes e exigir-lhe, toda vez, que os abandone, por mais inofensiva que possa ser, em si, a atividade que conduz  satisfao. O paciente 
meio recuperado pode tambm ingressar em caminhos menos inofensivos - tal como, por exemplo, se  um homem, quando procura ligar-se prematuramente a uma mulher. 
Pode-se observar, alis, que o casamento infeliz e a doena fsica so as duas coisas que com mais freqncia tomam o lugar de uma neurose. Satisfazem particularmente 
o sentimento de culpa (necessidade de punio), que faz com que muitos pacientes se apeguem to rapidamente s suas neuroses. Por uma escolha imprudente no casamento, 
castigam-se a si prprios; consideram uma longa doena orgnica como uma punio do destino e, conseqentemente, muitas vezes deixam de manter as suas neuroses.
         Em todas as situaes como estas, a atividade por parte do mdico deve assumir a forma de enrgica oposio a satisfaes substitutivas prematuras. -lhe 
mais fcil, contudo, evitar o segundo perigo a que se expe a fora propulsora da anlise, muito embora este no deva ser subestimado. O paciente procura as suas 
satisfaes substitutivas sobretudo no prprio tratamento, em seu relacionamento transferencial com o mdico; e pode at mesmo tentar compensar-se, por esse meio, 
de todas as outras privaes que lhe foram impostas. Algumas concesses devem, certamente, ser-lhe feitas, em maior ou menor medida, de acordo com a natureza do 
caso e com a individualidade do paciente. Contudo, no  bom deixar que se tornem excessivas. Qualquer analista que, talvez pela grandeza do seu corao e por sua 
vontade de ajudar, estende ao paciente tudo o que um ser humano pode esperar receber de outro, comete o mesmo erro econmico de que so culpadas as nossas instituies 
no-analticas para pacientes nervosos. O nico propsito destas  tornar tudo to agradvel quanto possvel para o paciente, de modo a este poder sentir-se bem 
ali e alegrar-se de novamente ali refugiar-se das provaes da vida. Ao faz-lo, no tentam dar-lhe mais fora para enfrentar a vida e mais capacidade para levar 
a cabo as suas verdadeiras incumbncias nela. No tratamento analtico, tudo isso deve ser evitado. No que diz respeito s suas relaes com o mdico, o paciente 
deve ser deixado com desejos insatisfeitos em abundncia.  conveniente negar-lhe precisamente aquelas satisfaes que mais intensamente deseja e que mais importunamente 
expressa.
         No penso haver esgotado o repertrio de atividade desejvel por parte do mdico, ao dizer que uma condio de privao deve ser mantida durante o tratamento. 
A atividade em outra direo durante o tratamento analtico j foi, como ho de lembrar-se, um ponto de debate entre ns e a escola sua. Recusamo-nos, da maneira 
mais enftica, a transformar um paciente, que se coloca em nossas mos em busca de auxlio, em nossa propriedade privada, a decidir por ele o seu destino, a impor-lhe 
os nossos prprios ideais, e, com o orgulho de um Criador, a form-lo  nossa prpria imagem e verificar que isso  bom. Ainda endosso essa recusa, e acho que  
este o lugar adequado para a discrio mdica, que, em outros aspectos, somos obrigados a ignorar. Aprendi tambm, por experincia prpria, que uma tal atividade, 
de to longo alcance em relao aos pacientes, no  de forma alguma necessria para os objetivos teraputicos. Isso porque consegui ajudar pessoas com as quais 
nada tinha em comum - nem raa, nem educao, nem posio social, nem perspectiva de vida em geral - sem afetar sua individualidade. Na poca da controvrsia, falei 
justamente disso, tinha a impresso de que as objees dos nossos porta-vozes - penso que foi Ernest Jones quem assumiu o papel principal - eram por demais speras 
e inflexveis. No podemos evitar de aceitar para tratamento determinados pacientes que so to desamparados e incapazes de uma vida comum, que, para eles, h que 
se combinar a influncia analtica com a educativa; e mesmo no caso da maioria, vez por outra surgem ocasies nas quais o mdico  obrigado a assumir a posio de 
mestre e mentor. Mas isso deve sempre ser feito com muito cuidado, e o paciente deve ser educado para liberar e satisfazer a sua prpria natureza, e no para assemelhar-se 
conosco.
         Nosso estimado amigo J. J. Putnam, em terra americana, a qual agora se mostra to hostil a ns, deve perdoar-nos se tambm no podemos aceitar a sua proposta 
- ou seja, a de que a psicanlise deve colocar-se a servio de uma determinada perspectiva filosfica sobre o mundo e deve imp-la ao paciente com o propsito de 
enobrecer-lhe a mente. Na minha opinio, em ltima anlise isto  apenas usar de violncia, ainda que se revista dos motivos mais honrosos.
         Por fim, um tipo bastante diferente de atividade torna-se necessrio pela apreciao gradativamente crescente de que as vrias formas de doenas tratadas 
por ns no podem ser manipuladas mediante a mesma tcnica. Seria prematuro exp-lo detalhadamente, mas posso dar dois exemplos do modo pelo qual entra em questo 
um novo tipo de atividade. A nossa tcnica desenvolveu-se no tratamento da histeria e ainda  dirigida, principalmente,  cura daquela afeco. As fobias, porm, 
j tornaram necessrio que ultrapassemos os nossos antigos limites. Dificilmente se pode dominar uma fobia, se se espera at que o paciente permita  anlise influenci-lo 
no sentido de renunciar a ela. Nesse caso, ele jamais trar para a anlise o material indispensvel a uma soluo convincente da fobia. Deve-se proceder de forma 
diferente. Tome-se o exemplo da agorafobia; existem dois tipos de agorafobia, um brando, o outro grave. Os pacientes que pertencem ao primeiro tipo sofrem de ansiedade 
quando vo sozinhos  rua, mas no desistiram ainda de sair desacompanhados por causa disso; os outros protegem-se da ansiedade deixando completamente de sair sozinhos. 
Com estes ltimos, s se obtm xito quando se consegue induzi-los, por influncia da anlise, a comportarem-se como os pacientes fbicos do primeiro tipo - isto 
, a ir para a rua e lutar com a ansiedade enquanto realizam a tentativa. Comea-se, portanto, por moderar a fobia; e apenas quando isso foi conseguido por exigncia 
do mdico  que afloram  mente do paciente as associaes e lembranas que permitem resolver a fobia.
         Nos casos graves de atos obsessivos, uma atitude de espera passiva parece ainda menos indicada. Na verdade, de um modo geral esses casos tendem a um processo 
'assinttico' de recuperao, a um protraimento interminvel do tratamento. A sua anlise corre sempre o perigo de trazer muita coisa  tona e no modificar nada. 
Julgo existirem poucas dvidas de que a tcnica correta, aqui, s pode consistir em esperar at que o tratamento em si se torne uma compulso, e ento, com essa 
contracompulso, suprimir forosamente a compulso da doena. Os senhores percebero, no entanto, que esses dois exemplos que lhes dei so apenas amostras dos novos 
avanos para os quais a nossa terapia tende.
         Agora, concluindo, tocarei de relance numa situao que pertence ao futuro - situao que parecer fantstica a muitos dos senhores, e que, no obstante, 
julgo merece que estejamos com as mentes preparadas para abord-la. Os senhores sabem que as nossas atividades teraputicas no tm um alcance muito vasto. Somos 
apenas um pequeno grupo e, mesmo trabalhando muito, cada um pode dedicar-se, num ano, somente a um pequeno nmero de pacientes. Comparada  enorme quantidade de 
misria neurtica que existe no mundo, e que talvez no precisasse existir, a quantidade que podemos resolver  quase desprezvel. Ademais, as nossas necessidades 
de sobrevivncia limitam o nosso trabalho s classes abastadas, que esto acostumadas a escolher seus prprios mdicos e cuja escolha se desvia da psicanlise por 
toda espcie de preconceitos. Presentemente nada podemos fazer pelas camadas sociais mais amplas, que sofrem de neuroses de maneira extremamente grave.
         Vamos presumir que, por meio de algum tipo de organizao, consigamos aumentar os nossos nmeros em medida suficiente para tratar uma considervel massa 
da populao. Por outro lado,  possvel prever que, mais cedo ou mais tarde, a conscincia da sociedade despertar, e lembrar-se- de que o pobre tem exatamente 
tanto direito a uma assistncia  sua mente, quando o tem, agora,  ajuda oferecida pela cirurgia, e de que as neuroses ameaam a sade pblica no menos do que 
a tuberculose, de que, como esta, tambm no podem ser deixadas aos cuidados impotentes de membros individuais da comunidade. Quando isto acontecer, haver instituies 
ou clnicas de pacientes externos, para as quais sero designados mdicos analiticamente preparados, de modo que homens que de outra forma cederiam  bebida, mulheres 
que praticamente sucumbiriam ao seu fardo de privaes, crianas para as quais no existe escolha a no ser o embrutecimento ou a neurose, possam tornar-se capazes, 
pela anlise, de resistncia e de trabalho eficiente. Tais tratamentos sero gratuitos. Pode ser que passe um longo tempo antes que o Estado chegue a compreender 
como so urgentes esses deveres. As condies atuais podem retardar ainda mais esse evento. Provavelmente essas instituies iniciar-se-o graas  caridade privada. 
Mais cedo ou mais tarde, contudo, chegaremos a isso.Defrontar-nos-emos, ento, com a tarefa de adaptar a nossa tcnica s novas condies. No tenho dvidas de que 
a validade das nossas hipteses psicolgicas causar boa impresso tambm sobre as pessoas pouco instrudas, mas precisaremos buscar as formas mais simples e mais 
facilmente inteligveis de expressar as nossa doutrinas tericas. Provavelmente descobriremos que os pobres esto ainda menos prontos para partilhar as suas neuroses, 
do que os ricos, porque a vida dura que os espera aps a recuperao no lhes oferece atrativos, e a doena d-lhes um direito a mais  ajuda social. Muitas vezes, 
talvez, s poderemos conseguir alguma coisa combinando a assistncia mental com certo apoio material,  maneira do Imperador Jos.  muito provvel, tambm, que 
a aplicao em larga escala da nossa terapia nos force a fundir o ouro puro da anlise livre com o cobre da sugesto direta; e tambm a influncia hipntica poder 
ter novamente seu lugar na anlise, como o tem no tratamento das neuroses de guerra. No entanto, qualquer que seja a forma que essa psicoterapia para o povo possa 
assumir, quaisquer que sejam os elementos dos quais se componha, os seus ingredientes mais efetivos e mais importantes continuaro a ser, certamente, aqueles tomados 
 psicanlise estrita e no tendenciosa.
         
         
         
























SOBRE O ENSINO DA PSICANLISE NAS UNIVERSIDADES (1919[1918])
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         KELL-E AZ EGYETEMEN A PSYCHOANALYSIST TANITANI?
         
         (a)EDIES ALEMS:
         
         (1918Provvel data de elaborao.)
         (1919Gygyszat, 59 (13), 192. Em traduo hngara.)
         
         (b)TRADUO INGLESA:
                 'On the Teaching of Psycho-Analysis in Universities'
         
         No se encontrou vestgio do texto original em alemo.
         
         Este artigo foi publicado pela primeira vez em traduo para o hngaro (provavelmente feita por Ferenczi) no peridico mdico de Budapest Gygyszat, a 
30 de maro de 1919. O ttulo hngaro significa literalmente: 'Deve a psicanlise ser ensinada na universidade?'. Parece ter sido um artigo de uma srie, escrita 
por diferentes pessoas, tratando das reformas na educao mdica.  provvel que Freud o tenha escrito no outono de 1918, aproximadamente na poca do Quinto Congresso 
Psicanaltico Internacional, em Budapest. Houve ento uma considervel agitao entre os estudantes de medicina de Budapest quando  incluso da psicanlise no currculo. 
Em maro de 1919, quando um governo bolchevique assumiu temporariamente o poder na Hungria, Ferenczi foi de fato empossado como Professor de Psicanlise na universidade. 
- A redescoberta do artigo deveu-se ao esforo do Dr. Ludovico Rosenthal, de Buenos Aires, e a ele devemos a gentileza de haver colocado uma cpia fotosttica da 
publicao original  nossa disposio. A presente traduo do hngaro para o ingls  baseada numa traduo feita por J. F. O'Donovan e Ludovico Rosenthal. Foi 
revista com a ajuda do Dr. Michael Balint. Os leitores compreendero que se trata, na melhor hiptese, de uma verso em terceira mo das verdadeiras palavras de 
Freud.
         
         SOBRE O ENSINO DA PSICANLISE NAS UNIVERSIDADES
         
         A questo da convenincia do ensino da psicanlise nas universidades pode ser considerada sob dois pontos de vista: o da psicanlise e o da universidade.
         (1)A incluso da psicanlise no currculo universitrio seria sem dvida olhada com satisfao por todo psicanalista. Ao mesmo tempo,  claro que o psicanalista 
pode prescindir completamente da universidade sem qualquer prejuzo para si mesmo. Porque o que ele necessita, em matria de teoria, pode ser obtido na literatura 
especializada e, avanando ainda mais, nos encontros cientficos das sociedades psicanalticas, bem como no contato pessoal com os membros mais experimentados dessas 
sociedades. No que diz respeito  experincia prtica, alm do que adquire com a sua prpria anlise pessoal, pode consegui-la ao levar a cabo os tratamentos, uma 
vez que consiga superviso e orientao de psicanalistas reconhecidos.
         O fato de que uma organizao dessa natureza existe, deve-se, na verdade,  excluso da psicanlise das universidades. E, , portanto, evidente que esses 
sistemas de organizao continuaro a desempenhar uma funo efetiva enquanto persistir tal excluso.
         (2)No que concerne s universidades, a questo depende de decidirem se desejam atribuir qualquer valor  psicanlise, na formao de mdicos e de cientistas. 
Em caso afirmativo, o problema seria ento saber como incorpor-la  estrutura educacional regular.
         A importncia da psicanlise para a totalidade da formao mdica e acadmica fundamenta-se nos seguintes fatos:
         (a)Essa formao tem sido muito justamente criticada nas ltimas dcadas pela maneira parcial pela qual dirige o estudante para os campos da anatomia, da 
fsica e da qumica, enquanto falha, por outro lado, no esclarecimento do significado dos fatores mentais nas diferentes funes vitais, bem como nas doenas e no 
seu tratamento. Essa deficincia na educao mdica faz-se sentir mais tarde numa flagrante falha no conhecimento do mdico. Essa falha no se manifestar apenas 
na sua falta de interesse pelos problemas mais absorventes da vida humana, na sade ou na doena, mas tambm o tornar inbil no tratamento dos pacientes, de modo 
que at mesmo charlates e 'curandeiros' tero mais efeito sobre esses pacientes do que ele.
         Essa deficincia bvia levou, algum tempo atrs,  incluso, no currculo universitrio, de cursos sobre psicologia mdica. Mas, na medida em que essas 
aulas se baseiam na psicologia acadmica ou na psicologia experimental (que lida apenas com questes de detalhes), no conseguem satisfazer os requisitos da formao 
do estudante; nem poderiam aproxim-lo mais dos problemas da vida em geral ou dos da sua profisso. Por essas razes, o lugar ocupado por esse tipo de psicologia 
mdica no currculo mostrou-se inseguro.
         Um curso sobre psicanlise, por outro lado, certamente responderia a essas exigncias. Antes de chegar  psicanlise propriamente dita, seria necessrio 
um curso introdutrio, que trataria detalhadamente das relaes entre a vida mental e a vida fsica - a base de todos os tipos de psicoterapia -, descreveria as 
vrias espcies de procedimentos sugestivos, e, finalmente, mostraria como a psicanlise constitui o resultado e a culminncia de todos os mtodos anteriores de 
tratamento mental. A psicanlise, na verdade, mais do que qualquer outro sistema,  adequada para o ensino da psicologia ao estudante de medicina.
         (b) Outra das funes da psicanlise seria proporcionar uma preparao para o estudo da psiquiatria. Esta, na sua forma atual,  exclusivamente de carter 
descritivo; simplesmente ensina o estudante a reconhecer uma srie de entidades patolgicas, capacitando-o a distinguir quais so incurveis e quais so perigosas 
para a comunidade. Sua nica ligao com os outros ramos da cincia mdica est na etiologia orgnica - isto , nas suas descobertas anatmicas; mas no oferece 
a menor compreenso dos fatos observados. Tal compreenso s poderia ser fornecida por uma psicologia profunda.Nos Estados Unidos, de acordo com as minhas melhores 
informaes, j se reconheceu que a psicanlise (a primeira tentativa de uma psicologia profunda) tem feito incurses bem-sucedidas por essa regio inexplorada da 
psiquiatria. Por conseguinte, muitas escolas mdicas daquele pas j organizaram cursos de psicanlise como uma introduo  psiquiatria.O ensino da psicanlise 
teria que processar-se em duas etapas: um curso elementar, destinado a todos os estudantes de medicina, e um curso de aulas especializadas para psiquiatras.(c) Na 
investigao dos processos mentais e das funes do intelecto, a psicanlise segue o seu prprio mtodo especfico. A aplicao desse mtodo no est de modo algum 
confinada ao campo dos distrbios psicolgicos, mas estende-se tambm  soluo de problemas da arte, da filosofia e da religio. Nessa direo j produziu diversos 
novos pontos de vista e deu valiosos esclarecimentos a temas como a histria da literatura, a mitologia, a histria das civilizaes e a filosofia da religio. Assim, 
o curso psicanaltico geral seria tambm aberto aos estudantes desses ramos do conhecimento. Os efeitos fecundadores do pensamento psicanaltico sobre essas outras 
disciplinas certamente contribuiriam muito para moldar uma ligao mais estreita, no sentido de uma universitas literarum, entre a cincia mdica e os ramos do saber 
que se encontram dentro da esfera da filosofia e das artes.Para resumir, pode-se afirmar que a universidade s teria a ganhar com a incluso, em seu currculo, do 
ensino da psicanlise. Esse menino, na verdade, s pode ser ministrado de maneira dogmtica e crtica, por meio de aulas tericas; isso porque essas aulas permitiro, 
apenas, uma oportunidade muito restrita de levar a cabo experincias ou demonstraes prticas. Para finalidades de pesquisa, seria suficiente que os professores 
de psicanlise tivessem acesso a um departamento hospitalar de clientes externos, que suprisse o material necessrio, no que diz respeito a pacientes 'neurticos'. 
Para a psiquiatria psicanaltica, seria preciso haver tambm disponibilidade de um departamento de pacientes mentais internos.Devemos considerar, por ltimo, a objeo 
de que, seguindo essa orientao, o estudante de medicina jamais aprenderia a psicanlise propriamente dita. Isso, de fato,  procedente, se temos em mente a verdadeira 
prtica da psicanlise. Mas, para os objetivos que temos em vista, ser suficiente que ele aprenda algo sobre psicanlise e que aprenda algo a partir da psicanlise. 
Afinal de contas, a formao universitria no equipa o estudante de medicina para ser um hbil cirurgio; e ningum que escolha a cirurgia como profisso pode evitar 
uma formao adicional, sob a forma de vrios anos de trabalho no departamento cirrgico de um hospital.
         
         
         
         









UMA CRIANA  ESPANCADA - UMA CONTRIBUIO AO ESTUDO DA ORIGEM DAS PERVERSES SEXUAIS (1919)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         'EIN KIND WIRD GESCHLAGEN'BEITRAG ZUR KENNTNIS DER ENTSTEHUNGSEXUELLER PER VERSIONEN
         
         (a)EDIES ALEMS:
         
         1919 Int. Z. Psychoanal., 5, 151-72.1922 S.K.S.N., 5, 195-228.
         1924 G.S., 5, 344-75.1926 Psychoanalyse der Neurosen, 50-84.1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 124-55.
         1947 G.W., 12, 197-226.
         
         (b)TRADUO INGLESA:
                 '" A Child is being Beaten" A Contribution to the Study of the Originof Sexual Perversions'
         
         1920 Int. J. Psycho-Anal., 1, 371-95. (Trad. de A. e J. Strachey.)
         1924 C.P., 2, 172-201. (Os mesmos tradutores.)
         
         A presente traduo inglesa  verso corrigida da publicada em 1924.Numa carta a Ferenczi, datada de 24 de janeiro de 1919, Freud anunciava que estava escrevendo 
um artigo sobre o masoquismo. O artigo foi concludo e recebeu o presente ttulo em meados de maro de 1919, e foi publicado no vero do mesmo ano.A maior parte 
do artigo consiste em um inqurito clnico muito detalhado sobre um tipo particular de perverso. As descobertas de Freud elucidaram particularmente o problema do 
masoquismo, e, como est implcito no subttulo, o artigo era tambm destinado a ampliar o nosso conhecimento sobre as perverses de um modo geral. Desse ponto de 
vista, pode ser considerado como um complemento ao primeiro dos Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905d).Alm do mais, no entanto, o artigo inclui uma 
exposio,  qual Freud atribuiu considervel importncia, dos motivos que colocam em ao a represso, com especial referncia s duas teorias sobre o tema, propostas 
respectivamente por Fliess e por Adler (ver em [1] e [2]). O mecanismo da represso  exaustivamente discutido em dois artigos metapsicolgicos de Freud - em 'Represso' 
(1915d) e na Seo IV de 'O Inconsciente' (1915e); mas a questo dos motivos que conduzem  represso, embora seja tocada na ltima parte da anlise do 'Homem dos 
Lobos' (1918b), pg. 116 e seg., deste volume, em nenhum outro trabalho  mais plenamente examinada do que no presente artigo. Certamente era um problema que havia 
interessado a Freud e o havia deixado perplexo desde os primeiros tempos, e existem muitas referncias a ele na correspondncia com Fliess (1950a). J bem no fim 
da vida Freud voltou uma vez mais a esse problema, na ltima parte da sua 'Anlise Terminvel e Interminvel' (1937c), onde novamente discutia as teorias de Fliess 
e de Adler. 
         
         UMA CRIANA  ESPANCADA - UMA CONTRIBUIO AO ESTUDO DA ORIGEM DAS PERVERSES SEXUAIS
         
                                                 I
         
          surpreendente a freqncia com que as pessoas que procuram um tratamento analtico para a histeria ou uma neurose obsessiva, confessam haver-se abandonado 
 fantasia: 'Uma criana  espancada.'  muito provvel que haja exemplos ainda mais freqentes em um nmero muito maior de pessoas que no foram obrigadas a procurar 
anlise por causa de uma doena manifesta.
         A fantasia tem sentimentos de prazer relacionados com ela e, por causa deles, o paciente reproduziu-a em inumerveis ocasies, no passado, ou pode at mesmo 
ainda continuar a faz-lo. No clmax da situao imaginria, h quase invariavelmente uma satisfao masturbatria - realizada, em outras palavras, nos rgos genitais. 
De incio, isso acontece voluntariamente, mas depois ocorre contra a vontade do paciente e com as caractersticas de uma obsesso.
          somente com hesitao que essa fantasia  confessada. O seu primeiro aparecimento  recordado com incerteza. O tratamento analtico do problema encontra 
inequvoca resistncia. A vergonha e o sentimento de culpa so talvez mais intensamente provocados em relao a essa fantasia, do que quando so feitos relatos semelhantes 
de lembranas do incio da vida sexual.
         Eventualmente torna-se possvel estabelecer que as primeiras fantasias dessa natureza foram nutridas muito cedo: certamente antes da idade escolar e jamais 
depois do quinto ou do sexto ano de vida. Quando a criana estava na escola e via outras crianas sendo espancadas pelo professor, essa experincia, se as fantasias 
estavam ento dormentes, despertava-se de novo, ou, se ainda estavam presentes, reforava-as e modificava-lhes perceptivelmente o contedo. A partir dessa ocasio, 
era 'um nmero indefinido' de crianas que estavam sendo espancadas. A influncia da escola era to clara que os pacientes em questo ficaram inicialmente tentados 
a atribuir as suas fantasias de espancamento exclusivamente a essas impresses da vida escolar, que tinham data posterior  do sexto ano de idade. Mas nunca lhes 
foi possvel manter essa posio; as fantasias j existiam antes disso. 
         Embora nas sries mais adiantadas da escola no mais se batesse nas crianas, a influncia dessas ocasies era substituda, e mais do que substituda, pelos 
efeitos da leitura, e a importncia destes em breve seria sentida. No milieu dos meus pacientes, eram quase sempre os mesmos livros cujo contedo dava um novo estmulo 
s fantasias de espancamento: aqueles acessveis aos jovens, tais como os que eram conhecidos como 'Bibliothque rose', A Cabana do Pai Toms etc. A criana comeava 
a competir com essas obras de fico, produzindo as suas prprias fantasias e construindo uma riqueza de situaes e instituies, nas quais as crianas eram espancadas, 
ou eram punidas e disciplinadas de qualquer outra forma, por suas traquinagens e seu mau comportamento.
         Essa fantasia - 'uma criana  espancada' - era invariavelmente catexizada com um alto grau de prazer e tinha a sua descarga num ato de agradvel satisfao 
auto-ertica. Poder-se-ia esperar, portanto, que a viso de outra criana sendo espancada na escola fosse tambm uma fonte de prazer semelhante. Na realidade, porm, 
isto jamais acontecia. A experincia das cenas reais de espancamento na escola produzia na criana que as testemunhava um sentimento peculiarmente excitado, que 
era provavelmente de carter misto e no qual a repugnncia tinha larga parcela. Em alguns poucos casos, a experincia real das cenas de espancamento era sentida 
como algo intolervel. Ademais, era sempre uma condio das fantasias mais sofisticadas, dos anos posteriores, que o castigo no causasse  criana qualquer dano 
mais srio.
         A questo estava em conexo com saber que relao poderia haver entre a importncia das fantasias de espancamento e o papel que esse castigo corporal de 
verdade poderia fazer desempenhado na educao das crianas em casa. Foi impossvel, por causa da parcialidade do material, confirmar a primeira suspeita de que 
a relao era inversa. Os indivduos dos quais foram obtidos os dados para as anlises haviam sido muito raramente espancados na infncia, ou no haviam sido, em 
todo caso, educados com ajuda da vara. Naturalmente, contudo, cada uma daquelas crianas estava destinada a tomar conhecimento, mais cedo ou mais tarde, da fora 
fsica superior dos pais ou educadores; o fato de que, em todo quarto de brinquedos ou jardim de infncia, as prprias crianas chegam por vezes s vias de fato, 
no exige destaque especial.
         No que diz respeito s fantasias simples e primitivas que no podiam, obviamente, ser atribudas  influncia das impresses escolares ou de cenas tiradas 
de livros, seria necessrio maior informao. Quem era a criana que estava sendo espancada? A que estava criando a fantasia, ou uma outra? Era sempre a mesma criana, 
ou s vezes era uma diferente? Quem estava batendo na criana? Uma pessoa adulta? Se era, quem? Ou a criana imaginava-se a si mesma batendo em outra? Nada do que 
foi apurado pde esclarecer todas essas perguntas; apenas a resposta hesitante: 'Nada mais sei sobre isto: esto espancando uma criana.'
         As perguntas quanto ao sexo da criana que estava sendo espancada tiveram mais xito, mas, ainda assim, nenhuma trouxe o esclarecimento. s vezes a resposta 
era: 'Sempre rapazes', ou 'Apenas meninas'; com mais freqncia era: 'No sei', ou 'No importa'. No entanto, jamais foi constatado o ponto a que as perguntas se 
dirigiam, a descoberta de alguma relao constante entre o sexo da criana que cria a fantasia e o da criana que est sendo espancada. De vez em quando, surgia 
outro detalhe caracterstico do contedo da fantasia: 'Uma criana est sendo espancada, esto-lhe batendo no traseiro nu.'
         Nessas circunstncias era impossvel, de incio, at mesmo decidir se o prazer relacionado  fantasia de espancamento deveria ser descrito como sdico ou 
como masoquista.
         
                                                 II
         
         Uma fantasia dessa natureza, nascida, talvez, de causas acidentais na primitiva infncia, e retida com o propsito de satisfao auto-ertica, s pode, 
 luz do nosso conhecimento atual, ser considerada como um trao primrio de perverso. Um dos componentes da funo sexual desenvolveu-se, ao que parece,  frente 
do resto, tornou-se prematuramente independente, sofreu uma fixao, sendo por isso afastadas dos processos posteriores de desenvolvimento, e, dessa forma, d evidncia 
de uma constituio peculiar e anormal no indivduo. Sabemos que uma perverso infantil desse tipo no persiste necessariamente por toda a vida; mais tarde pode 
ser submetida  represso, substituda por uma formao reativa ou transformada por meio da sublimao. ( possvel que a sublimao nasa de algum processo especial 
que seria detido pela represso.) Se esses processos, contudo, no ocorrem, a perverso persiste at a maturidade; e sempre que encontramos uma aberrao sexual 
em adultos - perverso, fetichismo, inverso - temos motivos para esperar que a investigao anamnsica revele um evento como o que sugeri, que conduza a uma fixao 
na infncia. De fato, muito antes da era da psicanlise, observadores como Binet conseguiam atribuir as estranhas aberraes sexuais da maturidade a impresses similares, 
e precisamente ao mesmo perodo da infncia, ou seja, o quinto ou o sexto ano de vida. Nesse ponto, porm a investigao defrontava-se com as limitaes do nosso 
conhecimento; pois as impresses que provocavam a fixao no tinham qualquer fora traumtica. Eram, na sua maioria, corriqueiras e no excitantes para outras pessoas. 
Era impossvel dizer por que o impulso sexual se submetera particularmente a uma fixao nessas impresses. Era possvel, no entanto, procurar o seu significado 
no fato de que ofereciam uma ocasio para fixao (embora acidental) exatamente ao componente que se desenvolvera prematuramente e estava pronto para se colocar 
em primeiro plano. Em todo caso, tnhamos de estar preparados para chegar a um fim provisrio, num ponto ou noutro, ao traar a seqncia da conexo causal; e a 
constituio congenital parecia corresponder exatamente ao que se exigia para uma parada dessa natureza.
         Se o componente sexual que se soltou prematuramente  o sdico, podemos esperar, com base no conhecimento derivado de outras fontes, que a sua subseqente 
represso resultar numa inclinao para a neurose obsessiva. No se pode dizer que essa expectativa fosse contrariada pelos resultados da pesquisa. O presente artigo 
baseia-se no estudo exaustivo de seis casos (quatro femininos e dois masculinos). Destes, dois eram casos de neurose obsessiva; um extremamente grave e inqualificvel; 
o outro, de severidade moderada e bastante acessvel  influncia. Havia um terceiro caso que, de qualquer maneira, exibia claramente traos individuais marcados 
de neurose obsessiva. O quarto caso, temos que admitir, era de franca histeria, com dores e inibies; e o quinto paciente, que chegou  anlise simplesmente por 
causa de indeciso na vida, no teria absolutamente sido classificado pelo diagnstico clnico comum, ou teria sido rejeitado como 'psicastnico'. No h necessidade 
de sentir desapontamento quanto s estatsticas. Em primeiro lugar, sabemos que nem toda tendncia se desenvolve necessariamente para um distrbio; em segundo lugar, 
devemo-nos contentar em explicar os fatos que esto diante de ns, e devamos, via de regra, evitar a tarefa de esclarecer algo que no ocorreu.
         A presente etapa do nosso conhecimento permitir-nos-ia abrir caminho, por enquanto, e no mais alm, no sentido da compreenso das fantasias de espancamento. 
Na mente do mdico analtico,  verdade, resta uma apreensiva suspeita de que isso no  uma soluo final do problema. Ele  obrigado a admitir para si prprio 
que, em grande medida, essas fantasias subsistem  parte do resto do contedo de uma neurose e no encontram lugar adequado na sua estrutura. Mas impresses dessa 
espcie, conforme sei por experincia prpria, so apenas postas de lado muito prontamente.
         
                                                 III
         
         Rigorosamente considerado - e por que no deveria essa questo ser considerada com todo o rigor? -, o trabalho analtico s merece ser reconhecido como 
psicanlise quando consegue remover a amnsia que oculta do adulto o seu conhecimento da infncia desde o incio (isto , desde um perodo aproximadamente entre 
o segundo e o quinto ano de vida). Entre os analistas, isto no pode ser dito com muita nfase ou repetido com muita freqncia. Os motivos para desconsiderar este 
lembrete so, na verdade, compreensveis. Seria desejvel obter resultados prticos num perodo mais curto e com menos problemas. Na poca atual, porm, o conhecimento 
terico  ainda muito mais importante para todos ns do que o xito teraputico, e quem quer que negligencie a anlise infantil est fadado a cair nos mais desastrosos 
erros. A nfase que  dada aqui  importncia das primeiras experincias no implica em subestimar a influncia das experincias posteriores. As impresses posteriores 
da vida, contudo, falam alto o bastante atravs da boca do paciente, ao passo que  o mdico que tem que elevar a voz em favor das reivindicaes da infncia.
          na infncia, entre os dois e os quatro ou cinco anos de idade, que os fatores libidinais congnitos so despertados pela primeira vez pelas experincias 
reais e se ligam a determinados complexos. As fantasias de espancamentos que agora estamos considerando, s se mostram mais para o final desse perodo, ou aps o 
seu trmino. Assim, pode muito bem ser que tenham um histrico anterior, que atravessem um processo de desenvolvimento, que representam um resduo e no uma manifestao 
inicial.
         Essa suspeita  confirmada pela anlise. A aplicao sistemtica da anlise demonstra que as fantasias de espancamento tm um desenvolvimento histrico 
que no , de modo algum, simples, e no decorrer do qual so mais de uma vez modificadas em muitos aspectos - no que diz respeito  relao com o autor da fantasia, 
e quanto ao seu objeto, contedo e significado.
         Com a finalidade de tornar mais fcil seguir essas transformaes nas fantasias de espancamento, devo arriscar-me agora a restringir as minhas descries 
a casos femininos, os quais, sendo quatro contra dois, constituem de qualquer modo a maior parte do meu material. Ademais, as fantasias de espancamento nos homens 
esto ligadas a outra questo, que deixarei de lado neste artigo. Na minha descrio, terei o cuidado de evitar ser mais esquemtico do que o inevitvel na apresentao 
de um caso comum. Se ento, numa observao posterior, vier  tona uma maior complexidade de circunstncias, estarei certo, no obstante, de termos diante de ns 
uma ocorrncia tpica e que, de mais a mais, no  de natureza incomum.
         A primeira fase das fantasias de espancamento nas meninas deve pertencer, portanto, a um perodo muito primitivo da infncia. Alguns aspectos permanecem 
curiosamente indefinidos, como se fossem uma questo de indiferena. A escassa informao fornecida pelas pacientes na sua primeira afirmao, 'uma criana  espancada', 
parece justificar-se em relao a essa fase. Um outro dos seus aspectos, porm, pode ser estabelecido com segurana, e no mesmo sentido, em todos os casos. A criana 
em que esto batendo no  jamais a que cria a fantasia, mas, invariavelmente, outra criana, com mais freqncia um irmo ou uma irm, se existem. De vez que essa 
outra criana pode ser um menino ou uma menina, no h relao constante entre o sexo da criana que cria a fantasia e o daquela que est sendo espancada. A fantasia, 
ento, no  certamente masoquista. Seria tentador cham-la sdica, mas no se pode esquecer o fato de que a criana que cria a fantasia no  a que bate. A identidade 
real da pessoa que bate permanece obscura, inicialmente. S se pode estabelecer o seguinte: no  uma criana, mas um adulto. Mais tarde, esse adulto indeterminado 
torna-se clara e inequivocamente reconhecvel como o pai (da menina). 
         Essa primeira fase da fantasia de espancamento , portanto, inteiramente representada pela frase 'O meu pai est batendo na criana'. Estarei denunciando 
uma grande parte do que ser exposto depois, quando, em lugar disso, disser: 'O meu pai est batendo na criana que eu odeio'. Pode-se, ademais, hesitar em dizer 
se as caractersticas de 'fantasia' podem ainda assim ser atribudas a esse primeiro passo no sentido de uma posterior fantasia de espancamento. , talvez, antes 
uma questo de recordaes de eventos que foram testemunhados, ou de desejos que despertam em vrias ocasies. Essas dvidas, porm, no so importantes.
         Entre essa fase e a seguinte, ocorrem profundas transformaes.  certo que a pessoa que bate continua a ser a mesma (isto , o pai); mas a criana em que 
est batendo transformou-se em outra e torna-se, invariavelmente, aquela que produz a fantasia. A fantasia  acompanhada por um alto grau de prazer e adquire, ento, 
um contedo significativo, a cuja origem nos dedicaremos depois. Agora, portanto, as palavras seriam: 'Estou sendo espancada pelo meu pai.' O que  de um carter 
inequivocamente masoquista.
         Essa segunda fase  a mais importante e a mais significativa de todas. Pode-se dizer, porm, que, num certo sentido, jamais teve existncia real. Nunca 
 lembrada, jamais conseguiu tornar-se consciente.  uma construo da anlise, mas nem por isso  menos uma necessidade.
         A terceira fase assemelha-se uma vez mais  primeira. Tem as palavras que se nos tornaram familiares por meio da afirmao do paciente. A pessoa que bate 
nunca  o pai, mas sim, ou  deixada indeterminada tal como na primeira fase, ou se transforma, de maneira caracterstica, num substituto do pai, tal como um professor. 
A figura da criana que cria a fantasia no mais aparece nesta. Em resposta s prementes perguntas, as pacientes declaram apenas: 'Provavelmente estou olhando.' 
Em vez de uma criana sendo espancada, h agora, via de regra, vrias crianas presentes. Com maior freqncia so meninos que esto sendo espancados (nas fantasias 
de meninas), mas nenhum deles  pessoalmente conhecido pela pessoa. A situao do espancamento, que originalmente era simples e montona, pode passar por alteraes 
e elaboraes as mais complicadas; castigos e humilhaes de outra natureza podem substituir o prprio espancamento. A caracterstica essencial que distigue mesmo 
as mais simples fantasias dessa fase daquelas da primeira, e que estabelece a ligao com a fase intermediria, , contudo, a seguinte: a fantasia liga-se agora 
a uma forte e inequvoca excitao sexual, proporcionando, assim, um meio para a satisfao masturbadora.  precisamente isto, porm, que  desconcertante. Por que 
caminho a fantasia de meninos estranhos e desconhecidos sendo espancados (uma fantasia que, nessa altura, tornou-se sdica) imps-se  posse permanente das tendncias 
libidinais da menina?
         No podemos ocultar de ns mesmos o fato de que as inter-relaes e a seqncia das trs fases da fantasia de espancamento, bem como todas as suas outras 
peculiaridades, permaneceram at aqui bastante ininteligveis.
         
                                                 IV
         
         Se a anlise  levada at o perodo primitivo ao qual se referem as fantasias de espancamento e do qual so recordadas, ela nos mostra a criana envolvida 
nas agitaes do seu complexo parental.
         As afeies de menina esto fixadas no pai, que provavelmente fez tudo o que podia para conquistar o seu amor e, dessa maneira, propagou as sementes de 
uma atitude de rancor e rivalidade da menina em relao  sua me. Essa atitude existe lado a lado com uma corrente de dependncia afetiva da me e,  medida em 
que os anos passam, pode atingir a conscincia cada vez mais clara e forosamente, ou dar mpeto a uma reao excessiva de dedicao  me. No , porm, com a relao 
entre a menina e me que a fantasia de espancamento est ligada. H outras crianas  volta, apenas alguns anos mais velhas ou mais novas, de quem no gosta por 
toda espcie de motivos, mas principalmente porque o amor dos pais tem de ser compartilhado com elas, que, ademais, por essa razo, so repelidas com toda a energia 
selvagem caracterstica da vida emocional nessa idade. Se a criana em questo  uma irm ou irmo mais novo (como em trs dos meus quatro casos),  desprezada e 
odiada; ainda assim atrai para si a parcela de afeio que os cegos pais esto sempre prontos a dar ao caula, e isto  um espetculo cuja viso no pode ser evitada. 
Depressa se aprende que ser espancado, mesmo que no doa muito, significa uma privao de amor e uma humilhao. E muitas crianas, que se acreditavam seguramente 
entronadas na inabalvel afeio dos pais, foram de um s golpe derrubadas de todos os cus da sua onipotncia imaginria. A idia de o pai batendo nessa odiosa 
criana , portanto, agradvel, independente de ter sido realmente visto agindo assim. Significa: 'O meu pai no ama essa criana, ama apenas a mim.'
          este, ento, o contedo e o significado da fantasia de espancamento na sua primeira fase. A fantasia obviamente gratifica o cime da criana e depende 
do lado ertico da sua vida: mas , tambm, poderosamente reforada pelos interesses egostas da criana. Resta, portanto, a dvida quanto a saber se a fantasia 
pode ser descrita como puramente 'sexual', ou se podemos arriscar-nos a cham-la de 'sdica'.
         Como  sabido, todos os sinais sobre os quais nos acostumamos a basear as nossas distines, tendem a perder a clareza  medida em que nos aproximamos da 
fonte. Assim, talvez possamos dizer, em termos que recordam a profecia feita pelas Trs Feiticeiras a Banquo: 'No claramente sexual, nem sdica, em si, mas ainda 
assim a natureza da qual ambos os impulsos surgiro depois.' Em todo caso, contudo, no h motivos para suspeitar de que nessa primeira fase a fantasia j esteja 
a servio de uma excitao que envolve os genitais e encontra sada por meio de um ato masturbatrio.
          claro que a vida sexual da criana atingiu o estdio de organizao genital, agora que o seu amor incestuoso conseguiu essa prematura escolha de objeto. 
Isto pode ser demonstrado mais facilmente no caso de meninos; , contudo, tambm indiscutvel no caso de meninas. Algo como uma premonio do que so, depois, os 
objetivos sexuais normais e finais, governa as tendncias libidinais da criana. Podemo-nos perguntar, com razo, por que tem de ser assim; porm, podemos consider-lo 
prova do fato de que os genitais j comearam a desempenhar o seu papel no processo de excitao. Nos meninos, o desejo de procriar um filho, com a me, jamais est 
ausente; nas meninas, o desejo de obter uma criana do pai  igualmente constante; e isto, apesar de serem inteiramente incapazes de formar qualquer idia clara 
da maneira de realizarem esses desejos. A criana parece estar convencida de que os genitais tm algo a ver com o assunto, muito embora, em suas constantes cogitaes, 
possa procurar pela essncia da presumida intimidade entre os pais em relaes de outra espcie, tais como no fato de dormirem juntos, de urinarem na presena um 
do outro etc.; e o material desse ltimo tipo pode ser mais facilmente apreendido em imagens verbais, do que o mistrio que est relacionado com os genitais.
         Mas chega a poca em que esse florescimento prematuro  estragado pela geada. Nenhum desses amores incestuosos pode evitar o destino da represso. Podem 
sucumbir  ela por ocasio da descoberta de algum evento externo que leva  desiluso - tal como o desprezo inesperado, o indesejado nascimento de um novo irmo 
ou irm (que  sentido como uma infidelidade) etc.; ou pode acontecer a mesma coisa devido a condies internas alheias a tais eventos, talvez simplesmente porque 
o anseio permaneceu por muito tempo insatisfeito.  inquestionavelmente certo que tais eventos no so as causas efetivas, mas sim, que esses casos de amor esto 
destinados a fracassar, mais cedo ou mais tarde, embora no possamos dizer qual o obstculo especfico. O mais provvel  que eles passem, porque o seu perodo acabou, 
porque as crianas ingressaram numa nova fase de desenvolvimento, na qual so compelidas a recapitular, a partir da histria da humanidade, a represso de uma escolha 
objetal incestuosa, tal como, numa etapa anterior, foram obrigadas a efetuar uma escolha objetal dessa mesma natureza. Na nova fase, nenhum produto mental dos impulsos 
de amor incestuosos que esteja inconscientemente presente  assumido pela conscincia; e nada que j tenha alcanado a conscincia  dela expulso. Ao mesmo tempo 
em que ocorre esse processo de represso, surge um sentimento de culpa. Este  tambm de origem desconhecida, mas no h dvida de que, por qualquer que seja, est 
ligada aos desejos incestuosos e justificada pela persistncia desses desejos no inconsciente.
         A fantasia do perodo de amor incestuoso havia dito: 'Ele (o meu pai) s ama a mim, e no  outra criana, pois est batendo nela.' O sentimento de culpa 
no pode descobrir um castigo mais severo do que a inverso desse triunfo: 'No, ele no ama voc, pois est batendo em voc.' Desse modo, a fantasia da segunda 
fase, a de ser espancada pelo pai,  uma expresso direta do sentimento de culpa da menina, ao qual o seu amor pelo pai sucumbiu agora. A fantasia, portanto, tornou-se 
masoquista. At onde sei,  sempre assim; um sentimento de culpa  invariavelmente o fator que converte o sadismo em masoquismo. Certamente, porm, no  este o 
contedo total do masoquismo. O sentimento de culpa no pode ter conquistado o campo sozinho; uma parcela deve ser atribuda ao impulso de amor. Devemo-nos lembrar 
de que estamos lidando com crianas cujo componente sdico conseguiu, por motivos constitucionais, desenvolver-se prematura e isoladamente.  preciso no abandonar 
esse ponto de vista. So exatamente essas crianas que acham particularmente fcil voltar  organizao pr-genital, anal-sdica, da vida sexual. Se a organizao 
genital, que mal conseguiu firmar-se, defronta-se com represso, a conseqncia no  apenas a de que toda representao psquica do amor incestuoso se torna inconsciente, 
ou permanece inconsciente, mas existem tambm outro resultado: um rebaixamento regressivo da prpria organizao genital para um nvel mais baixo. 'O meu pai me 
ama' queria expressar um sentido genital; devido  regresso, converte-se em 'O meu pai est me batendo (estou sendo espancado pelo meu pai)'. Esse ser espancado 
 agora uma convergncia do sentimento de culpa e do amor sexual. No  apenas o castigo pela relao genital proibida, mas tambm o substituto regressivo daquela 
relao, e dessa ltima fonte deriva a excitao libidinal que se liga  fantasia a partir de ento, e que encontra escoamento em atos masturbatrios. Aqui temos, 
pela primeira vez, a essncia do masoquismo.
         Essa segunda fase - a fantasia da criana de ser espancada pelo pai - permanece, via de regra, inconsciente, provavelmente em conseqncia da intensidade 
da represso. No posso explicar, no obstante, por que em um dos meus seis casos, o de um paciente masculino, era lembrada conscientemente. Esse homem preservara 
claramente na memria o fato de que costumava empregar a idia de ser espancado pela me com a finalidade de masturbao, embora logo tenha substitudo a prpria 
me pelas mes dos colegas ou outras mulheres que, de alguma forma, se assemelhavam a ela. No nos devemos esquecer de que, quando a fantasia incestuosa de um menino 
se converte na fantasia masoquista correspondente, ocorreu uma inverso a mais do que no caso de uma menina, ou seja, a substituio da atividade pela passividade; 
e esse grau adicional de distoro pode salvar a fantasia de ter que permanecer inconsciente, em conseqncia da represso. Dessa maneira, o sentimento de culpa 
seria satisfeito pela regresso, em vez de o ser pela represso. Nos casos femininos, o sentimento de culpa, em si talvez mais preciso, s podia ser apaziguado por 
uma combinao das duas.
         Em dois dos meus quatro casos femininos, uma elaborada superestrutura de devaneios, que era de grande significado para a vida da pessoa em questo, desenvolvera-se 
sobre a fantasia masoquista de espancamento. A funo dessa superestrutura era tornar possvel um sentimento de excitao satisfeita, mesmo que houvesse absteno 
do ato masturbatrio. Em um desses casos, permitia-se que o contedo - ser espancado pelo pai - se arriscasse outra vez pela conscincia, na medida em que o prprio 
ego do sujeito se tornasse irreconhecvel por meio de um pobre disfarce. O heri dessas histrias era invariavelmente espancado (ou, depois, apenas punido, humilhado 
etc.) pelo seu pai.
         Repito, no entanto, que a fantasia, via de regra, permanece inconsciente e s pode ser reconstruda no decorrer da anlise. Esse fato talvez justifique 
os pacientes que dizem lembrar-se de que, para eles, a masturbao surgiu antes da terceira fase da fantasia de espancamento (o que ser discutido adiante), e que 
essa fase era apenas uma adio posterior, feita talvez sob a impresso das cenas na escola. Toda vez que dei crdito a essas afirmaes, senti-me inclinado a presumir 
que a masturbao estava, inicialmente, sob o domnio das fantasias inconscientes e que as conscientes s as substituram depois.
         Considero a fantasia de espancamento, na sua terceira fase, que  a mais familiar e  a sua forma final, um substituto desse tipo. Aqui a criana que cria 
a fantasia aparece quase como um espectador, ao passo que o pai persiste, sob a forma de um professor ou qualquer outra autoridade. A fantasia, que ento se assemelha 
 da primeira fase, parece haver-se tornado, uma vez mais, sdica.  como que se na frase 'O meu pai est batendo na criana, ele s ama a mim', a nfase tenha-se 
deslocado para a primeira parte, depois que a segunda sofreu represso. Contudo, apenas a forma dessa fantasia  sdica; a satisfao que deriva assumiu a catexia 
libidinal da poro reprimida e, ao mesmo tempo, o sentimento de culpa que est ligado ao contedo daquela poro. Todas as crianas no especificadas, que esto 
sendo espancadas pelo professor, afinal de contas, nada mais so do que substitutos da prpria criana.
         Tambm pela primeira vez encontramos aqui algo como uma constncia do sexo nas pessoas que desempenham um papel na fantasia. As crianas que esto sendo 
espancadas so quase invariavelmente meninos, tanto nas fantasias destes, quanto nas das meninas. Essa caracterstica no deve ser naturalmente explicada por qualquer 
rivalidade entre os sexos, como se nas fantasias dos meninos devessem as meninas ser espancadas; e nada tem a ver com o sexo da criana que era odiada na primeira 
fase. No entanto, tal caracterstica assinala uma complicao no caso de meninas. Quando elas se afastam do amor incestuoso pelo pai, com o seu significado genital, 
abandonam com facilidade o papel feminino. Pem em atividade o seu 'complexo de masculinidade' (Van Ophuijsen [1917]) e, a partir de ento, querem apenas ser meninos. 
Por esse motivo, os bodes expiatrios que as representam so tambm meninos. Em ambos os casos de devaneio - um dos quais quase se elevou ao nvel de uma obra de 
arte - os heris eram sempre rapazes; na verdade as mulheres no costumavam, absolutamente, surgir nessas criaes e s fizeram a primeira apario depois de muitos 
anos, e, ainda assim, em papis de menor importncia. 
         
                                                 V
         
         Espero haver exposto as minhas observaes analticas com detalhes suficientes, e gostaria apenas de acrescentar que os seis casos que mencionei com tanta 
freqncia no esgotam o meu material. Como outros analistas, tenho  minha disposio um nmero muito maior de casos que foram menos completamente pesquisados. 
Essas observaes podem ser utilizadas em vrios sentidos: para esclarecimento da gnese das perverses em geral e do masoquismo em particular, e para avaliar o 
papel desempenhado pela diferena de sexo na dinmica da neurose.
         O resultado mais bvio de tal discusso  a sua aplicao  origem das perverses. O ponto de vista que trouxe para primeiro plano, a esse respeito, o reforo 
constitucional ou o crescimento prematuro de um nico componente sexual, na verdade no est abalado: mas verifica-se que no abrange toda a verdade. A perverso 
no mais  um fato isolado na vida sexual da criana, mas encontra o seu lugar entre os processos tpicos, para no dizer normais, de desenvolvimento que nos so 
familiares.  levada a uma relao com o objeto de amor incestuoso da criana, com o seu complexo de dipo. Destaca-se, de incio, na esfera desse complexo; e depois 
que o complexo sucumbiu, permanece, quase sempre por si, como herdeiro da carga de libido daquele complexo, oprimido pelo sentimento de culpa ligado a ele. A constituio 
sexual anormal, finalmente, mostrou a sua fora impondo ao complexo de dipo uma determinada direo e compelindo-o a deixar para trs um resduo incomum.
         Uma perverso na infncia, como  sabido, pode tornar-se a base para a construo de uma perverso que tenha um sentido similar e que persista por toda 
a vida, uma perverso que consuma toda a vida sexual do sujeito. Por outro lado, a perverso pode ser interrompida e permanecer ao fundo de um desenvolvimento sexual 
normal, do qual, no entanto, continua a retirar uma determinada quantidade de energia. A primeira dessas alternativas j era conhecida antes da era da anlise. Contudo, 
a investigao analtica de casos to plenamente desenvolvidos praticamente cobre a lacuna entre as duas. Pois descobrimos muitas vezes que esses pervertidos tambm 
fazem uma tentativa para desenvolver uma atividade sexual normal, geralmente durante a puberdade; mas a tentativa no tinha fora suficiente e foi abandonada diante 
dos obstculos que inevitavelmente se levantam, aps o que voltam  fixao infantil de uma vez por todas.
         Naturalmente seria importante saber se a origem das perverses infantis a partir do complexo de dipo pode ser afirmada como um princpio geral. Embora 
isto no possa ser resolvido sem mais investigaes, no parece impossvel. Quando nos lembramos das anamneses que foram obtidas em casos de perverso em adultos, 
no podemos deixar de notar que a impresso decisiva, a 'primeira experincia', de todos os pervertidos, fetichistas etc. dificilmente se refere a um perodo anterior 
ao sexto ano de vida. Nessa poca, no entanto, o domnio do complexo de dipo j cessou; a experincia que  recordada, e que foi efetiva de modo to desconcertante, 
pode muito bem representar o legado daquele complexo. As ligaes entre a experincia e o complexo, que por essa poca est reprimido, esto destinadas a permanecer 
obscuras na medida em que a anlise no esclarece o perodo anterior  primeira impresso 'patognica'. De modo que se pode imaginar como  pequeno o valor que se 
deve atribuir, por exemplo, a uma afirmao de que um caso de homossexualismo  congnito, quando o motivo dado para se acreditar que o seja  que, desde os seis 
ou os oito anos, a pessoa em questo s sentiu inclinaes para o seu prprio sexo.
         Se, no entanto, a derivao das perverses a partir do complexo de dipo pode ser estabelecida de modo geral, a nossa estimativa quanto  sua importncia 
ter adquirido fora adicional. Porque, na nossa opinio, o complexo de dipo  o verdadeiro ncleo das neuroses e a sexualidade infantil que culmina nesse complexo 
 que determina realmente as neuroses. O que resta do complexo no inconsciente representa a inclinao para o posterior desenvolvimento de neuroses no adulto. Dessa 
forma, a fantasia de espancamento e outras fixaes perversas anlogas tambm seriam apenas resduos do complexo de dipo, cicatrizes, por assim dizer, deixadas 
pelo processo que terminou, tal como o notrio 'sentimento de inferioridade' corresponde a uma cicatriz narcsica do mesmo tipo. Ao assumir esse ponto de vista do 
assunto, devo dizer que concordo sem reservas com Marcinowski (1918), que recentemente o exps de modo mais feliz. Como  sabido, esse delrio neurtico de inferioridade 
 apenas parcial e inteiramente compatvel com a existncia de uma superautovalorizao derivada de outras fontes. A origem do prprio complexo de dipo e do destino 
que compele o homem, provavelmente sozinho entre todos os animais, a iniciar duas vezes a sua vida sexual, primeiro, como todas as criaturas, na primitiva infncia, 
e depois, aps uma longa interrupo, uma vez mais na puberdade - todos os problemas ligados  'herana arcaica' do homem -, j foram por mim debatidos em outra 
parte, e no tenho inteno de adentrar-me neles, neste artigo.
         A nossa exposio da fantasia de espancamento pouco esclareceu a gnese do masoquismo. Para comear, parece haver confirmao do ponto de vista de que o 
masoquismo no  a manifestao de um instinto primrio, mas se origina do sadismo que foi voltado contra o eu (self) - ou seja, por meio de regresso de um objeto 
para o ego.Pode-se ter como certo que os instintos com propsito passivo existem, particularmente entre as mulheres. A passividade, contudo, no  a totalidade do 
masoquismo. A caracterstica do desprazer tambm pertence a ele - um desconcertante acompanhamento para a satisfao de um instinto. A transformao do sadismo em 
masoquismo parece dever-ser  influncia do sentimento de culpa que participa do ato de represso. Assim, a represso opera, aqui, de trs modos: torna inconscientes 
as conseqncias da organizao genital, obriga essa organizao a regredir ao anterior estdio sdico-anal e transforma o sadismo desse estdio em masoquismo, que 
 passivo e novamente, num certo sentido, narcsico. O segundo desses trs efeitos torna-se possvel pela fraqueza da organizao genital, que deve ser pressuposta 
em tais casos. O terceiro torna-se necessrio porque o sentimento de culpa faz tantas objees ao sadismo, como  escolha objetal incestuosa, genitalmente concebida. 
Mais uma vez, a anlise no nos fornece a origem no prprio sentimento de culpa. Parece ser trazido pela nova fase em que a criana ingressa e, se persiste depois, 
parece corresponder a uma formao semelhante a uma cicatriz, como a do sentimento de inferioridade. De acordo com a nossa orientao atual na estrutura do ego, 
que ainda  incerta, devamos atribu-lo  instncia mental que se instala como uma conscincia crtica sobre o resto do ego, que produz o fenmeno funcional de 
Silberer [1910] nos sonhos e que se desprende do ego nos delrios de observao.
         Tambm podemos notar, de passagem, que a anlise da perverso infantil tratada aqui  igualmente de grande ajuda na soluo de um velho enigma - enigma 
que, na verdade, sempre perturbou aqueles que no aceitaram a psicanlise mais do que aceitaram os prprios analistas. Isto, ainda que, recentemente, at mesmo Bleuler 
[1913. Cf. Edio Standard Brasileira, Vol. VII, pg. 185 n., IMAGO Editora, 1972] tenha considerado importante e inexplicvel o fato de que os neurticos fazem 
da masturbao o ponto central do seu sentimento de culpa. H muito presumimos que esse sentimento de culpa se relaciona com a masturbao da primitiva infncia, 
e no com a da puberdade; e que, no essencial, deve-se lig-lo no com o ato da masturbao, mas sim com a fantasia que, embora inconsciente, est na sua raiz - 
ou seja, com o complexo de dipo.
         No que diz respeito  terceira fase da fantasia de espancamento, aparentemente sdica, j expus [ver em [1]] o significado que ela adquire como veculo 
da excitao que impele  masturbao; e demonstrei como desperta atividades da imaginao que, por um lado, prosseguem a fantasia ao longo da mesma linha, e, por 
outro, a neutralizam atravs da compensao. No obstante, a segunda fase, a fase inconsciente e masoquista,  incomparavelmente a mais importante. No apenas porque 
continua a operar atravs da instncia da fase que toma o seu lugar; podemos tambm detectar efeitos sobre o carter, derivados diretamente da sua forma inconsciente. 
Pessoas que abrigam fantasias dessa espcie, desenvolvem uma sensibilidade e uma irritabilidade especial contra quem quer que possam incluir na categoria de 'pai'. 
So facilmente ofendidas por uma pessoa assim e, desse modo (para sua prpria tristeza), efetuam a realizao da situao imaginada de serem espancadas pelo pai. 
No me surpreenderia se algum dia fosse possvel provar que a mesma fantasia  a base do delirante esprito litigioso da parania.
         
                                                 VI
         
         Teria sido impossvel dar uma viso clara das fantasias infantis de espancamento, se no me houvesse limitado, exceto em uma ou duas relaes,  situao 
feminina. Recapitularei rapidamente as minhas concluses. A fantasia de espancamento da menina passa por trs fases, das quais a primeira e a terceira so lembradas 
conscientemente, ao passo que a do meio permanece inconsciente. As duas fases conscientes parecem ser sdicas, enquanto a segunda, a inconsciente,  indubitavelmente 
de natureza masoquista; seu contedo consiste em ser a criana espancada pelo pai, e faz-se acompanhar de uma carga libidinal e de um sentimento de culpa. Na primeira 
e na terceira fantasia, a criana em que esto batendo  sempre algum que no seja aquela que a imagina; na fase intermediria,  sempre a prpria criana; na terceira 
fase, so quase sempre meninos que esto sendo espancados. A pessoa que bate , a partir da primeira, o pai, substitudo depois por algum escolhido na categoria 
paternal. A fantasia inconsciente da fase mdia tinha primariamente um significado genital e evoluiu, por meio da represso e da regresso, de um desejo incestuoso 
de ser amada pelo pai. Um outro fato, ainda que parea no ter ligao mais estreita com o resto,  que entre a segunda e a terceira fase as meninas mudam de sexo, 
pois nas fantasias da ltima fase transformam-se em meninos.
         No consegui progredir tanto no meu conhecimento das fantasias de espancamento nos meninos, talvez porque o meu material no era favorvel. Esperava, naturalmente, 
encontrar uma analogia completa entre a situao no caso dos meninos e no das meninas, em que a me toma o lugar do pai na fantasia. Essa expectativa parecia confirmar-se, 
pois o contedo da fantasia masculina que seria tomado como correspondente era, na verdade, o de ser espancado pela me (ou, mais tarde, por uma substituta dela). 
Entretanto, essa fantasia, na qual o prprio eu (self) do menino era mantido como a pessoa que estava sendo espancada, diferia da segunda fase das meninas porque 
conseguia tornar-se consciente. Se, por causa disso, tentarmos, no entanto, traar um paralelo entre ela e a terceira fase da fantasia feminina, encontraremos uma 
nova diferena, pois a figura do prprio menino no  substituda por um nmero de crianas desconhecidas e indeterminadas, menos ainda por uma srie de meninas. 
Portanto, era enganosa a expectativa de haver um paralelo completo.
         Os meus casos masculinos com uma fantasia infantil de espancamento eram apenas uns poucos pacientes que no exibiam qualquer outro dano grave nas atividades 
sexuais; incluam tambm um grande nmero de pessoas que teriam que ser descritas como autnticos masoquistas, no sentido de serem pervertidos sexuais. Ou eram pessoas 
que obtinham satisfao sexual exclusivamente pela masturbao acompanhada de fantasias masoquistas; ou eram pessoas que haviam conseguido combinar o masoquismo 
com a sua atividade genital, de tal modo que, paralelamente s experincias masoquistas e sob condies semelhantes, conseguiram chegar  ereo e ejaculao, ou 
levar a cabo uma relao normal. Alm desses, havia o caso mais raro em que um masoquista  perturbado nas suas atividades pervertidas pelo aparecimento de idias 
obsessivas de intensidade insuportvel. Entretanto, os pervertidos que conseguem obter satisfao raramente tm ocasio de procurar analista. No que diz respeito, 
porm, s trs categorias de masoquistas que foram mencionadas, pode haver fortes motivos para induzi-los a ir a um analista. O masturbador masoquista descobre que 
 absolutamente impotente se, afinal, tenta manter relaes com uma mulher; e o homem que sempre efetuou a relao com o auxlio de uma idia ou uma proeza masoquista, 
faz, de repente, a descoberta de que a aliana que era to conveniente para ele no mais funciona, de que seus rgos genitais deixaram de reagir ao estmulo masoquista. 
Estamos acostumados a prometer confiantemente a recuperao aos pacientes psiquicamente impotentes que nos procuram para tratamento; mas deveramos ser mais precavidos 
ao fazer esse prognstico, na medida em que a dinmica do distrbio nos  desconhecida.  uma surpresa desagradvel se a anlise revela que a causa da impotncia 
'meramente psquica'  uma atitude tipicamente masoquista, talvez profundamente arraigada desde a infncia.
         No que concerne aos masoquistas do sexo masculino, no entanto, uma descoberta nos adverte para no mais seguirmos a analogia entre o caso destes e o das 
mulheres, mas para julg-los independentemente. A razo  que emerge o fato de que, nas suas fantasias masoquistas, bem como nos artifcios que utilizam para a realizao 
destas, eles invariavelmente se transferem para o papel de uma mulher; ou seja, a sua atitude masoquista coincide com uma atitude feminina. Isto pode ser facilmente 
demonstrado a partir de detalhes das fantasias; muitos pacientes, porm, esto, eles prprios, cnscios desse fato e do-lhe expresso como convico subjetiva. 
No faz diferena se, num embelezamento fantasioso da cena masoquista, eles sustentam a fico de que um menino malvado, ou um pajem, ou um aprendiz, vai ser castigado. 
Por outro lado, as pessoas que aplicam o castigo so sempre mulheres, nas fantasias como nos desempenhos. Isto  bastante confuso; e outra questo que deve ser colocada 
 saber se essa atitude feminina j forma a base do elemento masoquista na fantasia de espancamento infantil.
         Deixemos, portanto, de lado as consideraes sobre a situao em casos de masoquismo adulto, que  to difcil de esclarecer, e voltemos  fantasia de espancamento 
infantil no sexo masculino. A anlise dos primeiros anos da infncia uma vez mais permite-nos fazer uma descoberta surpreendente nesse campo. A fantasia que tem 
por contedo o ser espancado pela me, que  consciente ou pode vir a ser consciente, no  uma fantasia primitiva. Possui um estdio precedente que  sempre inconsciente 
e tem por contedo o seguinte: 'Estou sendo espancado pelo meu pai.' Esse estdio preliminar corresponde ento, na verdade,  segunda fase da fantasia na menina. 
A fantasia familiar e consciente, 'Estou sendo espancado pela minha me', toma o lugar da terceira fase da menina, em que, como j foi mencionado, rapazes desconhecidos 
esto sendo surrados. No consegui demonstrar, entre os meninos, um estdio preliminar de natureza sdica que pudesse ser colocado ao lado da primeira fase da fantasia 
das meninas, mas no vou expressar uma descrena final na sua existncia, pois vejo prontamente a possibilidade de deparar-me com tipos mais complicados.
         Na fantasia masculina - como a chamarei sumariamente e, espero, sem qualquer risco de ser mal interpretado - o ser espancado tambm significa ser amado 
(num sentido genital), embora rebaixado a um nvel inferior, por causa da regresso. De maneira que a forma original da fantasia masculina inconsciente no era a 
que demos provisoriamente at aqui, 'Estou sendo espancado pelo meu pai', mas, antes, 'Sou amado pelo meu pai.' A fantasia foi transformada, por processos que nos 
so familiares, em fantasia consciente: 'Estou sendo espancado pela minha me'. A fantasia de espancamento do menino , portanto, passiva desde o comeo e deriva 
de uma atitude feminina em relao ao pai. Corresponde ao complexo de dipo tal como a fantasia feminina (a da menina); apenas a relao paralela que espervamos 
encontrar entre as duas, deve ser abandonada em favor de um carter comum de outra natureza. Em ambos os casos, a fantasia de espancamento tem sua origem numa ligao 
incestuosa com o pai.
         Ajudar a tornar as coisas mais claras se, nesse ponto, enumero as demais similaridades e diferenas entre as fantasias de espancamento em ambos os sexos. 
No caso da menina, a fantasia masoquista inconsciente parte da atitude edipiana normal; no caso do menino, parte da atitude invertida, na qual o pai  tomado como 
objeto de amor. No caso da menina, a fantasia tem um estdio preliminar (a primeira fase), no qual o espancamento no tem um significado especial e  feito sobre 
uma pessoa vista com rancor ciumento. Ambos esses aspectos esto ausentes no caso do menino, mas essa diferena particular  uma das que poderiam ser removidas por 
uma observao mais afortunada. Na sua transio para a fantasia consciente [a terceira fase], que toma o lugar da inconsciente, a menina mantm a figura do pai 
e, dessa forma, conserva inalterado o sexo da pessoa que est batendo; ela, porm, muda a figura e o sexo da pessoa que est sendo espancada, de modo que, por conseqncia, 
um homem est batendo em crianas do sexo masculino. O menino, pelo contrrio, modifica a figura e o sexo da pessoa que bate, colocando a me no lugar do pai; mantm, 
contudo, a sua prpria figura, disso resultando que a pessoa que est batendo e a que est apanhando so de sexos opostos. No caso da menina, o que era originalmente 
uma situao masoquista (passiva) transforma-se em situao sdica, por meio de represso, e a sua qualidade sexual  quase apagada. No caso do menino, a situao 
permanece masoquista e mostra uma semelhana maior com a fantasia original, com seu significado genital, de vez que existe uma diferena de sexo entre a pessoa que 
bate e a pessoa espancada. O menino burla o seu homossexualismo ao reprimir e remodelar a fantasia inconsciente - e o que  notvel acerca da sua posterior fantasia 
consciente  que esta tem como contedo uma atitude feminina sem uma escolha homossexual de objeto. Pelo mesmo processo, por outro lado, a menina escapa inteiramente 
s exigncias do lado ertico da sua vida. Em fantasia ela transforma-se em homem, sem se tornar ativa  maneira masculina, e nada mais  do que o espectador de 
um acontecimento que toma o lugar de um ato sexual.
         Estamos justificados ao presumir que nenhuma grande mudana  efetuada pela regresso da fantasia inconsciente original. O que quer que seja reprimido a 
partir da conscincia, ou nela substitudo por alguma outra coisa, permanece intacto e potencialmente operativo no inconsciente. O efeito da regresso a um estdio 
anterior da organizao sexual  outra questo. No que diz respeito a esta, somos levados a acreditar que a situao se modifica tambm no inconsciente. Assim, em 
ambos os sexos, a fantasia masoquista de ser espancado pelo pai, ainda que no a fantasia passiva de ser amado por ele, continua a viver no inconsciente depois que 
ocorreu a represso. Existem, ademais, muitas indicaes de que a represso s atinge o seu objetivo de maneira muito incompleta. O menino, que tentou escapar de 
uma escolha homossexual de objeto, e que no mudou o seu sexo, sente-se, no obstante, como uma mulher nas suas fantasias conscientes e dota as mulheres, que o espancam, 
de atributos e caractersticas masculinas. A menina, que at mesmo renunciou ao seu sexo e que, de um modo geral, cumpriu um trabalho de represso mais completo, 
ainda assim no se liberta do pai; no se arrisca a executar, ela prpria, o espancamento; e, uma vez que se transformou em menino, so principalmente meninos que 
ela determina que sejam espancados.
         Estou consciente de que as diferenas que descrevi entre os sexos, no que diz respeito  natureza da fantasia de espancamento, no foram suficientemente 
esclarecidas. Contudo, no tentarei deslindar essas complicaes atribuindo a sua dependncia a outros fatores, j que no considero exaustivo o material para observao. 
Pelo que abrange, no entanto, gostaria de utiliz-lo para testar duas teorias. Essas teorias opem-se uma  outra, ainda que ambas tratem da relao entre a represso 
e o carter sexual, e ambas, cada uma de acordo com o seu ponto de vista, a representem como uma relao muito ntima. Posso dizer, de imediato, que sempre considerei 
essas teorias incorretas e ilusrias.
         A primeira dessas teorias  annima. Foi trazida ao meu conhecimento, h alguns anos atrs, por um colega com quem, na poca, eu mantinha boas relaes. 
A teoria , pela sua ousada simplicidade, to atraente, que a nica surpresa  que no se tenha imposto na literatura do assunto, exceto por umas poucas aluses 
esparsas. Baseia-se no fato da constituio bissexual dos seres humanos, e afirma que a fora motivadora da represso, em cada indivduo,  uma luta entre os dois 
caracteres sexuais. O sexo dominante da pessoa, aquele que  mais intensamente desenvolvido, reprimiu no inconsciente a representao mental do sexo subordinado. 
Portanto, o ncleo do inconsciente (quer dizer, o reprimido) , em cada ser humano, aquele lado dele que pertence ao sexo oposto. Uma teoria como esta s pode ter 
um significado inteligvel se presumimos que o sexo de uma pessoa seria determinado pela formao dos genitais; pois, de outro modo, no haveria certeza de qual 
 o sexo mais forte da pessoa, e correramos o risco de chegar, com os resultados da pesquisa ao prprio fato que tem que servir como ponto de partida. Para, resumir 
a teoria: nos homens, o que  inconsciente e reprimido pode ser reduzido a impulsos instintuais femininos; o que ocorre, de forma inversa, nas mulheres.
         A segunda teoria  de origem mais recente. Est de acordo com a primeira, na medida em que tambm representa a luta entre os dois sexos como sendo a causa 
decisiva da represso. Em outros aspectos, entra em conflito com a outra teoria; ademais, busca apoio mais em fontes sociolgicas do que biolgicas. De acordo com 
essa teoria do 'protesto masculino', formulada por Alfred Adler, todo indivduo faz esforos para no permanecer na inferior 'linha feminina [de desenvolvimento]', 
e empenha-se no sentido da 'linha masculina', da qual a satisfao pode ser derivada. Adler torna o protesto masculino responsvel por toda a formao tanto do carter 
quanto das neuroses. Infelizmente, faz to pouca distino entre os dois processos, que certamente tm que ser mantidos separados, e d to pouco valor, de um modo 
geral, ao fato da represso, que tentar aplicar  represso a doutrina do protesto masculino  correr o risco de ser mal compreendido. Na minha opinio, tal tentativa 
s nos levaria a inferir que o protesto masculino, o desejo de romper com a linha feminina, seria em todos os casos a fora motivadora da represso. A funo repressora, 
portanto, seria sempre um impulso instintual masculino, e o reprimido seria um impulso feminino. Os sintomas, porm, seriam tambm conseqncia de um impulso feminino, 
pois no podemos suprimir o aspecto caracterstico dos sintomas - isto , que so substitutos daquilo que foi reprimido, substitutos que se impuseram apesar da represso.
         Tomemos ento essas duas teorias, as quais se pode dizer que tm em comum uma sexualizao do processo de represso, e testemo-las, aplicando-as ao exemplo 
das fantasias de espancamento que estivemos estudando. A fantasia original, 'Estou sendo espancada pelo meu pai', corresponde, no caso de menino, a uma atitude feminina, 
e , portanto, expresso daquela parte da sua propenso que pertence ao sexo oposto. Se essa parte dele se submete  represso, a primeira teoria parece mostrar-se 
correta, pois essa teoria estabelece como regra que aquilo que pertence ao sexo oposto  idntico ao reprimido. Dificilmente corresponde s nossas expectativas, 
 verdade, quando descobrimos que a fantasia consciente, que nasce depois que a represso foi cumprida, exibe, ainda assim, a atitude feminina mais uma vez, embora 
desta feita dirigida para a me. Mas no entraremos em problemas to duvidosos, quando toda a questo pode ser resolvida to rapidamente. No pode haver dvidas 
de que a fantasia original no caso da menina, 'Estou sendo espancada (isto , sou amada) pelo meu pai', representa uma atitude feminina e corresponde ao seu sexo 
manifesto e dominante; de acordo com a teoria, portanto, deveria escapar  represso e no haveria necessidade de tornar-se inconsciente. Na verdade, porm, torna-se 
inconsciente, e  substituda por uma fantasia consciente que nega o carter sexual manifesto da menina. A teoria , portanto, intil como explicao das fantasias 
de espancamento, e os fatos a contradizem. Poder-se-ia objetar que  precisamente em meninos pouco viris e em meninas pouco femininas que surgiram essas fantasias 
de espancamento e passaram por essas vicissitudes; ou que seria uma caracterstica de feminilidade no menino, e de masculinidade, na menina, responsvel pela criao 
de uma fantasia passiva, no menino, e pela sua represso, na menina. Deveramos estar propensos a concordar com esse ponto de vista, mas no seria menos impossvel 
defender a suposta relao entre o carter sexual manifesto e a escolha do que est destinado  represso. Em ltimo recurso, s podemos verificar que, tanto no 
homem como na mulher, encontram-se impulsos instintuais masculinos e femininos, e que cada um igualmente pode muito bem ser submetido  represso e, assim, tornar-se 
inconsciente.
         A teoria do protesto masculino parece manter muito melhor o seu fundamento ao ser testada em relao s fantasias de espancamento. Tanto no caso de meninos 
como de meninas, a fantasia de espancamento corresponde a uma atitude feminina - isto , uma atitude na qual o indivduo se demora na 'linha feminina' - e ambos 
os sexos apressam-se em libertar-se dessa atitude, reprimindo a fantasia. No obstante, parece que apenas na menina o protesto masculino est ligado a um xito completo, 
e nesse caso, de fato, poder-se-ia encontrar um exemplo ideal da operao do protesto masculino. Com o menino, o resultado no  inteiramente satisfatrio; a linha 
feminina no  abandonada, e o menino no  certamente 'bem-sucedido' na sua fantasia masoquista consciente. Concordaria, portanto, com as expectativas que nascem 
da teoria, se reconhecssemos que essa fantasia era um sintoma que passara a existir pelo fracasso do protesto masculino.  naturalmente perturbador o fato de que 
a fantasia da menina, que deve a sua origem s foras da represso, tenha tambm o valor e o significado de um sintoma. Nesse exemplo, onde o protesto masculino 
atingiu plenamente o seu objetivo, deve estar certamente ausente a condio que determina a formao de um sintoma.
         Antes que sejamos levados, por essa dificuldade, a suspeitar de que toda a concepo do protesto masculino  inadequada ao problema das neuroses e das perverses, 
e de que sua aplicao a esses problemas  infrutfera, deixemos por um momento as fantasias de espancamento passivas e voltemos nossa ateno para outras manifestaes 
instintuais da vida sexual infantil - manifestaes que foram igualmente submetidas  represso. Ningum pode duvidar que existem tambm desejos e fantasias que 
mantm a linha masculina a partir da sua prpria natureza, e que so expresso de impulsos instintuais masculinos - tendncias sdicas, por exemplo, ou os sentimentos 
lbricos de um menino em relao  me, que se originam do complexo de dipo normal. No  menos certo que esses impulsos, tambm, so colhidos pela represso. Se 
o protesto masculino deve ser tomado como algo que explica satisfatoriamente a represso das fantasias passivas (que depois se tornam masoquistas), por essa mesma 
razo torna-se, ento, totalmente inaplicvel ao caso oposto, de fantasias ativas. Isto , a doutrina do protesto masculino  completamente incompatvel com o fato 
da represso. A no ser que estejamos preparados para jogar fora tudo o que foi adquirido em psicologia desde o primeiro tratamento catrtico de Breuer, no podemos 
esperar que o princpio do protesto masculino ganhe algum significado na elucidao das neuroses e das perverses.
         A teoria da psicanlise (uma teoria fundamentada na observao) sustenta com firmeza o ponto de vista de que as foras motivadoras da represso no devem 
ser sexualizadas. A herana arcaica do homem forma o ncleo da mente inconsciente; e qualquer que seja a parte daquela herana que tenha de ser deixada para trs 
no avano para as fases posteriores de desenvolvimento, porque no serve ou  incompatvel com o que  novo, e lhe  prejudicial, surge uma vtima do processo de 
represso. Essa seleo  feita com mais xito com um grupo de instintos do que com o outro. Em virtude de circunstncias particulares que j foram freqentemente 
assinaladas, o segundo grupo, o dos instintos sexuais,  capaz de derrotar as intenes de represso e de forar sua representao por formaes substitutivas de 
natureza perturbadora. Por esse motivo, a sexualidade infantil, que  mantida sob represso, atua como a principal fora motivadora na formao de sintomas; e a 
parte essencial do seu contedo, o complexo de dipo,  o complexo nuclear das neuroses. Espero haver levantado, neste artigo, a expectativa de que as aberraes 
sexuais da infncia, bem como as da maturidade, so ramificaes do mesmo complexo. [Algumas outras anotaes acerca da primeira fase da fantasia de espancamento 
em meninas podem ser encontradas em um artigo posterior de Freud sobre a distino anatmica entre os sexos (1925j), Edio Standard Brasileira, Vol. XIX, pgs. 
315-16, IMAGO Editora, 1976.]
         
         
         
         




INTRODUO A A PSICANLISE E AS NEUROSES DE GUERRA (1919)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         
         INTRODUO A ZUR PSYCHOANALYSE DERKRIEGSNEUROSEN
         
         (a)EDIES ALEMS:
         
         1919 Leipzig e Viena: Internationaler Psychoanalytischer Verlag. 3-7.
         1928 G.S., 11, 252-5.
         1931 Neurosenlehre und Technik, 310-15.
         1947 G.W., 12, 321-4.
         
         (b)TRADUES INGLESAS:
         Introduction to Psycho-Analysis and the War Neuroses1921 Londres, Viena e Nova Iorque: International Psycho-Analytical Press.1-4.
         
         1950 C.P., 5, 83-7. (Trad. de J. Strachey.) (Sob o ttulo 'Psycho-Analysis and War Neuroses'.)
         
         Parece provvel que a traduo inglesa publicada em 1921 tenha sido feita por Ernest Jones. A presente traduo inglesa  verso ligeiramente corrigida 
da publicada em 1950.
         As atas do Quinto Congresso Psicanaltico Internacional, realizado em Budapest a 28 e 29 de setembro de 1918, no qual Freud leu a comunicao transcrita 
em [1] e segs., acima, incluam tambm um simpsio sobre 'A Psicanlise das Neuroses de Guerra', que foi aberto com trs artigos, lidos respectivamente por Sndor 
Ferenczi, Karl Abraham e Ernst Simmel. Esses trs artigos, junto com outro de Ernst Jones sobre o mesmo tema, que havia sido lido em Londres diante da Royal Society 
of Medicine, a 9 de abril de 1918, foram publicados um ano mais tarde num pequeno volume, o primeiro a ser editado pela recm-fundada Internationaler Pscychoanalytischer 
Verlag (ver adiante, em [1]). Nesse volume os artigos eram precedidos por esta breve introduo de Freud. Na traduo inglesa original, contudo em nenhuma das edies 
alems, esta introduo est datada da 'Primavera de 1919'.
         Freud voltou ao tema do tratamento das neuroses de guerra num Memorandum apresentado por ele a uma comisso estabelecida pelo Ministrio da Guerra austraco 
no ano seguinte (Freud 1955c [1920]). Esse texto foi impresso como apndice a este artigo.
         
         
         INTRODUO A A PSICANLISE E AS NEUROSES DE GUERRA
         
         Este pequeno livro sobre as neuroses de guerra - volume que inaugura a nossa Internationale psychoanalytische Bibliothek - trata de um tema que at recentemente 
desfrutou a vantagem de ser dos mais atuais. Quando foi exposto no Quinto Congresso Psicanaltico Internacional, que foi realizado em Budapest em setembro de 1918, 
representantes oficiais dos mais altos escales das potncias centro-europias estavam presentes s comunicaes e demais atividades, como observadores. O esperanoso 
resultado desse primeiro contato foi a promessa de se estabelecerem centros psicanalticos, nos quais mdicos com formao analtica teriam tempo e oportunidade 
para estudar a natureza desses intrincados distrbios e o efeito teraputico exercido sobre eles pela psicanlise. Antes que essas propostas pudessem ser postas 
em ao, a guerra chegou ao fim, as organizaes estatais ruram e o interesse pelas neuroses de guerra deu lugar a outras preocupaes. No entanto,  significativo 
o fato de que, quando as condies de guerra cessaram de operar, a maior parte das perturbaes neurticas provocadas pela guerra desapareceu simultaneamente. A 
oportunidade para uma investigao completa dessas afeces foi, assim, lamentavelmente perdida - embora, devemos acrescentar, a primitiva ocorrncia de tal oportunidade 
no seja uma coisa desejvel.
         Esse episdio, porm, ainda que esteja agora encerrado, no deixou de ter uma importante influncia sobre a difuso da psicanlise. Os mdicos que at ento 
haviam evitado qualquer aproximao das teorias psicanalticas, foram levados a um contato mais estreito com elas quando, no decorrer de suas obrigaes como mdicos 
do exrcito, foram obrigados a lidar com as neuroses de guerra. O leitor poder deduzir, do artigo de Ferenczi, com que hesitaes e sob que disfarces esses contatos 
mais ntimos foram feitos. Alguns dos fatores que a psicanlise havia reconhecido e descrito h muito, ao trabalhar com neuroses em tempos de paz - a origem psicognica 
dos sintomas, a importncia dos impulsos instintuais inconscientes, o papel desempenhado, ao lidar com os conflitos mentais, pelo ganho primrio de estar doente 
('a fuga para a doena') - observou-se estarem igualmente presentes nas neuroses de guerra e foram aceitos quase universalmente. Tambm os estudos de Simmel demonstram 
que xitos se poderia alcanar tratando os neurticos de guerra pelo mtodo da catarse, que, como sabemos, foi o primeiro passo no sentido de uma tcnica psicanaltica.
         No h, no entanto, necessidade de considerar que essas abordagens  psicanlise impliquem em qualquer reconciliao ou qualquer apaziguamento da oposio. 
Suponha-se que algum rejeitou at hoje a totalidade de um complexo de proposies interdependentes, mas agora encontra-se, subitamente, em posio de convencer-se 
da verdade de uma parte do todo. Poder-se-ia pensar que comear a hesitar quanto  sua oposio em geral e a permitir-se determinado grau de expectativa deferente 
de que a outra parte, sobre a qual no teve experincia pessoal e no pode, por isso mesmo, formar juzo prprio, tambm possa confirmar-se como verdadeira. Essa 
outra parte da teoria psicanaltica, com a qual o estudo das neuroses de guerra no entrou em contato,  no sentido de que as foras motivadoras que se expressam 
na formao dos sintomas so sexuais e que as neuroses nascem de um conflito entre o ego e os instintos sexuais que este repudia. ('Sexualidade', neste contexto, 
deve ser entendida no sentido amplo em que  usada na psicanlise e no se deve confundir com o conceito mais limitado de 'genitalidade'.) No deixa de ser verdade, 
como observa Ernest Jones na sua contribuio a este volume, que essa parte da teoria no se mostrou ainda aplicvel s neuroses de guerra. O trabalho que poderia 
provar o contrrio no foi realizado ainda. Pode ser que as neuroses de guerra no sejam absolutamente material adequado para este propsito. Mas os oponentes da 
psicanlise, cuja averso  sexualidade  evidentemente mais forte do que a sua lgica, apressaram-se a proclamar que a investigao das neuroses de guerra desmentiu 
finalmente essa parte da teoria psicanaltica. Aqui, incorreram eles em uma ligeira confuso. Se a investigao das neuroses de guerra (e uma investigao muito 
superficial) no demonstrou que a teoria sexual das neuroses  correta, isto  algo muito diferente de mostrar que aquela teoria  incorreta. Com o auxlio de uma 
atitude imparcial e um pouco de boa vontade, no seria difcil encontrar o caminho para um futuro esclarecimento do assunto.
         As neuroses de guerra, na medida em que se distinguem das neuroses comuns por caractersticas particulares, devem ser consideradas como neuroses traumticas 
cuja ocorrncia se tornou possvel ou foi provocada por um conflito no ego. O artigo de Abraham propicia uma boa prova desse conflito, que foi tambm reconhecido 
pelos autores ingleses e norte-americanos citados por Jones. O conflito  entre o velho ego pacfico do soldado e o seu novo ego blico, e torna-se agudo to logo 
o ego pacfico compreende que perigo corre ele de perder a vida devido  temeridade do seu recm-formado e parastico duplo. Seria igualmente verdadeiro dizer que 
o antigo ego est-se protegendo de um perigo mortal ao fugir para uma neurose traumtica, ou dizer que est defendendo-se do novo ego, o qual v como uma ameaa 
 sua vida. Dessa forma, a precondio das neuroses de guerra, o solo que as nutre, pareceria ser um exrcito nacional [recrutado]; no haveria possibilidade de 
surgirem neuroses num exrcito de soldados profissionais ou de mercenrios.
          parte isso, as neuroses de guerra so apenas neuroses traumticas, que, como sabemos, ocorrem em tempos de paz tambm, aps experincias assustadoras 
ou graves acidentes, sem qualquer referncia a um conflito no ego.
         A teoria da etiologia sexual das neuroses ou, como preferimos dizer, a teoria da libido das neuroses, foi originalmente exposta apenas em relao s neuroses 
de transferncia da poca de paz e  fcil de demonstrar, no caso destas, pelo uso da tcnica de anlise. A sua aplicao, porm, a outros distrbios que agrupamos 
depois como as neuroses narcsicas, j encontrou dificuldades. Uma demncia precoce, uma parania ou uma melancolia comuns so, essencialmente, material bastante 
inadequado para demonstrar a validade da teoria da libido ou para servir como uma primeira introduo  compreenso dessa teoria; e  por esse motivo que os psiquiatras, 
que omitem as neuroses de transferncia, so incapazes de aceit-la. As neuroses traumticas de tempos de paz, porm, foram sempre consideradas, nesse aspecto, como 
o material mais refratrio de todos; de modo que a emergncia das neuroses de guerra no podia introduzir qualquer fator novo na situao que j existia.
         S se tornou possvel estender a teoria da libido s neuroses narcsicas depois que o conceito de uma 'libido narcsica' foi exposto e aplicado - isto , 
um conceito de uma quantidade de energia sexual ligada ao prprio ego e que encontra satisfao no ego, tal como habitualmente se encontra satisfao apenas em objetos. 
Esse desenvolvimento inteiramente legtimo do conceito de sexualidade promete fazer pelas neuroses mais graves e pelas psicoses tanto quanto se possa esperar de 
uma teoria que est avanando com uma base emprica. As neuroses traumticas de paz ajustar-se-o tambm ao esquema, assim que se alcance um resultado positivo nas 
investigaes que fazemos as relaes que sem dvida existem entre o medo, a ansiedade e a libido narcsica.
         As neuroses traumticas e as neuroses de guerra podem proclamar em voz muito alta os efeitos do perigo mortal e podem ficar em silncio ou falar apenas 
em tom surdo dos efeitos da frustrao no amor. Mas, por outro lado, as neuroses de transferncia no amor. Mas, por outro lado, as neuroses de transferncia comuns, 
de tempos de paz, no do valor etiolgico ao fator de perigo mortal que, na antiga categoria das neuroses, desempenham um papel to poderoso. At mesmo se sustenta 
que as neuroses de tempos de paz so provocadas pela indulgncia, pela boa vida e pela inatividade - que proporcionariam um contraste interessante em relao s 
condies de vida sob as quais se desenvolvem as neuroses de guerra. Se seguissem o exemplo dos seus oponentes, os psicanalistas, ao descobrirem que seus pacientes 
adoeceram devido  frustrao no amor (devido aos clamores da libido insatisfeita), teriam que sustentar que no podem existir coisas tais como neuroses de perigo 
ou que os distrbios que surgem aps experincias assustadoras no so neuroses. No tm,  claro, inteno de afirmar qualquer coisa desse gnero. Ao contrrio, 
ocorre-lhes uma possibilidade conveniente de juntar, numa nica hiptese, os dois conjuntos de fatos aparentemente divergentes. Nas neuroses traumticas e de guerra, 
o ego humano defende-se de um perigo que o ameaa de fora ou que est incorporado a uma forma assumida pelo prprio ego. Nas neuroses de transferncia, em poca 
de paz, o inimigo do qual o ego se defende , na verdade, a libido, cujas exigncias lhe parecem ameaadoras. Em ambos os casos, o ego tem medo de ser prejudicado 
- no segundo caso, pela libido, e no primeiro, pela violncia externa. De fato, poder-se-ia dizer que, no caso das neuroses de guerra, em contraste com as neuroses 
traumticas puras e de modo semelhante as neuroses de transferncia, o que  temido , no obstante, um inimigo interno. As dificuldades tericas que se erguem no 
caminho de uma hiptese unificadora desse tipo no parecem insuperveis: afinal de contas, temos todo o direito de descrever a represso, que est na base de cada 
neurose, como uma reao ao trauma - como uma neurose traumtica elementar.
         
         APNDICE - MEMORANDUM SOBRE O TRATAMENTO ELTRICO DOS NEURTICOS DE GUERRA (1955 [1920])
         
         Havia muitos pacientes, mesmo em tempos de paz, que, depois de traumas (isto , aps experincias assustadoras e perigosas, tais como acidentes ferrovirios 
etc.), exibiam graves distrbios na vida mental e na atividade nervosa, sem que os mdicos tivessem chegado a um acordo sobre tais estados. Alguns supunham que, 
em tais pacientes, tratava-se de uma questo de graves danos no sistema nervoso, semelhantes s hemorragias e inflamaes que ocorrem em doenas no traumticas. 
E quando o exame anatmico deixava de estabelecer tais processos, eles ainda assim sustentaram a crena de que mudanas mais delicadas nos tecidos eram a causa dos 
sintomas observados. Classificavam, portanto, esses casos traumticos entre as doenas orgnicas. Outros mdicos afirmavam, desde o incio, que esses estados s 
podiam ser considerados perturbaes funcionais e que o sistema nervoso permaneceria anatomicamente intacto. Mas a opinio mdica h muito encontrara dificuldades 
para explicar como to graves perturbaes de funo podiam ocorrer sem prejuzo maior para o rgo.
         A guerra que acabou recentemente originou e trouxe  observao mdica um nmero imenso desses casos traumticos. No fim, a controvrsia foi decidida em 
favor do ponto de vista funcional. A grande maioria dos mdicos no mais acredita que os assim chamados 'neurticos de guerra' estejam doentes em conseqncia de 
danos orgnicos tangveis ao sistema nervoso, e os de mais viso entre eles j decidiram, em vez de usar a descrio indefinida de 'mudana funcional', introduzir 
o termo no ambguo 'mudana mental'.
         Apesar de que as neuroses de guerra se manifestaram, em sua maior parte, como perturbaes motoras - tremores e paralisias -, e embora fosse plausvel supor 
que um impacto to grande como aquele produzido pela concusso devida  exploso de uma granada nas proximidades, ou o de ser soterrado por um deslizamento do terreno, 
levaria a enormes efeitos mecnicos, foram feitas, contudo, observaes que no deixaram dvidas quanto  natureza psquica das causas das denominadas neuroses de 
guerra. Como se podia discutir esse fato quando os mesmos sintomas apareciam tambm por trs da frente da batalha, longe dos horrores da guerra, ou imediatamente 
aps o regresso de uma licena? Os mdicos foram levados, portanto, a considerar os neurticos de guerra numa perspectiva semelhante quela em que se consideram 
os pacientes nervosos dos tempos de paz.
         Aquilo que  conhecido como escola psicanaltica de psiquiatria, que foi iniciada por mim, havia ensinado, durante os ltimos vinte e cinco anos, que as 
neuroses da paz podiam ser atribudas a perturbaes da vida emocional. Essa explicao era aplicada agora, de modo bastante geral, aos neurticos de guerra. Afirmamos 
tambm que os pacientes neurticos sofriam de conflitos mentais e que os desejos e inclinaes que se expressavam nos sintomas eram desconhecidos dos prprios pacientes 
- isto , eram inconscientes. Foi fcil, portanto, inferir que a causa imediata de todas as neuroses de guerra era uma inclinao inconsciente, no soldado, para 
afastar-se das exigncias perigosas ou ultrajantes para os seus sentimentos, feitas sobre ele pelo servio ativo. Medo de perder a prpria vida, oposio  ordem 
de matar outras pessoas, rebeldia contra a supresso implacvel da prpria personalidade pelos seus superiores - eram estas as mais importantes fontes afetivas das 
quais se nutria a tendncia para escapar da guerra.
         Um soldado no qual esse motivos afetivos fossem muito poderosos ou claramente conscientes teria sido obrigado, se fosse um homem saudvel, a desertar ou 
a fingir-se doente. Apenas a menor parcela de neurticos da guerra, no entanto, fingiu-se doente para escapar aos deveres; os impulsos emocionais que se rebelavam 
contra o servio ativo e levaram os soldados  doena, operavam neles sem se tornarem conscientes. Permaneciam inconscientes porque outros motivos, tais como ambio, 
auto-estima, patriotismo, o hbito de obedincia e o exemplo dos demais, comeavam com mais fora, at que, em alguma ocasio apropriada, eram subjugados pelos outros 
motivos, que operam inconscientemente.
         Essa compreenso interna (insight) das causas das neuroses de guerra conduziu a um mtodo de tratamento que parecia estar bem fundamentado e que se mostrou 
tambm altamente efetivo no primeiro momento. Parecia conveniente tratar o neurtico como se fosse algum que se fingisse de doente para fugir ao dever, sem considerar 
a distino psicolgica entre intenes conscientes e inconscientes, embora se soubesse que a pessoa em questo no era de ter tal procedimento falso. De vez que 
sua doena servia o propsito de afast-lo de uma situao intolervel, as razes da doena seriam claramente debilitadas se ela se tornasse ainda mais intolervel 
para o soldado do que o servio ativo. Tal como fugia da guerra para a doena, adotavam-se agora meios de compeli-lo a fugir outra vez, da doena para a sade, isto 
, aptido para o servio ativo. Para essa finalidade empregou-se, com xito, o doloroso tratamento eltrico. Os mdicos esto encobrindo os fatos retrospectivamente, 
quando afirmam que a fora dessa corrente eltrica era a mesma que sempre fora empregada nos distrbios funcionais. Essa fora de corrente s teria sido efetiva 
nos casos mais brandos; nem isto se ajusta ao argumento subjacente de que a doena de um neurtico de guerra tinha de tornar-se dolorosa, de modo que a balana dos 
seus motivos se inclinasse a favor da recuperao.
         Essa dolorosa forma de tratamento, introduzida no exrcito alemo com propsitos teraputicos, podia, sem dvida, ter sido empregada tambm de maneira mais 
moderada. Se foi utilizada nas Clnicas de Viena, estou pessoalmente convencido de que jamais foi intensificada a um nvel de crueldade por iniciativa do Professor 
Wagner-Jauregg. No posso responder por outros mdicos que no conheo. A educao psicolgica dos mdicos , em geral, decididamente deficiente, e mais de um deles 
pode ter esquecido que o paciente que procurava tratar como um fingidor, afinal de contras no o era.
         Esse procedimento teraputico, contudo, ostenta desde o incio um estigma. No se destinava  recuperao do paciente, ou, pelo menos, no em primeira instncia; 
destinava-se, acima de tudo, a restaurar a sua aptido para o servio. Nisso a medicina servia a propsitos estranhos  sua essncia. O prprio mdico estava sob 
comando militar e tinha seus prprios perigos a temer - perda de posio ou uma acusao de negligenciar o dever -, se se permitiu ser levado por consideraes outras 
alm daquelas que lhe foram prescritas. O insolvel conflito entre os direitos de humanidade, que normalmente pesam para um mdico de maneira decisiva, e as exigncias 
de uma guerra nacional estavam fadados a confundir a sua atividade.
         Ademais, os resultados do tratamento por forte corrente eltrica, que foram brilhantes no comeo, acabaram por mostrar-se, mais tarde, pouco duradouros. 
Um paciente que, tendo tido a sade restaurada por meio desse tratamento, fosse mandado de volta  frente de combate, podia repetir tudo outra vez e ter uma recada, 
por meio da qual pelo menos ganhava tempo e escapava do perigo que, no momento, era o imediato. Se se encontrava uma vez mais sob fogo, seu medo da corrente eltrica 
regredia, tal como, durante o tratamento, o medo do servio ativo desaparecera. Tambm, no decorrer dos anos de guerra, fez-se sentir cada vez mais no esprito popular 
uma crescente fadiga e uma crescente averso  luta, de modo que o tratamento que descrevi comeou a fracassar em seus efeitos. Nessas circunstncias, alguns dos 
mdicos do exrcito cederam  inclinao, caracterstica dos alemes, de levar a cabo as suas intenes sem considerar o resto - o que jamais devia ter acontecido. 
A intensidade da corrente eltrica, bem como a severidade do resto do tratamento, foi aumentada a um ponto insuportvel, com o objetivo de privar os neurticos de 
guerra da vantagem que obtinham com a sua doena. Jamais foi desmentido o fato de que nos hospitais alemes houve mortes nessa poca, durante o tratamento, e suicdios 
em conseqncia dele. Sou incapaz de dizer, no entanto, se tambm as Clnicas de Viena atravessaram essa fase de terapia.
         Estou em condies de apresentar prova conclusiva do colapso final do tratamento eltrico para as neuroses de guerra. Em 1918, o Dr. Ernst Simmel, diretor 
de um hospital de neurticos de guerra em Posen, publicou um opsculo em que relatava os resultados extraordinariamente favorveis conseguidos em casos graves de 
neurose de guerra pelo mtodo psicoteraputico que introduzi. Em conseqncia dessa publicao, ao congresso psicanaltico seguinte, realizado em Budapest em setembro 
de 1918, compareceram delegados oficiais do comando militar alemo, austraco e hngaro, os quais prometeram que seriam estabelecidos centros para tratamento inteiramente 
psicolgico das neuroses de guerra. A promessa foi feita, embora no pudesse haver ainda qualquer dvida, entre os delegados, de que, com esse tipo de tratamento 
ponderado, laborioso e tedioso, era impossvel contar com a pronta restaurao dos pacientes para o servio ativo. Os preparativos para o estabelecimento de centros 
desse gnero estavam, de fato, sendo providenciados, quando irrompeu a revoluo e ps fim  guerra e  influncia dos rgos administrativos que haviam sido at 
ento todo-poderosos. Mas, com o fim da guerra, tambm os neurticos de guerra desapareceram - prova final mais impressiva das causas psquicas das enfermidades.
         Viena, 23.2.20.
         
         
         
         


























O 'ESTRANHO' (1919)
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         DAS UNHEIMLICHE
         
         (a)EDIES ALEMS:
         1919 Imago, 5 (5-6), 297-324.
         1922 S.K.S.N., 5, 229-73.
         1924 G.S., 10, 369-408.
         1924 Dichtung und Kunst, 99-138.
         1947 G.W., 12, 229-68.
         
         (b)TRADUO INGLESA:
         
                 'The "Uncanny"'
         
         1925 C.P., 4, 368-407. (Trad. de Alix Strachey.)
         
         A presente traduo inglesa  verso consideravelmente modificada da publicada em 1925.
         
         Este artigo, publicado no outono de 1919,  mencionado por Freud numa carta a Ferenczi de 12 de maio do mesmo ano, na qual diz que desenterrou um velho 
texto de uma gaveta e o est reescrevendo. No se sabe quando foi originalmente escrito e o quanto mudou, embora a nota citada de Totem e Tabu, na pg. 300, adiante, 
mostre que o tema j estava presente em sua mente em 1913. As passagens ligadas a 'compulso  repetio' (ver em [1] e segs.) devem, de qualquer maneira, fazer 
parte da reviso. Esses trechos incluem um resumo de boa parte do contedo de Alm do Princpio de Prazer (1920g) e falam deste como 'j concludo'. A mesma carta 
a Ferenczi, de 12 de maio de 1919, anunciava que um rascunho desse ltimo trabalho estava terminado, ainda que, de fato, o livro s tivesse sido publicado um ano 
mais tarde. Mais detalhes sero encontrados na Nota do Editor Ingls a Alm do Princpio de Prazer, Edio Standard  Brasileira, Vol. XVIII, pg. 13, IMAGO Editora, 
1976.
         A primeira seo do presente artigo, com a sua extensa citao de um dicionrio alemo, apresenta especiais dificuldades para o tradutor. Espera-se que 
os leitores no se deixem desencorajar por esse obstculo preliminar, pois o artigo est cheio de material importante e interessante e vai muito alm dos tpicos 
simplesmente lingsticos.
         O ESTRANHO
         
                                                 I
         
         S raramente um psicanalista se sente impelido a pesquisar o tema da esttica, mesmo quando por esttica se entende no simplesmente a teoria da beleza, 
mas a teoria das qualidades do sentir. O analista opera em outras camadas da vida mental e pouco tem a ver com os impulsos emocionais dominados, os quais, inibidos 
em seus objetivos e dependentes de uma hoste de fatores simultneos, fornecem habitualmente o material para o estudo da esttica. Mas acontece ocasionalmente que 
ele tem de interessar-se por algum ramo particular daquele assunto; e esse ramo geralmente revela-se um campo bastante remoto, negligenciado na literatura especializada 
da esttica.
         O tema do 'estranho'  um ramo desse tipo. Relaciona-se indubitavelmente com o que  assustador - com o que provoca medo e horror; certamente, tambm, a 
palavra nem sempre  usada num sentido claramente definvel, de modo que tende a coincidir com aquilo que desperta o medo em geral. Ainda assim, podemos esperar 
que esteja presente um ncleo especial de sensibilidade que justificou o uso de um termo conceitual peculiar. Fica-se curioso para saber que ncleo comum  esse 
que nos permite distinguir como 'estranhas' determinadas coisas que esto dentro do campo do que  amedrontador.
         Nada em absoluto encontra-se a respeito deste assunto em extensos tratados de esttica, que em geral preferem preocupar-se com o que  belo, atraente e 
sublime - isto , com sentimentos de natureza positiva - e com as circunstncias e os objetivos que os trazem  tona, mais do que com os sentimentos opostos, de 
repulsa e aflio. Conheo apenas uma tentativa na literatura mdico-psicolgica, um artigo frtil, mas no exaustivo, de Jentsch (1906). Mas devo confessar que 
no fiz um exame muito completo da literatura relacionada com esta minha modesta contribuio, particularmente da literatura estrangeira, por razes que, como pode 
ser facilmente adivinhado, esto nos tempos em que vivemos; de forma que meu artigo  apresentado ao leitor sem qualquer pretenso de prioridade.
         Em seu estudo do 'estranho', Jentsch destaca com muita razo o obstculo apresentado pelo fato de que as pessoas variam muito na sua sensibilidade a essa 
categoria de sentimento. De fato, o prprio autor da presente contribuio deve declarar-se culpado de particular obtusidade na matria, onde a extrema delicadeza 
de percepo seria mais adequada. H muito tempo que no experimenta ou sabe de algo que lhe tenha dado uma impresso estranha, e deve comear por transpor-se para 
esse estado de sensibilidade, despertando em si a possibilidade de experiment-lo. Todavia, tais dificuldades fazem-se sentir poderosamente em muitos outros ramos 
da esttica; no precisamos, por causa disso, desanimar de encontrar exemplos nos quais a qualidade em questo ser reconhecida sem hesitaes pela maioria das pessoas.
         De incio, abrem-se-nos dois rumos. Podemos descobrir que significado veio a ligar-se  palavra 'estranho' no decorrer da sua histria; ou podemos reunir 
todas aquelas propriedades de pessoas, coisas, impresses sensrias, experincias e situaes que despertam em ns o sentimento de estranheza, e inferir, ento, 
a natureza desconhecida do estranho a partir de tudo o que esses exemplos tm em comum. Direi, de imediato, que ambos os rumos conduzem ao mesmo resultado: o estranho 
 aquela categoria do assustador que remete ao que  conhecido, de velho, e h muito familiar. Como isso  possvel, em que circunstncias o familiar pode tornar-se 
estranho e assustador,  o que mostrarei no que se segue. Acrescente-se tambm que minha investigao comeou realmente ao coligir uma srie de casos individuais, 
e s foi confirmada mais tarde por um exame do uso lingstico. Na exposio que farei, contudo, seguirei o curso inverso.
         A palavra alem 'unheimlich'  obviamente o oposto de 'heimlich' ['domstica'], 'heimisch' ['nativo'] - o oposto do que  familiar; e somos tentados a concluir 
que aquilo que  'estranho'  assustador precisamente porque no  conhecido e familiar. Naturalmente, contudo, nem tudo o que  novo e no familiar  assustador; 
a relao no pode ser invertida. S podemos dizer que aquilo que  novo pode tornar-se facilmente assustador e estranho; algumas novidades so assustadoras, mas 
de modo algum todas elas. Algo tem de ser acrescentado ao que  novo e no familiar, para torn-lo estranho.
         De um modo geral, Jentsch no foi alm dessa relao do estranho com o novo e no familiar. Ele atribui o fator essencial na origem do sentimento de estranheza 
 incerteza intelectual; de maneira que o estranho seria sempre algo que no se sabe como abordar. Quanto mais orientada a pessoa est, no seu ambiente, menos prontamente 
ter a impresso de algo estranho em relao aos objetos e eventos nesse ambiente.
         No  difcil verificar que essa definio est incompleta e, portanto, tentaremos operar para alm da equao 'estranho' = 'no familiar'. Em primeiro 
lugar, voltar-nos-emos para outras lnguas. Mas os dicionrios que consultamos nada de novo nos dizem, talvez apenas porque ns prprios falamos uma lngua que  
estrangeira. De fato, temos a impresso de que muitas lnguas no tm palavra para essa particular nuana do que  assustador.
         Gostaria de expressar a minha gratido ao Dr. Theodor Reik pelos seguintes excertos:
         LATIM: (K.E. Georges, Deutschlateinisches Worterbuch, 1898). Um lugar estranho: locus suspectus; numa estranha hora da noite: intempesta nocte.
         GREGO: (Lxicos de Rost e de Schenkl). ????? (isto , estranho, estrangeiro).
         INGLS: (dos dicionrios de Lucas, Bellows, Flgel e Muret-Sanders). Uncomfortable, uneasy, gloomy, dismal, uncanny, ghastly; (of a house) haunted; (of 
a man) a repulsive fellow.
         FRANCS: (Sachs-Villatte). Inquitant, sinistre, lugubre, mal  son aise.
         ESPANHOL: (Tollhausen, 1889). Sospechoso, de mal agero, lgubre, siniestro.
         As lnguas italiana e portuguesa parecem contentar-se com palavras que descreveramos como circunlocues. Em rabe e hebreu 'estranho' significa o mesmo 
que 'demonaco', 'horrvel'.
         Voltemos, portanto, ao alemo. No Wortebuch der Deutschen Sprache (1860, 1, 729), de Daniel Sanders, a seguinte entrada, que reproduzimos integralmente 
aqui, encontra-se sob a palavra 'heimlich'. Destaquei com itlicos uma ou duas passagens.
         Heimlich, adj., subst. Heimlichkeit (pl. Heimlichkeiten): I. Tambm heimelich, heimelig, pertencente  casa, no estranho, familiar, domstico, ntimo, 
amistoso etc.
         (a) (Obsoleto) pertencente  casa ou  famlia, ou considerado como pertencente (cf. latim familiaris, familiar): Die Heimlichen, os membros do lar; Der 
heimliche Rat (Gen. xli, 45; 2 Sam. xxiii. 23; 1 Chron. xii. 25; Wisd. viii. 4), hoje mais habitualmente Geheimer Rat [Conselheiro Privado].
         (b) De animais: domesticado, capaz de fazer companhia ao homem. Em oposio a selvagem, e.g. 'Animais que no so selvagens nem heimlich' etc. 'Animais 
selvagens... que so educados para serem heimlich e acostumados ao homem.' 'Se essas jovens criaturas so criadas desde os primeiros dias entre os homens, tornam-se 
bastante heimlich, amistosas' etc. - Assim tambm: '(O cordeiro)  to heimlich e come da minha mo.' 'No obstante, a cegonha  um belo heimelich pssaro.'
         (c) ntimo, amigavelmente confortvel; o desfrutar de um contentamento tranqilo etc., despertando uma sensao de repouso agradvel e de segurana, como 
a de algum entre as quatro paredes da sua casa. 'Ainda  heimlich para voc o seu pas, onde estranhos esto abatendo os seus bosques?' 'Ela no se sentia muito 
heimlich com ele.' 'Ao longo de uma alta, heimlich, sombreada vereda..., junto a um sussurrante, sentimental e balbuciante riacho silvestre.' 'Destruir a Heimlichkeit 
do lar.' 'No conseguia encontrar prontamente outro lugar to ntimo e heimlich como este.' 'Ns o visualizamos to confortvel, to encantador, to aconchegante 
e heimlich.' 'Em tranqila Heimlichkeit, cercada por estreitas paredes.' 'Uma dona de casa cuidadosa, que sabe como fazer uma agradvel Heimlichkeit (Huslichkeit 
[domesticidade]) com os mais escassos meios.' 'O homem que at recentemente fora to estranho a ele, parecia-lhe agora muito mais heimlich.' 'Os proprietrios de 
terra protestantes no se sentem ... heimlich entre os seus subordinados catlicos.' 'Quando tudo fica calmo e heimlich, e s a quietude vespertina espreita a tua 
cela.' 'Tranqilo, encantador e heimlich, nenhum outro lugar mais adequado para o repouso deles.' 'No se sentia absolutamente heimlich quanto a isso.' - Tambm 
[em compostos] 'O lugar era to sereno, to isolado, to sombreadamente-heimlich.' 'Os fluxos e influxos da corrente, sonhadores e embaladores-heimlich' Cf. em particular 
Unheimlich [ver adiante]. Entre os autores suos da Subia, particularmente, com freqncia como trisslabo: 'Como uma tarde parecia outra vez heimelich a Ivo, 
quando estava em casa.' 'Estava to heimelig na casa.' 'A sala clida e a tarde heimelig.' 'Quando um homem sente, de corao, que  to pequeno, e to grande o 
Senhor - isto  que  verdadeiramente heimelig.' 'Pouco a pouco sentiram-se  vontade e heimelig entre si.' 'Amvel Heimeligkeit.'. 'Em nenhum outro lugar estaria 
to heimelig como estou aqui.' 'Aquele que vem de longe... certamente no vive muito heimelig (heimatlich [em casa], freundnachbarlich [de modo amistoso, em boa 
vizinhana]) entre as pessoas.' 'A cabana onde antes repousara tantas vezes entre os seus, to heimelig, to feliz.' 'A corneta do sentinela soa to heimelig da 
torre, e a sua voz convida com tanta hospitalidade.' 'Voc vai dormir ali, to macio e clido, to maravilhosamente heim'lig.' - Esta forma de palavra merece tornar-se 
geral, de modo a evitar que este sentido perfeitamente bom do vocbulo se torne obsoleto, atravs de uma fcil confuso com II [ver adiante]. Cf:'"Os Zecks [nome 
de famlia] so todos 'heimlich'." (no sentido II) "'Heimlich'? O que voc entende por 'heimlich'?" "Bem,... so como uma fonte enterrada ou um aude seco. No se 
pode passar por ali sem ter sempre a sensao de que a gua vai brotar de novo." "Oh, ns chamamos a isso 'unheimlich'; vocs chamam 'heimlich'. Bem, o que faz voc 
pensar que h algo secreto e suspeitoso acerca dessa famlia?"' (Gutzkow).
         (d) Particularmente na Silsia: alegre, disposto; tambm em relao ao tempo (clima).
         II. Escondido, oculto da vista, de modo que os outros no consigam saber, sonegado aos outros. Fazer alguma coisa heimlich, isto , por trs das costas 
de algum; roubar heimlich; reunies e encontros heimlich; olhar com prazer heimlich a derrota de algum; suspirar ou lastimar-se heimlich; comportar-se heimlich, 
como se houvesse algo a esconder; caso de amor, amor, pecado heimlich; lugares heimlich (que as boas maneiras nos obrigam a esconder) (1 Sam. v. 6). 'A cmara heimlich' 
(privada) (2 Reis x. 27). Tambm, 'a cadeira heimlich'. 'Lanar ao poo ou Heimlichkeiten'. - 'Conduzidos os cavalos heimlich adiante de Laomedon.' - 'To reticente, 
heimlich enganoso e malicioso para com os cruis senhores... como franco, aberto, simptico e solcito para com um amigo na desgraa.' 'Voc ainda tem que aprender 
o que  mais heimlich segredado para mim.' 'A arte heimlich'(mgica). 'Onde a divulgao pblica tem que parar, comeam as maquinaes heimlich.' 'A liberdade  
o lema sussurrado de conspiradores heimlich e o grito de batalha de revolucionrios declarados.' 'Um efeito santo, heimlich.' 'Minhas brincadeiras heimlich.' 'Se 
no lho do aberta e escrupulosamente, ele pode apanh-lo heimlich e inescrupulosamente.' 'Ele tinha telescpios acromticos construdos heimlich e secretamente.' 
'Daqui por diante, desejo que no mais haja nada heimlich entre ns.' - Descobrir, revelar, trair as Heimlichkeiten de algum; 'tramar Hiemlichkeiten por trs de 
minhas costas'. 'Na minha poca estudamos Heimlichkeiten.' 'A mo da compreenso pode anular sozinha o feitio impotente de Heimlichkeiten (de ouro escondido).' 
'Diga, onde  o lugar de encobrimento... em que lugar de oculta Heimlichkeit?' 'Abelhas, que fazem o fecho de Heimlichkeiten' (isto , o lacre). 'Aprendido em estranhas 
Heimlichkeiten' (isto , o lacre). 'Aprendido em estranhas Heimlichkeiten' (artes mgicas).
         Para compostos, ver acima, Ic. Note-se particularmente o negativo 'un': misterioso, sobrenatural, que desperta horrvel temor: 'Parecendo-lhe bastante unheimlich 
e fantstico.' 'As horas unheimlich e temveis da noite.' 'J sentira desde h muito uma sensao hunheimlic e at mesmo horrvel.' 'Agora estou comeando a ter 
um sentimento unheimlich.' ...'Sente um horror unheimlich'. 'Unheimlich e imvel como uma imagem de pedra.' 'Uma nvoa unheimlich chamada nevoeiro da colina.' 'Esses 
jovens plidos so unheimlich e esto tramando Deus sabe que desordem.' '"Unheimlich"  o nome de tudo que deveria ter permanecido... secreto e oculto mas veio  
luz' (Schelling). - 'Encobrir o divino, cerc-lo de uma certa Unheimlichkeit.' - Unheimlich poucas vezes  usado como oposto ao significado II (acima).
         O que mais nos interessa nesse longo excerto  descobrir que entre os seus diferentes matizes de significado a palavra 'heimlich' exibe um que  idntico 
ao seu oposto, 'unheimlich'. Assim, o que  heimlich vem a ser unheimlich. (Cf. a citao de Gutzkow: 'Ns os chamamos 'unheimlich"; vocs o chamam "heimlich".') 
Em geral, somos lembrados de que a palavra 'heimlich' no deixa de ser ambgua, mas pertence a dois conjuntos de idias que, sem serem contraditrias, ainda assim 
so muito diferentes: por um lado significa o que  familiar e agradvel e, por outro, o que est oculto e se mantm fora da vista. 'Unheimlich'  habitualmente 
usado, conforme aprendemos, apenas como o contrrio do primeiro significado de 'heimlich', e no do segundo. Sanders nada nos diz acerca de uma possvel conexo 
gentica entre esses dois significados de'heimlich'. Por outro lado, percebemos que Schelling diz algo que d um novo esclarecimento ao conceito do Unheimlich, para 
o qual certamente no estvamos preparados. Segundo Schelling, unheimlich  tudo o que deveria ter permanecido secreto e oculto mas veio  luz.
         Algumas dvidas que, desse modo, surgiram, so afastadas se consul-tamos o dicionrio de Grimm. (1877, 4, Parte 2, 873 e segs.)
         Lemos:
         Heimlich; adj. e adv. vernaculus, occultus; MAA. heimelh, heimlch.
         (P. 874.) Em sentido ligeiramente diferente: 'Sinto-me heimlich bem, liberto do medo.'...
         [3] (b) Heimlich tambm se diz de um lugar livre da influncia de fantasmas... familiar, amistoso, ntimo.
         (P. 875: ?) Familiar, amigvel, franco.
         4.Da idia de 'familiar', pertencente  casa', desenvolve-se outra idia de algo afastado dos olhos de estranhos, algo escondido, secreto; e essa idia 
expande-se de muitos modos...
         (P. 876.) 'Na margem esquerda do lago jaz uma campina heimlich na floresta.' (Schiller, Wilhelm Tell, I.4.)... Licena potica, assim raramente usada no 
discurso moderno... Heimlich  usado em conjuno com um verbo que expressa o ato de ocultar: 'No segredo do seu tabernculo ele esconder-me- heimlich.' (Ps. xxvii. 
5.) ... As partes heimlich do corpo humano, pudenda... 'os homens que no morreram foram feridos nas suas partes heimlich.' (1 Samuel v. 12.)...
         (c) Funcionrios que do importantes conselhos, que tm que ser mantidos em segredo, em questes de Estado, so chamados conselheiros heimlich; o adjetivo, 
de acordo com o uso moderno, foi substitudo por geheim [secreto]... 'Fara chamou o nome de Jos "ele, a quem os segredos so revelados"' (conselheiro heimlich). 
(Gen. xli. 45.)
         (P. 878.) 6. Heimlich, como se diz do conhecimento - mstico, alegrico: um significado heimlich, mysticus, divinus, occultus, figuratus.
         (P. 878.) Heimlich num sentido diferente, como afastado do conhecimento, inconsciente... Heimlich tem tambm o significado daquilo que  obscuro, inacessvel 
ao conhecimento... 'Voc no v? Eles no confiam em ns; eles temem a face heimlich do Duque de Friedland.' (Schiller, Wallensteins Lager, Cena 2.)
         9.A noo de algo oculto e perigoso, que se expressa no ltimo pargrafo, desenvolve-se mais ainda, de modo que 'heimlich'. Assim: 's vezes sinto-me como 
um homem que caminha pela noite e acredita em fantasmas; cada esquina para ele  heimlich e cheia de terrores.' (Klinger, Theater, 3. 298.)
         Dessa forma, heimlich  uma palavra cujo significado se desenvolve na direo da ambivalncia, at que finalmente coincide com o seu oposto, unheimlich. 
Unheimlich , de um modo ou de outro, uma subespcie de heimlich. Tenhamos em mente essa descoberta, embora no possamos ainda compreend-la corretamente, lado a 
lado com a definio de Schelling do Unheimlich. Se continuarmos a examinar exemplos individuais de estranheza, essas sugestes tornar-se-o inteligveis a ns.
         
                                                 II
         
         Quando passamos a rever as coisas, pessoas, impresses, eventos e situaes que conseguem despertar em ns um sentimento de estranheza, de forma particularmente 
poderosa e definida, a primeira condio essencial  obviamente selecionar um exemplo adequado para comear. Jentsch tomou como timo exemplo 'dvidas quanto a saber 
se um ser aparentemente animado est realmente vivo; ou, do modo inverso, se um objeto sem vida no pode ser na verdade animado'; e ele refere-se, a esse respeito, 
 impresso causada por figuras de cera, bonecos e autmatos engenhosamente construdos. A estes acrescenta o estranho efeito dos acessos epilticos e das manifestaes 
de insanidade, porque excitam no espectador a impresso de processos automticos e mecnicos, operando por trs da aparncia comum de atividade mental. Sem aceitar 
inteiramente esse ponto de vista do autor, tom-lo-emos como ponto de partida para as nossas prprias investigaes, porque no que se segue ele nos lembra um escritor 
que, mais do que qualquer outro, teve xito na criao de efeitos estranhos.
         Escreve Jentsch: 'Ao contar uma histria, um dos recursos mais bem-sucedidos para criar facilmente efeitos de estranheza  deixar o leitor na incerteza 
de que uma determinada figura na histria  um ser humano ou um autmato, e faz-lo de tal modo que a sua ateno no se concentre diretamente nessa incerteza, de 
maneira que no possa ser levado a penetrar no assunto e esclarec-lo imediatamente. Isto, como afirmamos, dissiparia rapidamente o peculiar efeito emocional da 
coisa. E.T.A. Hoffmann empregou repetidas vezes, com xito, esse artifcio psicolgico nas suas narrativas fantsticas.'
         Essa observao, indubitavelmente correta, refere-se principalmente  histria de 'O Homem da Areia', em Nachtstcke, de Hoffmann, que contm o original 
de Olmpia, a boneca que aparece no primeiro ato da pera de Offenbach, Contos de Hoffmann. Mas no posso achar - e espero que a maioria dos leitores da histria 
concorde comigo - que o tema da boneca Olmpia, que  em todos os aspectos um ser humano, seja de alguma forma o nico elemento, ou de fato o mais importante, a 
que se deva atribuir a inigualvel atmosfera de estranheza evocada pela histria. Nem essa atmosfera  elevada pelo fato de que o prprio autor trata o episdio 
de Olmpia com um leve toque de stira e o usa para ridicularizar a idealizao que a jovem faz da sua amante. O tema principal da histria , pelo contrrio, algo 
diferente, algo que lhe d o nome e que  sempre reintroduzido nos momentos crticos:  o tema do 'Homem da Areia', que arranca os olhos das crianas.
         Esse conto fantstico principia com as recordaes de infncia do estudante Nataniel. A despeito da sua felicidade presente, no pode banir as lembranas 
ligadas  morte misteriosa e apavorante do seu amado pai. Em certas noites, sua me costumava mandar as crianas cedo para a cama, prevenindo-as de que 'o Homem 
da Areia estava chegando'; e, por certo, Nataniel no deixaria de ouvir os pesados passos de um visitante, com o qual o pai estaria ocupado toda a noite. Quando 
indagada acerca do Homem da Areia, a sua me na verdade negava que tal pessoa existisse, exceto como figura de linguagem; a bab, porm, podia dar-lhe uma informao 
mais precisa: ' um homem perverso que chega quando as crianas no vo para a cama, e joga punhados de areia nos olhos delas, de modo que estes saltam sangrando 
da cabea. Ele coloca ento os olhos num saco e os leva para a meia-lua, para alimentar os seus filhos. Eles esto acomodados l em cima, no ninho, e seus bicos 
so curvos como bicos de coruja, e eles os usam para mordiscar os olhos dos meninos e das meninas desobedientes.'
         Embora o pequeno Nataniel fosse sensvel e tivesse idade bastante para no dar crdito  figura do Homem da Areia com tais horrveis atributos, ainda assim 
o medo fixou-se no seu corao. Determinou-se a descobrir que aparncia tinha o Homem da Areia; e uma noite, quando o Homem da Areia era outra vez esperado, ele 
escondeu-se no escritrio do pai. Reconheceu o visitante como sendo o advogado Coplio, uma pessoa repulsiva que amedrontava as crianas quando, ocasionalmente, 
aparecia para jantar; e ele agora identificava esse Coplio com o temido Homem da Areia. No que diz respeito ao resto da cena, Hoffmann j nos deixa em dvida se 
o que estamos testemunhando  o primeiro delrio do apavorado menino, ou uma sucesso de acontecimentos que devem ser considerados, na histria, como sendo reais. 
O pai e o convidado esto trabalhando num braseiro incandescente. O pequeno intrometido ouve Coplio invocar: 'Aqui os olhos! Aqui os olhos!', e trai-se ao soltar 
um alto grito. Coplio apanha-o e est prestes a lanar brasas tiradas do fogo em seus olhos, jogando estes depois no braseiro, mas o pai lhe implora que solte o 
menino e salva-lhe os olhos. Depois disso, o rapaz cai em profundo desfalecimento; e uma longa enfermidade pe fim  sua experincia. Aqueles que optam pela interpretao 
racionalista do Homem da Areia no deixam de reconhecer, na fantasia do menino, a persistente influncia da histria contada pela bab. Os punhados de areia que 
deveriam ser jogados aos olhos da criana, transformam-se em pedaos de carvo em brasa, tirados das chamas; e em ambos os casos destinam-se a fazer com que os seus 
olhos pulem para fora. No decorrer de uma outra visita do Homem da Areia, um ano depois, o pai  morto no escritrio por uma exploso. O advogado Coplio desaparece 
do lugar sem deixar qualquer vestgio atrs de si.
         Nataniel, agora um estudante, cr ter reconhecido esse fantasma de horror da sua infncia num oculista itinerante, um italiano chamado Giuseppe Coppola, 
que na cidade universitria, se oferece para vender-lhe barmetros. Quando Nataniel recusa, o homem prossegue: 'No quer barmetros? No quer barmetros? Tenho tambm 
timos olhos, timos olhos!' O terror do estudante atenua-se quando descobre que os olhos oferecidos so apenas inofensivos culos, e compra um pequeno telescpio 
de Coppola. Com a ajuda do instrumento ele observa a casa em frente, do professor Spalanzani, e ali espia a bela mas estranhamente silenciosa e imvel filha de Spalanzani, 
Olmpia. Logo se apaixona por ela to violentamente que, por sua causa, esquece a moa talentosa e sensvel de quem est noivo. Mas Olmpia  um autmato, cujo mecanismo 
foi feito por Spalanzani e cujos olhos foram colocados por Coppola, o Homem da Areia. O estudante surpreende os dois Mestres discutindo quanto ao seu trabalho manual. 
O oculista leva embora a boneca de madeira, sem os olhos; e o mecnico, Spalanzani, apanha no cho os olhos sangrentos de Olmpia e os arremessa ao peito de Nataniel, 
dizendo que Coppola os havia roubado do estudante. Nataniel sucumbe a um novo ataque de loucura e, no seu delrio, a recordao da morte do pai mistura-se a essa 
nova experincia. 'Apressa-te! Apressa-te! anel de fogo!' grita ele. 'Gira, anel de fogo - Hurrah! Apressa-te, boneca de pau! Linda boneca de pau, gira -.' Cai ento 
sobre o professor, o 'pai' de Olmpia, e tenta estrangul-lo.
         Reanimando-se de uma longa e grave enfermidade, Nataniel parece, por fim, estar recuperado. Pretende casar-se com a sua noiva, com a qual se reconciliou. 
Um dia estavam ele e ela passeando pelo mercado da cidade, sobre o qual a alta torre da prefeitura lana a sua enorme sombra. Por sugesto da moa, sobem  torre, 
deixando em baixo o irmo dela, que caminhava com eles. Do alto, a ateno de Clara  atrada para um curioso objeto que se move ao longo da rua. Nataniel observa 
essa coisa atravs do telescpio de Coppola e cai num novo ataque de loucura. Gritando 'Gira, boneca de pau!', tenta jogar a garota da torre. O irmo da moa, levado 
pelos gritos desta, salva-a e apressa-se em descer com ela em segurana. L em cima, na torre, o louco corre em crculos berrando 'Gira, anel de fogo!' - e ns sabemos 
a origem das palavras. Entre as pessoas que comearam a se juntar em baixo, destaca-se a figura do advogado Coplio, que voltou de repente. Podemos supor que foi 
a sua aproximao, vista atravs do telescpio, que lanou Nataniel ao seu acesso de loucura. Enquanto as pessoas que observam a cena se preparam para subir e dominar 
o louco, Coplio ri e diz: 'Esperem um pouco; ele vai descer por si prprio.' Subitamente Nataniel fica imvel, avista Coplio e, com um grito selvagem de 'Sim! 
timos olhos - timos olhos!', lana-se por sobre o parapeito. Seu corpo jaz nas pedras da rua com o crnio despedaado, enquanto o Homem da Areia desaparece na 
multido.
         Esse breve sumrio no deixa dvidas, acho eu, de que o sentimento de algo estranho est ligado diretamente  figura do Homem da Areia, isto ,  idia 
de ter os olhos roubados, e que o ponto de vista de Jentsch, de uma incerteza intelectual, nada tem a ver com o efeito. A incerteza quanto a um objeto ser vivo ou 
inanimado, que reconhecidamente se aplica  boneca Olmpia,  algo irrelevante em relao a esse outro exemplo, mais chocante, de estranheza.  verdade que o escritor 
cria uma espcie de incerteza em ns, a princpio, no nos deixando saber, sem dvida propositalmente, se nos est conduzindo pelo mundo real ou por um mundo puramente 
fantstico, de sua prpria criao. Ele tem, de certo, o direito de fazer ambas as coisas; e se escolhe como palco da sua ao um mundo povoado de espritos, demnios 
e fantasmas, como Shakespeare em Hamlet, em Macbeth e, em sentido diferente, em A Tempestade e Sonho de uma Noite de Vero, devemo-nos curvar  sua deciso e considerar 
o cenrio como sendo real, pelo tempo em que nos colocamos nas suas mos. Essa incerteza, porm, desaparece no decorrer da histria de Hoffmann, e percebemos que 
pretende, tambm, fazer-nos olhar atravs dos culos ou do telescpio do demonaco oculista - talvez, na verdade, o prprio autor em pessoa tenha feito observaes 
atentas atravs de tal instrumento. A concluso da histria deixa bastante claro que Coppola, o oculista,  realmente o advogado Coplio e tambm, portanto, o Homem 
da Areia.
         No se trata aqui, portanto, de uma questo de incerteza intelectual: sabemos agora que no devemos estar observando o produto da imaginao de um louco, 
por trs da qual ns, com a superioridade das mentes racionais, estamos aptos a detectar a sensata verdade; e, ainda assim, esse conhecimento no diminui em nada 
a impresso de estranheza. A teoria da incerteza intelectual , assim, incapaz de explicar aquela impresso.
         Sabemos, no entanto, pela experincia psicanaltica, que o medo de ferir ou perder os olhos  um dos mais terrveis temores das crianas. Muitos adultos 
conservam uma apreenso nesse aspecto, e nenhum outro dano fsico  mais temido por esses adultos do que um ferimento nos olhos. Estamos acostumados, tambm, a dizer 
que estimamos uma coisa como a menina dos olhos. O estudo dos sonhos, das fantasias e dos mitos ensinou-nos que a ansiedade em relao aos prprios olhos, o medo 
de ficar cego,  muitas vezes um substituto do temor de ser castrado. O autocegamento do criminoso mtico, dipo, era simplesmente uma forma atenuada do castigo 
da castrao - o nico castigo que era adequado a ele pela lex tallionis. Podemos tentar, com fundamento racionalista, negar que os temores em relao aos olhos 
derivem do medo da castrao, e argumentar que  muito natural que um rgo to preciso como o olho deva ser guardado por um medo proporcional. Na verdade, podemos 
ir mais alm e dizer que o prprio medo da castrao no contm outro significado, nem outro segredo mais profundo, do que um justificvel medo de natureza racional. 
Esse ponto de vista, porm, no considera adequadamente a relao substitutiva entre o olho e o rgo masculino, que se verifica existir nos sonhos, mitos e fantasias; 
nem dissipa a impresso de que a ameaa de ser castrado excita de modo especial uma emoo particularmente violenta e obscura, e que  essa emoo que d, antes 
de mais nada, intenso colorido  idia de perder outros rgos. Todas as demais dvidas so afastadas quando sabemos, pela anlise de pacientes neurticos, dos detalhes 
do seu 'complexo de castrao' e compreendemos a enorme importncia desse complexo na vida mental de tais pacientes.
         Ademais, eu no recomendaria a qualquer oponente da concepo psicanaltica que escolhesse particularmente essa histria do Homem da Areia, para apoiar 
o argumento de que a ansiedade em relao aos olhos nada tem a ver com o complexo de castrao. Por que razo, ento, colocou Hoffmann essa ansiedade em relao 
to ntima com a morte do pai? E por que o Homem da Areia aparece sempre como um perturbador do amor? Ele separa o infeliz Nataniel da sua noiva e do irmo desta, 
seu melhor amigo; ele destri o segundo objeto do seu amor, Olmpia, a linda boneca; e leva-o ao suicdio no momento em que recuperou a sua Clara e est prestes 
a unir-se venturosamente a ela. Na histria, elementos como estes e muitos outros parecem arbitrrios e sem sentido, na medida em que negamos toda ligao entre 
os medos relacionados com os olhos e com a castrao; mas tornam-se inteligveis to logo substitumos o Homem da Areia pelo pai temido, de cujas mos  esperada 
a castrao.Arriscar-nos-emos, portanto, a referir o estranho efeito do Homem da Areia  ansiedade pertencente ao complexo de castrao da infncia. Contudo, uma 
vez atingida a idia de que podemos tornar um fator infantil como este responsvel por sentimentos de estranheza, somo encorajados a verificar se podemos aplic-la 
a outros exemplos do estranho. Na histria do Homem da Areia, encontramos o outro tema destacado por Jentsch, de uma boneca que parece ter vida. Jentsch acredita 
que se cria uma condio particularmente favorvel para despertar sentimentos de estranheza, quando existe uma incerteza intelectual quanto a um objeto ter ou no 
vida, e quando um objeto inanimado se torna excessivamente parecido com um objeto animado. Ora, certamente as bonecas so intimamente ligadas com a vida infantil. 
Lembremo-nos de que, nos primeiros folguedos, de modo algum as crianas distinguem nitidamente objetos vivos de objetos inanimados, e gostam particularmente de tratar 
as suas bonecas como pessoas vivas. De fato, tenho ouvido ocasionalmente uma paciente declarar que, mesmo aos oito anos de idade, ainda estava convencida de que 
as suas bonecas certamente ganhariam vida se ela as olhasse de uma determinada forma, extremamente concentrada. De modo que, tambm aqui, no  difcil descobrir 
um fator da infncia. Curiosamente, porm, ainda que a histria do Homem da Areia aborde o despertar de um medo da primitiva infncia, a idia de uma 'boneca viva' 
no provoca absolutamente o medo; as crianas no temem que as suas bonecas adquiram vida, podem at desej-lo. A fonte de sentimentos de estranheza no seria, nesse 
caso, portanto, um medo infantil; mas, antes, seria um desejo ou at mesmo simplesmente uma crena infantil. Parece haver aqui uma contradio; porm, talvez seja 
apenas uma complicao, que nos pode ser til mais tarde.
         Hoffmann  o mestre incomparvel do estranho na literatura. Sua novela Die Elixire des Teufels [O Elixir do Diabo] contm toda uma srie de temas a que 
se  tentado a atribuir o efeito estranho da narrativa; mas  uma histria por demais obscura e intrincada para que nos aventuremos a um sumrio da mesma. J mais 
para o final do livro  que o leitor fica a saber dos fatos, que at ento lhe haviam sido ocultados, dos quais se origina a ao; com o resultado de que no fica, 
por fim, esclarecido, mas de que cai num estado de completa estupefao. O autor acumulou excessivo material da mesma espcie. Em conseqncia disso, a compreenso 
da histria como um todo sofre, ainda que no a impresso que provoca. Devemo-nos contentar em escolher aqueles temas de estranheza que se destacam mais, ao mesmo 
tempo em que verificamos se tambm podem ser facilmente atribudos a causas infantis. Todos esses temas dizem respeito ao fenmeno do 'duplo', que aparece em todas 
as formas e em todos os graus de desenvolvimento. Assim, temos personagens que devem ser considerados idnticos porque parecem semelhantes, iguais. Essa relao 
 acentuada por processos mentais que saltam de um para outro desses personagens - pelo que chamaramos telepatia -, de modo que um possui conhecimento, sentimento 
e experincia em comum com o outro. Ou  marcada pelo fato de que o sujeito identifica-se com outra pessoa, de tal forma que fica em dvida sobre quem  o seu eu 
(self), ou substitui o seu prprio eu (self) por um estranho. Em outras palavras, h uma duplicao, diviso e intercmbio do eu (self). E, finalmente, h o retorno 
constante da mesma coisa - a repetio dos mesmos aspectos, ou caractersticas, ou vicissitudes, dos mesmos crimes, ou at dos mesmos nomes, atravs das diversas 
geraes que se sucedem.
         O tema do 'duplo' foi abordado de forma muito completa por Otto Rank (1914). Ele penetrou nas ligaes que o 'duplo' tem com reflexos em espelhos, com sombras, 
com os espritos guardies, com a crena na alma e com o medo da morte; mas lana tambm um raio de luz sobre a surpreendente evoluo da idia. Originalmente, o 
'duplo' era uma segurana contra a destruio do ego, uma 'enrgica negao do poder da morte', como afirma Rank; e, provavelmente, a alma 'imortal' foi o primeiro 
'duplo' do corpo. Essa inveno do duplicar como defesa contra a extino tem sua contraparte na linguagem dos sonhos, que gosta de representar a castrao pela 
duplicao ou multiplicao de um smbolo genital. O mesmo desejo levou os antigos egpcios a desenvolverem a arte de fazer imagens do morto em materiais duradouros. 
Tais idias, no entanto, brotaram do solo do amor-prprio ilimitado, do narcisismo primrio que domina a mente da criana e do homem primitivo. Entretanto, quando 
essa etapa est superada, o 'duplo' inverte seu aspecto. Depois de haver sido uma garantia da imortalidade, transforma-se em estranho anunciador da morte. 
         A idia do 'duplo' no desaparece necessariamente ao passar o narcisismo primrio, pois pode receber novo significado dos estdios posteriores do desenvolvimento 
do ego. Forma-se ali, lentamente, uma atividade especial, que consegue resistir ao resto do ego, que tem a funo de observar e de criticar o eu (self) e de exercer 
uma censura dentro da mente, e da qual tomamos conhecimento como nossa 'conscincia'. No caso patolgico de delrios de observao, essa atividade mental torna-se 
isolada, dissociada do ego e discernvel ao olho do terapeuta. O fato de que existe uma atividade dessa natureza, que pode tratar o resto do ego como um objeto - 
isto , o fato de que o homem  capaz de auto-observao - torna possvel investir a velha idia de 'duplo' de um novo significado e atribuir-lhe uma srie de coisas 
- sobretudo aquelas coisas que, para a autocrtica, parecem pertencer ao antigo narcisismo superado dos primeiros anos.
         No , contudo, apenas esse ltimo material, ofensivo como  para a crtica do ego, que pode ser incorporado  idia de um duplo. H tambm todos os futuros, 
no cumpridos mas possveis, a que gostamos ainda de nos apegar, por fantasia; h todos os esforos do ego que circunstncias externas adversas aniquilaram e todos 
os nossos atos de vontade suprimidos, atos que nutrem em ns a iluso da Vontade Livre. [Cf. Freud, 1901b, Captulo XII (B).]
         Aps haver assim considerado a motivao manifesta da figura de um 'duplo', porm, temos que admitir que nada disso nos ajuda a compreender a sensao extraordinariamente 
intensa de algo estranho que permeia a concepo; e o nosso conhecimento dos processos mentais patolgicos permite-nos acrescentar que nada, nesse material mais 
superficial, podia ser levado em conta na nsia de defesa que levou o ego a projetar para fora aquele material, como algo estranho a si mesmo. Quando tudo est dito 
e feito, a qualidade de estranheza s pode advir do fato de o 'duplo' ser uma criao que data de um estdio mental muito primitivo, h muito superado - incidentalmente, 
um estdio em que o 'duplo' tinha um aspecto mais amistoso. O 'duplo' converteu-se num objeto de terror, tal como aps o colapso da religio, os deuses se transformam 
em demnios.
         As outras formas de perturbao do ego, exploradas por Hoffmann, podem ser facilmente avaliadas pelos mesmos parmetros do tema do 'duplo'. So elas um 
retorno a determinadas fases na elevao do sentimento de autoconsiderao, uma regresso a um perodo em que o ego no se distinguira ainda nitidamente do mundo 
externo e de outras pessoas. Acredito que esses fatores so em parte responsveis pela impresso de estranheza, embora no seja fcil isolar e determinar exatamente 
a sua participao nisso.
         O fator da repetio da mesma coisa no apelar, talvez, para todos como fonte de uma sensao estranha. Daquilo que tenho observado, esse fenmeno, sujeito 
a determinadas condies e combinado a determinadas circunstncias, provoca indubitavelmente uma sensao estranha, que, alm do mais, evoca a sensao de desamparo 
experimentada em alguns estados onricos. Em certa tarde quente de vero, caminhava eu pelas ruas desertas de uma cidade provinciana na Itlia, quando me encontrei 
num quarteiro sobre cujo carter no poderia ficar em dvida por muito tempo. S se viam mulheres pintadas nas janelas das pequenas casas, e apressei-me a deixar 
a estreita rua na esquina seguinte. Mas, depois de haver vagado algum tempo sem perguntar o meu caminho, encontrei-me subitamente de volta  mesma rua, onde a minha 
presena comeava agora a despertar ateno. Afastei-me apressadamente uma vez mais, apenas para chegar, por meio de outro dtour,  mesma rua pela terceira vez. 
Agora, no entanto, sobreveio-me uma sensao que s posso descrever como estranha, e alegrei-me bastante por encontrar-me de volta  piazza que deixara pouco antes, 
sem quaisquer outras viagens de descoberta. Outras situaes, que tm em comum com a minha aventura um retorno involuntrio da mesma situao, as quais, porm, dela 
diferem radicalmente em outros aspectos, resultam tambm na mesma sensao de desamparo e de estranheza. Assim, por exemplo, quando, surpreendido talvez por um nevoeiro, 
algum perde o caminho numa floresta da montanha, cada tentativa para encontrar o caminho marcado ou familiar pode levar a pessoa de volta, por muitas e muitas vezes, 
a um nico e mesmo ponto, que pode ser identificado por algum marco particular. Ou a pessoa pode vagar numa sala escura e desconhecida, procurando a porta ou o interruptor 
de luz, e esbarrar, vez aps vez, com a mesma pea de mobilirio - conquanto seja verdade que Mark Twain conseguiu, com extravagante exagero, transformar essa ltima 
situao em algo irresistivelmente cmico.
         Se tomamos outro tipo de coisas,  fcil verificar que tambm  apenas esse fator de repetio involuntria que cerca o que, de outra forma, seria bastante 
inocente, de uma atmosfera estranha, e que nos impe a idia de algo fatdico e inescapvel, quando, em caso contrrio, teramos apenas falado de 'sorte'. Naturalmente, 
por exemplo, no damos importncia ao fato quando entregamos um sobretudo e recebemos do guarda-roupa um tquete com o nmero, digamos, 62; ou quando descobrimos 
que a nossa cabine num navio tem esse nmero. Mas a impresso  alterada se dois eventos, cada qual independente em si, ocorrem prximos: se nos deparamos com o 
nmero 62 diversas vezes no mesmo dia, ou se comeamos a perceber que tudo o que tem nmero - endereos, quartos de hotel, compartimentos em trens - tem invariavelmente 
o mesmo, ou, em todo caso, um que contm os mesmos algarismos. Sentimos que isso  estranho. E, a no ser que o indivduo seja totalmente impermevel ao engodo da 
superstio, ficar tentado a atribuir um significado secreto a essa ocorrncia obstinada de um nmero; entende-lo- talvez como uma indicao do perodo de vida 
a ele designado. Ou suponha-se algum empenhado em ler as obras do famoso fisilogo Hering, e num espao de poucos dias recebe duas cartas, de dois diferentes pases, 
cada qual de uma pessoa chamada Hering, embora esse leitor de fisiologia jamais tenha tido contato com qualquer pessoa chamada Hering. No h muito tempo um inventivo 
cientista (Kammerer, 1919) tentou reduzir as coincidncias dessa espcie a determinadas leis, privando-as assim do seu estranho efeito. No vou arriscar-me a decidir 
se ele foi ou no bem-sucedido.
         O modo com que exatamente podemos atribuir  psicologia infantil o estranho efeito de semelhantes ocorrncias,  uma questo que posso tocar apenas tangencialmente 
nestas pginas; e devo referir ao leitor um outro trabalho, j concludo no qual o problema foi colocado em detalhes, mas numa relao diferente. Pois  possvel 
reconhecer, na mente inconsciente, a predominncia de uma 'compulso  repetio', procedente dos impulsos instintuais e provavelmente inerente  prpria natureza 
dos instintos - uma compulso poderosa o bastante para prevalecer sobre o princpio de prazer, emprestando a determinados aspectos da mente o seu carter demonaco, 
e ainda muito claramente expressa nos impulsos das crianas pequenas; uma compulso que  responsvel, tambm, por uma parte do rumo tomado pelas anlises de pacientes 
neurticos. Todas essas consideraes preparam-nos para a descoberta de que o que quer que nos lembre esta ntima 'compulso  repetio'  percebido como estranho.
         Agora, no entanto,  tempo de deixarmos esses aspectos do problema, que, em todo caso, so difceis de julgar, e procurarmos alguns exemplos inegveis do 
estranho, na esperana de que uma anlise destes decida se nossa hiptese  vlida.
         Na histria de 'O Anel de Polcrates', o rei do Egito afasta-se horrorizado do seu anfitrio, Polcrates, porque v que cada desejo do seu amigo  imediatamente 
satisfeito, cada cuidado seu prontamente anulado por um amvel destino. O anfitrio tornou-se 'estranho' para ele. A sua prpria explicao, de que tambm o homem 
feliz tem que temer a inveja dos deuses, parece-nos obscura; o seu significado est dissimulado em linguagem mitolgica. Voltar-nos-emos, portanto, para um outro 
exemplo, em cenrio menos grandioso. No caso clnico de um neurtico obsessivo, descrevi como o paciente ficou certa vez num estabelecimento para tratamento hidroptico 
e muito se beneficiou disso. Teve o bom senso, no entanto, de atribuir a sua melhora no s propriedades teraputicas da gua, mas  situao do seu quarto, que 
ficava exatamente ao lado do de uma enfermeira muito obsequiosa. Assim, na sua segunda visita ao estabelecimento, pediu o mesmo quarto, mas disseram-lhe que j estava 
ocupado por um senhor de idade, ao que ele deu vazo ao seu aborrecimento com as palavras: 'Quero que ele caia morto por causa disso.' Duas semanas depois o velho 
realmente teve um derrame. O meu paciente considerou o fato uma experincia 'estranha'. A impresso de estranheza teria sido ainda mais forte se menos tempo houvesse 
passado entre as duas palavras e o infeliz evento, ou se tivesse sido capaz de apresentar inumerveis coincidncias semelhantes. O fato  que no teve dificuldades 
para exibir coincidncias dessa espcie; mas, ento, no apenas ele, mas tambm todos os neurticos obsessivos que observei, conseguiram relatar experincias anlogas. 
Jamais se surpreendem quando invariavelmente se chocam com algum em quem justamente acabam de pensar, talvez pela primeira vez em muito tempo. Se dizem certo dia 
'H muito tempo que no tenho notcias de fulano', estaro certos de receber uma carta desse fulano na manh seguinte, e raramente ocorrer um acidente ou uma morte 
sem que isto lhes tenha passado pela cabea pouco antes. Tm o hbito de referir-se a esse estado de coisas da maneira mais modesta, dizendo que tm 'pressentimentos' 
que 'geralmente' se tornam realidade.
         Uma das mais estranhas e difundidas formas de superstio  o medo do mau-olhado, que foi exaustivamente estudado por um oculista de Hamburgo, Seligmann 
(1910-11). Parece jamais ter havido qualquer dvida quanto  origem desse medo. Quem quer que possua algo que seja a um s tempo valioso e frgil, tem medo da inveja 
de outras pessoas, na medida em que projeta nelas a inveja que teria sentido em seu lugar. Um sentimento como este trai-se por um olhar, muito embora no seja posto 
em palavras; e quando um homem se destaca devido a atributos visveis, e particularmente atributos no atraentes, as outras pessoas esto prontas a acreditar que 
a sua inveja se eleva a um grau de intensidade maior do que o habitual, e que essa intensidade a converter em ao efetiva. Assim, o que  temido  uma inteno 
secreta de fazer mal, e determinados sinais so interpretados como se aquela inteno tivesse o poder necessrio s suas ordens.
         Esse ltimos exemplos do 'estranho' devem ser referidos ao princpio que denominei 'onipotncia de pensamento', tomando o nome de uma expresso usada por 
um dos meus pacientes. E agora encontramo-nos em terreno familiar. A nossa anlise de exemplos do estranho reconduziu-nos  antiga concepo animista do universo. 
Caracterizava-se esta pela idia de que o mundo era povoado por espritos dos seres humanos; pela supervalorizao narcsica, do sujeito, de seus prprios processos 
mentais, pela crena na onipotncia dos pensamentos e a tcnica de magia baseada nessa crena; pela atribuio, a vrias pessoas e coisas externas, de poderes mgicos 
cuidadosamente graduados, ou 'mana'; bem como por todas as outras criaes, com a ajuda das quais o homem, no irrestrito narcisismo desse estdio de desenvolvimento, 
empenhou-se em desviar as proibies manifestas da realidade.  como se cada um de ns houvesse atravessado uma fase de desenvolvimento individual correspondente 
a esse estdio animista dos homens primitivos, como se ningum houvesse passado por essa fase sem preservar certos resduos e traos dela, que so ainda capazes 
de se manifestar, e que tudo aquilo que agora nos surpreende como 'estranho' satisfaz a condio de tocar aqueles resduos de atividade mental animista dentro de 
ns e dar-lhes expresso.Neste ponto vou expor duas consideraes que, penso eu, contm a essncia deste breve estudo. Em primeiro lugar, se a teoria psicanaltica 
est certa ao sustentar que todo afeto pertencente a um impulso emocional, qualquer que seja a sua espcie, transforma-se, se reprimido, em ansiedade, ento, entre 
os exemplos de coisas assustadoras, deve haver uma categoria em que o elemento que amedronta pode mostrar-se ser algo reprimido que retorna. Essa categoria de coisas 
assustadoras construiria ento o estranho; e deve ser indiferente a questo de saber se o que  estranho era, em si, originalmente assustador ou se trazia algum 
outro afeto. Em segundo lugar, se  essa, na verdade, a natureza secreta do estranho, pode-se compreender por que o uso lingstico estendeu das Heimliche ['homely' 
('domstico, familiar')] para o seu oposto, das Unheimliche (ver em [1]); pois esse estranho no  nada novo ou alheio, porm algo que  familiar e h muito estabelecido 
na mente, e que somente se alienou desta atravs do processo da represso. Essa referncia ao fator da represso permite-nos, ademais, compreender a definio de 
Schelling [ver em [1]] do estranho como algo que deveria ter permanecido oculto mas veio  luz.
         Resta-nos apenas comprovar a nossa nova hiptese em mais um ou dois exemplos do estranho.
         Muitas pessoas experimentam a sensao, em seu mais alto grau, em relao  morte e aos cadveres, ao retorno dos mortos e a espritos e fantasmas. Como 
vimos [ver em [1]], algumas lnguas em uso atualmente s podem traduzir a expresso alem 'uma casa unheimlich' por 'uma casa assombrada'. De fato, podamos ter 
comeado nossa investigao com esse exemplo, talvez o mais impressionante de todos, de algo estranho, mas abstivemo-nos de o fazer, porque o estranho nesse exemplo 
est por demais miscigenado ao que  puramente horrvel, e  em parte encoberto por ele. Dificilmente existe outra questo, no entanto, em que as nossas idias e 
sentimentos tenham mudado to pouco desde os primrdios dos tempos, e na qual formas rejeitadas tenham sido to completamente preservadas sob escasso disfarce, como 
a nossa relao com a morte. Duas coisas contam para o nosso conservadorismo: a fora da nossa reao emocional original  morte e a insuficincia do nosso conhecimento 
cientfico a respeito dela. A biologia no conseguiu ainda responder se a morte  o destino inevitvel de todo ser vivo ou se  apenas um evento regular, mas ainda 
assim talvez evitvel, da vida.  verdade que a afirmao 'Todos os homens so mortais'  mostrada nos manuais de lgica como exemplo de uma proposio geral; mas 
nenhum ser humano realmente a compreende, e o nosso inconsciente tem to pouco uso hoje, como sempre teve, para a idia da sua prpria mortalidade. As religies 
continuam a discutir a importncia do fato inegvel da morte individual e a postular uma vida aps a morte; os governos civis ainda acreditam que no podem manter 
a ordem moral entre os vivos, se no sustentam a perspectiva de uma vida melhor no futuro como recompensa pela existncia mundana. Nas nossas grandes cidades, anunciam-se 
conferncias que tentam dizer-nos como entrar em contato com as almas mais capazes e penetrantes mentes entre os nossos homens de cincia chegaram  concluso, especialmente 
perto do final da vida, de que um contato dessa espcie no  impossvel. Uma vez que quase todos ns ainda pensamos como selvagens acerca desse tpico, no  motivo 
para surpresa o fato de que o primitivo medo da morte  ainda to intenso dentro de ns e est sempre pronto a vir  superfcie por qualquer provocao.  muito 
provvel que o nosso medo ainda implique na velha crena de que o morto torna-se inimigo do seu sobrevivente e procura lev-lo para partilhar com ele a sua nova 
existncia. Considerando a nossa inalterada atitude em relao  morte, poderamos, antes, perguntar o que aconteceu  represso, que  a condio necessria de 
um sentimento primitivo que retorna em forma de algo estranho. A represso, porm, tambm est presente. Todas as pessoas supostamente educadas, cessaram oficialmente 
de acreditar que os mortos podem tornar-se visveis como espritos, e tornaram tais aparies dependentes de condies improvveis e remotas; ademais, a atitude 
emocional dessas pessoas para com os seus mortos, que j foi uma atitude altamente ambgua e ambivalente, foi, nos estratos mais elevados da mente, reduzida a um 
sentimento unilateral de piedade.
         Agora temos apenas algumas observaes a acrescentar - pois o animismo, a magia e a bruxaria, a onipotncia dos pensamentos, a atitude de homem para com 
a morte, a repetio involuntria e o complexo de castrao compreendem praticamente todos os fatores que transformam algo assustador em algo estranho.
         Tambm podemos falar de uma pessoa viva como estranha, e o fazemos quando lhe atribumos intenes maldosas. Mas no  tudo; alm disso, devemos sentir 
que suas intenes de nos prejudicar sero levadas a cabo com o auxlio de poderes especiais. Um bom exemplo disso  o 'Gettatore', aquela estranha figura de superstio 
romntica que Schaeffer, com sentimento potico intuitivo e profunda compreenso psicanaltica, transformou em personagem simptica no seu Josef Montfort. Mas a 
questo desses poderes secretos leva-nos outra vez de volta ao reino do animismo. A piedosa Grethen tinha a intuio de que Mefistfeles possua poderes secretos 
dessa natureza que o tornaram to estranho para ela.
         Sie fhlt dass ich ganz sicher ein Genie,Vielleicht sogar der Teufel bin.
         O efeito estranho da epilepsia e da loucura tem a mesma origem. O leigo v nelas a ao de foras previamente insuspeitadas em seus semelhantes, mas ao 
mesmo tempo est vagamente consciente dessas foras em remotas regies do seu prprio ser. A Idade Mdia atribua, com absoluta coerncia, todas essas doenas  
influncia de demnios e, nisso, a sua psicologia era quase correta. Na verdade, no ficaria surpreso em ouvir que a psicanlise, que se preocupa em revelar essas 
foras ocultas, tornou-se assim estranha para muitas pessoas, por essa mesma razo. Houve um caso, aps haver tido xito - embora no muito rapidamente - na cura 
de uma moa que fora invlida por muitos anos, em que ouvi essa opinio expressa pela me da paciente, muito depois da sua recuperao.
         Membros arrancados, uma cabea decepada, mo cortada pelo pulso, como num conto fantstico de Hauff, ps que danam por si prprios, como no livro de Schaeffer 
que mencionei acima - todas essas coisas tm algo peculiarmente estranho a respeito delas, particularmente quando, como no ltimo exemplo, mostram-se, alm do mais, 
capazes de atividade independente. Como j sabemos, essa espcie de estranheza origina-se da sua proximidade ao complexo de castrao. Para algumas pessoas, a idia 
de ser enterrado vivo por engano  a coisa mais estranha de todas. Ainda assim, a psicanlise nos ensinou que essa fantasia assustadora  apenas uma transformao 
de outra fantasia que originalmente nada tinha em absoluto de aterrorizador, mas caracterizava-se por uma certa lascvia - quero dizer, a fantasia da existncia 
intra-uterina.
         H mais um ponto de aplicao geral que gostaria de acrescentar, embora, estritamente falando, tenha sido includo no que j foi dito acerca do animismo 
e dos modos de ao do aparato mental que foram superados; mas penso que merece destaque especial. Refiro-me a que um estranho efeito se apresenta quando se extingue 
a distino entre imaginao e realidade, como quando algo que at ento considervamos imaginrio surge diante de ns na realidade, ou quando um smbolo assume 
as plenas funes da coisa que simboliza, e assim por diante.  esse fator que contribui no pouco para o estranho efeito ligado s prticas mgicas. Nele, o elemento 
infantil, que tambm domina a mente dos neurticos,  a superenfatizao da realidade psquica em comparao com a realidade material - um aspecto estreitamente 
ligado  crena na onipotncia dos pensamentos. No meio do isolamento do perodo de guerra, caiu em minhas mos um nmero da revista inglesa Strand Magazine; e, 
entre outras matrias algo redundantes, li uma histria sobre um jovem casal que se muda para uma casa mobiliada onde h uma mesa de forma curiosa, com entalhes 
de crocodilos na sua superfcie. No fim da tarde um odor intolervel e bastante especfico comea a impregnar a casa; eles tropeam em algo no escuro; parece-lhes 
verem uma forma vaga deslizando sobre as escadas - para resumir, d-se a entender que a presena da mesa faz com que crocodilos fantasmas assombrem a casa, ou que 
os monstros de madeira adquirem vida no escuro, ou alguma coisa no gnero. Era uma histria bastante ingnua, mas o estranho efeito que produzia era notvel.
         Para encerrar esta coletnea de exemplos, que certamente no est completa, vou relatar um outro, tirado da experincia psicanaltica; se no se baseia 
em mera coincidncia, fornece uma bela confirmao da nossa teoria do estranho. Acontece com freqncia que os neurticos do sexo masculino declaram que sentem haver 
algo estranho no rgo genital feminino. Esse lugar unheimlich, no entanto,  a entrada para o antigo Heim [lar] de todos os seres humanos, para o lugar onde cada 
um de ns viveu certa vez, no princpio. H um gracejo que diz 'O amor  a saudade de casa'; e sempre que um homem sonha com um lugar ou um pas e diz para si mesmo, 
enquanto ainda est sonhando: 'este lugar -me familiar, estive aqui antes', podemos interpretar o lugar como sendo os genitais da sua me ou o seu corpo." Nesse 
caso, tambm, o unheimlich  o que uma vez foi heimisch, familiar; o prefixo 'un' ['in-']  o sinal da represso.
         
                                                 III
         
         No decorrer desta exposio, o leitor ter sentido algumas dvidas surgirem em sua mente; e teremos agora oportunidade de reuni-las e de exp-las.
         Pode ser verdade que o estranho [unheimlich] seja algo que  secretamente familiar [heimlich-heimisch], que foi submetido  represso e depois voltou, e 
que tudo aquilo que  estranho satisfaz essa condio. A escolha do material, com essa base, porm, no nos permite resolver o problema do estranho. Porque a nossa 
proposta  claramente no conversvel. Nem tudo o que preenche essa condio - nem tudo o que evoca desejos reprimidos e modos superados de pensamento, que pertencem 
 pr-histria do indivduo e da raa -  por causa disso estranho.
         Nem esconderemos o fato de que, para quase cada exemplo aduzido em apoio da nossa hiptese, pode-se encontrar outro que a contradiz. A histria da mo decepada 
no conto de Hauff [ver em [1]] certamente tem um estranho efeito, e podemos atribuir esse efeito ao complexo de castrao; contudo, a maioria dos leitores provavelmente 
concordar comigo em julgar que nenhum trao de estranheza  provocado pela histria de Herdoto do tesouro de Rhampsinitus, na qual o chefe dos ladres, a quem 
a princesa tenta segurar pela mo, deixa-lhe em lugar da sua prpria, a mo decepada do irmo dele. Uma vez mais, a pronta realizao dos desejos do Polcrates [ver 
em [1]] afeta-nos indubitavelmente da mesma maneira que afetou o rei do Egito; ainda assim, as nossas prprias histrias de fadas esto abarrotadas de exemplos de 
realizaes instantneas de desejos, que no produzem qualquer efeito estranho ou assustador. Na histria de 'Os Trs Desejos', a mulher  tentada pelo apetitoso 
aroma de uma salsicha a desejar possuir tambm uma, e num instante a salsicha surge num prato diante dela. Contrariado pela sofreguido da mulher, o marido deseja 
que a salsicha se lhe pendure no nariz. E l ela fica, pendendo do nariz da mulher. Tudo isso  surpreendente, mas de modo algum estranho, amedrontador. Os contos 
de fadas adotam muito francamente o ponto de vista animista da onipotncia dos pensamentos de desejos, e mesmo assim no consigo imaginar qualquer histria de fadas 
genuna que tenha em si algo de estranho. Ficamos sabendo que h estranheza no mais alto grau quando um objeto inanimado - um quadro ou uma boneca - adquire vida; 
no obstante, nas histrias de Hans Christian Andersen, os utenslios domsticos, a moblia e os soldados de chumbo so vivos e, ainda assim, nada poderia estar 
mais longe do estranho. E dificilmente consideraramos estranho o fato de que a bela esttua de Pigmalio adquire vida.
         A morte aparente e a reanimao dos mortos tm sido representadas como temas dos mais estranhos. Tambm as coisas desse gnero so, contudo, muito comuns 
em histrias de fadas. Quem teria a ousadia de dizer que  estranho, por exemplo, quando Branca de Neve abre os olhos uma vez mais? E a ressurreio dos mortos em 
relatos de milagres, como no Novo Testamento, traz  tona sentimentos de forma alguma relacionadas com o estranho. Ento, tambm o tema que alcana um efeito indubitavelmente 
estranho, a repetio involuntria da mesma coisa, serve outros propsitos, bastante diferentes, numa outra categoria de casos. J deparamos com um exemplo [ver 
em [1]] no qual  empregado para evocar o sentimento do cmico; e poderamos multiplicar os exemplos desse tipo. Ou, por outro lado, funciona como um meio de nfase, 
e assim por diante. E, uma vez mais: qual  a origem do efeito estranho do silncio, da escurido e da solido? Esses fatores no assinalam o papel desempenhado 
pelo perigo na gnese daquilo que  estranho, apesar de que, no caso das crianas, esses mesmos fatores so os que determinam mais freqentemente a expresso de 
medo [em vez de estranheza]? E, afinal de contas, estaremos justificados ao ignorar inteiramente a incerteza intelectual como um fator, tendo admitido a sua importncia 
em relao  morte? [ver em [1] e [2].]
          evidente, portanto, que devemos estar preparados para admitir existirem outros elementos, alm daqueles que estabelecemos at aqui, que determinam a criao 
de sensaes estranhas. Poderamos dizer que esses resultados preliminares satisfizeram o interesse psicanaltico pelo problema do estranho, e que aquilo que resta 
pede provavelmente uma investigao esttica. Isto, porm, seria abrir a porta a dvidas acerca de qual seja exatamente o valor da nossa argumentao geral, de que 
o estranho provm de algo familiar que foi reprimido.
         Descobrimos um ponto que nos pode ajudar a resolver essas incertezas: quase todos os exemplos que contradizem a nossa hiptese so tomados ao domnio da 
fico, da literatura imaginativa. Isto sugere que devemos distinguir entre o estranho que realmente experimentamos e o que simplesmente visualizamos ou sobre o 
qual lemos.
         Aquilo que  experimentado como estranho est muito mais simplesmente condicionado, mas compreende muito menos exemplos. Descobriremos, acho eu, que se 
ajusta perfeitamente  nossa tentativa de soluo, e pode-se atribuir, sem exceo, a algo familiar que foi reprimido. Mas, tambm aqui, devemos fazer uma certa 
diferenciao, importante e psicologicamente significativa, no nosso material, a qual melhor se elucida se nos voltamos a exemplos adequados.
         Tomemos o estranho ligado  onipotncia de pensamentos,  pronta realizao de desejos, a malficos poderes secretos e ao retorno dos mortos. A condio 
sob a qual se origina, aqui, a sensao de estranheza,  inequvoca. Ns - ou os nossos primitivos antepassados - acreditamos um dia que essas possibilidades eram 
realidades, e estvamos convictos de que realmente aconteciam. Hoje em dia no mais acreditamos nelas, superamos esses modos de pensamento; mas no nos sentimos 
muito seguros de nossas novas crenas, e as antigas existem ainda dentro de ns, prontas para se apoderarem de qualquer confirmao. To logo acontece realmente 
em nossas vidas algo que parece confirmar as velhas e rejeitadas crenas, sentimos a sensao do estranho;  como se estivssemos raciocinando mais ou menos assim: 
'Ento, afinal de contas,  verdade que se pode matar uma pessoa com o mero desejo da sua morte!' ou 'Ento os mortos continuavam mesmo a viver e aparecem no palco 
de suas antigas atividades!', e assim por diante. De forma inversa, qualquer um que se tenha livrado, finalmente, de modo completo, de crenas animistas ser insensvel 
a esse tipo de sentimento estranho. As mais notveis coincidncias de desejo e realizao, a mais misteriosa repetio de experincias similares em determinado lugar 
ou em determinada data, as mais ilusrias vises e os mais suspeitos rudos - nada disso o desconcertar ou despertar a espcie de medo que pode ser descrita como 
'um medo de algo estranho'. A coisa toda  simplesmente uma questo de 'teste de realidade', uma questo da realidade material dos fenmenos.
         A situao  diferente quando o estranho provm de complexos infantis reprimidos, do complexo de castrao, das fantasias de estar no tero etc.; mas as 
experincias que provocam esse tipo de sentimento estranho no ocorrem com muita freqncia na vida real. O estranho que provm da experincia real pertence quase 
sempre ao primeiro grupo [o grupo descrito no pargrafo anterior]. No entanto, a distino entre os dois  teoricamente muito importante. Quando o estranho se origina 
de complexos infantis, a questo da realidade material no surge; o seu lugar  tomado pela realidade psquica. Implica numa represso real de algum contedo de 
pensamento e num retorno desse contedo reprimido, no num cessar da crena na realidade de tal contedo. Poderamos dizer que, num caso, o que fora reprimido  
um determinado contedo ideativo, e, no outro, a sua realidade (material). Esta ltima frase, porm, estende o termo 'represso' para alm do seu legtimo significado. 
Seria mais correto levar em conta uma distino psicolgica que pode ser detectada aqui, e dizer que as crenas animistas das pessoas civilizadas esto num estado 
de haver sido (em maior ou menor medida) superadas [preferentemente a reprimidas]. A nossa concluso podia, ento, afirmar-se assim: uma experincia estranha ocorre 
quando os complexos infantis que haviam sido reprimidos revivem uma vez mais por meio de alguma impresso, ou quando as crenas primitivas que foram superadas parecem 
outra vez confirmar-se. Finalmente, no devemos deixar que nossa predileo por solues planas e exposio lcida nos cegue diante do fato de que essas duas categorias 
de experincia estranha nem sempre so nitidamente distinguveis. Quando consideramos que as crenas primitivas relacionam-se da forma mais ntima com os complexos 
infantis e, na verdade, baseiam-se neles, no nos surpreenderemos muito ao descobrir que a distino  muitas vezes nebulosa.
         O estranho, tal como  descrito na literatura, em histrias e criaes fictcias, merece na verdade uma exposio em separado. Acima de tudo,  um ramo 
muito mais frtil do que o estranho na vida real, pois contm a totalidade deste ltimo e algo mais alm disso, algo que no pode ser encontrado na vida real. O 
contraste entre o que foi reprimido e o que foi superado no pode ser transposto para o estranho em fico sem modificaes profundas; pois o reino da fantasia depende, 
para seu efeito, do fato de que o seu contedo no se submete ao teste de realidade. O resultado algo paradoxal  que em primeiro lugar, muito daquilo que no  
estranho em fico s-lo-ia se acontecesse na vida real; e, em segundo lugar, que existem muito mais meios de criar efeitos estranhos na fico, do que na vida real.
         O escritor imaginativo tem, entre muitas outras, a liberdade de poder escolher o seu mundo de representao, de modo que este possa ou coincidir com as 
realidades que nos so familiares, ou afastar-se delas o quanto quiser. Ns aceitamos as suas regras em qualquer dos casos. Nos contos de fadas, por exemplo, o mundo 
da realidade  deixado de lado desde o princpio, e o sistema animista de crenas  francamente adotado. A realizao de desejos, os poderes secretos, a onipotncia 
de pensamentos, a animao de objetos inanimados, todos os elementos to comuns em histrias de fadas, no podem aqui exercer uma influncia estranha; pois, como 
aprendemos, esse sentimento no pode despertar, a no ser que haja um conflito de julgamento quanto a saber que coisas que foram 'superadas' e so consideradas incrveis 
no possam, afinal de contas, ser possveis; e esse problema  eliminado desde o incio pelos postulados do mundo dos contos de fadas. Assim, verificamos que as 
histrias de fadas, que nos proporcionaram a maioria das contradies em relao  nossa hiptese do estranho, confirmam a primeira parte da nossa proposta - de 
que, no domnio da fico, muitas dentre as coisas que no so estranhas o seriam se acontecessem na vida real. No caso dessas histrias, h outros fatores contribuintes, 
sobre os quais falaremos depois, resumidamente.
         O escritor criativo pode tambm escolher um cenrio que, embora menos imaginrio do que os dos contos de fada, ainda assim difere do mundo real por admitir 
seres espirituais superiores, tais como espritos demonacos ou fantasmas dos mortos. Na medida em que permanecem dentro do seu cenrio de realidade potica, essas 
figuras perdem qualquer estranheza que possam possuir. As almas no Inferno de Dante, ou as aparies sobrenaturais no Hamlet, Macbeth ou no Jlio Csar, de Shakespeare, 
podem ser bastante obscuras e terrveis, mas no so mais estranhas realmente do que o mundo jovial dos deuses de Homero. Adaptamos nosso julgamento  realidade 
imaginria que nos  imposta pelo escritor, e consideramos as almas, os espritos e os fantasmas como se a existncia deles tivesse a mesma validade que a nossa 
prpria existncia tem na realidade material. Tambm nesse caso evitamos qualquer vestgio do estranho.
         A situao altera-se to logo o escritor pretenda mover-se no mundo da realidade comum. Nesse caso, ele aceita tambm todas as condies que operam para 
produzir sentimentos estranhos na vida real; e tudo o que teria um efeito estranho, na realidade, o tem na sua histria. Nesse caso, porm, ele pode at aumentar 
o seu efeito e multiplic-lo, muito alm do que poderia acontecer na realidade, fazendo emergir eventos que nunca, ou muito raramente, acontecem de fato. Ao faz-lo, 
trai, num certo sentido, a superstio que ostensivamente superamos; ele nos ilude quando promete dar-nos a pura verdade e, no final, excede essa verdade. Reagimos 
s suas invenes como teramos reagido diante de experincias reais; quando percebemos o truque,  tarde demais, e o autor j alcanou o seu objetivo. Deve-se acrescentar, 
porm, que o seu xito no  genuno. Conservamos um sentimento de insatisfao, uma espcie de rancor contra o engodo assim obtido. Notei isto particularmente aps 
a leitura de Die Weissagung [A Profecia], de Schnitzler, e outras histrias semelhantes, que flertam com o sobrenatural. No entanto, o escritor tem mais um meio 
que pode utilizar para evitar a nossa recalcitrncia e, ao mesmo tempo, melhorar as suas chances de xito. Pode manter-nos s escuras, por muito tempo, quanto  
natureza exata das pressuposies em que se baseia o mundo sobre o qual escreve; ou pode evitar, astuta e engenhosamente, qualquer informao definida sobre o problema, 
at o fim. Falando de um modo geral, contudo, encontramos confirmao da segunda parte da nossa proposta - de que a fico oferece mais oportunidades para criar 
sensaes estranhas do que aquelas que so possveis na vida real.
         Estritamente falando, todas essas complicaes relacionam-se apenas com aquela categoria do estranho que provm de formas de pensamento que foram superadas, 
a categoria que provm de complexos reprimidos  mais resistente e permanece to poderosa na fico como na experincia real, submetendo-se a uma exceo [ver em 
[1]]. O estranho que pertence  primeira categoria - a que procede de formas de pensamento que foram superadas - conserva o seu carter no apenas na experincia, 
mas tambm na fico, na medida em que o cenrio seja de realidade material; quando se lhe d, porm, um cenrio artificial e arbitrrio na fico, pode perder aquele 
carter.
         Deixamos claramente de esgotar as possibilidades de licena potica e os privilgios desfrutados pelos ficcionistas para evocar ou para excluir um sentimento 
estranho. De um modo geral, adotamos uma invarivel atitude passiva em relao  experincia real e submetendo-nos  influncia do nosso ambiente psquico. Mas o 
ficcionista tem um poder peculiarmente diretivo sobre ns; por meio do estado de esprito em que nos pode colocar, ele consegue guiar a corrente das nossas emoes, 
repres-la numa direo e faz-la fluir em outra, e obtm com freqncia uma grande variedade de efeitos a partir do mesmo material. Nada disso  verdade e, sem 
dvida, h muito que vem sendo levado em considerao pelos que estudam esttica. Derivamos para entrar nesse campo de pesquisa, meio involuntariamente, pela tentao 
de explicar determinados exemplos que contradizem a nossa teoria das causas do estranho. Por conseguinte, voltaremos agora a examinar alguns desses exemplos.
         J perguntamos [ver em [1]] por que  que a mo decepada na histria do tesouro de Rhampsinitus no tem o estranho efeito que a mo cortada tem na histria 
de Hauff. A questo parece ter crescido em importncia, agora que reconhecemos que a categoria de estranho oriunda de complexos reprimidos  a mais resistente das 
duas. A resposta  fcil. Na histria de Herdoto, os nossos pensamentos esto muito mais concentrados na astcia superior do chefe dos ladres, do que nos sentimentos 
da princesa. A princesa pode muito bem ter tido uma sensao estranha, na verdade provavelmente caiu desmaiada; mas ns no temos tal sensao, pois nos colocamos 
no lugar do ladro, e no no lugar dela. Na farsa de Nestroy intitulada Der Zerrissene [O Homem Dilacerado],  utilizado outro meio para evitar qualquer impresso 
estranha na cena em que o fugitivo, convencido de que  um assassino, levanta um alapo atrs do outro, e de cada vez v o que julga ser o fantasma da sua vtima 
erguendo-se do alapo. Ele grita com desespero 'Mas eu matei apenas um homem. Por que esta assombrosa multiplicao?' Sabemos o que aconteceu antes dessa cena e 
no partilhamos do seu erro, de modo que aquilo que deve ser estranho para ele tem sobre ns um efeito irresistivelmente cmico. At mesmo um fantasma 'real', como 
O Fantasma de Canterville de Oscar Wilde, perde todo o poder de pelo menos despertar em ns sentimentos repulsivos to logo o autor comea a divertir-se, fazendo 
ironias a respeito do fantasma e permitindo que se tomem liberdades com ele. Assim, vemos o quanto os efeitos emocionais podem ser independentes do verdadeiro assunto 
no mundo da fico. Nas histrias de fadas, os sentimentos de medo - incluindo, portanto, as sensaes estranhas - so inteiramente eliminados. Ns compreendemos 
isso, e  por essa razo que ignoramos quaisquer oportunidades que encontremos nelas para desenvolver tais sentimentos.
         No que diz respeito aos fatores do silncio, da solido e da escurido [ver em [1] e [2]], podemos to-somente dizer que so realmente elementos que participam 
da formao da ansiedade infantil, elementos dos quais a maioria dos seres humanos jamais se libertou inteiramente. Em outro trabalho, esse problema foi discutido 
do ponto de vista psicanaltico.
         
         APNDICE - EXCERTO DO Worterbuch der Deutschen Sprache, DE DANIEL SANDERS
         
         Heimlich, a. (-keit, f.-en): 1. auch Heimelich, heimelig, zum Hause gehorig, nicht fremd, vertraut, zahm, traut und traulich, anheimelnd etc. (a) (veralt.) 
zum Haus, zur Familie gehorig oder: wie dazu gehorig betrachtet, vgl. lat. familiaris, vertraut: Die Heimlichen, die Hausgenossen; Der heimiliche Rath. 1. Mos. 41, 
45; 2. Sam. 23, 23. 1 Chr. 12, 25. Weish. 8, 4., wofr jetzt: Geheimer (s. d 1.) Rath blich ist, s. Heimlicher - (b) von Thieren zahm, sich den Menschen traulich 
anschliessend. Ggstz. wild, z. B.: Thier, die weder wild noch heimlich sind, etc. Eppendorf. 88; Wilde Thier ...so man sie h. und gewohnsam um die Leute aufzeucht. 
92. So diese Thierle von Jugend bei den Menschen erzogen, werden sie ganz h., freundlich etc., Stumpf 608a etc. - So noch: So h. its's (das Lamm) und frisst aus 
meiner Hand. Holty; Ein schoner, heimelicher (s. c) Vogel bleibt der Storch immerhin. Linck, Schl. 146. s. Hauslich 1 etc. - (c) traut, traulich anheimelnd; das 
Wohlgefhl stiller Befriedigung etc., behaglicher Ruhe u. sichern Schutzes, wis das umschlossne, wohnliche Haus erregend (vgl. Geheuer): Ist dir's h. noch im Lande, 
wo die Fremden deine Walder roden? Alexis H. 1, 1, 289; Es war ihr nicht allu h. bei ihm. Brentano Wehm. 92; Auf einem hohen h-en Schattenpfade..., langs dem rieselnden 
rauschenden und platschernden Waldbach. Forster B. 1, 417. Die H-keit der Heimath zerstoren. Gervinus Lit, 5, 375. So vertraulich und h. habe ich nicht leicht ein 
Platzchen gefunden. G[oethe], 14, 14; Wir dachten es uns so bequem, so artig, so gemthlich und h. 15, 9; In stiller H-keit, umzielt von engen Schranken. Haller; 
Einer sorglichen Hausfrau, die mit dem Wenigsten ein vergngliche H-keit (Huslichkeit) zu schaffen versteht. Hartmann Unst. 1, 188; Desto h-er kam ihm jetzt der 
ihm erst kurz noch so fremde Mann vor. Kerner 540; Die protestantischen Besitzer fhlen sich... nicht h. unter ihren katholischen Unterthanen. Kohl. Ir. 1, 172; 
Wenns h. wird und leise/die Abendstille nur an deiner Zelle lauscht. Tiedge 2, 39; Still und lieb und h., als sie sich/zum Ruhen einen Platz nur wnschen mchten. 
W[ieland], 11, 144; Es war ihm garnicht h. dabei 27. 170, etc. - Auch: Der Platz war so still, so einsam, so schatten-h. Scherr Pilg. 1, 170; Die ab- und zustrmenden 
Fluthwellen, trumend und wiegenlied-h. Krner, Sch. 3, 320 etc. - Vgl. namentl. Un-h. -Namentl. bei schwb., schwzr. Schriftst. oft dreisilbig: Wie 'heimelich' 
war es dann Ivo Abends wieder, als er zu Hause lag. Auerbach, D. 1, 249; In dem Haus ist mirs' so heimelige gewesen. 4. 307; Die warme Stube, der heimelige Nachmittag. 
Gotthelf, Sch. 127, 148; Das ist das wahre Heimelig, wenn der Mensch so von Herzen fhlt, wie wenig er ist, wie gross der Herr ist. 147; Wurde man nach und nach 
recht gemthlich und heimelig mit einander. U. 1, 297; Die trauliche Heimeligkeit. 380, 2, 86; Heimelicher wird es mir wohl nirgends werden als hier. 327; Pestalozzi 
4, 240; Was von ferne herkommt... lebt gw. nicht ganz heimelig (heimatlich, freundnachbarlich) mit den Leuten. 325; Die Htte, wo/er sonst so heimelig, so froh/ 
...im Kreis der Seinen oft gesessen. Reithard 20; Da klingt das Horn des Wchters so heimelig vom Thurm/ da ladet seine Stimme so gastlich. 49; Es schalft sich 
da so lind und warm/so wundrheim'lig ein. 23 etc. - Diese Weise verdiente allgemein zu werden, um das gute Wort vor dem Veralten wegen nahe liegender Verwechslung 
mit 2 zu bewahren. vgl.: 'Die Zecks sind alle h. (2)' 'H.?... Was verstehen sie unter h.?... - 'Nun...es kommt mir mit ihnen vor, wie mit einem zugegrabenen Brunnen 
oder einem ausgetrockneten Teich. Man kann nicht darber gehen, ohne dass es Einem immer ist, als knnte da wieder einmal W asser zum Vorscheinkommen.' Wir nennen 
das un-h.; Sie nennen's. Worin finden Sie denn, dass diese Familie etwas Verstecktes und Unzuverlssiges hat? etc. Gutzkow R. 2, 61. - (d) (s. c) namentl. schles.: 
frhlich, heiter, auch vom Wetter, s. Adelung und Weinhold.
         2. versteckt, verborgen gehalten, so dass man Andre nicht davon oder darum wissen lassen, es ihnen verbergen will, vgl. Geheim (2), von weichem erst nhd. 
Ew. es doch zumal in der lteren Sprache, z. B. in der Bibel, wie Hiob 11, 6; 15, 8; Weish. 2, 22; 1. Kor. 2, 7 etc., und so auch H-keit statt Geheimnis. Math. 13, 
35 etc., nicht immer genau geschieden wird: H. (hinter Jemandes Rcken) Etwas thun, treiben; Sich h. davon schleichen; H-e Zusammenknfte, Verabredungen; Mit h-er 
Schadenfreude zusehen; H. seufzen, weinen; H. thun, als ob man etwas zu verbergen htte; H-e Liebschaft, Liebe, Snde: H-e Orte (die der Wohlstand zu verhllen gebietet). 
1. Sam. 5, 6; Das h-e Gemach (Abtritt). 2. Kn. 10, 27; W[ieland], 5, 256 etc., auch: Der h-e Stuhl. Zinkgrf 1, 249; In Graben, in H-keiten werfen. 3, 75; Rollenhagen 
Fr. 83 etc. - Fhrte h. vor Laomedon/die Stuten vor B[rger], 161 b etc. - Ebenso versteckt, h., hinterlistig und boshaft gegen grausame Herren... wie offen, frei, 
theilnehmend und dienstwillig gegen den leidenden Freund. Burmeister gB 2. 157; Du sollst mein h. Heiligstes noch wissen. Chamisso 4, 56; Die h-e Kunst (der Zauberei). 
3, 224; Wo die ffentliche Ventilation aufhren muss, fngt die h-e Machination an. Forster, Br. 2, 135; Freiheit ist die leise Parole h. Verschworener, das laute 
Feldgeschrei der ffentlich Umwlzenden. G[oethe], 4, 222; Ein heilig, h. Wirken. 15; Ich habe Wurzeln/die sind gar h.,/im tiefen Boden/bin ich gegrndet. 2, 109; 
Meine h-e Tcke (vgl. Heimtcke). 30, 344; Empfngt er es nicht offenbar und gewissenhaft, so mag er es h. und gewissenlos ergreifen. 39, 33; Liess h. und geheimnisvoll 
achromatische Fernrhre zusammensetzen. 375; Von nun an, will nich, sei nichts H-es/mehr unter uns. Sch[iller], 369 b. - Jemandes H-keiten entdecken, offenbaren, 
verrathen; H-keiten hinter meinem Rcken zu brauen. Alexis. H. 2, 3, 168; Zu meiner Zeit/befliss man sich der H-keit. Hagedorn 3, 92; Die H-keit, und das Gepuschele 
unter der Hand. Immermann, M. 3, 289: Der H-keit (des verborgnen Golds) unmchtigen Bann/kann nur die Hand der Einsicht lsen. Novalis. 1, 69; /Sag'an, wo du sie...verbirgst, 
in welches Ortes verschwiegener H. Sch[iller], 495 b; Ihr Bienen, die ihr knetet/der H-keitn Schloss (Wachs zum Siegeln). Tieck, Cymb. 3, 2; Erfahren in seltnen 
H-keiten (Zauberknsten). Schlegel Sh. 6, 102 etc., vgl. Geheimnis L[essing], 10: 291 ff.
         Zsstzg. s. 1c, so auch nam. der Ggstz.: Un-: unbehagliches, banges Grauen erregend: Der schier ihm un-h., gespenstisch erschien. Chamisso 3, 238; Der Nacht 
un-h., bange Stunden. 4, 148; Mir war schon lang' un-h., ja graulich zu Muthe. 242; Nun fngts mir an, un-h. zu werden. G[oethe], 6, 330;... Empfindet ein u-es Grauen. 
Heine, Verm. 1, 51; Un-h. und starr wie ein Steingild. Reis, 1, 10; Den u-en Nebel, Haarauch geheissen. Immermann M., 3, 299; Diese blassen Jungen sind un-h. und 
brauen Gott weiss was Schlimmes. Laube, Band. 1, 119; Un-h. nenntman Alles, was im Geheimnis, im Verborgnen...bleiben sollte und hervorgetretenist. Schelling, 2, 
2, 649 etc. - Das Gttliche zu verhllen, mit einer gewissen U-keit zu umgeben 658, etc. - Unblich als Ggstz. von (2), wie es Campe ohne Beleg anfhrt.`
         
         
         
         




















PREFCIO A RITUAL: ESTUDOS PSICANALTICOS, DE REIK (1919)
         
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         PREFACE TO REICK'S PROBLEME DERRELIGIONSPSYCHOLOGIE
         
         (a)EDIES ALEMS:
         
         1919 Em T. Reik, Probleme der Religionspsychologie, I Teil: 'Das Ritual', vii-xii, Leipzig e Viena: Internationaler Psychoanalytischer Verlag.
         1928 2 ed., publicada sob o ttulo Das Ritual: Psychoanalytische Studien. Mesmos editores.
         1928 G.S., 11, 256-60.1947 G.W., 12, 325-9.
         
         (b)TRADUES INGLESAS:
         Preface to Reik's Ritual: Psycho-Analytic Studies
         
         1931 Em Reik, Ritual.Psycho-Analytic Studies, 5-10, Londres: Hogarth Press and Institute of Psycho-Analysis; Nova Iorque: Norton. (Trad. de D. Bryan.)
         1946 Em Reik, The Psychological Problems of Religion, Nova Iorque. (Redio da trad. acima, com o ttulo modificado.)
         1950 C.P., 5, 92-7. (Sob o ttulo 'Psycho-Analysis and Religious Origins'.) (Trad. de J. Strachey.)
         
         A presente traduo inglesa  a mesma publicada em 1950, ligeiramente revista. O segundo volume do livro original de Reik nunca foi publicado. 
         
         PREFCIO A RITUAL: ESTUDOS PSICANALTICOS, DE REIK
         
         A psicanlise nasceu por necessidade mdica. Originou-se da necessidade de ajudar os pacientes neurticos, que no haviam encontrado alvio por meio das 
curas de repouso, das artes da hidropatia ou da eletricidade. Uma observao notvel feita por Josef Breuer havia despertado a esperana de que quando mais se compreendesse 
a at ento inexplorada origem dos sintomas dos neurticos, tanto mais extensivo seria o auxlio que se poderia proporcionar-lhes. Aconteceu, assim, que a psicanlise, 
sendo originalmente uma tcnica puramente mdica, foi desde o incio dirigida para a pesquisa, para a descoberta dos elos causais, a um s tempo recnditos e de 
amplo alcance.
         O curso posterior da psicanlise afastou-a do estudo das determinantes somticas da doena nervosa, a tal ponto que se tornou desconcertante para os mdicos. 
Em vez desse estudo, a psicanlise entrou em contato com a substncia mental da vida humana - no apenas a vida dos doentes, mas dos saudveis, dos normais e dos 
supernormais. Defrontou-se com emoes e com paixes, sobretudo aquelas que os poetas nunca se cansam de louvar e celebrar - as emoes do amor. Aprendeu a reconhecer 
o poder das lembranas, a insuspeita importncia dos anos da infncia na formao do adulto, e a fora dos desejos, que falseiam o raciocnio humano e estabelecem 
linhas fixas para o esforo do homem.
         Durante algum tempo a psicanlise parecia destinada a imergir na psicologia sem conseguir mostrar por que a psicologia dos doentes diferia da dos normais. 
 medida em que progredia, no entanto, defrontou-se com o problema dos sonhos, que so produtos anormais da mente criados por homens normais sob condies fisiolgicas 
que ocorrem regularmente. Quando a psicanlise resolveu o problema dos sonhos, havia descoberto nos processos psquicos inconscientes o solo comum no qual os mais 
altos e os mais baixos impulsos mentais tm suas razes e do qual se originam as mais normais como as mais mrbidas e estrambticas criaes mentais. O novo quadro 
das operaes da mente comeou a tornar-se cada vez mais claro e completo. Era um quadro de obscuras foras instintuais, orgnicas em sua origem, empenhando-se em 
objetivos congnitos e, acima dessas foras, uma instncia que compreende as estruturas mentais de organizao mais elevada - aquisies da evoluo humana feitas 
sob o impacto da histria da humanidade -, uma instncia que se apossou de partes dos impulsos instintuais, que os desenvolveu ou at mesmo os dirigiu a propsitos 
mais altos, mas que, em todo caso, os amarra firmemente e manipula a sua energia para seguir seus prprios propsitos. Essa organizao mais elevada, contudo, que 
para ns  conhecida como o ego, rejeitou outra parte desses mesmos impulsos instintuais elementares como sendo inteis, por no poderem ajustar-se  unidade orgnica 
do indivduo ou por se rebelarem contra os objetivos culturais do indivduo. O ego no est em posio de exterminar essas foras mentais insubmissas, mas volta-lhes 
as costas, deixa-os permanecerem no nvel psicolgico mais baixo, defendendo-se das suas exigncias ao erigir energicamente barreiras protetoras e antitticas ou 
procurando entrar em acordo com elas por meio de satisfaes substitutivas. Esses instintos que caram vtimas da represso - indomados e indestrutveis, ainda que 
impedidos de qualquer espcie de atividade -, junto com os meus primitivos representantes mentais, constituem o submundo mental, o ncleo do verdadeiro inconsciente, 
e esto prontos a afirmar suas exigncias a qualquer momento e a forar de qualquer maneira o caminho para a satisfao. A isto deve-se a instabilidade da orgulhosa 
superestrutura da mente, a emergncia,  noite, de material proscrito e reprimido em forma de sonhos, e a tendncia a adquirir neuroses e psicoses to logo a balana 
de poder entre o ego e o material reprimido mostre desvantagem para o primeiro.
         Essa pequena reflexo destinava-se a mostrar que seria impossvel restringir  regio dos sonhos e das doenas nervosas uma viso como esta da vida da mente 
humana. Se essa viso encontrou uma verdade, deve aplicar-se igualmente aos eventos mentais normais, e mesmo os mais elevados feitos do esprito humano portam uma 
relao demonstrvel com os fatores encontrados na patologia - com a represso, com os esforos para dominar o inconsciente e com as possibilidades de satisfazer 
os instintos primitivos. Havia, assim, uma tentao irresistvel e, de fato, um dever cientfico de aplicar s vrias cincias mentais os mtodos de pesquisa da 
psicanlise, em regies muito remotas do seu solo nativo. E, na verdade, o prprio trabalho psicanaltico com os pacientes apontava persistentemente na direo dessa 
nova tarefa, pois era bvio que as formas assumidas pelas diferentes neuroses ecoavam as criaes mais admiradas da nossa cultura. Desse modo, os histricos so 
indubitavelmente artistas imaginativos, mesmo se, de um modo geral, expressam as suas fantasias mimeticamente e sem considerar a sua inteligibilidade para outras 
pessoas; os cerimoniais e proibies dos neurticos obsessivos levam-nos a supor que eles criaram uma religio prpria; particular; e os delrios dos paranicos 
tm uma desagradvel similaridade externa e um parentesco interno com os sistemas dos nossos filsofos.  impossvel escapar  concluso de que esses pacientes esto 
fazendo, de forma associal, tentativas para resolver seus conflitos e apaziguar suas necessidades prementes, tentativas que, quando levadas a cabo de uma maneira 
que  aceitvel pela maioria, so conhecidas como poesia, religio e filosofia.
         Em 1913, Otto Rank e Hanns Sachs, num trabalho extremamente interessante, juntaram os resultados conseguidos at ento na aplicao da psicanlise s cincias 
mentais. Os ramos mais facilmente acessveis dessas cincias parecem ser a mitologia e a histria da literatura e da religio. No se encontrou ainda a frmula final 
que nos permita dar um lugar apropriado aos mitos nessa relao. Otto Rank, num grande volume sobre o complexo do incesto (1912), apresentou evidncia do surpreendente 
fato de que a escolha do tema, particularmente nas obras dramticas,  determinada principalmente pelo mbito do que a psicanlise denominou de 'complexo de dipo'. 
Elaborando esse tema, com a maior variedade de modificaes, distores e disfarces, o dramaturgo procura ocupar-se das suas prprias e mais pessoais relaes com 
esse tema emocional.  ao tentar dominar o complexo de dipo - ou seja, a atitude emocional da pessoa em relao  sua famlia ou, em sentido mais restrito, em relao 
ao pai e  me - que o indivduo neurtico chega ao pesar, sendo por esse motivo que aquele complexo forma habitualmente o ncleo da neurose. No se deve a sua importncia 
a qualquer conjuno ininteligvel; a nfase colocada na relao dos filhos com os pais  expresso de fatos biolgicos, de que os jovens da raa humana atravessam 
um longo perodo de dependncia e s lentamente alcanam a maturidade, bem como de que a sua capacidade de amar submete-se a um intrincado curso de desenvolvimento. 
Por conseguinte, a superao do complexo de dipo coincide com o modo mais eficiente de dominar a herana arcaica e animal da humanidade.  verdade que essa herana 
compreende todas as foras que so exigidas no subseqente desenvolvimento cultural do indivduo, mas primeiro devem elas ser selecionadas e moldadas. Esse legado 
arcaico no se ajusta  utilizao em propsitos da vida social civilizada na forma em que  herdado pelo indivduo.
         Para encontrar o ponto de partida para a concepo psicanaltica da vida religiosa, devemos ir um pouco alm. O que  hoje a herana do indivduo, foi no 
passado uma nova aquisio, e passou, de uma para a outra, por uma longa srie de geraes. Assim, tambm o complexo de dipo pode haver tido estdios de desenvolvimento, 
e o estudo da pr-histria pode habilitar-nos a rastre-los. A investigao sugere que a vida da famlia humana assumia, naqueles tempos remotos, uma forma muito 
diferente da que conhecemos hoje. E essa idia  apoiada por descobertas fundamentadas em observaes de raas primitivas contemporneas. Se o material pr-histrico 
e etnolgico sobre esse assunto  trabalhado psicanaliticamente, chegamos a um resultado inesperadamente preciso, a saber, o de que Deus Pai j uma vez caminhou 
sobre a terra em forma corporal e exerceu a sua soberania como chefe tribal da horda humana primeva, at que os seus filhos se uniram para mat-lo. Ademais, surge 
da que esse crime de liberao e as reaes a ele tiveram como resultado o aparecimento dos primeiros laos sociais, das restries morais bsicas e da mais antiga 
forma de religio, o totemismo. As religies posteriores, porm, tm tambm o mesmo contedo, e, por um lado, preocupam-se em suprimir os vestgios daquele crime 
ou em expi-lo, apresentando outras solues para a luta entre pai e filhos, ao passo que, por outro lado, no podem evitar repetir uma vez mais a eliminao do 
pai. Conseqentemente, um eco desse evento monstruoso, que obscureceu todo o curso do desenvolvimento humano, encontra-se tambm nos mitos.
         Essa hiptese, que se fundamenta nas observaes de Robertson Smith [1889] e foi desenvolvida por mim em Totem e Tabu [1912-13], foi tomada por Theodor 
Reik como base dos seus estudos sobre os problemas da psicologia da religio, dos quais  este o primeiro volume. Em conformidade com a tcnica psicanaltica, esses 
estudos partem de detalhes at agora inexplicados da vida religiosa e, mediante a elucidao destes, obtm acesso aos postulados fundamentais e aos objetivos ltimos 
das religies; alm disso, mantm firmemente em vista a relao entre o homem pr-histrico e as sociedades primitivos contemporneas, bem como a conexo entre os 
produtos da civilizao e as estruturas substitutivas dos neurticos. Para concluir, chamaria a ateno para a prpria introduo do autor, expressando a minha crena 
de que o seu trabalho se recomendar por si aos especialistas no ramo de conhecimento de que trata.
         
         
         




















BREVES ESCRITOS (1919)
         
         
         UMA NOTA SOBRE PUBLICAES E PRMIOS PSICANALTICOS
         
         No outono de 1918, um membro da Sociedade Psicanaltica de Budapest informou-me que, dos lucros provindos de empreendimentos industriais durante a guerra, 
fora destacado um fundo para finalidades culturais. Decidira-se que esse fundo seria gerido, em conjunto, por ele prprio e pelo burgomestre-mor da cidade de Budapest, 
Dr. Stephan Brczy. Ambos haviam concordado em destinar a considervel soma de dinheiro em questo  causa do movimento psicanaltico, transferindo-me a administrao 
do fundo. Aceitei essa incumbncia e cumpro agora o dever de manifestar agradecimentos pblicos ao burgomestre-mor (que, pouco depois, com tanta honra recebeu o 
Congresso Psicanaltico em Budapest), bem como ao annimo membro que to alto servio prestou  causa da psicanlise.
         O fundo assim colocado  minha disposio, ao qual foi dado o meu nome, foi por mim destinado  fundao de uma editora psicanaltica internacional [a 'Internationaler 
Psychoanalytischer Verlag']. Nas circunstncias atuais, considerei ser esta a nossa mais importante necessidade.
         Ao contrrio de muitos outros empreendimentos cientficos, as nossas duas publicaes peridicas, a Internationale Zeitschrift fr rztliche Psychoanalyse 
e Imago, no se extinguiram durante a guerra. Conseguimos manter a sua existncia, mas, em conseqncia de crescentes dificuldades, do fechamento de fronteiras e 
da elevao de preos, que acompanharam a guerra, tornou-se necessrio reduzi-las consideravelmente em tamanho e permitir que intervalos indesejavelmente longos 
se interpusessem entre a publicao dos sucessivos nmeros. Dos quatro organizadores dos dois peridicos (Ferenczi, Jones, Rank e Sachs), um, por ser sdito de um 
Estado inimigo, foi-nos tirado; dois outros haviam-se alistado e engajaram-se plenamente em suas obrigaes militares; no trabalho ficou apenas o Dr. Sachs, que 
assumiu com auto-sacrifcio toda a carga de responsabilidade. Algumas das sociedades psicanalticas locais acharam necessrio suspender inteiramente as reunies; 
o nmero de colaboradores minguou, bem como o de assinantes. Era fcil prever que o descontentamento natural do editor em breve colocaria em questo a continuao 
dos peridicos, aos quais atribuamos tanta importncia. Ainda assim, numerosas indicaes, que nos chegavam at mesmo das trincheiras, da linha de frente, assinalavam 
o fato de que o interesse contemporneo pela psicanlise no havia diminudo. Penso que estava justificado na minha inteno de pr fim a essas dificuldades e perigos 
com a fundao de uma editora psicanaltica internacional. Essa editora j existe hoje, como companhia de responsabilidade limitada; est sob a direo do Dr. Otto 
Rank, que foi por tantos anos secretrio da Sociedade de Viena e co-organizador dos dois peridicos psicanalticos, e que, depois de uma ausncia de vrios anos, 
em servio ativo, voltou a seu trabalho anterior em prol da psicanlise.
         A nova editora, financiada pelos fundos da doao de Budapest, assumiu a incumbncia de assegurar o aparecimento regular e a distribuio certa dos dois 
peridicos. To logo as dificuldades de circunstncias externas o permitam, pretende-se restituir-lhes as suas antigas dimenses, e, se necessrio, aumentar essas 
dimenses, sem qualquer nus extra para os assinantes. Ademais disso, porm, e sem esperar por melhor situao, a editora continuar a imprimir livros e opsculos 
dentro do campo da psicanlise mdica e aplicada; e, uma vez que no tem preocupao de lucro, estar apta a dar mais ateno aos interesses dos autores, do que 
habitualmente acontece nas editoras comerciais.
         Simultaneamente ao estabelecimento da editora psicanaltica, decidiu-se conceder prmios anuais, com proveitos da doao de Budapest, a dois trabalhos que 
se destaquem, um no campo da psicanlise mdica, outro no da psicanlise aplicada. Esses prmios - num total de 1.000 Kronen austracos - destinam-se a serem concedidos 
no a autores, mas a trabalhos individuais, de modo que haver a possibilidade de um mesmo autor ganhar o prmio mais de uma vez. A deciso quanto  questo de saber 
quais, entre os trabalhos publicados durante um determinado perodo, iro receber os prmios, no foi transferida para uma comisso, mas ser mantida nas mos de 
uma s pessoa, que ser o administrador do fundo; de outra maneira, se uma comisso julgadora tivesse que ser formada com os melhores e mais experientes analistas, 
os seus prprios escritos teriam que deixar de ser considerados e o esquema poderia facilmente fracassar na sua inteno de distinguir realizaes exemplares na 
literatura psicanaltica. Se aquele que julga se achar hesitando entre duas obras de valor praticamente igual, ter o direito de dividir o prmio entre ambos, sem 
que a atribuio de um meio-prmio implique em qualquer desapreo do trabalho em questo.
         Pretende-se que esses prmios seja, em geral, concedidos todos os anos e que a escolha abranja toda a literatura psicanaliticamente importante publicada 
durante aquele perodo, independente do fato de o autor da obra em questo ser ou no membro da Associao Psicanaltica Internacional.
         Os primeiros prmios j foram concedidos e dizem respeito a artigos publicados durante o perodo de guerra, de 1914 a 1918. O prmio de psicanlise mdica 
foi dividido entre o artigo de Karl Abraham, 'O Primeiro Estdio Pr-genital da Libido' (1916), e o opsculo de Ernst Simmel, Kriegsneurosen und psychisches Trauma 
[Neuroses de Guerra e Trauma Psquico] (1918). O prmio de psicanlise aplicada foi concedido ao ensaio de Theodor Reik 'Die Puberttsriten der Wilden' ['Ritos da 
Puberdade entre os Selvagens'] (1915).
         FREUD.
         
         NOTA DO EDITOR INGLS
         
         Dois outros anncios sobre o mesmo assunto, ambos impressos com a assinatura de Freud, apareceram subseqentemente: 'Preiszuteilungen' (Int. Z. Psychoanal., 
7, 381) e 'Preisausschreibung' (ibid., 8, 527). O primeiro foi publicado em fins de 1921:
         'CONCESSO DE PRMIOS
         'Uma recente doao feita pelo Dr. Max Eitingon, diretor da Clnica de Berlim, tornou-me possvel restabelecer a concesso de prmios (realizada pela primeira 
vez em 1919) a escritos psicanalticos de destacado mrito. O prmio de psicanlise mdica foi concedido a A. Strcke (de Den Dolder, Holanda) por duas publicaes 
suas, "Der Kastrationskomplex" [1920] e "Psychoanalyse und Psychiatrie" [1921] (ambas comunicaes apresentadas ao congresso), das quais a primeira apareceu no presente 
volume deste peridico, e a segunda, em nmero suplementar. O prmio de psicanlise aplicada foi para o Dr. G. Rheim (de Budapest), pelo seu artigo "Das Selbst" 
[1921] e pela sua comunicao ao congresso sobre o totemismo australiano [1920]. O total de cada prmio foi de mil marcos. [Aproximadamente 50 libras.]
         FREUD.'
         O segundo desses anncios foi publicado no final de 1922:
         'OFERTA DE PRMIO
         'No Stimo Congresso Psicanaltico Internacional, em Berlim, estabeleci como tema para um prmio: "A Relao entre a Tcnica Analtica e a Teoria Analtica". 
As questes a serem expostas referem-se a at que ponto a tcnica influenciou a teoria e at que ponto se ajudam ou obstruem uma  outra no momento atual.
         'Trabalhos que tratem desse tema devem ser-me enviados, para o endereo dado abaixo, antes do dia 1 de maio de 1923. Devem ser legivelmente datilografados. 
Devem trazer um lema e ser acompanhados de um envelope selado, contendo o nome do autor. Devem ser escritos em alemo ou em ingls. Na apreciao das obras submetidas 
a julgamento, contarei com a assistncia do Dr. K. Abraham e do Dr. M. Eitingon.
         'O prmio totaliza 20.000 marcos, ao valor corrente  poca do congresso.
         'Berggasse 19, Viena IX.FREUD.'De acordo com uma declarao oficial, na Int Z. Psychoanal., 10, 106, no se inscreveram trabalhos para esse prmio; mas 
o tema foi debatido num simpsio, no Oitavo Congresso (Salzburg), em 1924.
         
         JAMES J. PUTNAM (1919)
         
         Entre as primeiras novas que nos chegam, aps serem suspensas as barreiras que nos separam dos pases anglo-saxes, vem a dolorosa notcia da morte de Putnam, 
presidente do grande grupo psicanaltico pan-americano. Viveu alm dos setenta e dois anos de idade, permaneceu intelectualmente ativo at o fim e morreu serenamente, 
de uma deficincia cardaca, durante o sono, em novembro de 1918. Putnam, que foi at alguns anos atrs professor de neuropatologia na Universidade de Harvard, era 
o grande apoio da psicanlise nos Estados Unidos. Suas numerosas obras tericas (algumas das quais apareceram pela primeira vez na Internationale Zeitschrift) contriburam 
imensamente, pela clareza e riqueza de idias e pela linha decisivamente favorvel que assumiram, para criar a alta estima que a psicanlise desfruta hoje nos Estados 
Unidos, tanto no ensino psiquitrico como na opinio pblica. O seu exemplo no pode ter sido menos efetivo. Era universalmente respeitado pelo seu carter inatacvel, 
reconhecendo-se que era influenciado apenas pelas consideraes ticas mais elevadas. As suas relaes pessoais mais chegadas no podiam fugir  concluso de que 
era uma daquelas pessoas grandemente dotadas, do tipo obsessivo, para quem a dignidade  a sua segunda natureza e para quem qualquer concesso  desonra se torna 
uma impossibilidade.
         A aparncia pessoal de J. J. Putnam tornou-se familiar aos analistas europeus atravs da sua participao no Congresso de Weimar, de 1911. O organizador 
da Zeitschrift espera incluir no prximo nmero um retrato do nosso ilustre amigo e uma apreciao detalhada dos seus feitos cientficos
         
         
         
         VICTOR TAUSK (1919)
         
         Entre as vtimas, felizmente poucas em nmero, reivindicadas pela guerra s fileiras da psicanlise, devemos contar o Dr. Victor Tausk. Esse homem de raros 
dons, um especialista vienense em doenas nervosas, tirou a sua prpria vida antes que a paz fosse assinada.
         O Dr. Tausk, que tinha apenas quarenta e dois anos, fora durante mais de dez anos um dos seguidores de Freud pertencentes ao seu crculo ntimo. Originalmente 
advogado de profisso, atuou por um perodo considervel como magistrado na Bsnia, quando, por presso de graves problemas pessoais, abandonou a carreira e voltou-se 
para o jornalismo, ao qual particularmente se ajustava, por sua ampla cultura geral. Aps trabalhar durante algum tempo como jornalista, em Berlim, veio para Viena 
com essa mesma atividade. Aqui entrou em contato com a psicanlise e logo decidiu dedicar-se a ela inteiramente. Embora j no fosse um jovem e tivesse a responsabilidade 
de uma famlia, no se intimidou com as grandes dificuldades e sacrficios em que implicava uma nova mudana de profisso, ainda mais para uma em que precisaria 
de uma interrupo de vrios anos antes que pudesse voltar outra vez a ganhar a vida. Empenhou-se no tedioso estudo da medicina apenas como um meio que o capacitasse 
a levar a cabo a prtica psicanaltica.
         Pouco antes da deflagrao da [primeira] guerra mundial, Tausk obtivera o seu segundo grau de doutor e estabelecera-se em Viena como especialista em distrbios 
nervosos. Aqui, aps um perodo relativamente curto, comeara a desenvolver uma prtica considervel e alcanara alguns resultados excelentes. Essas atividades prometiam 
ao jovem mdico em ascenso plena satisfao, bem como meio de sustento; mas isto lhe foi arrancado repentinamente e com violncia pela guerra. Foi imediatamente 
convocado para o servio ativo e logo promovido ao primeiro escalo. Levou a cabo as suas obrigaes de mdico com dedicao, nos diversos teatros da guerra, no 
norte e nos Blcs (finalmente em Belgrado), e recebeu uma condecorao oficial. Para grande honra sua, tambm,  que se lanou durante a guerra, com toda a sinceridade 
e sem considerar absolutamente as conseqncias,  denncia dos numerosos abusos que tantos mdicos infelizmente toleraram em silncio ou pelos quais at mesmo dividiram 
a responsabilidade [ver em [1].]
         As tenses de um servio de vrios anos no campo no podiam deixar de exercer um efeito psicolgico gravemente prejudicial sobre um homem to intensamente 
consciencioso. No ltimo Congresso Psicanaltico, que realizamos em Budapest, em setembro de 1918, e que reuniu uma vez mais os analistas, aps muitos anos de separao, 
o Dr. Tausk, que havia muito j estava com a sade fsica abalada, comeava a mostrar sinais de uma irritabilidade nervosa incomum. Quando, pouco depois, no fim 
do outono do ano passado, concluiu o seu servio militar e regressou a Viena, enfrentou pela terceira vez, no seu estado de exausto mental, a difcil tarefa de 
erigir uma nova existncia - desta vez sob condies internas e externas as mais desfavorveis. Alm disso, o Dr. Tausk, que deixou dois filhos crescidos, para quem 
foi um pai dedicado, estava prestes a contrair novo casamento. No mais conseguia lutar com as muitas exigncias que lhe foram impostas, no seu estado de doena, 
pela dura realidade. Na manh de 3 de julho [1919], ps fim  prpria vida.
         O Dr. Tausk era membro da Sociedade Psicanaltica de Viena desde o outono de 1909. Era bem conhecido dos leitores deste peridico por suas numerosas contribuies, 
que se distinguiam pela observao aguda, pelo slido raciocnio e por uma particular clareza de expresso. Esses escritos exibem abertamente a formao filosfica, 
que o autor conseguia combinar, com rara felicidade, com os mtodos exatos da cincia. A sua forte necessidade de estabelecer as coisas com fundamento filosfico 
e de atingir a clareza epistemolgica, compelia-o a formular, e procurar tambm dominar, toda a profundidade e o significado extensivo dos dificlimos problemas 
em questo. Talvez por vezes tenha ido longe demais nessa direo, na sua nsia impetuosa de pesquisa. Talvez a poca no fosse ainda propcia para fixar fundamentos 
to gerais como esses para a jovem cincia da psicanlise. A considerao psicanaltica de problemas filosficos, para a qual Tausk demonstrava particular aptido, 
promete tornar-se cada vez mais fecunda. Um dos seus ltimos trabalhos, sobre a psicanlise da funo do juzo, que foi apresentado no Congresso de Budapest e no 
est ainda publicado, evidencia essa direo assumida pelo seu interesse.
         Alm do seu dom para a filosofia e da atrao que o ligava a ela, Tausk possua uma capacidade mdico-psicolgica excepcional e produziu excelentes trabalhos 
tambm nesse campo. Suas atividades clnicas, a que devemos valiosas pesquisas das vrias psicoses (por exemplo, a melancolia e a esquizofrenia), justificavam as 
melhores esperanas e davam-lhe perspectivas de uma designao para a docncia universitria [Dozentur], pela qual se havia empenhado.
         A psicanlise em particular est em dvida com o Dr. Tausk, que era um brilhante orador, pelas sries de conferncias que proferiu, por um perodo de muitos 
anos, a grandes audincias de ambos os sexos e nas quais introduzia os ouvintes nos princpios e problemas da psicanlise. O seu pblico conseguia admirar a clareza 
e habilidade didtica das suas conferncias, no menos do que a profundidade com que abordava os tpicos individuais.
         Todos aqueles que o conheceram bem valorizavam o seu carter franco, a sua honestidade consigo mesmo e com os outros e a superioridade de uma natureza que 
se distinguia por um empenho pela nobreza e pela perfeio. O seu temperamento apaixonado encontrava expresso em crticas agudas e por vezes demasiado agudas, que 
no entanto se combinavam com um brilhante dom para a exposio. Essas qualidades pessoais exerciam grande atrao sobre muitas pessoas, enquanto algumas, tambm, 
podem ter sido repelidas por elas. Ningum contudo, podia fugir  impresso de que ali se encontrava um homem de importncia.
         O quanto a psicanlise significava para ele, at os seus ltimos momentos,  demonstrado pelas cartas que deixou, nas quais expressava a sua crena sem 
reserva na psicanlise e a esperana de que esta encontrasse reconhecimento num futuro no muito remoto. No h dvida de que esse homem, de quem a nossa cincia 
e os seus amigos em Viena foram prematuramente roubados, contribuiu para esse objetivo. Ele assegurou uma lembrana honrosa na histria da psicanlise e das suas 
primeiras lutas.
         
         
         
         
         
         



2



Histria de uma neurose infantil e outros trabalhos - Sigmund Freud
